A Servidão Voluntária: Bloco 28
Contudo, é proveitoso considerar o que lhes retorna desse grande tormento e que bem podem esperar de sua pena e de sua vida miserável. De bom grado, o povo, pelo mal que sofre, deixa de lançar a culpa sobre o tirano e a dirige aos que o governam. Esses, os povos, as nações, todo o mundo, em disputa, até os camponeses, até os lavradores, sabem seus nomes, desvendam seus vícios, acumulam sobre eles mil ultrajes, mil vilezas, mil maldições[177]. Todas as orações, todos os votos se voltam contra eles, todos os males, todas as pestes, todas as fomes lhes são cobradas, e, se alguma vez lhes fazem por aparência alguma honra, nessa mesma hora os amaldiçoam no coração e os têm em horror mais estranho que o das bestas selvagens.
Eis a glória, eis a honra que recebem de seu serviço perante aqueles de quem, se cada um tivesse um pedaço de seu corpo, ainda não se julgaria satisfeito, nem meio saciado de sua pena. Certamente, mesmo depois de mortos, os que vêm depois jamais são tão preguiçosos que o nome desses devoradores do povo[178] deixe de ser escurecido pela tinta de mil penas, sua reputação deixe de ser rasgada em mil livros, e seus próprios ossos, por assim dizer, deixem de ser arrastados pela posteridade, que os pune, ainda depois da morte, por sua vida perversa[179].
Aprendamos, pois, alguma vez, aprendamos a fazer o bem: levantemos os olhos para o céu, ou por nossa honra, ou por amor da própria virtude, ou, falando com bom juízo, por amor e honra de Deus todo-poderoso, que é testemunha segura de nossos atos e justo juiz de nossas faltas[181]. De minha parte, penso bem, e não estou enganado, pois nada é tão contrário a Deus, todo liberal e bondoso[182], quanto a tirania, ele reserva lá embaixo, à parte, para os tiranos e seus cúmplices, alguma pena particular.