a) Relação do sonho com a vida de vigília A Interpretação dos Sonhos · Capítulo 3 de 44
Obra Menu

a) Relação do sonho com a vida de vigília

a) Relação do sonho com a vida de vigília.

O interesse científico pelos fenômenos oníricos em si conduz às seguintes questões, em parte entrelaçadas umas às outras:

O juízo ingênuo de quem desperta supõe que o sonho, se já não provém de outro mundo, ainda assim teria arrebatado o adormecido para outro mundo. O velho fisiologista Burdach, a quem devemos uma descrição cuidadosa e sutil dos fenômenos oníricos, deu expressão a essa convicção numa frase muito citada (p. 474): “... nunca se repete a vida do dia com seus esforços e prazeres, suas alegrias e dores; antes, o sonho procura libertar-nos dela. Mesmo quando toda a nossa alma estava tomada por um objeto, quando uma dor profunda dilacerava nosso íntimo ou uma tarefa reclamava toda a nossa força intelectual, o sonho nos dá algo inteiramente estranho, ou toma da realidade apenas elementos isolados para suas combinações, ou apenas entra no tom de nosso estado de ânimo e simboliza a realidade.”

J. H. Fichte (I, 541) fala no mesmo sentido, diretamente, de sonhos de complemento, e os chama de um dos secretos benefícios da natureza autocurativa do espírito. Em sentido semelhante ainda se manifesta L. Strümpell, no estudo sobre a natureza e a origem dos sonhos, com razão muito estimado por todos os lados (p. 16): “Quem sonha está apartado do mundo da consciência desperta”... (p. 17): “No sonho, a memória para o conteúdo ordenado da consciência desperta e seu comportamento normal se perde quase por completo”... (p. 19): “O isolamento quase sem memória da alma no sonho em relação ao conteúdo e ao curso regulares da vida desperta”...

A esmagadora maioria dos autores, porém, defendeu a concepção oposta para a relação do sonho com a vida de vigília. Assim Haffner (p. 19): “Antes de tudo, o sonho dá continuidade à vida de vigília. Nossos sonhos se ligam sempre às representações que pouco antes estiveram na consciência. Uma observação precisa encontrará quase sempre um fio pelo qual o sonho se prende às vivências do dia anterior.” Weygandt (p. 6) contradiz diretamente a afirmação de Burdach citada acima, “pois pode-se observar com frequência, ao que parece na grande maioria dos sonhos, que eles nos reconduzem justamente à vida comum, em vez de nos libertarem dela.” Maury (p. 56) diz em sua fórmula concisa: “Sonhamos com aquilo que vimos, dissemos, desejamos ou fizemos”; Jessen, em sua Psicologia, publicada em 1855 (p. 530), de modo um pouco mais detalhado: “Mais ou menos, o conteúdo dos sonhos será sempre determinado pela personalidade individual, pela idade, sexo, posição social, grau de formação, modo de vida habitual e pelos acontecimentos e experiências de toda a vida transcorrida.”

De modo mais inequívoco, o filósofo I. G. E. Maaß toma posição sobre essa questão (Sobre as paixões, 1805): “A experiência confirma nossa afirmação de que sonhamos com maior frequência com as coisas para as quais se dirigem nossas paixões mais ardentes. Daí se vê que nossas paixões devem ter influência sobre a produção de nossos sonhos. O ambicioso sonha com os louros conquistados, talvez apenas em sua imaginação, ou ainda por conquistar, enquanto o apaixonado se ocupa, em seus sonhos, com o objeto de suas doces esperanças... Todos os apetites sensuais e todas as aversões que dormitam no coração podem, quando estimulados por algum motivo, fazer com que surja um sonho a partir das representações associadas a eles, ou que essas representações se misturem a um sonho já existente.” (Comunicado por Winterstein no Zbl. f. Ps.-A.)

Não pensavam de modo diferente os antigos sobre a dependência do conteúdo do sonho em relação à vida. Cito segundo Radestock (p. 139): quando Xerxes, antes de sua campanha contra a Grécia, foi afastado de sua decisão por bons conselhos, mas repetidas vezes incitado a retomá-la por sonhos, já o velho intérprete racional de sonhos dos persas, Artabanos, lhe disse com acerto que as imagens oníricas continham, na maior parte das vezes, aquilo que o homem já pensa quando está desperto.

No poema didático de Lucrécio, De rerum natura, encontra-se (IV, v. 959) a passagem: “E aquilo a que cada um, preso por seu empenho, se apega, ou aquilo em que muito nos detivemos antes, e em cuja ocupação a mente esteve mais absorvida, isso mesmo, em sonhos, em geral nos parece realizar; os jurisconsultos pleiteiam causas e compõem leis, os chefes militares combatem e enfrentam batalhas” etc. etc. Cícero (De Divinatione II) diz algo muito semelhante, como Maury tantos séculos depois: “E sobretudo se movem e agitam na alma os restos daquelas coisas sobre as quais pensamos ou atuamos quando despertos.”

A contradição entre essas duas concepções da relação entre vida onírica e vida de vigília parece, de fato, insolúvel. Por isso, convém recordar a exposição de F. W. Hildebrandt (1875), que considera que as particularidades do sonho não poderiam ser descritas de outro modo senão por uma “série de opostos que parecem aguçar-se até a contradição” (p. 8). “O primeiro desses opostos é formado, de um lado, pelo rigoroso isolamento ou fechamento do sonho em relação à vida real e verdadeira, e, de outro, pela passagem constante de um para o outro, pela dependência constante de um em relação ao outro. O sonho é algo inteiramente separado da realidade vivida em estado de vigília; poder-se-ia dizer uma existência hermeticamente encerrada em si mesma, separada da vida real por um abismo intransponível. Ele nos desprende da realidade, apaga em nós a memória normal dela e nos coloca em outro mundo e em uma história de vida inteiramente diversa, que no fundo nada tem a ver com a real...”

Hildebrandt expõe então como, com o adormecer, todo o nosso ser, com suas formas de existência, desaparece “como por trás de um alçapão invisível”. Faz-se então, talvez, em sonho, uma viagem marítima a Santa Helena, para oferecer ao Napoleão ali cativo algo excelente em vinhos do Mosela. Somos recebidos pelo ex-imperador com a maior amabilidade e quase lamentamos ver a interessante ilusão perturbada pelo despertar. Mas então comparamos a situação do sonho com a realidade. Nunca fomos comerciantes de vinho e jamais quisemos sê-lo. Nunca fizemos uma viagem marítima e tomaríamos Santa Helena menos que qualquer outro lugar como destino de tal viagem. Para com Napoleão não nutrimos nenhuma simpatia, mas sim um feroz ódio patriótico. E, além de tudo isso, o sonhador nem sequer estava entre os vivos quando Napoleão morreu na ilha; estabelecer uma relação pessoal com ele estava fora do âmbito da possibilidade. Assim, a vivência onírica aparece como algo estranho, inserido entre dois trechos de vida completamente ajustados entre si e que dão continuidade um ao outro.

“E, no entanto”, prossegue Hildebrandt, “igualmente verdadeiro e correto é o aparente contrário. Quero dizer que, com esse fechamento e esse isolamento, caminha lado a lado a mais íntima relação e conexão. Podemos dizer diretamente: seja o que for que o sonho ofereça, ele toma o material para isso da realidade e da vida espiritual que se desenrola nessa realidade... Por mais curiosamente que proceda com isso, ele jamais pode, propriamente, desprender-se do mundo real, e suas formações mais sublimes, assim como as mais farsescas, devem sempre tomar de empréstimo sua matéria-prima daquilo que, ou nos apareceu diante dos olhos no mundo sensível, ou já encontrou de algum modo lugar em nosso curso desperto de pensamentos; em outras palavras, daquilo que já vivemos, exterior ou interiormente.”

1/1
Menu

Fazer anotação