I. A LITERATURA CIENTÍFICA DOS PROBLEMAS DOS SONHOS(2)
I. A LITERATURA CIENTÍFICA DOS PROBLEMAS DOS SONHOS(2).
(2) Até a primeira publicação deste livro, em 1900.
Nas páginas seguintes apresentarei a demonstração de que existe uma técnica psicológica que permite interpretar sonhos, e de que, na aplicação desse procedimento, cada sonho se revela como uma formação psíquica dotada de sentido, a qual pode ser inserida em um ponto indicável da atividade psíquica da vigília. Tentarei, além disso, esclarecer os processos dos quais provêm a estranheza e a irreconhecibilidade do sonho, e, a partir deles, tirar uma conclusão retrospectiva sobre a natureza das forças psíquicas de cuja colaboração ou oposição nasce o sonho. Chegada a esse ponto, minha exposição se interromperá, pois terá alcançado o lugar em que o problema do sonhar desemboca em problemas mais amplos, cuja solução deve ser empreendida com outro material.
Anteponho uma visão geral das realizações de autores anteriores, bem como do estado atual dos problemas dos sonhos na ciência, porque no decorrer do tratado não terei com frequência ocasião de voltar a isso. A compreensão científica do sonho, apesar de um empenho de vários milênios, avançou muito pouco. Isso é admitido de modo tão geral pelos autores que parece desnecessário citar vozes isoladas. Nos escritos cuja lista acrescento ao final do meu trabalho encontram-se muitas observações estimulantes e abundante material interessante para o nosso tema, mas nada, ou pouco, que atinja a essência do sonho ou resolva definitivamente um de seus enigmas. Ainda menos, naturalmente, passou para o saber dos leigos cultos.
Que concepção o sonho terá encontrado nos tempos primordiais da humanidade entre os povos primitivos, e que influência terá exercido sobre a formação de suas concepções do mundo e da alma, é um tema de interesse tão elevado que só a contragosto o excluo do tratamento neste contexto. Remeto às obras conhecidas de Sir J. Lubbock, H. Spencer, E. B. Tylor e outros, e acrescento apenas que só poderemos compreender o alcance desses problemas e especulações depois de termos cumprido a tarefa da “interpretação dos sonhos” que temos em vista. Um eco da concepção primeva do sonho parece estar manifestamente na base da avaliação dos sonhos entre os povos da Antiguidade clássica(3).
(3) O que se segue conforme a cuidadosa exposição de Büchsenschütz.
Entre eles, pressupunha-se que os sonhos estivessem em relação com o mundo dos seres sobre-humanos em que acreditavam e trouxessem revelações vindas dos deuses e dos demônios. Além disso, impunha-se a eles a ideia de que os sonhos teriam uma intenção significativa para o sonhador, em regra anunciar-lhe o futuro. A extraordinária diversidade no conteúdo e na impressão dos sonhos tornava difícil, é verdade, sustentar uma concepção unitária deles, e obrigava a múltiplas distinções e agrupamentos dos sonhos segundo seu valor e sua confiabilidade. Entre os filósofos particulares da Antiguidade, a avaliação do sonho, naturalmente, não era independente da posição que estavam dispostos a conceder à mântica em geral.
Nos dois escritos de Aristóteles que tratam do sonho, este já se tornou objeto da psicologia. Ouvimos que o sonho não é enviado pelos deuses, não é de natureza divina, mas sim demoníaca, pois a natureza é demoníaca, não divina; isto é, o sonho não provém de uma revelação sobrenatural, mas decorre das leis do espírito humano, embora este seja aparentado à divindade. O sonho é definido como a atividade da alma daquele que dorme, enquanto dorme. Aristóteles conhece alguns dos caracteres da vida onírica, por exemplo, que o sonho transforma em grande o pequeno estímulo que ocorre durante o sono: “acredita-se atravessar um fogo e ficar quente, quando se produz apenas um aquecimento inteiramente insignificante deste ou daquele membro”; e, a partir desse comportamento, tira a conclusão de que os sonhos muito bem podem revelar ao médico os primeiros sinais de uma alteração incipiente no corpo, ainda não notados durante o dia(4).
(4) O médico grego Hipócrates trata das relações do sonho com as doenças em um capítulo de sua célebre obra.
Os antigos anteriores a Aristóteles, como foi mencionado, não haviam considerado o sonho como produto da alma sonhadora, mas como uma inspiração vinda do lado divino, e as duas correntes opostas que encontraremos como sempre existentes na avaliação da vida onírica já se faziam valer entre eles. Distinguiam-se sonhos verdadeiros e valiosos, enviados ao adormecido para adverti-lo ou anunciar-lhe o futuro, de sonhos vãos, enganosos e nulos, cuja intenção era desviá-lo do caminho ou precipitá-lo na ruína.
A doutrina dos sonhos dos antigos. Artemidoro.
Gruppe, em Mitologia grega e história da religião, p. 390, reproduz uma divisão dos sonhos desse tipo segundo Macróbio e Artemidoro: “Dividiam-se os sonhos em duas classes. Uma deveria ser influenciada apenas pelo presente (ou pelo passado), mas sem significado para o futuro; ela abrangia os ἐνύπνια, insomnia, que reproduzem imediatamente a representação dada ou seu oposto, por exemplo, a fome ou sua saciação, e os φαντάσματα, que ampliam fantasticamente a representação dada, como, por exemplo, o pesadelo, Ephialtes. A outra classe, ao contrário, era considerada determinante para o futuro; a ela pertencem: 1. a profecia direta que se recebe no sonho (χρηματισμός, oraculum); 2. a predição de um acontecimento iminente (ὅραμα, visio); 3. o sonho simbólico, que necessita de interpretação (ὄνειρος, somnium). Essa teoria se conservou ao longo de muitos séculos.”
Com essa avaliação variável dos sonhos relacionava-se a tarefa de uma “interpretação dos sonhos”. Como, em geral, se esperavam dos sonhos importantes esclarecimentos, mas nem todos os sonhos eram compreendidos de imediato, e como não se podia saber se determinado sonho incompreensível não anunciava ainda assim algo significativo, estava dado o impulso para um esforço capaz de substituir o conteúdo incompreensível do sonho por outro inteligível e, ao mesmo tempo, significativo. Como a maior autoridade na interpretação dos sonhos, na Antiguidade tardia, valia Artemidoro de Daldis, cuja obra extensa deve compensar-nos pelas obras perdidas de mesmo conteúdo(5).
(5) Sobre os destinos posteriores da interpretação dos sonhos na Idade Média, ver Diepgen e as investigações especiais de M. Förster, Gotthard e outros. Sobre a interpretação dos sonhos entre os judeus, tratam Almoli, Amram, Löwinger e, mais recentemente, Lauer, levando em conta o ponto de vista psicanalítico. O conhecimento da interpretação árabe dos sonhos é transmitido por Drexl, F. Schwarz e pelo missionário Tfinkdji; o da japonesa, por Miura e Iwaya; o da chinesa, por Secker; o da indiana, por Negelein.
A concepção pré-científica dos sonhos entre os antigos estava certamente em pleno acordo com sua visão de mundo total, que costumava projetar como realidade no mundo externo aquilo que só tinha realidade no interior da vida psíquica. Além disso, ela levava em conta a impressão principal que a vida de vigília recebe da lembrança do sonho que resta pela manhã; pois, nessa lembrança, o sonho se opõe ao restante do conteúdo psíquico como algo estranho, que parece provir de outro mundo.
Seria, aliás, errôneo pensar que a doutrina da origem sobrenatural dos sonhos careça de adeptos em nossos dias; deixando de lado todos os escritores pietistas e místicos, que de fato fazem bem em manter ocupados os restos do domínio outrora extenso do sobrenatural enquanto estes não forem conquistados pela explicação científico-natural, encontram-se também homens sagazes e avessos a tudo que é aventureiro, que procuram apoiar sua fé religiosa na existência e na intervenção de forças espirituais sobre-humanas justamente na inexplicabilidade dos fenômenos oníricos (Haffner).
A estima pela vida onírica por parte de algumas escolas filosóficas, por exemplo os schellingianos, é um claro eco da divindade do sonho, incontestada na Antiguidade; e tampouco está encerrada a discussão sobre a força divinatória do sonho, isto é, sua capacidade de anunciar o futuro, porque as tentativas psicológicas de explicação não bastam para dominar o material acumulado, por mais inequívocas que possam ser as simpatias de todo aquele que se entregou ao modo de pensar científico no sentido da rejeição de tal afirmação.
Escrever uma história de nosso conhecimento científico dos problemas dos sonhos é tão difícil porque, nesse conhecimento, por mais valioso que ele tenha se tornado em certos pontos, não se nota um progresso ao longo de determinadas direções. Não se chegou à formação de uma base de resultados seguros sobre a qual um pesquisador seguinte pudesse então continuar a construir; ao contrário, cada novo autor retoma os mesmos problemas desde o começo e como se estivesse na origem deles. Se eu quisesse ater-me à sequência temporal dos autores e relatar em resumo o que cada um deles expressou sobre os problemas dos sonhos, teria de renunciar a esboçar uma visão geral clara do estado atual do conhecimento dos sonhos; por isso, preferi vincular a exposição aos temas, em vez de aos autores, e indicarei, em cada um dos problemas do sonho, que material foi depositado na literatura para sua solução.
Como, porém, não consegui dominar toda a literatura do assunto, tão dispersa e tão entrecruzada com outros campos, devo pedir aos meus leitores que se contentem, desde que nenhum fato fundamental nem nenhum ponto de vista significativo se tenha perdido em minha exposição.
Até há pouco tempo, a maior parte dos autores se viu levada a tratar sono e sonho no mesmo contexto, em geral também acrescentando a apreciação de estados análogos que entram no campo da psicopatologia e de ocorrências semelhantes ao sonho, como alucinações, visões etc. Nos trabalhos mais recentes, ao contrário, manifesta-se o esforço de manter o tema delimitado e tomar como objeto, por exemplo, uma única questão do campo da vida onírica. Nessa mudança, eu gostaria de ver uma expressão da convicção de que, em coisas tão obscuras, esclarecimento e concordância só poderiam ser alcançados por meio de uma série de investigações de detalhe. Nada além de uma investigação de detalhe desse tipo, e, mais precisamente, de natureza psicológica, posso oferecer aqui.
Eu tive pouca ocasião de ocupar-me do problema do sono, pois este é um problema essencialmente fisiológico, embora na caracterização do estado de sono deva estar contida também a alteração das condições de funcionamento do aparelho psíquico. Portanto, também a literatura sobre o sono fica aqui fora de consideração.
Relação com a vida de vigília.