Capítulo XXX O Castelo Azul · Capítulo 30 de 45
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Capítulo XXX

CAPÍTULO XXX

Eles não passavam todos os dias na ilha. Passavam mais da metade deles vagando à vontade pela região encantada de Muskoka. Barney conhecia a mata como se fosse um livro e ensinava a Valancy seus saberes e artes. Sempre conseguia encontrar a trilha e os esconderijos dos tímidos habitantes da floresta. Valancy aprendeu as diferentes semelhanças feéricas dos musgos, o encanto e a delicadeza das flores do bosque. Aprendeu a reconhecer cada pássaro à primeira vista e a imitar seu canto, embora nunca tão perfeitamente quanto Barney. Fez amizade com todo tipo de árvore. Aprendeu a remar uma canoa tão bem quanto o próprio Barney. Gostava de ficar ao ar livre na chuva e nunca se resfriava.

Às vezes levavam um lanche e iam colher frutas silvestres: morangos e mirtilos. Como eram bonitos os mirtilos: o verde delicado das bagas ainda verdes, os rosas e escarlates brilhantes das meio maduras, o azul enevoado das plenamente maduras! E Valancy aprendeu o verdadeiro sabor do morango em sua mais alta perfeição. Havia certo vale ensolarado às margens de Mistawis, ao longo do qual cresciam bétulas brancas de um lado e, do outro, fileiras imóveis e imutáveis de jovens abetos. Havia capins longos junto às raízes das bétulas, penteados pelos ventos e molhados de orvalho matinal até tarde da tarde. Ali encontravam frutos que poderiam ter adornado os banquetes de Lúculo, grandes doçuras ambrosíacas pendendo como rubis de hastes longas e rosadas. Eles os erguiam pela haste e os comiam dali mesmo, intactos e virgens, provando cada fruto por si só, com toda a sua fragrância selvagem encerrada nele. Quando Valancy levava alguns desses frutos para casa, aquela essência esquiva escapava, e eles se tornavam nada além das frutas comuns do mercado, muito boas para a cozinha, é verdade, mas não como teriam sido se comidas no vale das bétulas, até seus dedos ficarem tão rosados quanto as pálpebras da Aurora.

Ou iam atrás de lírios-d'água. Barney sabia onde encontrá-los nos riachos e baías de Mistawis. Então o Castelo Azul ficava glorioso com eles, cada recipiente que Valancy conseguia improvisar cheio daquelas coisas primorosas. Se não fossem lírios-d'água, eram flores-cardinais, frescas e vívidas dos pântanos de Mistawis, onde ardiam como fitas de chama.

Às vezes iam pescar trutas em pequenos rios sem nome ou riachos escondidos, em cujas margens náiades poderiam ter tomado sol com seus membros brancos e úmidos. Então tudo o que levavam consigo eram algumas batatas cruas e sal. Assavam as batatas sobre o fogo, e Barney mostrou a Valancy como cozinhar as trutas envolvendo-as em folhas, cobrindo-as de barro e assando-as num leito de brasas quentes. Nunca houve refeições tão deliciosas. Valancy tinha tanto apetite que não era de admirar que criasse carne nos ossos.

Ou simplesmente rondavam e exploravam bosques que sempre pareciam estar esperando que alguma coisa maravilhosa acontecesse. Pelo menos era assim que Valancy se sentia em relação a eles. Na próxima depressão, depois da próxima colina, você a encontraria.

- Não sabemos para onde estamos indo, mas não é divertido ir? - Barney costumava dizer.

Uma ou duas vezes a noite os alcançou longe demais do Castelo Azul para que pudessem voltar. Mas Barney fez uma cama perfumada de samambaias e ramos de abeto, e eles dormiram nela sem sonhos, sob um teto de velhos abetos dos quais pendia musgo, enquanto além deles o luar e o murmúrio dos pinheiros se misturavam de tal modo que mal se podia dizer qual era luz e qual era som.

Havia dias chuvosos, é claro, quando Muskoka era uma terra verde e molhada. Dias em que aguaceiros deslizavam sobre Mistawis como pálidos fantasmas de chuva, e eles nem pensavam em ficar dentro de casa por causa disso. Dias em que chovia de verdade, com toda a seriedade, e eles precisavam ficar em casa. Então Barney se trancava no aposento do Barba-Azul, e Valancy lia, ou sonhava sobre as peles de lobo, com Boa Sorte ronronando ao seu lado e Banjo observando-os com desconfiança de sua cadeira peculiar. Nas noites de domingo, remavam até uma ponta de terra e caminhavam dali pela mata até a pequena igreja Metodista Livre. A gente se sentia feliz demais para um domingo. Valancy nunca gostara realmente dos domingos antes.

E sempre, domingos e dias de semana, ela estava com Barney. Nada mais importava de verdade. E que companheiro ele era! Que compreensão! Que alegria! Que... que jeito tão Barney de ser! Isso resumia tudo.

Valancy tirara do banco uma parte de seus duzentos dólares e gastara em roupas bonitas. Tinha um vestidinho de chiffon azul-fumaça que sempre vestia quando passavam a noite em casa, azul-fumaça com toques de prata. Foi depois que ela começou a usá-lo que Barney passou a chamá-la de Luar.

- Luar e crepúsculo azul: é com isso que você se parece nesse vestido. Gosto dele. Ele pertence a você. Você não é exatamente bonita, mas tem alguns pontos de beleza adoráveis. Seus olhos. E aquela covinha beijável bem entre as clavículas. Você tem pulso e tornozelo de aristocrata. Essa cabecinha sua é lindamente moldada. E quando olha para trás por cima do ombro, você enlouquece a gente, especialmente no crepúsculo ou ao luar. Uma donzela élfica. Um espírito da mata. Você pertence aos bosques, Luar; nunca deveria estar fora deles. Apesar da sua ascendência, há algo selvagem, remoto e indomado em você. E você tem uma voz tão agradável, doce, de garganta, estival. Uma voz tão boa para fazer amor.

- Ora, pois então, você beijou a Pedra de Blarney - zombou Valancy. Mas saboreou aqueles elogios por semanas.

Também comprou um maiô verde-claro, uma peça que teria matado seu clã se alguma vez a tivessem visto usando aquilo. Barney a ensinou a nadar. Às vezes ela vestia o maiô ao se levantar e só o tirava ao ir para a cama, correndo até a água para um mergulho sempre que tinha vontade e se estendendo nas pedras aquecidas pelo sol para secar.

Ela havia esquecido todas as velhas coisas humilhantes que costumavam lhe vir à noite: as injustiças e as decepções. Era como se tudo aquilo tivesse acontecido a outra pessoa, não a ela, Valancy Snaith, que sempre fora feliz.

- Agora entendo o que significa nascer de novo - disse ela a Barney.

Holmes fala da tristeza "manchando para trás" as páginas da vida; mas Valancy descobriu que sua felicidade também manchara para trás e inundara de cor-de-rosa toda a sua existência anterior, tão monótona. Achava difícil acreditar que algum dia tivesse sido solitária, infeliz e medrosa.

"Quando a morte vier, terei vivido", pensou Valancy. "Terei tido a minha hora."

E seu monte de pó!

Certo dia, Valancy juntara a areia da pequena enseada da ilha num cone enorme e fincara no topo dele uma alegre bandeirinha do Reino Unido.

- O que você está comemorando? - Barney quis saber.

- Estou apenas exorcizando um velho demônio - disse Valancy.

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