Capítulo XLI
CAPÍTULO XLI
Valancy olhou, apagada, ao redor de seu antigo quarto. Ele também estava tão exatamente igual que parecia quase impossível acreditar nas mudanças que haviam acontecido com ela desde a última vez em que dormira ali. Parecia, de algum modo, indecente que estivesse tão igual. Lá estava a rainha Luísa descendo eternamente a escadaria, e ninguém deixara o cachorrinho desamparado entrar para escapar da chuva. Ali estava a persiana roxa de papel e o espelho esverdeado. Lá fora, a velha oficina de carruagens com seus anúncios berrantes. Além dela, a estação com os mesmos abandonados e as mesmas moças namoradeiras.
Ali a velha vida esperava por ela, como algum ogro sombrio que aguardava sua hora e lambia os beiços. Um horror monstruoso daquilo a possuiu de repente. Quando a noite caiu, e ela se despiu e se meteu na cama, a dormência misericordiosa passou, e ela ficou deitada em angústia, pensando em sua ilha sob as estrelas. As fogueiras; todas as pequenas piadas domésticas, frases e palavras-código deles; seus gatos peludos e belos; as luzes brilhando nas ilhas de fadas; canoas deslizando por Mistawis na magia da manhã; bétulas brancas reluzindo entre os abetos escuros como corpos de belas mulheres; neves de inverno e fogos de pôr do sol rosa-avermelhados; lagos embriagados de luar; todos os encantos de seu paraíso perdido. Não se permitiria pensar em Barney. Apenas nessas coisas menores. Não conseguiria suportar pensar em Barney.
Então pensou nele inevitavelmente. Doía por ele. Queria os braços dele ao seu redor, o rosto dele contra o seu, os sussurros dele em seu ouvido. Recordou todos os seus olhares amistosos, suas tiradas e brincadeiras, seus pequenos elogios, suas carícias. Contou-os todos como uma mulher poderia contar suas joias; não deixou escapar nenhum desde o primeiro dia em que se conheceram. Essas lembranças eram tudo que podia ter agora. Fechou os olhos e rezou.
- Deixe-me lembrar de cada uma delas, Deus! Não me deixe esquecer nenhuma!
Ainda assim, seria melhor esquecer. Essa agonia de desejo e solidão não seria tão terrível se fosse possível esquecer. E Ethel Traverse. Aquela mulher-bruxa cintilante, com sua pele branca, seus olhos negros e seus cabelos brilhantes. A mulher que Barney amara. A mulher que ele ainda amava. Ele não lhe dissera que nunca mudava de ideia? A mulher que o esperava em Montreal. A esposa certa para um homem rico e famoso. Barney se casaria com ela, é claro, quando obtivesse o divórcio. Como Valancy a odiava! E como a invejava! Barney dissera "eu te amo" a ela. Valancy se perguntara em que tom Barney diria "eu te amo", como ficariam seus olhos azul-escuros quando o dissesse. Ethel Traverse sabia. Valancy a odiava por esse conhecimento, odiava-a e a invejava.
"Ela nunca poderá ter aquelas horas no Castelo Azul. Elas são minhas", pensou Valancy, ferozmente. Ethel jamais faria geleia de morango, nem dançaria ao som do violino do velho Abel, nem fritaria bacon para Barney sobre uma fogueira. Jamais viria ao pequeno casebre de Mistawis.
O que Barney estaria fazendo, pensando, sentindo agora? Teria voltado para casa e encontrado sua carta? Ainda estaria zangado com ela? Ou um pouco com pena? Estaria deitado na cama deles, olhando para o tempestuoso Mistawis e ouvindo a chuva escorrer pelo telhado? Ou ainda estaria vagando pela natureza selvagem, enfurecido com a situação em que se encontrava? Odiando-a? A dor a tomou e a torceu como algum gigante enorme e impiedoso. Ela se levantou e caminhou pelo quarto. A manhã nunca chegaria para pôr fim àquela noite horrorosa? E, no entanto, o que a manhã poderia lhe trazer? A velha vida sem a velha estagnação que ao menos era suportável. A velha vida com as novas lembranças, os novos desejos, a nova angústia.
- Ah, por que não posso morrer? - gemeu Valancy.