Capítulo XVIII O Castelo Azul · Capítulo 18 de 45
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Capítulo XVIII

CAPÍTULO XVIII

Valancy já estava familiarizada com Barney... bem familiarizada, ao que parecia, embora tivesse falado com ele apenas algumas vezes. Mas, então, sentira-se igualmente familiarizada com ele desde a primeira vez em que se encontraram. Ela estava no jardim ao crepúsculo, procurando alguns talos de narciso branco para o quarto de Cissy, quando ouviu aquele terrível e velho Grey Slosson descendo pela mata desde Mistawis... podia-se ouvi-lo a milhas de distância. Valancy não ergueu os olhos quando ele se aproximou, batendo sobre as pedras daquela trilha maluca. Nunca erguera os olhos, embora Barney passasse barulhento por ali todas as noites desde que ela chegara à casa de Abel Rugidor. Dessa vez, ele não passou. O velho Grey Slosson parou com ruídos ainda mais terríveis do que fazia andando. Valancy percebeu que Barney saltara dele e estava inclinado sobre o portão cambaleante. De repente, ela se endireitou e olhou para o rosto dele. Seus olhos se encontraram... e Valancy sentiu, de súbito, uma fraqueza deliciosa. Estaria vindo um de seus ataques do coração? Mas aquele era um sintoma novo.

Os olhos dele, que ela sempre pensara serem castanhos, vistos de perto eram de um violeta profundo... translúcidos e intensos. Uma de suas sobrancelhas não se parecia com a outra. Ele era magro... magro demais... ela gostaria de poder alimentá-lo um pouco... gostaria de poder costurar os botões do casaco dele... e fazê-lo cortar o cabelo... e barbear-se todos os dias. Havia algo em seu rosto... mal se sabia o quê. Cansaço? Tristeza? Desencanto? Ele tinha covinhas nas faces finas quando sorria. Todos esses pensamentos passaram relampejando pela mente de Valancy naquele único instante em que os olhos dele olharam para os dela.

-- Boa noite, senhorita Stirling.

Nada poderia ser mais comum e convencional. Qualquer pessoa poderia ter dito aquilo. Mas Barney Snaith tinha um jeito de dizer as coisas que lhes dava intensidade. Quando dizia boa noite, a gente sentia que era uma boa noite, e que era em parte por causa dele que ela era boa. Além disso, sentia-se que um pouco do mérito era seu. Valancy sentiu tudo isso vagamente, mas não conseguia imaginar por que tremia da cabeça aos pés... devia ser o coração. Se ao menos ele não percebesse!

-- Estou indo até o Porto -- Barney dizia. -- Posso adquirir mérito trazendo ou fazendo alguma coisa de lá para você ou para Cissy?

-- Você poderia trazer bacalhau salgado para nós? -- disse Valancy. Foi a única coisa em que conseguiu pensar. Abel Rugidor havia manifestado naquele dia o desejo de um jantar de bacalhau salgado cozido. Quando seus cavaleiros vinham cavalgando até o Castelo Azul, Valancy os enviara a muitas demandas, mas nunca pedira a nenhum deles que lhe trouxesse bacalhau salgado.

-- Certamente. Tem certeza de que não há mais nada? Há bastante espaço em Lady Jane Grey Slosson. E ela sempre volta em algum momento, volta sim, Lady Jane.

-- Acho que não há mais nada -- disse Valancy. Sabia que ele traria laranjas para Cissy de qualquer maneira... sempre trazia.

Barney não se afastou de imediato. Ficou em silêncio por um momento. Então disse, devagar e com uma graça caprichosa:

-- Senhorita Stirling, você é firme como um tijolo! É uma carroça inteira de tijolos. Vir para cá e cuidar de Cissy... nestas circunstâncias.

-- Não há nada assim tão firme nisso -- disse Valancy. -- Eu não tinha mais nada a fazer. E... gosto daqui. Não sinto como se tivesse feito algo especialmente meritório. O senhor Gay me paga um salário justo. Nunca ganhei dinheiro antes... e gosto disso. -- Parecia tão fácil falar com Barney Snaith, de algum modo... aquele terrível Barney Snaith das histórias escabrosas e do passado misterioso... tão fácil e natural quanto falar consigo mesma.

-- Todo o dinheiro do mundo não poderia comprar o que você está fazendo por Cissy Gay -- disse Barney. -- É esplêndido e nobre da sua parte. E, se houver qualquer coisa que eu possa fazer para ajudá-la de algum modo, basta me dizer. Se Abel Rugidor algum dia tentar incomodá-la...

-- Ele não tenta. É adorável comigo. Gosto de Abel Rugidor -- disse Valancy, francamente.

-- Eu também. Mas há uma fase da bebedeira dele... talvez você ainda não tenha encontrado... em que ele canta canções indecentes...

-- Ah, sim. Ele voltou para casa assim ontem à noite. Cissy e eu simplesmente fomos para o nosso quarto e nos trancamos lá, onde não pudéssemos ouvi-lo. Ele pediu desculpas esta manhã. Não tenho medo de nenhuma das fases de Abel Rugidor.

-- Bem, tenho certeza de que ele será decente com você, tirando os uivos de bêbado -- disse Barney. -- E eu lhe disse que precisa parar de amaldiçoar as coisas quando você estiver por perto.

-- Por quê? -- perguntou Valancy, matreira, com um de seus estranhos olhares oblíquos e uma súbita lasca de rosa em cada face, nascida do pensamento de que Barney Snaith de fato fizera tanto por ela. -- Muitas vezes eu mesma tenho vontade de amaldiçoar as coisas.

Por um instante, Barney ficou olhando. Seria aquela moça élfica a criaturinha solteirona que estivera ali dois minutos antes? Certamente havia magia e travessura acontecendo naquele velho jardim desgrenhado e cheio de mato.

Então ele riu.

-- Então será um alívio ter alguém que faça isso por você. Portanto, não quer nada além de bacalhau salgado?

-- Esta noite, não. Mas acredito que terei recados para você com bastante frequência quando for a Port Lawrence. Não posso confiar no senhor Gay para lembrar de trazer todas as coisas que quero.

Barney foi embora então, em sua Lady Jane, e Valancy ficou no jardim por muito tempo.

Desde então, ele aparecera várias vezes, caminhando pelas terras áridas, assobiando. Como aquele assobio ecoava pelos abetos naqueles crepúsculos de junho! Valancy se pegava ouvindo à espera dele todas as noites... repreendia-se... depois se entregava. Por que não deveria esperar por ele?

Ele sempre trazia frutas e flores para Cissy. Uma vez trouxe para Valancy uma caixa de bombons... a primeira caixa de bombons que alguém lhe dera. Parecia sacrilégio comê-los.

Ela se descobriu pensando nele em hora própria e imprópria. Queria saber se ele alguma vez pensava nela quando ela não estava diante de seus olhos e, se pensava, o quê. Queria ver aquela casa misteriosa dele lá na ilha de Mistawis. Cissy nunca a vira. Cissy, embora falasse livremente de Barney e o conhecesse havia cinco anos, na verdade sabia pouco mais sobre ele do que a própria Valancy.

-- Mas ele não é mau -- disse Cissy. -- Ninguém precisa jamais me dizer que é. Ele não pode ter feito nada de que se envergonhar.

-- Então por que vive como vive? -- perguntou Valancy... para ouvir alguém defendê-lo.

-- Não sei. Ele é um mistério. E é claro que há alguma coisa por trás disso, mas sei que não é desonra. Barney Snaith simplesmente não poderia fazer nada vergonhoso, Valancy.

Valancy não tinha tanta certeza. Barney devia ter feito alguma coisa... em algum momento. Era um homem de educação e inteligência. Ela logo descobrira isso, ouvindo suas conversas e discussões com Abel Rugidor... que era surpreendentemente lido e podia discutir qualquer assunto debaixo do sol quando estava sóbrio. Um homem assim não se enterraria por cinco anos em Muskoka, vivendo e parecendo um vagabundo, se não houvesse uma razão muito boa... ou muito ruim... para isso. Mas não importava. Tudo o que importava era que agora ela tinha certeza de que ele nunca fora amante de Cissy Gay. Não havia nada assim entre eles. Embora ele gostasse muito de Cissy e ela dele, como qualquer um podia ver. Mas era uma afeição que não preocupava Valancy.

-- Você não sabe o que Barney foi para mim nestes últimos dois anos -- dissera Cissy, simplesmente. -- Tudo teria sido insuportável sem ele.

-- Cissy Gay é a moça mais doce que já conheci... e há um homem em algum lugar em quem eu gostaria de atirar, se pudesse encontrá-lo -- dissera Barney, com selvageria.

Barney era um conversador interessante, com o dom de contar muita coisa sobre suas aventuras e absolutamente nada sobre si mesmo. Houve um glorioso dia de chuva em que Barney e Abel trocaram histórias a tarde inteira, enquanto Valancy remendava toalhas de mesa e ouvia. Barney contou histórias estranhas de suas aventuras com "barracos" nos trens, quando cruzava o continente como andarilho. Valancy achava que deveria considerar terrível ele viajar clandestinamente, mas não considerava. A história de como trabalhara para pagar a passagem até a Inglaterra num navio de gado soava mais legítima. E suas histórias do Yukon a fascinaram... especialmente a da noite em que se perdeu no divisor de águas entre Gold Run e Sulphur Valley. Ele passara dois anos por lá. Onde, em tudo isso, havia espaço para a penitenciária e as outras coisas?

Se ele estivesse dizendo a verdade. Mas Valancy sabia que estava.

-- Não encontrei ouro -- disse ele. -- Voltei mais pobre do que quando fui. Mas que lugar para se viver! Aqueles silêncios atrás do vento norte me pegaram. Nunca mais pertenço inteiramente a mim mesmo.

Ainda assim, ele não era um grande falador. Contava muita coisa em poucas palavras bem escolhidas... embora Valancy não percebesse o quanto eram bem escolhidas. E tinha o dom de dizer coisas sem abrir a boca.

"Gosto de um homem cujos olhos dizem mais do que os lábios", pensou Valancy.

Mas, então, ela gostava de tudo nele... dos cabelos cor de fulvo... dos sorrisos caprichosos... dos pequenos lampejos de graça nos olhos... da afeição leal por aquela indizível Lady Jane... do hábito de sentar-se com as mãos nos bolsos, o queixo afundado no peito, olhando por baixo das sobrancelhas desencontradas. Gostava de sua voz agradável, que soava como se pudesse se tornar carinhosa ou suplicante à menor provocação. Às vezes quase tinha medo de se permitir pensar esses pensamentos. Eram tão vivos que ela sentia como se os outros pudessem saber o que estava pensando.

-- Passei o dia inteiro observando um pica-pau -- disse ele certa noite, na velha varanda dos fundos, trêmula. Seu relato das atividades do pica-pau foi satisfatório. Muitas vezes tinha alguma pequena anedota alegre ou esperta do povo da mata para contar. E às vezes ele e Abel Rugidor fumavam ferozmente a noite inteira sem dizer uma palavra, enquanto Cissy ficava deitada na rede pendurada entre os postes da varanda e Valancy se sentava ociosamente nos degraus, as mãos entrelaçadas sobre os joelhos, perguntando-se sonhadoramente se era mesmo Valancy Stirling e se fazia apenas três semanas que deixara a velha casa feia da rua Elm.

As terras áridas se estendiam diante dela num esplendor branco de lua, onde dezenas de coelhinhos saltitavam. Barney, quando queria, conseguia sentar-se à beira das terras áridas e atrair aqueles coelhos até ele por alguma feitiçaria misteriosa que possuía. Valancy vira certa vez um esquilo saltar de um pinheiro rasteiro para o ombro dele e ficar ali, tagarelando para ele. Isso a fazia lembrar de John Foster.

Uma das delícias da nova vida de Valancy era poder ler os livros de John Foster tantas vezes e por tanto tempo quanto quisesse. Podia lê-los na cama, se desejasse. Lia-os todos para Cissy, que os amava. Também tentou lê-los para Abel e Barney, que não os amavam. Abel ficava entediado, e Barney se recusava educadamente a ouvir.

-- Bobagem -- disse Barney.

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