Capítulo XXII
CAPÍTULO XXII
A coisa seguinte que os Stirlings ouviram foi que Valancy fora vista com Barney Snaith num cinema em Port Lawrence e, depois, jantando com ele num restaurante chinês de lá. Isso era inteiramente verdade... e ninguém ficou mais surpresa com isso do que a própria Valancy. Barney aparecera em Lady Jane num crepúsculo indistinto e dissera a Valancy, sem cerimônia, que, se quisesse um passeio, pulasse para dentro.
-- Vou ao Porto. Quer ir comigo?
Os olhos dele a provocavam, e havia um pouco de desafio em sua voz. Valancy, que não escondia de si mesma que teria ido com ele a qualquer lugar, "pulou" sem mais demora. Dispararam para Deerwood e atravessaram a cidade. A senhora Frederick e prima Stickles, tomando um pouco de ar na varanda, viram-nos passar num redemoinho de poeira e buscaram consolo nos olhos uma da outra. Valancy, que em alguma existência anterior indistinta tivera medo de automóvel, estava sem chapéu, e os cabelos voavam desordenados em volta do rosto. Certamente pegaria bronquite... e morreria na casa de Abel Rugidor. Usava um vestido decotado, e seus braços estavam nus. Aquela criatura Snaith estava em mangas de camisa, fumando um cachimbo. Iam à velocidade de quarenta milhas por hora... sessenta, afirmou prima Stickles. Lady Jane sabia correr quando queria. Valancy acenou alegremente para as parentes. Quanto à senhora Frederick, desejava saber como se entrava em histeria.
-- Foi para isto -- exigiu em tons ocos -- que sofri as dores da maternidade?
-- Não acreditarei -- disse prima Stickles, solenemente -- que nossas orações ainda não serão atendidas.
-- Quem... quem protegerá aquela pobre moça quando eu me for? -- gemeu a senhora Frederick.
Quanto a Valancy, perguntava-se se podia realmente fazer apenas algumas semanas desde que se sentara ali com elas naquela varanda. Odiando a planta-de-borracha. Atormentada por perguntas provocadoras como moscas negras. Sempre pensando nas aparências. Acovardada por causa das colheres de chá de tia Wellington e do dinheiro de tio Benjamin. Empobrecida. Com medo de todos. Invejando Olive. Escrava de tradições carcomidas por traças. Nada a esperar nem desejar.
E agora todo dia era uma alegre aventura.
Lady Jane voou pelas quinze milhas entre Deerwood e o Porto... e pelo Porto. O modo como Barney passava pelos guardas de trânsito não era santo. As luzes começavam a piscar como estrelas no ar claro do crepúsculo cor de limão. Foi a única vez em que Valancy realmente gostou da cidade, e estava louca de prazer pela velocidade. Era possível que algum dia tivesse tido medo de um carro? Estava perfeitamente feliz, indo ao lado de Barney. Não que se enganasse pensando que aquilo tivesse algum significado. Sabia muito bem que Barney a convidara no impulso do momento... um impulso nascido de pena por ela e por seus pequenos sonhos famintos. Ela parecia cansada depois de uma noite em claro com um ataque do coração, seguida de um dia ocupado. Tinha tão pouca diversão. Ele lhe daria um passeio, uma vez. Além disso, Abel estava na cozinha, no ponto da embriaguez em que declarava não acreditar em Deus e começava a cantar canções indecentes. Era melhor que ela ficasse fora do caminho por algum tempo. Barney conhecia o repertório de Abel Rugidor.
Foram ao cinema... Valancy nunca fora a um cinema. E então, descobrindo uma bela fome sobre eles, foram comer frango frito... inacreditavelmente delicioso... no restaurante chinês. Depois voltaram chacoalhando para casa, deixando para trás uma trilha devastadora de escândalo. A senhora Frederick desistiu de ir à igreja por completo. Não conseguia suportar os olhares e perguntas piedosos das amigas. Mas prima Stickles ia todos os domingos. Dizia que lhes fora dada uma cruz para carregar.