A Servidão Voluntária: Bloco 6 Discurso da Servidão Voluntária: Tradução Literunico · Capítulo 6 de 28
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A Servidão Voluntária: Bloco 6

Ora, certamente os médicos aconselham bem quando dizem que não se deve pôr a mão nas feridas incuráveis, e eu não procedo com sabedoria ao querer pregar, neste ponto, ao povo que há muito perdeu todo conhecimento, e do qual, já que não sente mais seu mal, isso mostra bastante que sua doença é mortal. Busquemos, pois, por conjectura, se pudermos encontrá-lo, como se enraizou tão fundo essa vontade obstinada de servir, a ponto de agora parecer que o próprio amor da liberdade já não seja tão natural[55].

Primeiramente, isto está, creio eu, fora de dúvida: se vivêssemos com os direitos que a natureza nos deu e com os ensinamentos que ela nos ensina, seríamos naturalmente obedientes aos pais, sujeitos à razão e servos de ninguém. Da obediência que cada um, sem outra advertência além de seu natural, traz ao pai e à mãe, todos os homens são testemunhas, cada qual por si. Quanto à razão, saber se ela nasce conosco ou se não nasce é questão debatida a fundo pelos acadêmicos e tocada por toda a escola dos filósofos[56], nesta hora não pensarei faltar ao verdadeiro dizendo que há em nossa alma alguma semente natural de razão, a qual, mantida por bom conselho e costume, floresce em virtude, e, ao contrário, muitas vezes, não podendo durar contra os vícios que sobrevêm, sufocada aborta. Certamente, se há algo claro e aparente na natureza, e em que não seja permitido fazer-se de cego, é isto: a natureza, ministra de Deus, governante dos homens, fez-nos todos da mesma forma e, ao que parece, no mesmo molde[57], para que todos nos reconhecêssemos por companheiros, ou antes por irmãos. E se, ao repartir os presentes que nos fazia[58], deu alguma vantagem de seu bem, seja no corpo, seja no espírito, a uns mais que a outros, nem por isso entendeu pôr-nos neste mundo como num campo fechado, nem enviou aqui embaixo os mais fortes e os mais avisados como ladrões armados numa floresta, para ali dominarem os mais fracos, antes se deve crer que, fazendo assim as partes maiores para uns e menores para outros, ela queria abrir lugar à afeição fraterna, para que tivesse onde se empregar, tendo uns o poder de dar ajuda e outros a necessidade de recebê-la.

Pois, uma vez que essa boa mãe deu a todos nós toda a terra por morada, alojou-nos de algum modo[59] na mesma casa, formou-nos todos pelo mesmo modelo[60], para que cada um pudesse mirar[61] e quase reconhecer-se no outro, uma vez que deu a todos nós esse grande presente da voz e da palavra, para nos aproximar e fraternizar ainda mais, e para fazer, pela declaração comum e mútua de nossos pensamentos, uma comunhão de nossas vontades, uma vez que tentou por todos os meios apertar e estreitar com tanta força o nó de nossa aliança e sociedade, uma vez que mostrou, em todas as coisas, que queria menos fazer-nos todos unidos do que fazer-nos todos um: não se deve duvidar de que sejamos todos naturalmente livres, pois somos todos companheiros. E não pode caber no entendimento de ninguém que a natureza tenha posto alguém em servidão, tendo-nos posto todos em companhia.

[55] “Seria cair de febre em mal quente, e não curar”, nota atribuída a Henri de Mesmes.

[56] A edição remete ao _Mênon_, de Platão, e ao _Hipólito_, de Eurípides.

[57] A nota registra que Montaigne retomou essa ideia e a expressão nos _Ensaios_.

[58] Os editores corrigiram aqui a repetição do manuscrito.

[59] Em algum modo, de certa maneira.

[60] Os impressos trazem outra forma para “molde”.

[61] A nota lembra o uso de “mirar” em Montaigne, no sentido de tomar a vida alheia por espelho.

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