A Servidão Voluntária: Bloco 17
Os tiranos romanos imaginaram ainda outro ponto: festejar frequentemente as decúrias[124] públicas, abusando como convinha dessa canalha que se deixa levar, mais que por qualquer outra coisa, pelo prazer da boca. O mais avisado e entendido entre eles não teria largado sua escudela de sopa para recobrar a liberdade da república de Platão. Os tiranos faziam largueza de um quarto de trigo, de um sesteiro de vinho e de um sestércio, e então era pena ouvir gritar: VIVA O REI! Os pesadões não se davam conta de que recuperavam apenas uma parte do que era seu, e que aquilo mesmo que recuperavam o tirano não lhes poderia dar se antes não o houvesse tirado deles. Tal homem teria juntado hoje o sestércio e se empanturrado no festim público, bendizendo Tibério e Nero e sua bela liberalidade, no dia seguinte, obrigado a abandonar seus bens à avareza deles, seus filhos à luxúria, e até seu sangue à crueldade desses magníficos imperadores, não dizia palavra, como uma pedra, e não se movia mais que um tronco. Sempre o povo teve isto: ao prazer que não pode receber honestamente, está todo aberto e dissoluto, diante do agravo e da dor que não pode honestamente suportar[125], fica insensível.
Não vejo agora pessoa alguma que, ouvindo falar de Nero, não trema mesmo ao sobrenome desse vil monstro, dessa peste imunda e suja do mundo, e todavia, desse incendiário, desse carrasco, dessa besta selvagem, pode-se dizer que, depois de sua morte, tão vil quanto sua vida, o nobre povo romano recebeu tamanho desprazer, lembrando-se de seus jogos e de seus festins, que esteve a ponto de trazer luto por ele, assim o escreveu Cornélio Tácito, autor bom, grave e dos mais certos[126]. Isso não parecerá estranho, visto que esse mesmo povo havia feito antes coisa semelhante na morte de Júlio César, que deu licença às leis e à liberdade, nesse personagem, parece-me, nada houve que valesse, pois sua própria humanidade, tão pregada por tantos, foi mais danosa que a crueldade do tirano mais selvagem que jamais existiu, porque, na verdade, foi aquela sua venenosa doçura que adoçou a servidão para o povo romano. Depois de sua morte, esse povo, que ainda tinha na boca seus banquetes e no espírito a lembrança de suas prodigalidades, para lhe fazer honras e reduzi-lo a cinzas[127], amontoava, à porfia, os bancos da praça, depois lhe ergueu uma coluna[128] como ao Pai do povo, assim o trazia o capitel, e lhe fez, morto como estava, mais honra do que por direito deveria fazer a homem algum no mundo, a não ser, porventura, àqueles que o haviam matado.
[124] As decúrias do povo miúdo, alimentado às despesas do tesouro público.
[125] A edição mantém a negação porque é necessária ao sentido da frase.
[126] A nota remete a Tácito e ao luto do povo habituado ao circo e aos teatros.
[127] Suetônio, na _Vida de Júlio César_.
[128] A nota registra a coluna erguida no fórum com inscrição dedicada ao pai da pátria.