Capítulo XV
CAPÍTULO XV
-- Vamos manter a calma -- disse tio Benjamin. -- Vamos manter a mais perfeita calma.
-- Calma! -- A senhora Frederick torceu as mãos. -- Como posso manter a calma... como qualquer pessoa poderia manter a calma diante de uma desgraça dessas?
-- Por que diabos você deixou que ela fosse? -- perguntou tio James.
-- Deixei! Como eu poderia impedi-la, James? Parece que ela arrumou a mala grande e mandou embora com Abel Rugidor quando ele voltou para casa depois do jantar, enquanto Christine e eu estávamos na cozinha. Então Doss desceu ela mesma com a maletinha, vestida com seu traje verde de sarja. Senti uma premonição terrível. Não sei explicar como foi, mas parecia que eu sabia que Doss ia fazer alguma coisa pavorosa.
-- É uma pena que você não pudesse ter tido sua premonição um pouco mais cedo -- disse tio Benjamin, secamente.
-- Eu disse: "Doss, aonde você vai?" E ela disse: "Vou procurar o meu Castelo Azul."
-- Você não acha que isso convenceria Marsh de que a mente dela está afetada? -- interveio tio James.
-- E eu disse: "Valancy, o que você quer dizer?" E ela disse: "Vou cuidar da casa de Abel Rugidor e tratar de Cissy. Ele vai me pagar trinta dólares por mês." Eu me admiro de não ter caído morta ali mesmo.
-- Você não deveria ter deixado que ela fosse... não deveria ter deixado que saísse de casa -- disse tio James. -- Devia ter trancado a porta... qualquer coisa...
-- Ela estava entre mim e a porta da frente. E vocês não conseguem imaginar como ela estava determinada. Era como uma rocha. Essa é a coisa mais estranha nela. Ela costumava ser tão boa e obediente, e agora não há quem a segure nem amarre. Mas eu disse tudo o que me veio à cabeça para fazê-la recuperar o juízo. Perguntei se ela não tinha nenhum respeito pela própria reputação. Disse a ela solenemente: "Doss, quando a reputação de uma mulher fica manchada, nada jamais pode torná-la impecável outra vez. Seu caráter estará perdido para sempre se você for para a casa de Abel Rugidor servir uma moça ruim como Sis Gay." E ela disse: "Não acredito que Cissy fosse uma moça ruim, mas não me importo se fosse." Foram exatamente essas as palavras dela: "não me importo se fosse."
-- Ela perdeu todo senso de decência -- explodiu tio Benjamin.
-- "Cissy Gay está morrendo", ela disse, "e é uma vergonha e uma desgraça que esteja morrendo numa comunidade cristã sem que ninguém faça nada por ela. Seja lá o que ela tenha sido ou feito, ela é um ser humano."
-- Bem, sabe, quando se coloca nesses termos, suponho que seja -- disse tio James, com o ar de quem fazia uma concessão esplêndida.
-- Perguntei a Doss se ela não tinha nenhum respeito pelas aparências. Ela disse: "Passei a vida inteira mantendo aparências. Agora vou atrás das realidades. As aparências que se danem!" Que se danem!
-- Uma coisa ultrajante! -- disse tio Benjamin, com violência. -- Uma coisa ultrajante!
O que aliviou seus sentimentos, mas não ajudou mais ninguém.
A senhora Frederick chorou. Prima Stickles retomou o refrão entre seus gemidos de desespero.
-- Eu disse a ela... nós duas dissemos... que Abel Rugidor certamente havia matado a esposa num de seus acessos de bêbado e que a mataria também. Ela riu e disse: "Não tenho medo de Abel Rugidor. Ele não vai me matar, e é velho demais para eu ter medo de suas galanterias." O que ela quis dizer? O que são galanterias?
A senhora Frederick percebeu que precisava parar de chorar se quisesse recuperar o controle da conversa.
-- Eu disse a ela: "Valancy, se você não tem respeito pela sua própria reputação e pela posição da sua família, não tem nenhum pelos meus sentimentos?" Ela disse: "Nenhum." Assim mesmo: "Nenhum!"
-- Pessoas insanas nunca têm consideração pelos sentimentos dos outros -- disse tio Benjamin. -- Esse é um dos sintomas.
-- Então desabei em lágrimas, e ela disse: "Vamos, mãe, seja esportiva. Vou praticar um ato de caridade cristã, e, quanto ao estrago que isso fará à minha reputação, a senhora sabe que eu não tenho mesmo nenhuma chance matrimonial, então que diferença faz?" E, dizendo isso, virou-se e saiu.
-- As últimas palavras que eu disse a ela -- falou prima Stickles, pateticamente -- foram: "Quem vai esfregar minhas costas à noite agora?" E ela disse... ela disse... mas não, não posso repetir.
-- Bobagem -- disse tio Benjamin. -- Diga logo. Esta não é hora de melindres.
-- Ela disse -- a voz de prima Stickles mal passava de um sussurro -- ela disse... "Ah, droga!"
-- Pensar que eu viveria para ouvir minha filha praguejar! -- soluçou a senhora Frederick.
-- Foi... foi só um palavrão de imitação -- hesitou prima Stickles, desejosa de suavizar as coisas agora que o pior já havia saído. Mas ela nunca contara a história do corrimão.
-- Disso para praguejar de verdade é só um passo -- disse tio James, severamente.
-- O pior de tudo isto -- a senhora Frederick procurou um pedaço seco no lenço -- é que agora todo mundo vai saber que ela está perturbada. Não poderemos mais guardar segredo. Ah, eu não posso suportar!
-- Você deveria ter sido mais rigorosa com ela quando era jovem -- disse tio Benjamin.
-- Não vejo como eu poderia ter sido -- disse a senhora Frederick, com bastante verdade.
-- O pior aspecto do caso é que aquele canalha Snaith vive rondando a casa de Abel Rugidor -- disse tio James. -- Ficarei agradecido se nada pior resultar dessa loucura além de algumas semanas na casa de Abel Rugidor. Cissy Gay não pode viver muito mais.
-- E ela nem levou a anágua de flanela! -- lamentou prima Stickles.
-- Vou falar de novo com Ambrose Marsh sobre isso -- disse tio Benjamin, querendo dizer Valancy, não a anágua de flanela.
-- Vou procurar o advogado Ferguson -- disse tio James.
-- Enquanto isso -- acrescentou tio Benjamin --, vamos manter a calma.