c) As fontes somáticas do sonho
c) As fontes somáticas do sonho
Quando se tenta interessar um leigo culto pelos problemas do sonhar e, com esse propósito, se lhe dirige a pergunta sobre de quais fontes, segundo sua opinião, provêm os sonhos, percebe-se quase sempre que o interrogado julga estar de posse segura de uma parte da solução. Ele pensa imediatamente no efeito que a digestão perturbada ou sobrecarregada (“os sonhos vêm do estômago”), a posição casual do corpo e pequenos acontecimentos durante o sono exercem sobre a formação do sonho, e parece não suspeitar que, depois de se levarem em conta todos esses fatores, ainda resta algo a exigir explicação.
As fontes somáticas do sonho segundo os autores. O papel que a literatura científica atribui às fontes somáticas de estímulo para a formação do sonho foi por nós exposto detalhadamente na seção introdutória (p. 16 e segs.), de modo que aqui precisamos apenas recordar os resultados dessa investigação. Ouvimos que se distinguem três espécies de fontes somáticas de estímulo: os estímulos sensoriais objetivos provenientes de objetos externos, os estados internos de excitação dos órgãos dos sentidos fundados apenas subjetivamente e os estímulos corporais originários do interior do corpo; e notamos a tendência dos autores a relegar a segundo plano, ao lado dessas fontes somáticas de estímulo, eventuais fontes psíquicas do sonho, ou a excluí-las por completo (p. 31).
Ao examinar as pretensões levantadas em favor dessas classes de fontes somáticas de estímulo, soubemos que a importância das excitações objetivas dos órgãos dos sentidos, em parte estímulos casuais durante o sono, em parte aqueles que não se deixam manter afastados nem mesmo da vida psíquica adormecida, é assegurada por numerosas observações e confirmada pelo experimento (p. 19); que o papel das excitações sensoriais subjetivas parece demonstrado pelo retorno das imagens sensoriais hipnagógicas nos sonhos (p. 24); e que a recondução de nossas imagens e representações oníricas ao estímulo corporal interno, aceita em mais amplo alcance, embora não possa ser provada em toda a sua extensão, pode apoiar-se na conhecida influência que o estado de excitação dos órgãos digestivos, urinários e sexuais exerce sobre o conteúdo de nossos sonhos.
“Estímulo nervoso” e “estímulo corporal” seriam, portanto, as fontes somáticas do sonho, isto é, segundo vários autores, as únicas fontes do sonho em geral. Mas já demos ouvidos a uma série de dúvidas que pareciam atacar não tanto a correção quanto a suficiência da teoria somática do estímulo. Por mais seguros que todos os representantes dessa doutrina devessem sentir-se quanto a seus fundamentos factuais, sobretudo no que toca aos estímulos nervosos acidentais e externos, que não oferecem dificuldade alguma para serem reencontrados no conteúdo do sonho, ainda assim nenhum deles ficou alheio à percepção de que o rico conteúdo representacional dos sonhos provavelmente não permite uma derivação apenas dos estímulos nervosos externos.
Miss Mary Whiton Calkins examinou seus próprios sonhos e os de uma segunda pessoa, durante seis semanas, sob esse ponto de vista, e encontrou apenas 13,2% e 6,7%, respectivamente, nos quais se podia comprovar o elemento da percepção sensorial externa; apenas dois casos da coleção puderam ser reconduzidos a sensações orgânicas. A estatística confirma aqui aquilo que uma rápida visão de nossas próprias experiências já nos havia levado a supor.
Muitas vezes contentou-se em destacar o “sonho de estímulo nervoso” como uma subespécie bem investigada do sonho, em contraste com outras formas oníricas. Spitta separou os sonhos em sonho de estímulo nervoso e sonho de associação. Mas era claro que a solução permanecia insatisfatória enquanto não se conseguisse demonstrar o laço entre as fontes somáticas do sonho e o conteúdo representacional do sonho.
À primeira objeção, a da insuficiência quanto à frequência das fontes externas de estímulo, junta-se assim uma segunda: a insuficiência no esclarecimento do sonho que se pode alcançar pela introdução desse tipo de fonte onírica. Os representantes da doutrina nos devem duas explicações desse gênero: primeiro, por que o estímulo externo não é reconhecido no sonho em sua verdadeira natureza, mas regularmente mal reconhecido (cf. os sonhos com despertador, p. 21); segundo, por que o resultado da reação da alma que percebe a esse estímulo mal reconhecido pode variar de maneira tão indeterminável.
Como resposta a essa pergunta, ouvimos de Strümpell que a alma, em consequência de seu afastamento do mundo exterior durante o sono, não está em condições de dar a interpretação correta do estímulo sensorial objetivo, mas é obrigada a formar ilusões com base na excitação indeterminada em muitas direções. Nas palavras dele (p. 108): “Assim que, por um estímulo nervoso externo ou interno durante o sono, surge na alma e é percebido por ela uma sensação ou um complexo de sensações, um sentimento, em suma, um processo psíquico, esse processo evoca, a partir do círculo de experiências da alma remanescente da vigília, imagens sensoriais, isto é, percepções anteriores, nuas ou acompanhadas dos valores psíquicos correspondentes. Ele reúne, por assim dizer, ao redor de si um número maior ou menor dessas imagens, pelas quais a impressão proveniente do estímulo nervoso recebe seu valor psíquico. Costuma-se dizer também aqui, como o uso linguístico o faz para a conduta de vigília, que a alma, durante o sono, interpreta as impressões dos estímulos nervosos. O resultado dessa interpretação é o chamado sonho de estímulo nervoso, isto é, um sonho cujos componentes são condicionados pelo fato de que um estímulo nervoso realiza seu efeito psíquico na vida psíquica segundo as leis da reprodução.”
Em todos os pontos essenciais, é idêntica a essa doutrina a declaração de Wundt de que as representações do sonho partem, em todo caso, em sua maior parte, de estímulos sensoriais, especialmente também daqueles do sentido geral, sendo por isso quase sempre ilusões fantásticas, e provavelmente apenas em menor parte representações mnêmicas puras intensificadas até a alucinação. Para a relação entre o conteúdo do sonho e os estímulos oníricos que resulta dessa teoria, Strümpell encontra a excelente comparação (p. 84) de que seria como “se os dez dedos de uma pessoa inteiramente ignorante em música corressem sobre as teclas do instrumento”.
O sonho apareceria assim não como um fenômeno anímico originado de motivos psíquicos, mas como o efeito de um estímulo fisiológico que se expressa em sintomatologia psíquica, porque o aparelho afetado pelo estímulo não é capaz de outra forma de expressão. Sobre uma suposição semelhante se baseia, por exemplo, a explicação das representações obsessivas que Meynert tentou oferecer mediante a famosa comparação com o mostrador de relógio no qual alguns números sobressaem mais fortemente em relevo.
Por mais popular que se tenha tornado essa doutrina dos estímulos somáticos do sonho, e por mais sedutora que ela possa parecer, é fácil indicar seu ponto fraco. Todo estímulo somático do sonho que, durante o sono, convida o aparelho psíquico à interpretação por formação de ilusão, pode provocar incontáveis tentativas desse tipo, ou seja, alcançar sua representação no conteúdo do sonho em representações extremamente diversas(79). Mas a doutrina de Strümpell e Wundt é incapaz de indicar qualquer motivo que regule a relação entre o estímulo externo e a representação onírica escolhida para interpretá-lo, isto é, que explique a “escolha singular” que os estímulos “com frequência suficiente fazem em sua eficácia reprodutiva” (Lipps, Grundtatsachen des Seelenlebens, p. 170).
Outras objeções dirigem-se contra o pressuposto fundamental de toda a doutrina da ilusão: o de que a alma, durante o sono, não estaria em condições de reconhecer a verdadeira natureza dos estímulos sensoriais objetivos. O velho fisiologista Burdach nos demonstra que a alma, mesmo durante o sono, é muito capaz de interpretar corretamente as impressões sensoriais que chegam até ela e de reagir de acordo com a interpretação correta, ao expor que se podem excluir da negligência durante o sono certas impressões sensoriais que parecem importantes para o indivíduo (a ama e a criança), e que se é despertado pelo próprio nome com muito mais segurança do que por uma impressão auditiva indiferente, o que pressupõe, afinal, que a alma também distingue entre as sensações durante o sono (seção I, p. 39/40). Burdach conclui dessas observações que, durante o estado de sono, não se deve admitir uma incapacidade de interpretar os estímulos sensoriais, mas uma falta de interesse por eles.
Os mesmos argumentos que Burdach utiliza em 1830 retornam depois, sem alteração, em Lipps, no ano de 1883, para combater a teoria somática do estímulo. A alma nos aparece, portanto, como o dorminhoco da anedota que, à pergunta “Você está dormindo?”, responde “Não”, mas, quando interpelado pela segunda vez: “Então me empreste dez florins”, refugia-se na desculpa: “Estou dormindo”.
(79) Eu aconselharia todos a lerem os protocolos minuciosos e precisos, reunidos em dois volumes, de sonhos produzidos experimentalmente por Mourly Vold, para se convencerem de quão pouco esclarecimento o conteúdo de cada sonho individual encontra nas condições experimentais indicadas e de quão escassa é, em geral, a utilidade de tais experimentos para a compreensão dos problemas do sonho.
A insuficiência da doutrina dos estímulos somáticos do sonho pode ser demonstrada também de outra maneira. A observação mostra que não sou obrigado a sonhar por estímulos externos, embora esses estímulos apareçam no conteúdo do sonho assim que e caso eu sonhe. Contra um estímulo cutâneo ou de pressão, por exemplo, que me acomete durante o sono, disponho de diversas reações. Posso não lhe dar ouvidos e, ao despertar, descobrir que, por exemplo, uma perna estava descoberta ou um braço estava comprimido; a patologia me mostra, aliás, numerosíssimos exemplos de que estímulos sensoriais e motores de diversos tipos, fortes e excitantes, permanecem sem efeito durante o sono. Posso perceber a sensação durante o sono, como que através dele, como ocorre em geral com estímulos dolorosos, mas sem entretecer a dor em um sonho; e posso, em terceiro lugar, despertar por causa do estímulo, a fim de removê-lo. Somente uma quarta reação possível é a de eu ser levado ao sonho pelo estímulo nervoso; as outras possibilidades, porém, são executadas pelo menos com tanta frequência quanto a formação do sonho. Isso não poderia ocorrer se o motivo do sonhar não estivesse fora das fontes somáticas de estímulo.
A teoria de Scherner sobre os estímulos corporais. Levando devidamente em conta aquela lacuna, acima revelada, na explicação do sonho por estímulos somáticos, outros autores, Scherner, a quem se associou o filósofo Volkelt, procuraram determinar mais de perto as atividades anímicas que fazem surgir, a partir dos estímulos somáticos, as coloridas imagens do sonho; portanto, recolocaram a essência do sonhar no anímico e em uma atividade psíquica. Scherner não apenas ofereceu uma descrição poeticamente sentida e intensamente animada das peculiaridades psíquicas que se desdobram na formação do sonho; ele acreditou também ter adivinhado o princípio segundo o qual a alma procede com os estímulos que lhe são apresentados.
Na livre atividade da fantasia desprendida de suas amarras diurnas, o trabalho do sonho tende, segundo Scherner, a representar simbolicamente a natureza do órgão de que parte o estímulo e a espécie desse estímulo. Surge assim uma espécie de livro dos sonhos como guia para a interpretação dos sonhos, mediante o qual se poderia concluir, a partir das imagens oníricas, sobre sensações corporais, estados orgânicos e estados de estímulo. “Assim, a imagem do gato expressa a disposição irritada do ânimo; a imagem da confeitaria clara e lisa, a nudez corporal. O corpo humano como um todo é representado pela fantasia do sonho como casa, e cada órgão corporal particular, por uma parte da casa. Nos sonhos de estímulo dentário, um vestíbulo de teto abobadado corresponde ao órgão bucal, e uma escada corresponde à descida da garganta ao esôfago; no sonho de dor de cabeça, para indicar a posição elevada da cabeça, escolhe-se o teto de um quarto coberto de aranhas repugnantes, semelhantes a sapos” (p. 39).
“Esses símbolos são usados pelo sonho em múltipla escolha para o mesmo órgão; assim, o pulmão que respira encontra seu símbolo no forno cheio de chamas com seu bramido; o coração, em caixas ocas e cestos; a bexiga urinária, em objetos redondos, em forma de bolsa, ou apenas ocos em geral. É especialmente importante que, no fim do sonho, o órgão excitante ou sua função seja muitas vezes apresentado sem véu, e quase sempre no próprio corpo do sonhador. Assim, o sonho de estímulo dentário termina habitualmente com o sonhador arrancando da boca um dente” (p. 35).
Não se pode dizer que essa teoria da interpretação dos sonhos tenha encontrado muito favor entre os autores. Ela pareceu, acima de tudo, extravagante; houve até hesitação em descobrir nela a parcela de legitimidade que, a meu juízo, ela pode reivindicar. Como se vê, ela leva ao renascimento da interpretação dos sonhos por meio da simbólica, de que se serviam os antigos, só que o campo do qual a interpretação deve ser retirada fica limitado ao âmbito da corporeidade humana. A falta de uma técnica cientificamente apreensível na interpretação deve prejudicar seriamente a aplicabilidade da doutrina de Scherner. A arbitrariedade na interpretação dos sonhos não parece de modo algum excluída, tanto mais que também aqui um estímulo pode expressar-se em múltiplas representações no conteúdo do sonho; assim, já o discípulo de Scherner, Volkelt, não pôde confirmar a representação do corpo como casa.
Também deve causar estranheza que aqui, mais uma vez, se atribua à alma o trabalho do sonho como uma atividade inútil e sem finalidade, pois, segundo a doutrina em questão, a alma se contentaria em fantasiar sobre o estímulo que a ocupa, sem que algo como uma resolução do estímulo aparecesse sequer ao longe. Uma objeção, porém, atinge duramente a doutrina de Scherner sobre a simbolização dos estímulos corporais pelo sonho. Esses estímulos corporais existem a todo momento; segundo a opinião geral, a alma é mais acessível a eles durante o sono do que durante a vigília. Não se entende então por que a alma não sonha continuamente noite adentro, e mais ainda, toda noite, com todos os órgãos.
Caso se queira escapar a essa objeção pela condição de que dos olhos, dos ouvidos, dos dentes, dos intestinos etc. devam partir excitações especiais para despertar a atividade onírica, enfrenta-se a dificuldade de comprovar objetivamente essas intensificações de estímulo, o que só é possível em pequeno número de casos. Se o sonho de voar significa uma simbolização da subida e descida das asas pulmonares durante a respiração, então esse sonho, como já observou Strümpell, teria de ser sonhado com muito mais frequência, ou seria preciso comprovar uma atividade respiratória aumentada durante esse sonho.
Há ainda um terceiro caso possível, provavelmente o mais provável de todos: o de que motivos especiais atuem temporariamente para dirigir a atenção às sensações viscerais existentes de modo uniforme. Mas esse caso já conduz para além da teoria de Scherner.
O valor das discussões de Scherner e Volkelt está em que chamam a atenção para uma série de caracteres do conteúdo do sonho que exigem explicação e parecem encobrir novos conhecimentos. É inteiramente correto que nos sonhos estejam contidas simbolizações de órgãos e funções corporais, que a água no sonho indique muitas vezes o estímulo urinário, que o genital masculino possa ser representado por um bastão erguido ou uma coluna etc. Em sonhos que mostram um campo visual muito movimentado e cores brilhantes, em contraste com a monotonia de outros sonhos, dificilmente se pode rejeitar a interpretação como “sonho de estímulo visual”, tampouco negar a contribuição da formação de ilusão em sonhos que contêm ruído e confusão de vozes.
Um sonho como o de Scherner, no qual duas fileiras de belos meninos louros ficam uma diante da outra sobre uma ponte, atacam-se mutuamente, depois retomam sua antiga posição, até que por fim o sonhador se senta sobre uma ponte e extrai um longo dente de sua mandíbula; ou um sonho semelhante de Volkelt, no qual duas fileiras de gavetas desempenham um papel e que novamente termina com a extração de um dente: formações oníricas como essas, comunicadas em grande abundância por ambos os autores, não permitem que se ponha de lado a teoria de Scherner como invenção ociosa sem buscar seu bom núcleo. Surge então a tarefa de oferecer uma explicação de outro tipo para a suposta simbolização do alegado estímulo dentário.
Os estímulos somáticos tratados como material recente. Durante todo o tempo em que nos ocupamos com a doutrina das fontes somáticas do sonho, deixei de fazer valer aquele argumento que deriva de nossas análises de sonhos. Se, por um procedimento que outros autores não aplicaram a seu material onírico, pudemos demonstrar que o sonho possui um valor próprio como ação psíquica, que um desejo se torna o motivo de sua formação e que as vivências do dia anterior fornecem o material mais próximo de seu conteúdo, então toda outra doutrina do sonho que negligencie um procedimento de investigação tão importante e, em consequência disso, faça o sonho aparecer como uma reação psíquica inútil e enigmática a estímulos somáticos, já está julgada mesmo sem crítica especial. Seria preciso admitir, o que é muito improvável, duas espécies inteiramente distintas de sonhos, das quais uma teria ocorrido apenas a nós, e a outra apenas aos avaliadores anteriores do sonho. Resta apenas providenciar, dentro de nossa doutrina do sonho, um lugar para os fatos em que se apoia a doutrina comum dos estímulos somáticos do sonho.
Já demos o primeiro passo para isso ao formular a proposição de que o trabalho do sonho está sob a coerção de elaborar em uma unidade todas as incitações oníricas simultaneamente existentes (p. 136). Vimos que, quando duas ou mais vivências impressionáveis da véspera sobraram, os desejos delas resultantes são reunidos em um sonho; do mesmo modo, ao material do sonho associam-se a impressão psiquicamente valiosa e as vivências indiferentes da véspera, desde que entre ambas possam estabelecer-se representações comunicantes. O sonho aparece, assim, como reação a tudo aquilo que existe simultaneamente como atual na psique adormecida.
Na medida em que analisamos até agora o material do sonho, reconhecemo-lo como uma coleção de restos psíquicos, traços mnêmicos, aos quais, em razão da preferência pelo material recente e pelo material infantil, tivemos de atribuir um caráter de atualidade psicologicamente ainda indeterminável. Não nos causa agora grande embaraço prever o que ocorrerá quando, a essas atualidades mnêmicas, se acrescentar novo material de sensações durante o estado de sono. Essas excitações adquirem novamente importância para o sonho pelo fato de serem atuais; unem-se às outras atualidades psíquicas para fornecer o material da formação do sonho. Dito de outro modo: os estímulos durante o sono são elaborados em uma realização de desejo cujos outros componentes são os restos diurnos psíquicos que conhecemos.
Essa união não precisa realizar-se; pois ouvimos que, diante de estímulos corporais durante o sono, é possível mais de um modo de conduta. Onde ela se realiza, ali precisamente se conseguiu encontrar, para o conteúdo do sonho, um material representacional que figura uma representação para as duas espécies de fontes do sonho, as somáticas e as psíquicas. A essência do sonho não se modifica quando material somático se junta às fontes psíquicas do sonho; ele continua sendo uma realização de desejo, independentemente de como sua expressão seja determinada pelo material atual.
Quero aqui deixar espaço para uma série de particularidades que podem tornar variável a importância dos estímulos externos para o sonho. Imagino que uma cooperação de fatores individuais, fisiológicos e casuais, dados nas circunstâncias de cada caso, decida sobre o modo como alguém se comportará, em cada situação, diante de uma excitação objetiva mais intensa durante o sono; a profundidade habitual e acidental do sono, combinada com a intensidade do estímulo, permitirá ora suprimir o estímulo de modo que ele não perturbe o sono, ora obrigará a despertar, ora favorecerá a tentativa de superar o estímulo entretecendo-o em um sonho. De acordo com a multiplicidade dessas constelações, os estímulos objetivos externos encontrarão expressão no sonho com maior ou menor frequência em um indivíduo do que em outro.
Em mim, que sou um excelente dorminhoco e me agarro obstinadamente a não me deixar perturbar no sono por nenhuma ocasião, a intromissão de causas externas de excitação nos sonhos é muito rara, enquanto motivos psíquicos evidentemente me levam a sonhar com muita facilidade. Registrei propriamente apenas um único sonho no qual se pode reconhecer uma fonte objetiva e dolorosa de estímulo, e será muito instrutivo verificar justamente nesse sonho que resultado onírico o estímulo externo produziu.
O sonho de cavalgar. Estou cavalgando um cavalo cinzento, a princípio hesitante e desajeitado, como se eu estivesse apenas apoiado. Então encontro um colega P., que, em traje de loden, está montado em seu cavalo e me adverte de alguma coisa (provavelmente, de que estou sentado de maneira errada). Agora vou me entendendo cada vez melhor sobre o cavalo extremamente inteligente, sento-me comodamente e percebo que lá em cima estou completamente em casa. Como sela tenho uma espécie de almofada que preenche por completo o espaço entre o pescoço e a garupa do cavalo. Cavalgo assim rente entre dois caminhões. Depois de ter cavalgado um trecho da rua, retorno e quero desmontar, primeiro diante de uma pequena capela aberta que fica na fachada da rua. Então desço de fato diante de uma outra próxima dela; o hotel fica na mesma rua; eu poderia deixar o cavalo ir sozinho até lá, mas prefiro conduzi-lo até esse ponto. É como se eu me envergonhasse de chegar lá como cavaleiro. Diante do hotel há um mensageiro que me mostra um bilhete que foi encontrado por mim e, por isso, zomba de mim. No bilhete está escrito, duas vezes sublinhado: Não comer, e depois uma segunda resolução (indistinta), algo como: não trabalhar; a isso se junta uma ideia obscura de que estou em uma cidade estrangeira, na qual não trabalho.
De início, não se perceberá no sonho que ele nasceu sob a influência, ou antes, sob a coerção, de um estímulo doloroso. Mas no dia anterior eu sofrera de furúnculos, que tornavam cada movimento um suplício, e por fim um furúnculo na raiz do escroto crescera até o tamanho de uma maçã, causando-me, a cada passo, dores intoleráveis; cansaço febril, falta de apetite e o trabalho pesado que eu, apesar disso, mantivera durante o dia, haviam se unido às dores para perturbar meu estado de ânimo. Eu não estava propriamente apto a cumprir minhas tarefas médicas, mas, pela natureza e pela localização do mal, podia-se pensar em uma outra atividade para a qual eu certamente estaria tão inapto quanto para nenhuma outra: cavalgar. E é justamente nessa atividade que o sonho me coloca; ela é a negação mais enérgica do sofrimento acessível à representação.
Em geral, não sei cavalgar; tampouco costumo sonhar com isso; estive sentado sobre um cavalo uma única vez, sem sela, e não gostei. Mas neste sonho eu cavalgo como se não tivesse nenhum furúnculo no períneo, não, precisamente porque não quero tê-lo. Minha sela é, conforme a descrição, a compressa de cataplasma que me possibilitou adormecer. Provavelmente, protegido desse modo, nada senti de meu sofrimento durante as primeiras horas de sono. Então as sensações dolorosas se anunciaram e quiseram me acordar; veio então o sonho e disse, de modo apaziguador: “Continue dormindo, você não vai acordar! Você não tem furúnculo nenhum, pois está cavalgando um cavalo, e com um furúnculo nesse lugar não se pode cavalgar!” E assim ele teve êxito; a dor foi abafada e continuei dormindo.
Mas o sonho não se contentou em “sugestionar para longe” o furúnculo por meio da obstinada fixação de uma representação incompatível com o sofrimento, comportando-se como a loucura alucinatória da mãe que perdeu seu filho(80), ou do comerciante que os prejuízos privaram de sua fortuna; os detalhes da sensação negada e da imagem utilizada para seu recalque servem-lhe também como material para ligar à situação do sonho aquilo que, de resto, existe como atual na alma, e para levá-lo à representação. Cavalgo um cavalo cinzento; a cor do cavalo corresponde exatamente ao traje sal e pimenta em que encontrei pela última vez o colega P. no campo. Alimentos fortemente temperados me foram apontados como causa da furunculose, ao menos uma etiologia preferível ao açúcar, em que se pode pensar no caso da furunculose.
O amigo P. gosta de montar no cavalo alto diante de mim, desde que me substituiu junto a uma paciente com a qual eu realizara grandes proezas (no sonho, sento-me sobre o cavalo, a princípio, de modo tangencial, como um cavaleiro acrobático), mas que, na realidade, como o cavalo da anedota fazia com o cavaleiro de domingo, conduziu-me para onde quis. Assim, o cavalo chega ao significado simbólico de uma paciente (no sonho, ele é extremamente inteligente). “Sinto-me completamente em casa lá em cima” remete à posição que eu ocupava naquela casa antes de ser substituído por P. “Eu pensava que o senhor estava firmemente sentado lá em cima na sela”, disse-me há pouco, em relação à mesma casa, um de meus poucos protetores entre os grandes médicos desta cidade.
Também foi uma proeza exercer psicoterapia de oito a dez horas por dia com dores como essas, mas sei que sem pleno bem-estar corporal não posso prosseguir por muito tempo em meu trabalho particularmente difícil, e o sonho está cheio de alusões sombrias à situação que então teria de resultar (o bilhete, como os neurastênicos os têm e mostram ao médico): não trabalhar e não comer. Em interpretação ulterior, vejo que o trabalho do sonho conseguiu encontrar, a partir da situação de desejo de cavalgar, o caminho para cenas muito antigas de briga infantil, que devem ter ocorrido entre mim e um sobrinho hoje residente na Inglaterra, aliás um ano mais velho que eu. Além disso, o sonho acolheu elementos de minhas viagens à Itália; a rua no sonho é composta por impressões de Verona e de Siena. Uma interpretação ainda mais profunda conduz a pensamentos sexuais do sonho, e lembro-me do que significavam, em uma paciente que nunca estivera na Itália, as alusões oníricas à bela terra (gen Italien, Genitalien), não sem ligação, ao mesmo tempo, com a casa em que eu era médico antes do amigo P. e com o lugar em que se encontra meu furúnculo.
(80) Compare-se a passagem em Griesinger e a observação em meu segundo ensaio sobre as psiconeuroses de defesa, Neurologisches Zentralblatt, 1896.
O desejo de continuar dormindo. Em outro sonho, consegui de modo semelhante afastar uma perturbação do sono que, dessa vez, ameaçava vir de uma excitação sensorial; mas foi apenas por acaso que pude descobrir a relação do sonho com o estímulo onírico casual e compreender o sonho desse modo. Certa manhã, despertei, em pleno verão, numa localidade alta do Tirol, sabendo que havia sonhado: O papa morreu. A interpretação desse sonho breve e não visual não me foi possível. Lembrava-me apenas de um apoio para o sonho: pouco tempo antes, o jornal noticiara um leve mal-estar de Sua Santidade.
Mas, no decorrer da manhã, minha mulher perguntou: “Você ouviu hoje cedo aquele horrível toque de sinos?” Eu nada sabia de tê-lo ouvido, mas então compreendi meu sonho. Ele fora a reação de minha necessidade de dormir ao ruído com que os piedosos tiroleses queriam me acordar. Vinguei-me deles pela conclusão que forma o conteúdo do sonho e continuei a dormir sem nenhum interesse pelo toque dos sinos.
Entre os sonhos mencionados nas seções precedentes já se encontrariam vários que podem servir como exemplos da elaboração dos chamados estímulos nervosos. O sonho de beber em grandes goles é um deles; nele, o estímulo somático é aparentemente a única fonte do sonho, e o desejo nascido da sensação, a sede, o único motivo do sonho. O mesmo ocorre em outros sonhos simples, quando o estímulo somático, por si só, é capaz de formar um desejo. O sonho da doente que, à noite, joga fora da bochecha o aparelho de resfriamento mostra um modo incomum de reagir a estímulos dolorosos por meio de uma realização de desejo; parece que a doente conseguiu temporariamente tornar-se analgésica, deslocando suas dores para outra pessoa.
Meu sonho das três Parcas é um evidente sonho de fome, mas sabe fazer retroceder a necessidade de alimento até o anseio da criança pelo seio materno e usar o desejo inofensivo como cobertura de outro mais sério, que não pode se expressar de modo tão desvelado. No sonho do conde Thun, pudemos ver por quais caminhos uma necessidade corporal dada acidentalmente é posta em conexão com as moções mais fortes, mas também mais fortemente suprimidas, da vida psíquica.
E quando, como no caso relatado por Garnier, o primeiro cônsul entretece o ruído da máquina infernal que explode em um sonho de batalha antes de despertar por causa dele, revela-se aí com especial clareza a tendência a serviço da qual a atividade psíquica se ocupa, em geral, das sensações durante o sono. Um jovem advogado que adormece cheio de seu primeiro grande processo de falência da tarde comporta-se de modo muito semelhante ao grande Napoleão. Sonha com certo G. Reich em Hussiatyn, que conhece do processo de falência; mas Hussiatyn se impõe de maneira cada vez mais imperiosa; ele precisa despertar e ouve sua mulher, que sofre de um catarro brônquico, tossir violentamente.
Comparemos esse sonho do primeiro Napoleão, que, aliás, era excelente dorminhoco, com aquele outro do estudante dorminhoco que, ao ser acordado por sua senhoria com a informação de que precisava ir ao hospital, sonha que está em um leito de hospital e então continua dormindo com a motivação: se já estou no hospital, não preciso levantar para ir até lá. Este último é um evidente sonho de comodidade; o adormecido confessa sem disfarce o motivo de seu sonhar, mas com isso revela um dos segredos do sonhar em geral. Em certo sentido, todos os sonhos são sonhos de comodidade; servem à intenção de continuar dormindo, em vez de despertar. O sonho é o guardião do sono, não seu perturbador.
Em outro lugar justificaremos essa concepção diante dos fatores que despertam psiquicamente; sua aplicabilidade ao papel dos estímulos objetivos externos já podemos fundamentar aqui. A alma ou não se ocupa de modo algum das ocasiões para sensações durante o sono, se puder fazê-lo contra a intensidade e o significado, bem compreendido por ela, desses estímulos; ou usa o sonho para negar ou desvalorizar tais estímulos; ou, em terceiro lugar, se precisa reconhecê-los, procura aquela interpretação deles que apresente a sensação atual como parte integrante de uma situação desejada e compatível com o dormir. A sensação atual é entretecida em um sonho para que se lhe retire a realidade. Napoleão pode continuar dormindo; afinal, é apenas uma lembrança sonhada do estrondo dos canhões de Arcole que quer perturbá-lo(81).
(81) O conteúdo desse sonho não é narrado de modo concordante nas duas fontes pelas quais o conheço.
O desejo de dormir, ao qual o eu consciente se ajustou e que, junto com a censura do sonho(82), constitui sua contribuição para o sonhar, deve, portanto, ser levado em conta todas as vezes como motivo da formação do sonho; e todo sonho bem-sucedido é uma realização desse desejo. De que modo esse desejo geral de dormir, regularmente existente e sempre igual a si mesmo, se relaciona com os outros desejos, dos quais ora este, ora aquele é realizado pelo conteúdo do sonho, será objeto de outra discussão. Mas, no desejo de dormir, descobrimos aquele fator capaz de preencher a lacuna na teoria de Strümpell-Wundt e de esclarecer o desvio e a instabilidade na interpretação do estímulo externo.
A interpretação correta, de que a alma adormecida é muito capaz, exigiria um interesse ativo, formularia a exigência de pôr fim ao sono; por isso, de todas as interpretações possíveis, só são admitidas aquelas compatíveis com a censura exercida de modo absolutista pelo desejo de dormir. Algo como: é o rouxinol, não a cotovia. Pois, se for a cotovia, a noite de amor chegou ao fim. Entre as interpretações agora admissíveis do estímulo, será então escolhida aquela que pode adquirir o melhor vínculo com as incitações de desejo à espreita na alma. Assim, tudo fica determinado de maneira unívoca, e nada é deixado ao arbítrio. A má interpretação não é ilusão, mas, se se quiser, desculpa. Também aqui, porém, como na substituição por deslocamento a serviço da censura do sonho, é preciso admitir um ato de flexão do processo psíquico normal.
(82) E da “elaboração secundária”, a ser mencionada mais adiante.
Aproveitamento de sensações penosas para a realização de desejos recalcados. Quando os estímulos nervosos externos e os estímulos corporais internos são intensos o bastante para impor atenção psíquica, eles constituem, se seu resultado for sonhar e não despertar, um ponto firme para a formação do sonho, um núcleo no material do sonho para o qual se procura uma realização de desejo correspondente, de maneira semelhante àquela em que, como vimos acima, se procuram as representações mediadoras entre dois estímulos psíquicos do sonho.
Nesse sentido, é correto afirmar, para certo número de sonhos, que neles o elemento somático comanda o conteúdo do sonho. Nesse caso extremo, até mesmo para fins de formação do sonho, desperta-se um desejo que não é atualmente ativo. O sonho, porém, não pode fazer outra coisa senão apresentar um desejo como realizado em uma situação; ele se vê, por assim dizer, diante da tarefa de procurar qual desejo pode ser representado como realizado pela sensação agora atual.
Se esse material atual é de caráter doloroso ou penoso, nem por isso é inutilizável para a formação do sonho. A vida psíquica dispõe também de desejos cuja realização provoca desprazer, o que parece uma contradição, mas se explica pelo recurso à existência de duas instâncias psíquicas e da censura que existe entre elas. Há, como ouvimos, desejos recalcados na vida psíquica, pertencentes ao primeiro sistema, contra cuja realização o segundo sistema se rebela. Há, aqui, não deve ser entendido historicamente, como se tais desejos tivessem existido e depois sido aniquilados; a doutrina do recalque, necessária na psiconeurótica, afirma que tais desejos recalcados ainda existem, mas simultaneamente existe uma inibição que pesa sobre eles. A língua acerta quando fala em “suprimir” tais impulsos. O dispositivo psíquico para que esses desejos suprimidos atravessem até a realização conserva-se e permanece utilizável. Mas, se ocorre de um desejo suprimido desse tipo efetivar-se, a inibição vencida do segundo sistema, apto à consciência, manifesta-se como desprazer.
Para concluir esta discussão: quando, durante o sono, sensações de caráter desprazeroso estão dadas a partir de fontes somáticas, essa constelação é utilizada pelo trabalho do sonho para representar a realização de um desejo de outro modo suprimido, com maior ou menor conservação da censura. Esse estado de coisas torna possível uma série de sonhos de angústia, enquanto outra série dessas formações oníricas desfavoráveis à teoria do desejo deixa reconhecer outro mecanismo.
A angústia nos sonhos pode ser psiconeurótica, derivar de excitações psicossexuais; nesse caso, a angústia corresponde à libido recalcada. Então essa angústia, como todo o sonho de angústia, tem o significado de um sintoma neurótico, e estamos na fronteira em que fracassa a tendência do sonho à realização de desejo. Em outros sonhos de angústia, porém, a sensação de angústia é dada somaticamente, como ocorre, por exemplo, em doentes dos pulmões e do coração sob dificuldade respiratória casual, e então é utilizada para ajudar a realizar, como sonho, aqueles desejos energicamente suprimidos cujo sonhar por motivos psíquicos teria tido como consequência a mesma liberação de angústia.
Não é difícil reunir os dois casos aparentemente separados. De duas formações psíquicas, uma tendência afetiva e um conteúdo representacional, que estão intimamente ligados, a que está atualmente dada desperta também no sonho a outra: ora a angústia dada somaticamente desperta o conteúdo representacional suprimido, ora o conteúdo representacional liberado do recalque e acompanhado de excitação sexual desperta a liberação de angústia. De um dos casos pode-se dizer que um afeto dado somaticamente é interpretado psiquicamente; no outro, tudo é dado psiquicamente, mas o conteúdo que esteve recalcado se substitui facilmente por uma interpretação somática adequada à angústia. As dificuldades que aqui se apresentam para a compreensão têm pouco a ver com o sonho; derivam do fato de que, com essas discussões, tocamos os problemas do desenvolvimento da angústia e do recalque.
Entre os estímulos oníricos comandantes provenientes da corporeidade interna, inclui-se sem dúvida o estado corporal geral. Não que ele pudesse fornecer o conteúdo do sonho, mas ele impõe aos pensamentos do sonho uma seleção no material que deverá servir à representação no conteúdo do sonho, aproximando uma parte desse material, por ser condizente com sua natureza, e mantendo afastada outra. Além disso, esse estado geral já está provavelmente vinculado, desde o dia, aos restos psíquicos importantes para o sonho. Esse estado de ânimo pode, no próprio sonho, conservar-se ou ser superado, de modo que, se for desprazeroso, converte-se em seu contrário.
Se as fontes somáticas de estímulo durante o sono, isto é, as sensações do sono, não têm intensidade incomum, então desempenham, segundo minha apreciação, papel semelhante na formação do sonho ao das impressões indiferentes do dia que permaneceram recentes. Quero dizer que elas são convocadas para a formação do sonho quando se prestam à união com o conteúdo representacional da fonte psíquica do sonho; caso contrário, não. São tratadas como um material barato, sempre disponível, que se usa sempre que dele se precisa, em vez de um material precioso que prescreve por si mesmo o modo de sua utilização.
O caso é mais ou menos semelhante ao do mecenas que traz ao artista uma pedra rara, um ônix, para que a transforme em obra de arte. O tamanho da pedra, sua cor e suas manchas ajudam a decidir que cabeça ou cena deverá ser nela representada, enquanto, diante de material uniforme e abundante, como mármore ou arenito, o artista segue apenas a ideia que se forma em seu espírito. Só dessa maneira me parece compreensível o fato de que aquele conteúdo do sonho fornecido pelos estímulos de nossa corporeidade não elevados até o incomum não apareça em todos os sonhos nem todas as noites no sonho(83).
(83) Rank demonstrou, em uma série de trabalhos, que certos sonhos de despertar provocados por estímulo orgânico (os sonhos de estímulo urinário e os sonhos de polução) são especialmente adequados para demonstrar a luta entre a necessidade de dormir e as exigências da necessidade orgânica, bem como a influência desta última sobre o conteúdo do sonho.
Um sonho de inibição. Talvez um exemplo que nos reconduz à interpretação dos sonhos esclareça melhor minha opinião. Certo dia, esforcei-me para compreender o que poderia significar a sensação de estar inibido, de não poder sair do lugar, de não conseguir terminar etc., que tão frequentemente é sonhada e que é tão intimamente aparentada com a angústia. Na noite seguinte, tive este sonho: Vou, em vestimenta muito incompleta, de um apartamento no térreo, pela escada, para um andar mais alto. Ao fazer isso, salto sempre três degraus de uma vez, e fico contente por poder subir escadas com tanta agilidade. De repente vejo que uma criada desce a escada e vem, portanto, ao meu encontro. Tenho vergonha, quero apressar-me, e agora surge aquela inibição: fico colado aos degraus e não consigo sair do lugar.
Análise: A situação do sonho foi retirada da realidade cotidiana. Tenho, em uma casa de Viena, dois apartamentos, ligados apenas pela escada externa. No mezanino ficam meu consultório médico e minha sala de trabalho; um andar acima, os aposentos de moradia. Quando termino meu trabalho tarde da noite embaixo, subo a escada até o quarto de dormir. Na noite anterior ao sonho, eu realmente fiz esse breve caminho em trajes um tanto desarrumados, isto é, havia tirado colarinho, gravata e punhos; no sonho, disso resultou um grau mais elevado, mas, como de costume, indeterminado, de nudez.
Saltar degraus é minha maneira habitual de subir a escada; aliás, uma realização de desejo já reconhecida no sonho, pois, com a facilidade dessa execução, eu me tranquilizara quanto ao estado de meu funcionamento cardíaco. Além disso, esse modo de subir a escada é um eficaz contraste com a inibição da segunda metade do sonho. Ele me mostra, o que não precisava de prova, que o sonho não tem dificuldade alguma em representar ações motoras executadas em toda a sua perfeição; pense-se no voar no sonho!
A escada pela qual subo, porém, não é a de minha casa; de início não a reconheço, e só a pessoa que vem ao meu encontro esclarece para mim qual é o lugar referido. Essa pessoa é a criada da velha senhora que visito duas vezes por dia para lhe aplicar injeções; a escada também é muito semelhante àquela que preciso subir duas vezes por dia naquela casa.
Como chegam então essa escada e essa mulher ao meu sonho? A vergonha por não se estar completamente vestido tem, sem dúvida, caráter sexual; a criada com quem sonho é mais velha que eu, rabugenta e nada atraente. A essas perguntas, nada me ocorre senão o seguinte: quando faço a visita da manhã nessa casa, sou habitualmente acometido, na escada, por pigarro; o produto da expectoração cai nos degraus. Em nenhum desses dois andares há escarradeira, e sustento o ponto de vista de que a limpeza da escada não deve ocorrer à minha custa, mas deve ser possibilitada pela colocação de uma escarradeira.
A zeladora, uma pessoa igualmente idosa e rabugenta, mas dotada de instintos de limpeza, como estou disposto a reconhecer, adota nessa questão outro ponto de vista. Ela fica à espreita para ver se volto a permitir-me a mencionada liberdade, e, quando constata isso, ouço-a resmungar claramente. Também me nega por dias a consideração habitual quando nos encontramos. Na véspera do sonho, o partido da zeladora recebeu um reforço da criada. Eu havia terminado minha visita à doente com a pressa de sempre quando a criada me interceptou no vestíbulo e fez a observação: “O senhor doutor bem que podia ter limpado as botas hoje, antes de entrar no quarto. O tapete vermelho está de novo todo sujo por causa de seus pés.” Essa é toda a pretensão que a escada e a criada podem reivindicar para aparecer em meu sonho.
Entre o meu voo pela escada e o meu cuspir na escada há uma íntima conexão. O catarro faríngeo e as queixas cardíacas devem ambos representar castigos pelo vício de fumar, por causa do qual, naturalmente, não gozo junto à minha dona da casa da reputação de maior asseio, nem em uma casa nem na outra, que o sonho funde em uma só formação. Devo adiar a interpretação ulterior do sonho até poder relatar de onde provém o sonho típico da vestimenta incompleta. Observo apenas, como resultado provisório do sonho comunicado, que a sensação onírica do movimento inibido é evocada em todos os lugares em que certo contexto necessita dela. Um estado especial de minha motilidade durante o sono não pode ser a causa desse conteúdo do sonho, pois, um instante antes, eu me via, como que para assegurar essa constatação, correndo com pés leves pelos degraus.