Capítulo XVII O Castelo Azul · Capítulo 17 de 45
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Capítulo XVII

CAPÍTULO XVII

Quando Valancy estava havia uma semana na casa de Abel Rugidor, sentia como se anos a separassem de sua antiga vida e de todas as pessoas que conhecera nela. Elas começavam a parecer remotas... semelhantes a sonhos... distantes... e, à medida que os dias passavam, pareciam ainda mais assim, até deixarem de importar por completo.

Ela estava feliz. Ninguém jamais a incomodava com charadas nem insistia em lhe dar Pílulas Roxas. Ninguém a chamava de Doss nem se preocupava com ela pegar resfriado. Não havia colchas para costurar, nenhuma abominável planta-de-borracha para regar, nenhum chilique materno gelado para suportar. Ela podia ficar sozinha quando quisesse, ir para a cama quando quisesse, espirrar quando quisesse. Nos longos, maravilhosos crepúsculos do norte, quando Cissy dormia e Abel Rugidor estava fora, podia sentar-se por horas nos degraus bambos da varanda dos fundos, olhando por sobre as terras áridas até as colinas além, cobertas por sua fina florada púrpura, ouvindo o vento amigo cantar melodias selvagens e doces nos pequenos abetos, e sorvendo o aroma das gramíneas aquecidas pelo sol, até que a escuridão escorresse sobre a paisagem como uma onda fresca e bem-vinda.

Às vezes, à tarde, quando Cissy estava forte o bastante, as duas moças iam para as terras áridas olhar as flores da mata. Mas não colhiam nenhuma. Valancy lera para Cissy o evangelho delas segundo John Foster: "É uma pena colher flores da mata. Elas perdem metade de sua feitiçaria longe do verde e do tremeluzir da luz. O modo de apreciar flores da mata é segui-las até seus refúgios remotos... contemplá-las com deleite... e então deixá-las para trás com olhares de despedida, levando conosco apenas a memória sedutora de sua graça e fragrância."

Valancy estava no meio das realidades depois de uma vida inteira de irrealidades. E ocupada... muito ocupada. A casa precisava ser limpa. Não fora em vão que Valancy havia sido criada nos hábitos Stirling de ordem e limpeza. Se ela encontrava satisfação em limpar cômodos sujos, ali teve toda a satisfação que podia desejar. Abel Rugidor achava tolice ela se incomodar fazendo muito mais do que lhe haviam pedido, mas não interferia. Estava muito satisfeito com o negócio. Valancy era boa cozinheira. Abel dizia que ela punha sabor nas coisas. O único defeito que encontrava nela era não cantar enquanto trabalhava.

-- As pessoas deviam sempre cantar enquanto trabalham -- insistia ele. -- Dá um ar alegre.

-- Nem sempre -- retrucou Valancy. -- Imagine um açougueiro cantando enquanto trabalha. Ou um agente funerário.

Abel explodiu em sua grande risada larga.

-- Não há como levar vantagem sobre você. Tem resposta para tudo. Imagino que os Stirlings devem estar contentes por se verem livres de você. Eles não gostam que respondam de volta.

Durante o dia, Abel geralmente estava fora de casa... se não trabalhando, então caçando ou pescando com Barney Snaith. Em geral voltava à noite... sempre muito tarde e muitas vezes muito bêbado. Na primeira noite em que o ouviram entrar no quintal aos uivos, Cissy disse a Valancy que não tivesse medo.

-- Papai nunca faz nada... só faz barulho.

Valancy, deitada no sofá do quarto de Cissy, onde escolhera dormir para o caso de Cissy precisar de atenção durante a noite... Cissy jamais a chamaria... não estava nem um pouco assustada, e disse isso. Quando Abel terminou de guardar os cavalos, a fase rugidora já passara, e ele estava no quarto no fim do corredor, chorando e rezando. Valancy ainda conseguia ouvir seus gemidos lúgubres quando adormeceu tranquilamente. Na maior parte do tempo, Abel era uma criatura bem-humorada, mas de vez em quando tinha um acesso de raiva. Certa vez, Valancy lhe perguntou, friamente:

-- De que adianta ficar furioso?

-- É um alívio dos diabos -- disse Abel.

Os dois caíram na gargalhada juntos.

-- Você é uma pequena esportiva de primeira -- disse Abel, admirado. -- Não ligue para o meu francês ruim. Não quero dizer nada com isso. É só hábito. Sabe, gosto de mulher que não tem medo de falar comigo. Sis ali sempre foi mansa demais... mansa demais. Foi por isso que ficou à deriva. Eu gosto de você.

-- Mesmo assim -- disse Valancy, decidida --, não adianta mandar as coisas para o inferno como o senhor vive fazendo. E eu não vou permitir que o senhor espalhe lama por um chão que acabei de esfregar. O senhor tem de usar o raspador, quer o condene à perdição ou não.

Cissy adorava a limpeza e a ordem. Ela também mantivera tudo assim, até suas forças falharem. Estava pateticamente feliz por ter Valancy com ela. Fora tão terrível... os longos dias e noites solitários sem companhia, exceto aquelas velhas horrorosas que vinham trabalhar. Cissy as odiara e temera. Agarrava-se a Valancy como uma criança.

Não havia dúvida de que Cissy estava morrendo. Ainda assim, em nenhum momento parecia alarmantemente doente. Nem mesmo tossia muito. Na maioria dos dias conseguia levantar-se e se vestir... às vezes até trabalhar no jardim ou nas terras áridas por uma ou duas horas. Durante algumas semanas depois da chegada de Valancy, pareceu tão melhor que Valancy começou a ter esperança de que pudesse se recuperar. Mas Cissy balançou a cabeça.

-- Não, não posso ficar boa. Meus pulmões estão quase acabados. E eu... não quero. Estou tão cansada, Valancy. Só morrer pode me descansar. Mas é lindo ter você aqui... você nunca saberá quanto isso significa para mim. Mas, Valancy... você trabalha demais. Não precisa... papai só quer que as refeições sejam feitas. Acho que você também não é forte. Às vezes fica tão pálida. E aquelas gotas que toma. Você está bem, querida?

-- Estou ótima -- disse Valancy, de leve. Não queria que Cissy se preocupasse. -- E não estou trabalhando demais. Fico contente por ter trabalho para fazer... alguma coisa que realmente precisa ser feita.

-- Então -- Cissy deslizou a mão, saudosa, para dentro da de Valancy --, não vamos falar mais sobre eu estar doente. Vamos simplesmente esquecer. Vamos fingir que sou uma garotinha outra vez... e que você veio aqui brincar comigo. Eu costumava desejar isso muito tempo atrás... desejar que você pudesse vir. Eu sabia que não podia, claro. Mas como eu desejava! Você sempre parecia tão diferente das outras meninas... tão gentil e doce... e como se tivesse alguma coisa dentro de si que ninguém conhecia... algum segredo querido e bonito. Você tinha, Valancy?

-- Eu tinha o meu Castelo Azul -- disse Valancy, rindo um pouco. Ficou satisfeita por Cissy ter pensado nela assim. Nunca suspeitara que alguém gostasse dela, a admirasse ou se perguntasse algo sobre ela. Contou a Cissy tudo sobre seu Castelo Azul. Nunca contara a ninguém antes.

-- Acho que todo mundo tem um Castelo Azul -- disse Cissy, suavemente. -- Só que cada um lhe dá um nome diferente. Eu tive o meu... um dia.

Ela pôs as duas mãozinhas finas sobre o rosto. Não contou a Valancy... então... quem havia destruído seu Castelo Azul. Mas Valancy sabia que, fosse quem fosse, não era Barney Snaith.

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