Capítulo XXI O Castelo Azul · Capítulo 21 de 45
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Capítulo XXI

CAPÍTULO XXI

-- Vamos simplesmente ficar sentados aqui -- disse Barney --, e se pensarmos em alguma coisa que valha a pena dizer, diremos. Caso contrário, não. Não imagine que tem obrigação de falar comigo.

-- John Foster diz -- citou Valancy --: "Se você consegue ficar sentado em silêncio com uma pessoa por meia hora e ainda assim se sentir inteiramente confortável, você e essa pessoa podem ser amigos. Se não consegue, nunca serão amigos, e não precisa perder tempo tentando."

-- Evidentemente John Foster diz uma coisa sensata de vez em quando -- concedeu Barney.

Ficaram sentados em silêncio por um longo tempo. Coelhinhos atravessavam a estrada aos saltos. Uma ou duas vezes, uma coruja riu deliciosamente. A estrada além deles era bordada pela renda de sombras entrelaçadas das árvores. Lá longe, a sudoeste, o céu estava cheio de pequenas nuvens cirros prateadas acima do ponto onde devia ficar a ilha de Barney.

Valancy estava perfeitamente feliz. Algumas coisas amanhecem lentamente dentro da gente. Algumas coisas vêm como relâmpagos. Valancy tivera um relâmpago.

Agora sabia muito bem que amava Barney. Ontem, pertencera inteiramente a si mesma. Agora era daquele homem. No entanto, ele nada fizera... nada dissera. Nem sequer olhara para ela como mulher. Mas isso não importava. Tampouco importava quem ele era ou o que fizera. Ela o amava sem reservas. Tudo nela se dirigia inteiramente a ele. Não tinha desejo de sufocar ou negar seu amor. Parecia pertencer a ele de modo tão absoluto que pensar separada dele... pensar em algo no qual ele não predominasse... era impossível.

Percebera, simples e plenamente, que o amava no momento em que ele se inclinara junto à porta do carro, explicando que Lady Jane estava sem gasolina. Olhara fundo nos olhos dele ao luar e soubera. Naquele espaço infinitesimal de tempo, tudo mudara. As coisas antigas passaram, e todas as coisas se fizeram novas.

Ela já não era a insignificante, pequena e solteirona Valancy Stirling. Era uma mulher, cheia de amor e, portanto, rica e significativa... justificada para si mesma. A vida já não era vazia e inútil, e a morte não podia trapaceá-la em nada. O amor expulsara seu último medo.

Amor! Que coisa ardente, torturante, intoleravelmente doce era aquela... aquela posse de corpo, alma e mente! Com alguma coisa em seu centro tão fina, remota e puramente espiritual quanto a minúscula centelha azul no coração do diamante inquebrável. Nenhum sonho jamais fora assim. Ela já não estava solitária. Era uma das integrantes de uma vasta irmandade... todas as mulheres que já haviam amado no mundo.

Barney nunca precisava saber... embora ela não se importasse nem um pouco se ele soubesse. Mas ela sabia, e isso fazia uma diferença tremenda. Apenas amar! Não pedia ser amada. Era êxtase suficiente simplesmente ficar ali sentada ao lado dele em silêncio, sozinha na noite de verão, no esplendor branco do luar, com o vento descendo sobre eles vindo dos pinhais. Ela sempre invejara o vento. Tão livre. Soprando onde queria. Pelas colinas. Sobre os lagos. Que sabor, que energia ele tinha! Que magia de aventura! Valancy sentia como se tivesse trocado sua alma gasta de vitrine por uma nova, fresca, recém-saída em fogo da oficina dos deuses. Até onde podia olhar para trás, a vida fora sem graça... sem cor... sem sabor. Agora chegara a um pequeno canteiro de violetas, roxas e perfumadas... suas para colher. Não importava quem ou o que houvesse no passado de Barney... não importava quem ou o que pudesse haver em seu futuro... ninguém mais poderia ter aquela hora perfeita. Entregou-se por completo ao encanto do momento.

-- Já sonhou em andar de balão? -- disse Barney, de repente.

-- Não -- disse Valancy.

-- Eu sonho... muitas vezes. Sonho em navegar pelas nuvens... ver as glórias do pôr do sol... passar horas no meio de uma tempestade terrível, com relâmpagos brincando acima e abaixo de você... deslizar sobre um chão de nuvens prateadas sob a lua cheia... maravilhoso!

-- Parece mesmo -- disse Valancy. -- Eu fiquei na terra nos meus sonhos.

Contou-lhe sobre seu Castelo Azul. Era tão fácil contar coisas a Barney. A gente sentia que ele entendia tudo... até as coisas que não eram ditas. E então contou-lhe um pouco de sua existência antes de ir para a casa de Abel Rugidor. Queria que ele visse por que fora ao baile no "fundão".

-- Veja... eu nunca tive uma vida real -- disse ela. -- Eu apenas... respirei. Todas as portas sempre estiveram fechadas para mim.

-- Mas você ainda é jovem -- disse Barney.

-- Ah, eu sei. Sim, eu "ainda sou jovem"... mas isso é tão diferente de ser jovem -- disse Valancy, amargamente. Por um momento, sentiu-se tentada a contar a Barney por que seus anos nada tinham a ver com seu futuro; mas não contou. Não pensaria na morte naquela noite.

-- Embora eu nunca tenha sido realmente jovem -- continuou ela... "até esta noite", acrescentou em seu coração. -- Nunca tive uma vida como as outras moças. Você não entenderia. Ora -- ela tinha um desejo desesperado de que Barney soubesse o pior a seu respeito --, eu nem mesmo amava minha mãe. Não é terrível eu não amar minha mãe?

-- Bastante terrível... para ela -- disse Barney, secamente.

-- Ah, ela não sabia. Tomava meu amor como certo. E eu não tinha utilidade nem conforto para ela nem para ninguém. Eu era apenas um... um... vegetal. E me cansei disso. Foi por isso que vim cuidar da casa do senhor Gay e olhar por Cissy.

-- E suponho que sua família achou que você tinha enlouquecido.

-- Achou... e acha... literalmente -- disse Valancy. -- Mas isso é um consolo para eles. Preferem acreditar que sou louca a acreditar que sou má. Não há outra alternativa. Mas tenho vivido desde que vim para a casa do senhor Gay. Tem sido uma experiência deliciosa. Suponho que pagarei por isso quando tiver de voltar... mas terei tido a experiência.

-- Isso é verdade -- disse Barney. -- Se você compra sua experiência, ela é sua. Então não importa quanto pague por ela. A experiência de outra pessoa nunca pode ser sua. Bem, este é um velho mundo curioso.

-- Você acha que ele é mesmo velho? -- perguntou Valancy, sonhadora. -- Eu nunca acredito nisso em junho. Esta noite ele parece tão jovem... de algum modo. Nesse luar trêmulo... como uma jovem moça branca... esperando.

-- O luar aqui na beira do fundão é diferente do luar em qualquer outro lugar -- concordou Barney. -- Sempre me faz sentir tão limpo, de algum modo... corpo e alma. E, claro, a idade de ouro sempre volta na primavera.

Já eram dez horas. Um dragão de nuvem negra devorou a lua. O ar da primavera ficou frio... Valancy estremeceu. Barney esticou o braço para dentro das entranhas de Lady Jane e arrancou de lá um velho sobretudo com cheiro de tabaco.

-- Vista isto -- ordenou.

-- Você não quer para si? -- protestou Valancy.

-- Não. Não vou deixar você pegar um resfriado sob minha responsabilidade.

-- Ah, eu não vou pegar resfriado. Não tive nenhum desde que vim para a casa do senhor Gay... embora tenha feito as coisas mais tolas. É engraçado também... eu costumava ter resfriados o tempo todo. Sinto-me tão egoísta pegando seu casaco.

-- Você espirrou três vezes. Não adianta encerrar sua "experiência" no fundão com gripe ou pneumonia.

Ele puxou o casaco bem justo em torno da garganta dela e o abotoou. Valancy se submeteu com deleite secreto. Como era bom ter alguém cuidando assim da gente! Aconchegou-se nas dobras cheirosas de tabaco e desejou que a noite durasse para sempre.

Dez minutos depois, um carro desceu sobre eles vindo do "fundão". Barney saltou de Lady Jane e acenou com a mão. O carro parou ao lado deles. Valancy viu tio Wellington e Olive olhando para ela, horrorizados, de dentro dele.

Então tio Wellington comprara um carro! E devia ter passado a noite em Mistawis com primo Herbert. Valancy quase riu alto da expressão no rosto dele ao reconhecê-la. O velho impostor pomposo e bigodudo!

-- O senhor pode me ceder gasolina suficiente para me levar até Deerwood? -- perguntou Barney, educadamente. Mas tio Wellington não lhe prestava atenção.

-- Valancy, como você veio parar aqui! -- disse ele, severo.

-- Por acaso ou pela graça de Deus -- disse Valancy.

-- Com esse ex-presidiário... às dez horas da noite! -- disse tio Wellington.

Valancy se voltou para Barney. A lua escapara de seu dragão, e à luz dela seus olhos estavam cheios de travessura.

-- Você é um ex-presidiário?

-- Isso importa? -- disse Barney, com lampejos de humor nos olhos.

-- Para mim, não. Perguntei só por curiosidade -- continuou Valancy.

-- Então não vou lhe contar. Nunca satisfaço curiosidade. -- Ele se voltou para tio Wellington, e sua voz mudou sutilmente. -- Senhor Stirling, perguntei se o senhor poderia me ceder um pouco de gasolina. Se puder, ótimo. Se não, estamos apenas atrasando o senhor desnecessariamente.

Tio Wellington estava num dilema horrível. Dar gasolina àquele par descarado! Mas não dar! Ir embora e deixá-los ali nas matas de Mistawis... provavelmente até o amanhecer. Era melhor dar-lhes gasolina e permitir que saíssem dali antes que qualquer outra pessoa os visse.

-- Tem alguma coisa para pôr gasolina? -- rosnou ele, mal-humorado.

Barney produziu uma medida de dois galões de dentro de Lady Jane. Os dois homens foram até a traseira do carro dos Stirling e começaram a manipular a torneira. Valancy lançou olhares furtivos para Olive por cima da gola do casaco de Barney. Olive estava sentada, rígida, olhando fixamente para a frente com uma expressão ultrajada. Não pretendia dar nenhuma atenção a Valancy. Olive tinha suas próprias razões secretas para se sentir ultrajada. Cecil estivera em Deerwood recentemente e, naturalmente, ouvira tudo sobre Valancy. Concordara que a mente dela estava perturbada e ficara extremamente ansioso para descobrir de onde viera essa perturbação. Era uma coisa séria de se ter na família... uma coisa muito séria. Era preciso pensar nos próprios... descendentes.

-- Ela herdou isso dos Wansbarra -- disse Olive, positiva. -- Não há nada assim nos Stirlings... nada!

-- Espero que não... certamente espero que não -- respondera Cecil, em dúvida. -- Mas então... sair para trabalhar como criada... pois é praticamente nisso que dá. Sua prima!

Pobre Olive sentiu a implicação. Os Prices de Port Lawrence não estavam acostumados a se aliar a famílias cujos membros "trabalhavam fora".

Valancy não conseguiu resistir à tentação. Inclinou-se para a frente.

-- Olive, dói?

Olive mordeu a isca... rigidamente.

-- Dói o quê?

-- Fazer essa cara.

Por um momento, Olive decidiu que não daria mais atenção a Valancy. Então o dever prevaleceu. Não podia perder a oportunidade.

-- Doss -- implorou, inclinando-se também para a frente --, você não quer voltar para casa... voltar para casa esta noite?

Valancy bocejou.

-- Você parece uma reunião de avivamento -- disse. -- Parece mesmo.

-- Se você voltar...

-- Tudo será perdoado.

-- Sim -- disse Olive, ansiosa. Não seria esplêndido se conseguisse induzir a filha pródiga a voltar? -- Nunca jogaremos isso na sua cara. Doss, há noites em que não consigo dormir pensando em você.

-- E eu tendo a melhor época da minha vida -- disse Valancy, rindo.

-- Doss, não consigo acreditar que você seja má. Sempre disse que você não poderia ser má...

-- Também não acredito que eu possa ser -- disse Valancy. -- Temo ser irremediavelmente correta. Estou sentada aqui há três horas com Barney Snaith, e ele nem tentou me beijar. Eu não teria me importado se tivesse tentado, Olive.

Valancy ainda estava inclinada para a frente. Seu chapeuzinho com a rosa carmesim pendia sobre um dos olhos. Olive ficou olhando. Ao luar, os olhos de Valancy... o sorriso de Valancy... o que acontecera com Valancy! Ela parecia... não bonita... Doss não podia ser bonita... mas provocante, fascinante... sim, abominavelmente fascinante. Olive recuou. Estava abaixo de sua dignidade dizer mais alguma coisa. Afinal, Valancy devia ser ao mesmo tempo louca e má.

-- Obrigado... isso basta -- disse Barney, atrás do carro. -- Muito agradecido, senhor Stirling. Dois galões... setenta centavos. Obrigado.

Tio Wellington subiu tola e fracamente para dentro do carro. Queria dizer umas verdades a Snaith, mas não ousava. Quem sabia o que aquela criatura poderia fazer se fosse provocada? Sem dúvida carregava armas.

Tio Wellington olhou indeciso para Valancy. Mas Valancy lhe dera as costas e observava Barney despejar a gasolina na goela de Lady Jane.

-- Siga -- disse Olive, decidida. -- Não adianta esperar aqui. Deixe-me contar o que ela me disse.

-- A pequena descarada! A pequena descarada sem vergonha! -- disse tio Wellington.

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