A Servidão Voluntária: Bloco 3
Ponha-se de um lado cinquenta mil homens em armas, de outro, outros tantos, ordenem-se em batalha, que venham a se enfrentar, uns livres combatendo por sua liberdade, outros para tirá-la deles. A quais se prometerá, por conjectura, a vitória? Quais se pensará que irão mais galhardamente ao combate: aqueles que esperam por recompensa[45] de suas penas a conservação de sua liberdade, ou aqueles que não podem esperar outro salário dos golpes que dão ou recebem senão a servidão alheia? Os primeiros têm sempre diante dos olhos a felicidade da vida passada e a espera de igual conforto no futuro, não lhes vem tanto à lembrança o pouco que padecem durante o tempo de uma batalha quanto aquilo que lhes caberá padecer para sempre, a eles, a seus filhos e a toda a posteridade. Os outros nada têm que os anime além de uma pequena ponta de cobiça, que logo se embota contra o perigo, e que não pode ser tão ardente que não deva, ao que parece, apagar-se com a menor gota de sangue que lhes saia das feridas. Nas batalhas tão renomadas de Milcíades, Leônidas e Temístocles, travadas há dois mil anos e ainda hoje tão frescas na memória dos livros e dos homens como se tivessem ocorrido anteontem, batalhas travadas na Grécia para o bem dos gregos e para exemplo de todo o mundo, que se pensa ter dado a tão pequeno número de gente, como eram os gregos, o coração, e não o poder, de sustentar a força de tantos navios que o próprio mar estava carregado deles, de derrotar tantas nações, em número tão grande que o esquadrão dos gregos não teria fornecido, se fosse preciso, capitães aos exércitos dos inimigos? Apenas isto: naqueles dias gloriosos, parecia que se tratava menos da batalha dos gregos contra os persas que da vitória da liberdade sobre a dominação, da franqueza sobre a cobiça.
[45] _Guerdon_: paga, salário, recompensa.