A Servidão Voluntária: Bloco 11 Discurso da Servidão Voluntária: Tradução Literunico · Capítulo 11 de 28
Obra Menu

A Servidão Voluntária: Bloco 11

Catão, o uticense, sendo ainda criança e estando sob disciplina, ia e vinha muitas vezes à casa de Sila, o ditador, tanto porque, pela condição do lugar e da casa de onde vinha, nunca lhe recusavam a porta, quanto porque eram parentes próximos. Sempre levava consigo seu mestre quando ia, como costumam fazer os meninos de boa casa. Percebeu que, no palácio de Sila, em sua presença ou por sua ordem, prendiam-se uns, condenavam-se outros, um era banido, outro estrangulado, um pedia a confiscação[94] de um cidadão, outro pedia a cabeça. Em suma, tudo ali se passava à maneira da casa de um tirano do povo, muito longe da casa de um oficial da cidade, e aquilo parecia menos um tribunal de justiça que uma oficina de tirania. Então esse jovem rapaz disse a seu mestre[95]: “Por que não me dais um punhal? Eu o esconderei sob minha roupa, entro muitas vezes no quarto de Sila antes que ele se levante, tenho o braço bastante forte para livrar[96] a cidade dele.” Eis certamente uma palavra que pertence de fato a Catão: era um começo desse personagem, digno de sua morte[97]. E ainda que não se diga seu nome nem seu país, que se conte somente o fato tal como é, a própria coisa falará, e se julgará, com boa sorte, que ele era romano, nascido dentro de Roma[98], no tempo em que ela era livre.

Com que propósito digo tudo isto? Não para estimar que o país ou o terreno façam coisa alguma, pois em todas as regiões, sob todo ar, a sujeição é amarga e ser livre é agradável, digo-o porque sou de parecer que se tenha piedade daqueles que, ao nascer, encontraram o jugo no pescoço, ou que se os escuse, ou que se lhes perdoe, se, não tendo visto sequer a sombra da liberdade, e não tendo dela notícia, não percebem o mal que há em serem escravos. Se houvesse algum país, como diz Homero dos cimérios[99], onde o sol se mostrasse de outro modo que a nós, e, depois de os ter iluminado por seis meses contínuos, deixasse-os adormecidos na obscuridade, sem voltar a vê-los durante a outra metade do ano, aqueles que nascessem durante essa longa noite, se não tivessem ouvido falar da claridade, causaria espanto que, nunca tendo visto dias, se acostumassem às trevas em que nasceram, sem desejar a luz? Nunca se lamenta aquilo que nunca se teve[100], e o pesar só vem depois do prazer, sempre, com o conhecimento do mal, vem a lembrança da alegria passada. A natureza do homem é de fato ser franco e querer sê-lo, sua natureza, porém, é também tal que ele toma naturalmente o vinco que a criação lhe dá.

[94] Os impressos trazem variante para “confiscação”.

[95] Plutarco, na _Vida de Catão de Útica_.

[96] Isto é, libertar a cidade dele.

[97] A nota de Henri de Mesmes polemiza com a figura de Catão e com a aprovação do estado real.

[98] Henri de Mesmes acrescenta uma nota crítica sobre Roma como república e como poder sobre outros povos.

[99] A edição aproxima a passagem dos cimérios em Homero e de referências posteriores às trevas cimérias.

[100] A nota recorda verso de Voltaire em _Zaïre_: “Não se pode desejar aquilo que não se conhece.”

1/1
Menu

Fazer anotação