f) Exemplos de representações. Calcular e falar no sonho A Interpretação dos Sonhos · Capítulo 28 de 44
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f) Exemplos de representações. Calcular e falar no sonho

f) Exemplos de representações. Calcular e falar no sonho.

Antes de colocar no lugar que lhe cabe o quarto dos fatores que dominam a formação do sonho, quero recorrer a alguns exemplos de minha coleção de sonhos, os quais, em parte, esclarecem a cooperação dos três fatores que já conhecemos e, em parte, acrescentam provas a afirmações deixadas livremente de pé ou desenvolvem conclusões inevitáveis a partir delas. Na exposição anterior do trabalho do sonho, foi-me de fato bastante difícil demonstrar meus resultados por exemplos.

Os exemplos para cada uma das proposições só têm força probatória no contexto de uma interpretação do sonho; destacados desse contexto, perdem sua beleza, e uma interpretação do sonho, mesmo quando apenas um pouco aprofundada, logo se torna tão extensa que faz perder o fio da discussão que deveria ilustrar. Que esse motivo técnico me desculpe, então, se agora ponho em sequência elementos diversos que só se mantêm reunidos por sua relação com o texto da seção precedente.

Antes de tudo, alguns exemplos de modos de representação especialmente peculiares ou incomuns no sonho. No sonho de uma senhora consta: Uma criada está sobre a escada, como se fosse limpar janelas, e tem consigo um chimpanzé e uma gata-gorila, depois corrigido: gata angorá. Ela atira os animais contra a sonhadora; o chimpanzé se aconchega a esta, e isso é muito repugnante.

Esse sonho atingiu seu objetivo por meio de um expediente extremamente simples, pois tomou literalmente uma expressão idiomática e a representou segundo sua formulação verbal. “Macaco”, assim como nomes de animais em geral, é palavra injuriosa, e a situação do sonho não diz outra coisa senão “atirar insultos em torno de si”. Esta mesma coleção trará logo outros exemplos do emprego desse simples artifício no trabalho do sonho.

De modo inteiramente semelhante procede outro sonho: Uma mulher com uma criança que tem o crânio notavelmente deformado; ela ouviu dizer que essa criança ficou assim pela posição no ventre materno. O médico diz que se poderia dar ao crânio uma forma melhor por compressão, mas isso faria mal ao cérebro. Ela pensa que, como é um menino, isso lhe fará menos mal. Este sonho contém a representação plástica do conceito abstrato “impressões infantis”, que a sonhadora ouvira nas explicações do tratamento.

O trabalho do sonho segue um caminho um pouco diferente no exemplo seguinte. O sonho contém a lembrança de um passeio ao Hilmteich, perto de Graz: Há um tempo horrível lá fora; um hotel miserável, das paredes pinga água, as camas estão úmidas. Esta última parte do conteúdo aparece no sonho de maneira menos direta do que a trago aqui. O sonho significa “supérfluo”.

O abstrato que se encontrava nos pensamentos do sonho foi, antes de tudo, tornado equívoco de modo um tanto forçado, substituído mais ou menos por “transbordante”, ou por “fluido e supérfluo”, e então levado à representação por meio de um acúmulo de impressões homogêneas. Água fora, água dentro nas paredes, água como umidade nas camas, tudo fluido e “super”fluo.

Que, para fins de representação no sonho, a ortografia fique muito atrás do som da palavra, não nos surpreenderá, quando, por exemplo, a rima pode permitir-se liberdades semelhantes. Em um sonho extenso de uma jovem, comunicado por Rank e analisado com grande minúcia, conta-se que ela passeia entre campos onde corta belas espigas de cevada e de trigo. Um amigo da juventude vem ao seu encontro, e ela quer evitar encontrá-lo.

A análise mostra que se trata de um “beijo honroso”. As espigas, que não devem ser arrancadas, mas cortadas, servem nesse sonho, como tais e em sua condensação com “honra”, “homenagens”, para a representação de toda uma série de outros pensamentos.

Em outros casos, a língua tornou muito fácil para o sonho a representação de seus pensamentos, pois dispõe de uma série inteira de palavras que originariamente eram entendidas de modo figurado e concreto, e que atualmente são usadas em sentido esmaecido, abstrato. O sonho precisa apenas devolver a essas palavras sua antiga significação plena, ou descer um pouco na mudança de sentido da palavra.

Por exemplo, alguém sonha que seu irmão está dentro de uma caixa. No trabalho de interpretação, a caixa se substitui por um “armário”, e então o pensamento do sonho diz que esse irmão deve “restringir-se”, isto é, em seu lugar. Outro sonhador sobe a uma montanha, de onde tem uma vista extraordinariamente ampla. Ele se identifica nisso com um irmão que edita uma “revista panorâmica”, dedicada às relações com o Extremo Oriente.

Em um sonho do Henrique Verde, um cavalo impetuoso se revolve na mais bela aveia; mas cada grão é “um doce miolo de amêndoa, uma uva-passa e uma moeda nova”, tudo “envolto em seda vermelha e amarrado com uma pontinha de cerda de porco”. O poeta, ou o sonhador, dá-nos de imediato a interpretação dessa representação do sonho, pois o cavalo sente uma agradável comichão e exclama: “A aveia me espeta.”

Especialmente abundante é o uso do sonho de expressões idiomáticas e de chistes verbais, segundo Henzen, na literatura das antigas sagas nórdicas, em que dificilmente se encontra um exemplo de sonho sem duplo sentido ou jogo de palavras. Seria um trabalho especial reunir esses modos de representação e ordená-los segundo os princípios que lhes servem de base.

Algumas dessas representações quase podem ser chamadas de espirituosas. Tem-se a impressão de que jamais as teríamos adivinhado por nós mesmos se o sonhador não soubesse comunicá-las.

1. Um homem sonha que lhe perguntam por um nome, mas ele não consegue lembrar-se dele. Ele próprio explica que isso quer dizer: “Isso não me ocorre em sonho.”

2. Uma paciente relata um sonho no qual todas as pessoas que agiam eram particularmente grandes. Isso quer dizer, acrescenta ela, que deve tratar-se de um acontecimento de minha primeira infância, pois naquela época todos os adultos naturalmente me pareciam enormes. A própria pessoa dela não aparecia nesse conteúdo do sonho. O deslocamento para a infância é expresso em outros sonhos também de outra maneira, na medida em que tempo é traduzido em espaço. Veem-se as pessoas e cenas em questão como muito distantes, ao fim de um longo caminho, ou como se fossem contempladas por um binóculo de ópera usado ao contrário.

3. Um homem inclinado, na vida desperta, a um modo de expressão abstrato e indeterminado, mas dotado de bom chiste, sonha, em certo contexto, que vai a uma estação ferroviária no momento em que chega um trem. Então, porém, a plataforma é aproximada do trem parado, isto é, uma inversão absurda do processo real. Esse detalhe também não é mais que um índice que recorda que algo diferente no conteúdo do sonho deve ser invertido. A análise do mesmo sonho leva a lembranças de livros ilustrados em que homens estavam representados de cabeça para baixo, andando sobre as mãos.

4. O mesmo sonhador informa, em outra ocasião, um sonho breve, que quase lembra a técnica de um rébus. Seu tio lhe dá um beijo no automóvel. Ele acrescenta imediatamente a interpretação, que eu nunca teria encontrado: isso significa autoerotismo. Um gracejo na vigília poderia ter sido formulado da mesma maneira.

5. O sonhador puxa uma mulher de trás da cama. Isso quer dizer: dá-lhe a preferência.

6. O sonhador está sentado, como oficial, a uma mesa diante do imperador: põe-se em oposição ao pai.

7. O sonhador trata outra pessoa por causa de uma fratura óssea. A análise mostra que essa fratura é a representação de um adultério, e assim por diante.

8. As horas do dia representam com muita frequência, no conteúdo do sonho, épocas da vida infantil. Assim, por exemplo, cinco e quinze da manhã significam, em um sonhador, a idade de cinco anos e três meses, o momento significativo do nascimento de um irmão mais novo.

9. Outra representação de épocas da vida no sonho: uma mulher caminha com duas meninas pequenas, separadas por um ano e três meses de idade. A sonhadora não encontra nenhuma família de suas relações à qual isso se ajuste. Ela mesma interpreta que as duas crianças representam sua própria pessoa, e que o sonho lhe recorda que os dois acontecimentos traumáticos de sua infância estão separados exatamente por esse intervalo, três anos e meio e quatro anos e nove meses.

10. Hans Sachs: “A partir de A Interpretação dos Sonhos, sabemos que o trabalho do sonho conhece vários caminhos para representar sensível e intuitivamente uma palavra ou uma expressão. Ele pode, por exemplo, aproveitar-se do fato de que a expressão a ser representada é ambígua e, usando o duplo sentido como ‘desvio de trilho’, em vez da primeira significação, que ocorre nos pensamentos do sonho, incorporar ao conteúdo manifesto do sonho a segunda. Foi isso que ocorreu no pequeno sonho comunicado a seguir, com hábil aproveitamento das impressões diurnas recentes adequadas como material de representação.

No dia do sonho, eu sofrera de um resfriado e, por isso, à noite, decidira não deixar a cama durante a noite, se isso fosse de algum modo possível. O sonho aparentemente me deixava apenas prosseguir meu trabalho diurno; eu estivera ocupado em colar recortes de jornal em um livro, esforçando-me por designar a cada recorte o lugar apropriado.

O sonho dizia: ‘Esforço-me por colar um recorte no livro; mas ele não vai para o lado, o que me causa grande dor.’ Acordei e tive de constatar que a dor do sonho continuava como dor corporal real, que então me obrigou a ser infiel à minha resolução.

O sonho havia simulado para mim, como ‘guardião do sono’, a realização de meu desejo de permanecer na cama, por meio da representação das palavras ‘ele não vai para o lado’.”

Com frequência, o trabalho do sonho também consegue representar material muito refratário, como nomes próprios, mediante o aproveitamento forçado de relações muito remotas. Em um de meus sonhos, o velho Brücke me propôs uma tarefa. Faço uma preparação e retiro algo que parece papel prateado amassado. Falarei mais desse sonho mais tarde.

A associação, nada fácil de encontrar, resulta em “estanho”, e então sei que tenho em vista o nome de autor Stannius, que figurava em um tratado sobre o sistema nervoso dos peixes que eu, em anos anteriores, considerara com veneração. A primeira tarefa científica que meu mestre realmente me propôs dizia respeito ao sistema nervoso de um peixe, o Ammocoetes. Este último nome evidentemente não era de modo algum utilizável em um enigma por imagens.

Não quero privar-me de inserir aqui ainda um sonho de conteúdo estranho, também notável como sonho infantil e muito facilmente esclarecido pela análise. Uma senhora conta: Posso lembrar-me de que, quando criança, sonhei repetidas vezes que o bom Deus tinha na cabeça um chapéu de papel pontudo.

Muitas vezes me punham um chapéu assim à mesa para que eu não pudesse olhar para os pratos das outras crianças e ver quanto recebiam de determinada comida. Como eu ouvira dizer que Deus sabe tudo, o sonho significa que eu sabia tudo, apesar do chapéu colocado.

Números e cálculos no sonho.

Em que consiste o trabalho do sonho e como ele lida com seu material, os pensamentos do sonho, pode ser mostrado de maneira instrutiva pelos números e cálculos que ocorrem nos sonhos. Além disso, números sonhados são considerados pelo supersticioso como particularmente promissores. Quero, portanto, escolher alguns exemplos dessa espécie em minha coleção.

I. Do sonho de uma senhora, pouco antes do término de seu tratamento: Ela quer pagar alguma coisa; sua filha tira de sua bolsa 3 florins e 65 kreuzer; ela diz, porém: O que está fazendo? Custa apenas 21 kreuzer.

Esse pedacinho de sonho tornou-se compreensível para mim, sem outros esclarecimentos da parte dela, pelas circunstâncias da sonhadora. A senhora era estrangeira, tinha a filha em um instituto educacional de Viena e podia prosseguir meu tratamento enquanto a filha permanecesse em Viena. Dentro de três semanas, terminava o ano escolar da filha, e com isso também o tratamento.

No dia anterior ao sonho, a diretora do instituto lhe sugerira que se decidisse a deixar a criança ali por mais um ano. Evidentemente, ela dera prosseguimento a essa sugestão, pensando que, nesse caso, também poderia prolongar o tratamento por um ano.

É a isso que o sonho se refere, pois um ano é igual a 365 dias; as três semanas que faltavam até o encerramento do ano escolar e do tratamento podem ser substituídas por 21 dias, ainda que não por igual número de horas de tratamento. Os números que, nos pensamentos do sonho, correspondiam a tempos, são atribuídos no sonho a valores monetários, não sem que, com isso, se exprima um sentido mais profundo, pois “Time is money”, tempo tem valor monetário. 365 kreuzer são então, de fato, 3 florins e 65 kreuzer.

A pequenez das quantias que aparecem no sonho é uma realização de desejo evidente; o desejo reduziu tanto os custos do tratamento quanto os do ano letivo no instituto.

II. Relações mais complicadas são introduzidas pelos números em outro sonho. Uma senhora jovem, mas já casada há alguns anos, fica sabendo que uma conhecida, Elise L., quase da mesma idade, acabou de ficar noiva. Em seguida sonha: Está sentada com o marido no teatro; um lado da plateia está inteiramente vazio. O marido lhe conta que Elise L. e o noivo também quiseram ir, mas só conseguiram lugares ruins, três por 1 florim e 50 kreuzer, e estes eles naturalmente não puderam aceitar. Ela acha que também não teria sido nenhuma desgraça.

De onde vêm 1 florim e 50 kreuzer? De uma ocasião, propriamente indiferente, do dia anterior. Sua cunhada recebera do marido 150 florins de presente e apressara-se em se desfazer deles, comprando uma joia. Notemos que 150 florins são cem vezes mais que 1 florim e 50 kreuzer.

De onde vem o três que aparece nos assentos do teatro? Para isso há apenas uma ligação: a noiva é justamente três meses mais jovem que ela. A solução do sonho vem então pela investigação do que pode significar o traço, no sonho, de que um lado da plateia permanece vazio. Esse traço é uma alusão inalterada a um pequeno acontecimento que dera ao marido bom motivo para caçoar dela.

Ela se propusera ir a uma das apresentações teatrais anunciadas para a semana e fora tão previdente que comprara ingressos com vários dias de antecedência, pelos quais teve de pagar taxa de reserva. Quando chegaram ao teatro, viram que um lado da sala estava quase vazio; ela não teria precisado apressar-se tanto.

Agora vou substituir o sonho pelos pensamentos do sonho: “Foi uma tolice casar tão cedo; eu não teria precisado apressar-me; pelo exemplo de Elise L. vejo que ainda teria conseguido um marido. E, aliás, um cem vezes melhor, se eu apenas tivesse esperado, em oposição ao apressar-se da cunhada. Três desses homens eu teria podido comprar com o dinheiro, o dote.”

Observamos que, nesse sonho, os números mudaram de significado e de conexão em grau muito maior que no sonho tratado antes. O trabalho de transformação e deformação do sonho foi aqui mais amplo, o que interpretamos dizendo que esses pensamentos do sonho tiveram de vencer uma medida especialmente elevada de resistência intrapsíquica até alcançar sua representação.

Não devemos esquecer tampouco que, nesse sonho, há um elemento absurdo, a saber, que duas pessoas devam tomar três assentos. Entramos na interpretação da absurdidade no sonho ao assinalar que esse detalhe absurdo do conteúdo do sonho deve representar o mais acentuado dos pensamentos do sonho: foi uma tolice casar tão cedo.

O três, contido em uma relação inteiramente secundária entre as duas pessoas comparadas, a diferença de três meses de idade, foi então habilmente usado para produzir o contrassenso exigido pelo sonho. A redução dos 150 florins reais a 1 florim e 50 kreuzer corresponde à depreciação do marido, ou do tesouro, nos pensamentos suprimidos da sonhadora.

III. Outro exemplo nos mostra a arte de calcular do sonho, que lhe rendeu tanto desprezo. Um homem sonha: Está sentado junto à família B., uma família de suas relações anteriores, e diz: Foi uma tolice vocês não me terem dado Mali. Em seguida pergunta à moça: Quantos anos você tem? Resposta: Nasci em 1882. Ah, então você tem 28 anos.

Como o sonho ocorre no ano de 1898, isso evidentemente está mal calculado, e a fraqueza aritmética do sonhador pode ser colocada ao lado da do paralítico, caso não seja possível esclarecê-la de outra maneira.

Meu paciente pertencia àquelas pessoas cujos pensamentos não deixam em paz mulher alguma que vejam. Sua sucessora em meu consultório foi, por alguns meses, uma jovem senhora que ele encontrava, sobre quem perguntava frequentemente e com quem queria portar-se da maneira mais cortês. Era essa pessoa cuja idade ele estimava em 28 anos. Isso esclarece o resultado da aparente conta.

Mas 1882 foi o ano em que ele se casou. Ele não deixara de travar conversa também com as duas outras pessoas do sexo feminino que encontrou em minha casa, as duas moças de modo algum jovens que se revezavam para abrir-lhe a porta; e, como as achou pouco acessíveis, deu a si mesmo a explicação de que provavelmente o tomavam por um senhor mais velho e “assentado”.

Calcular e falar no sonho.

IV. Outro sonho numérico, notável por sua determinação transparente, ou antes por sua sobredeterminação, devo, junto com sua interpretação, ao senhor B. Dattner: “Meu senhorio, guarda de segurança em serviço municipal, sonha que está de guarda na rua, o que é uma realização de desejo. Então se aproxima dele um inspetor, que traz no colarinho os números 22 e 62, ou 26. De todo modo, havia vários dois ali.

Já a decomposição do número 2262 ao relatar o sonho permite concluir que seus componentes têm uma significação separada. No dia anterior, ocorre-lhe, eles haviam falado no serviço sobre o tempo de trabalho. A ocasião fora dada por um inspetor que se aposentara aos 62 anos. O sonhador tem apenas 22 anos de serviço e ainda precisa de 2 anos e 2 meses para alcançar uma aposentadoria de 90%.

O sonho lhe mostra, então, antes de tudo, a realização de um desejo há muito nutrido: a patente de inspetor. O superior com o número 2262 no colarinho é ele próprio; presta seu serviço na rua, também um desejo favorito, cumpriu seus 2 anos e 2 meses e agora pode, como o inspetor de 62 anos, deixar o serviço com aposentadoria integral(160).”

(160) Análises de outros sonhos numéricos encontram-se em Jung, Marcinowski e outros. Muitas vezes elas pressupõem operações numéricas muito complicadas, que, no entanto, são efetuadas pelo sonhador com espantosa segurança. Ver também Jones, “Sobre o tratamento inconsciente dos números”, Zentralblatt für Psychoanalyse II, 1912, p. 241 e seg.

Quando reunimos esses e outros exemplos semelhantes, que virão mais adiante, podemos dizer: o trabalho do sonho absolutamente não calcula, nem corretamente nem erroneamente; ele apenas junta, na forma de uma conta, números que ocorrem nos pensamentos do sonho e podem servir como alusões a um material não representável. Trata, assim, os números exatamente da mesma maneira como material para a expressão de suas intenções que todas as outras representações, e também como os nomes e as falas reconhecíveis como representações verbais.

Pois o trabalho do sonho também não pode criar fala nova. Por mais que, nos sonhos, ocorram fala e réplica, que em si mesmas podem ser sensatas ou absurdas, a análise mostra sempre que o sonho, nisso, apenas retirou dos pensamentos do sonho fragmentos de falas realmente feitas ou ouvidas, tratando-os com a maior arbitrariedade.

Ele não apenas os arrancou de seu contexto e os despedaçou, acolhendo uma parte e rejeitando outra, como também muitas vezes os recompôs de novo, de modo que a fala do sonho aparentemente coerente, na análise, se decompõe em três ou quatro pedaços. Nesse novo emprego, com frequência ele deixou de lado o sentido que as palavras tinham nos pensamentos do sonho e extraiu de sua formulação verbal um sentido inteiramente novo(161).

Observando mais de perto, distinguem-se na fala do sonho componentes mais claros, compactos, de outros que servem como material de ligação e provavelmente foram completados, assim como completamos letras e sílabas omitidas durante a leitura. A fala do sonho tem, portanto, a estrutura de uma rocha brechada, na qual fragmentos maiores de materiais diversos são mantidos juntos por uma massa intermediária endurecida.

(161) Do mesmo modo que o sonho, procede também a neurose. Conheço uma paciente que sofre por ouvir, de modo involuntário e contra sua vontade, canções ou trechos delas, alucinados, sem conseguir compreender seu significado para sua vida psíquica. Ela certamente não é paranoica. A análise mostra, então, que ela abusou do texto dessas canções mediante certas licenças. “Leise, leise, fromme Weise.” Isso significa, para seu inconsciente: “órfã piedosa”, e essa órfã é ela mesma. “O du selige, o du fröhliche” é o início de um cântico natalino; ao não prosseguir até “tempo de Natal”, ela transforma isso em canção nupcial, e assim por diante. O mesmo mecanismo de deformação pode, aliás, impor-se também sem alucinação, na simples associação. Por que um de meus pacientes é assediado pela lembrança de um poema que teve de aprender quando jovem: “Nächtlich am Busento lispeln...”? Porque sua fantasia se contenta com um trecho dessa citação: “Noturnamente ao seio.” Sabe-se que o chiste paródico não renuncia a esse pedacinho de técnica. As Fliegende Blätter trouxeram certa vez, entre suas ilustrações aos “clássicos” alemães, também uma imagem para a Festa da Vitória de Schiller, em que a citação se interrompia cedo demais. “E da mulher recém-conquistada / alegra-se o Átrida e tricota.” Continuação: “Em torno ao encanto do belo corpo / seus braços, em alta ventura.”

Em rigor absoluto, essa descrição só vale para aquelas falas no sonho que têm algo do caráter sensorial da fala e são descritas como “falas”. As outras, que não são sentidas como ouvidas ou ditas, por assim dizer, e que não têm no sonho nenhuma coacentuação acústica ou motora, são simplesmente pensamentos tais como ocorrem em nossa atividade de pensamento desperta e passam inalterados a muitos sonhos.

Para o material de fala do sonho que se considera indiferente, a leitura parece oferecer também uma fonte abundantemente fluente e difícil de rastrear. Tudo, porém, que no sonho se destaca de algum modo como fala submete-se à recondução a uma fala real, feita ou ouvida pelo próprio sonhador.

Exemplos da derivação de tais falas do sonho já encontramos na análise de sonhos comunicados com outros fins. Assim, no “sonho inofensivo do mercado”, p. 139, em que a fala “Isto não está mais disponível” serve para me identificar com o açougueiro, enquanto um trecho da outra fala, “Isto eu não conheço, isto eu não levo”, cumpre justamente a tarefa de tornar o sonho inofensivo.

No dia anterior, a sonhadora repelira alguma exigência de sua cozinheira com as palavras: “Isto eu não conheço, comporte-se decentemente”, e então tomou dessa fala o primeiro trecho, de som indiferente, para o sonho, a fim de aludir com ele ao trecho posterior, que se ajustaria muito bem à fantasia que servia de base ao sonho, mas que também a teria traído.

Um exemplo semelhante, no lugar de muitos que deram sempre o mesmo resultado: Um grande pátio, no qual cadáveres são queimados. Ele diz: “Vou embora daqui, não posso ver isso.” Nenhuma fala clara. Depois encontra dois rapazes de açougueiro e pergunta: “Então, estava gostoso?” Um deles responde: “Não, não estava bom.” Como se tivesse sido carne humana.

A ocasião inofensiva desse sonho é a seguinte: depois do jantar, ele faz com a mulher uma visita aos honrados, mas de modo algum apetitosos, vizinhos. A velha senhora hospitaleira está justamente em seu jantar e o constrange, em tom de brincadeira, usa-se para isso entre homens uma palavra composta de significação sexual, a prová-lo. Ele recusa, diz que já não tem apetite. “Ora, vá embora, o senhor ainda aguenta isso”, ou algo semelhante. Ele precisa então provar e elogia o que lhe é oferecido: “Mas isto está bom.” Quando está novamente a sós com a mulher, resmunga tanto contra a insistência da vizinha quanto contra a qualidade da comida provada.

“Não posso ver isso”, que também no sonho não aparece como fala propriamente dita, é um pensamento que se refere aos atrativos corporais da senhora que convida, e deve ser traduzido como: ele não deseja contemplá-los.

O sonho “Non vixit”.

Mais instrutiva se mostrará a análise de outro sonho, que comunico já neste ponto por causa da fala muito nítida que constitui seu centro, mas que só esclarecerei na avaliação dos afetos no sonho. Sonho com muita clareza: Fui de noite ao laboratório de Brücke e, a uma batida leve na porta, abro ao falecido professor Fleischl, que entra com vários estranhos e, depois de algumas palavras, senta-se à sua mesa.

Segue-se então um segundo sonho: Meu amigo Fl. veio discretamente a Viena em julho; encontro-o na rua em conversa com meu falecido amigo P. e vou com eles a algum lugar, onde se sentam um diante do outro, como em uma pequena mesa, e eu fico na parte estreita da mesinha, à frente. Fl. fala de sua irmã e diz: Em três quartos de hora ela estava morta, e depois algo como: Esse é o limiar. Como P. não o entende, Fl. volta-se para mim e me pergunta quanto de suas coisas comuniquei a P. Então eu, tomado por afetos estranhos, quero comunicar a Fl. que P. não pode saber absolutamente nada, pois não está vivo. Mas digo, percebendo eu mesmo o erro: Non vixit. Então olho P. de modo penetrante; sob meu olhar, ele fica pálido, indistinto, seus olhos se tornam patologicamente azuis, e por fim ele se dissolve.

Fico imensamente contente com isso, entendo agora que também Ernst Fleischl era apenas uma aparição, um revenant, e acho inteiramente possível que uma pessoa assim só exista enquanto se quer, e que possa ser eliminada pelo desejo de outro.

Esse belo sonho reúne tantos dos caracteres enigmáticos do conteúdo do sonho, a crítica durante o próprio sonho, pois eu mesmo noto meu erro ao dizer Non vixit em vez de Non vivit; o trato despreocupado com mortos, que o próprio sonho declara mortos; a absurdidade da conclusão e a alta satisfação que ela me proporciona, que eu “daria a vida” para comunicar a solução completa desses enigmas.

Mas, na realidade, sou incapaz de fazer o que faço no sonho, sacrificar ao meu amor-próprio a consideração por pessoas tão queridas. Com qualquer encobrimento, porém, o sentido do sonho, que conheço bem, ficaria arruinado. Por isso me contento em destacar, primeiro aqui e depois em outro ponto, alguns elementos do sonho para a interpretação.

O centro do sonho é uma cena na qual aniquilo P. com um olhar. Seus olhos tornam-se estranhamente e sinistramente azuis, e então ele se dissolve. Essa cena é a reprodução inconfundível de uma vivência real. Eu era demonstrador no Instituto de Fisiologia, tinha o serviço nas primeiras horas da manhã, e Brücke soubera que, algumas vezes, eu chegara atrasado ao laboratório dos alunos. Então veio certa vez pontualmente para a abertura e esperou-me. O que ele me disse foi escasso e definido; mas as palavras não eram o que importava.

O esmagador eram os terríveis olhos azuis com que ele me fitava, diante dos quais eu desaparecia, como P. no sonho, que, para meu alívio, trocou os papéis. Quem pode lembrar-se dos belos olhos do grande mestre até a idade mais avançada e o viu alguma vez encolerizado poderá facilmente pôr-se nos afetos do jovem pecador de então.

Durante muito tempo, porém, não consegui derivar o Non vixit com o qual, no sonho, exerço aquela justiça, até me recordar de que essas duas palavras não tinham possuído no sonho tanta nitidez como ouvidas ou gritadas, mas como vistas. Então soube imediatamente de onde vinham. No pedestal do monumento ao imperador José, na Hofburg de Viena, leem-se as belas palavras: Saluti patriae vixit non diu sed totus.

Dessa inscrição, eu retirara o que se ajustava a uma das séries hostis de pensamentos em meus pensamentos do sonho, e que devia significar: esse sujeito não tem absolutamente nada a dizer aqui; afinal, ele nem vive.

E agora tive de me lembrar de que o sonho fora sonhado poucos dias depois da inauguração do monumento a Fleischl nas arcadas da Universidade, ocasião em que eu também revira o monumento de Brücke e devo ter considerado, inconscientemente, com pesar, que meu amigo P., altamente dotado e inteiramente dedicado à ciência, perdera, por sua morte demasiado precoce, seu fundado direito a um monumento naqueles espaços. Assim, ergui-lhe esse monumento no sonho; meu amigo P. chamava-se José pelo primeiro nome(162).

(162) Como contribuição à sobredeterminação: minha desculpa para o atraso consistia em que, depois de longa noite de trabalho, eu tivera de fazer pela manhã o longo trajeto da Kaiser Josef-Strasse até a Währingerstrasse.

Segundo as regras da interpretação dos sonhos, eu ainda não estaria autorizado a substituir o Non vivit, de que necessito, pelo Non vixit que a lembrança do monumento a José me põe à disposição. Outro elemento dos pensamentos do sonho deve ter possibilitado isso por sua contribuição. Algo me leva agora a notar que, na cena do sonho, duas correntes de pensamento, uma hostil e uma terna, encontram-se em relação a meu amigo P.; a primeira superficial, a segunda encoberta, e ambas alcançam sua representação nas mesmas palavras: Non vixit.

Porque ele prestou serviços à ciência, ergo-lhe um monumento; mas porque se tornou culpado de um mau desejo, expresso no fim do sonho, eu o aniquilo. Formei aqui uma frase de sonoridade muito particular, na qual devo ter sido influenciado por um modelo.

Onde se encontra uma antítese semelhante, uma justaposição de duas reações opostas diante da mesma pessoa, ambas pretendendo estar plenamente justificadas e, no entanto, não querendo perturbar uma à outra? Em um único lugar, que se imprime profundamente no leitor; no discurso de justificação de Brutus, no Júlio César de Shakespeare: “Porque César me amava, choro por ele; porque era feliz, alegro-me; porque era valente, honro-o; mas porque era ambicioso, matei-o.” Não é essa a mesma construção frasal e oposição de pensamentos que descobri no pensamento do sonho? Portanto, represento Brutus no sonho.

Se ao menos eu pudesse encontrar no conteúdo do sonho outra pista confirmadora dessa surpreendente conexão colateral! Penso que poderia ser a seguinte: meu amigo Fl. vem a Viena em julho. Esse detalhe não encontra nenhum apoio na realidade. Que eu saiba, meu amigo nunca esteve em Viena no mês de julho. Mas o mês de julho recebe seu nome de Júlio César e poderia, portanto, muito bem representar a alusão que procuro ao pensamento intermediário de que represento Brutus(163).

(163) Além disso, César-Kaiser. Curiosamente, uma vez eu realmente representei Brutus. Recitei a cena de Brutus e César dos poemas de Schiller diante de uma plateia de crianças, como rapaz de catorze anos, junto com meu sobrinho um ano mais velho, que então viera da Inglaterra para nossa casa, também um revenant, pois era o companheiro de brincadeiras de meus primeiros anos de infância que reaparecia com ele. Até os três anos completos fomos inseparáveis, amamo-nos e brigamos um com o outro, e essa relação infantil, como já sugeri uma vez, decidiu em toda parte meus sentimentos posteriores no trato com pessoas da mesma idade. Meu sobrinho John encontrou desde então muitas encarnações, que ora reavivavam este, ora aquele lado de sua essência fixada de modo indelével em minha lembrança inconsciente. Por algum tempo, ele deve ter-me tratado muito mal, e eu devo ter mostrado coragem contra meu tirano, pois em anos posteriores me foi repetidamente contado um breve discurso de defesa com que me defendi quando meu pai, avô dele, me chamou à razão: Por que você bate no John? Na linguagem da criança de menos de dois anos, a resposta dizia: “Eu bati nele porque ele bateu em mim.” Deve ser essa cena infantil que desvia Non vivit para Non vixit, pois, na linguagem de anos infantis posteriores, bater se diz “wichsen”; o trabalho do sonho não desdenha servir-se de tais conexões.

A hostilidade tão pouco fundamentada na realidade contra meu amigo P., que era muito superior a mim e, por isso, também podia apresentar uma nova edição do companheiro infantil de brincadeiras, remonta certamente à complicada relação infantil com John. Voltarei, portanto, a esse sonho.

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