b) O material do sonho. A memória no sonho
b) O material do sonho. A memória no sonho.
Que todo material que compõe o conteúdo do sonho provém, de alguma maneira, do vivido, e que portanto é reproduzido, recordado no sonho, isso ao menos pode valer para nós como conhecimento incontestado. Mas seria erro supor que tal conexão do conteúdo do sonho com a vida de vigília deva resultar sem esforço como produto evidente da comparação efetuada. Ela deve, antes, ser procurada atentamente, e sabe ocultar-se por longo tempo em toda uma série de casos. A razão disso reside em certo número de particularidades que a capacidade de memória mostra no sonho, e que, embora geralmente notadas, até agora escaparam a toda explicação. Valerá o esforço apreciar esses caracteres em detalhe.
Ocorre, antes de tudo, que no conteúdo do sonho aparece um material que depois, na vigília, não se reconhece como pertencente ao próprio saber e à própria experiência. Lembra-se, sim, que se sonhou aquilo em questão, mas não se lembra que e quando se viveu aquilo. Permanece-se então no escuro quanto à fonte de que o sonho se serviu, e fica-se tentado a acreditar em uma atividade autonomamente produtora do sonho, até que, muitas vezes depois de longo tempo, uma nova vivência restitui a lembrança considerada perdida da vivência anterior, e com isso revela a fonte do sonho. Deve-se então admitir que no sonho se sabia e se lembrava algo que estava subtraído à capacidade de memória na vigília(6).
(6) Vaschide afirma também que se observou com frequência que, no sonho, fala-se línguas estrangeiras com mais fluência e pureza do que na vigília. Um exemplo especialmente impressionante desse tipo é narrado por Delboeuf a partir de sua própria experiência onírica. Ele viu em sonho o pátio de sua casa coberto de neve, e encontrou duas pequenas lagartixas meio entorpecidas e enterradas sob a neve; como amigo dos animais, recolheu-as, aqueceu-as e levou-as de volta à pequena cavidade que lhes era destinada na parede. Além disso, meteu junto delas algumas folhas de uma pequena samambaia que crescia no muro e que, como sabia, elas apreciavam muito. No sonho, ele conhecia o nome da planta: Asplenium ruta muralis. O sonho prosseguiu, retornou às lagartixas depois de uma intercalação e mostrou a Delboeuf, para seu espanto, dois novos animaizinhos que tinham se lançado sobre os restos das samambaias. Então voltou o olhar para o campo aberto, viu uma quinta, uma sexta lagartixa tomar o caminho para o buraco na parede e, por fim, toda a estrada estava coberta por uma procissão de lagartixas que migravam todas na mesma direção.
O saber de Delboeuf na vigília abrangia apenas poucos nomes latinos de plantas e não incluía o conhecimento de um Asplenium. Para seu grande espanto, ele teve de se convencer de que uma samambaia desse nome realmente existia. Asplenium ruta muraria era sua designação correta, que o sonho havia deformado um pouco. Não se podia pensar em uma coincidência casual; mas permaneceu enigmático para Delboeuf de onde ele teria tomado, no sonho, o conhecimento do nome Asplenium.
A memória do sonho. Hipermnésia do sonho.
O sonho ocorrera no ano de 1862; dezesseis anos depois, o filósofo vê, na casa de um amigo que visita, um pequeno álbum com flores secas, como os que, em certas regiões da Suíça, são vendidos a estrangeiros como lembranças. Uma recordação lhe sobe à mente; ele abre o herbário, encontra nele o Asplenium de seu sonho e reconhece sua própria caligrafia no nome latino acrescentado. Agora a conexão podia ser estabelecida. Uma irmã desse amigo visitara Delboeuf em 1860, dois anos antes do sonho das lagartixas, em sua viagem de núpcias. Na época, ela trazia consigo esse álbum destinado ao irmão, e Delboeuf se deu ao trabalho, sob ditado de um botânico, de escrever ao lado de cada plantinha seca o nome latino.
O favor do acaso, que torna esse exemplo tão digno de comunicação, permitiu a Delboeuf reconduzir ainda outro pedaço do conteúdo desse sonho à sua fonte esquecida. Um dia, no ano de 1877, caiu-lhe nas mãos um velho volume de uma revista ilustrada, no qual viu retratado todo o cortejo de lagartixas como o havia sonhado em 1862. O volume trazia o ano de 1861, e Delboeuf conseguiu lembrar-se de que fora assinante da revista desde o seu aparecimento.
Que o sonho disponha de lembranças inacessíveis à vigília é um fato tão notável e teoricamente significativo que desejo reforçar a atenção para ele mediante a comunicação de outros sonhos “hipermnésicos”. Maury conta que, durante algum tempo, a palavra Mussidan costumava ocorrer-lhe de dia. Ele sabia que era o nome de uma cidade francesa, mas nada além disso. Uma noite, sonhou com uma conversa com certa pessoa, que lhe dizia vir de Mussidan; à sua pergunta sobre onde ficava a cidade, ela respondeu: Mussidan é uma cidade administrativa no département de la Dordogne. Ao despertar, Maury não deu crédito à informação recebida no sonho; o léxico geográfico, porém, ensinou-lhe que ela estava inteiramente correta. Nesse caso, o saber suplementar do sonho é confirmado, mas a fonte esquecida desse saber não foi descoberta.
Jessen relata (p. 55) uma ocorrência onírica muito semelhante, vinda de tempos mais antigos: “A isso pertence, entre outros, o sonho do velho Scaliger (Hennings, l. c., p. 300), que escrevia um poema em louvor dos homens célebres de Verona e a quem, em sonho, apareceu um homem que se chamava Brugnolus e se queixava de ter sido esquecido. Embora Scaliger não se lembrasse de jamais ter ouvido falar dele, fez versos sobre ele, e seu filho soube depois, em Verona, que outrora um tal Brugnolus fora célebre ali como crítico.”
Um sonho hipermnésico que se distingue pela particularidade especial de que o reconhecimento da lembrança inicialmente não reconhecida se realiza em um sonho subsequente é narrado pelo marquês d’Hervey de St. Denis (segundo Vaschide, p. 232): “Sonhei certa vez com uma jovem de cabelos louro-dourados, que eu via conversando com minha irmã enquanto lhe mostrava um trabalho de bordado. No sonho ela me parecia muito conhecida; eu achava até tê-la visto repetidas vezes. Depois do despertar, ainda tenho esse rosto vivamente diante de mim, mas não consigo reconhecê-lo de modo algum. Durmo então outra vez; a imagem onírica se repete. Nesse novo sonho, dirijo-me à dama loura e pergunto se eu já não tivera o prazer de encontrá-la em algum lugar. Certamente, responde a dama, basta lembrar-se do balneário marítimo de Pornic. Desperto logo em seguida e agora sei lembrar-me com toda a segurança dos detalhes aos quais estava ligado esse agradável rosto onírico.”
O mesmo autor (em Vaschide, p. 233) informa: um músico conhecido dele ouviu certa vez, em sonho, uma melodia que lhe pareceu inteiramente nova. Apenas muitos anos depois ele a encontrou anotada em uma antiga coleção de peças musicais, coleção que ainda assim não se lembra de ter tido antes nas mãos. Em um lugar que, infelizmente, não me é acessível (Proceedings of the Society for psychical research), Myers teria publicado uma coleção inteira de tais sonhos hipermnésicos.
Penso que todo aquele que se ocupa de sonhos terá de reconhecer como fenômeno muito comum que o sonho dá testemunho de conhecimentos e recordações que o desperto acredita não possuir. Nos trabalhos psicanalíticos com neuróticos, dos quais darei notícia mais tarde, encontro-me várias vezes por semana na situação de provar aos pacientes, a partir de seus sonhos, que eles conhecem, de fato, muito bem citações, palavras obscenas e coisas semelhantes, e que se servem delas no sonho, embora as tenham esquecido na vida desperta. Quero ainda comunicar aqui um caso inofensivo de hipermnésia do sonho, porque nele foi muito fácil descobrir a fonte da qual provinha o conhecimento acessível apenas ao sonho.
Um paciente sonhou, em um contexto mais longo, que em um café mandava servir-lhe uma “Kontuszówka”, mas, depois de narrar o sonho, perguntou o que poderia ser isso; ele nunca teria ouvido o nome. Pude responder que Kontuszówka era uma aguardente polonesa, que ele não poderia ter inventado no sonho, pois eu conhecia o nome havia muito tempo por cartazes. O homem, a princípio, não quis acreditar em mim. Alguns dias depois, depois de ter transformado seu sonho em realidade no café, notou o nome em um cartaz, e justamente em uma esquina pela qual havia meses precisava passar ao menos duas vezes por dia.
Eu próprio experimentei em meus sonhos o quanto permanecemos dependentes do acaso na descoberta da origem de certos elementos do sonho. Assim, durante anos antes da redação deste livro, perseguiu-me a imagem de uma torre de igreja de estrutura muito simples, que eu não conseguia lembrar de ter visto. Reconheci-a então de repente, e com plena segurança, em uma pequena estação entre Salzburgo e Reichenhall. Isso aconteceu na segunda metade da década de noventa, e eu percorrera esse trajeto pela primeira vez em 1886. Em anos posteriores, quando já me ocupava intensamente do estudo dos sonhos, a imagem onírica frequentemente recorrente de certa localidade curiosa chegou a tornar-se diretamente incômoda para mim. Eu via, em determinada relação espacial com a minha pessoa, à minha esquerda, um espaço escuro, do qual reluziam várias figuras grotescas de arenito. Um brilho de lembrança, em que eu não queria muito acreditar, dizia-me que era a entrada de uma cervejaria subterrânea; mas não consegui esclarecer nem o que essa imagem onírica queria significar, nem de onde provinha.
Em 1907, cheguei por acaso a Pádua, cidade que, para meu pesar, eu não pudera visitar novamente desde 1895. Minha primeira visita à bela cidade universitária fora insatisfatória; eu não pudera ver os afrescos de Giotto na Madonna dell’Arena e, no meio da rua que conduzia até lá, dei meia-volta quando me comunicaram que a pequena igreja estava fechada naquele dia. Em minha segunda visita, doze anos depois, pensei em me compensar e procurei antes de tudo o caminho para a Madonna dell’Arena. Na rua que leva até ela, à esquerda da direção em que eu caminhava, provavelmente no lugar onde em 1895 eu dera meia-volta, descobri a localidade que tantas vezes vira no sonho, com as figuras de arenito contidas nela. Era, de fato, a entrada de um jardim de restaurante.
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Uma das fontes das quais o sonho retira material para a reprodução, em parte material que não é lembrado nem utilizado na atividade de pensamento da vigília, é a vida infantil. Mencionarei apenas alguns dos autores que observaram e acentuaram isso:
Hildebrandt (p. 23): “Já se admitiu expressamente que o sonho, por vezes, com maravilhosa força de reprodução, reconduz fielmente diante de nossa alma processos muito remotos e até esquecidos, vindos do tempo mais distante.”
Strümpell (p. 40): “A coisa cresce ainda mais quando se observa como o sonho, às vezes, por assim dizer, das mais profundas e maciças camadas de soterramento que o tempo posterior depositou sobre as primeiras vivências juvenis, extrai de novo imagens de determinadas localidades, coisas, pessoas, inteiramente ilesas e com frescor originário. Isso não se limita apenas àquelas impressões que, ao surgirem, conquistaram uma consciência vívida ou se ligaram a fortes valores psíquicos, e que depois retornam no sonho como lembranças propriamente ditas, com as quais a consciência desperta se alegra. A profundidade da memória do sonho abrange, antes, também aquelas imagens de pessoas, coisas, localidades e vivências do tempo mais remoto que possuíam apenas uma consciência reduzida ou nenhum valor psíquico, ou que há muito haviam perdido tanto uma coisa quanto a outra, e que por isso, tanto no sonho como depois do despertar, aparecem como inteiramente estranhas e desconhecidas, até que sua origem anterior seja descoberta.”
Volkelt (p. 119): “É particularmente notável como lembranças de infância e juventude entram de bom grado no sonho. Aquilo em que há muito não pensamos, aquilo que há muito perdeu para nós toda importância, disso o sonho nos recorda incansavelmente.”
O domínio do sonho sobre o material infantil, que, como se sabe, cai em sua maior parte nas lacunas da capacidade consciente de memória, dá ensejo ao surgimento de interessantes sonhos hipermnésicos, dos quais quero novamente comunicar alguns exemplos.
Maury conta (p. 92) que, quando criança, vinha frequentemente de sua cidade natal, Meaux, para a próxima Trilport, onde seu pai dirigia a construção de uma ponte. Uma noite, o sonho o transporta para Trilport e o faz brincar de novo nas ruas da cidade. Um homem se aproxima dele, usando uma espécie de uniforme. Maury pergunta-lhe o nome; ele se apresenta e diz chamar-se C... e ser guarda da ponte. Depois do despertar, Maury, ainda duvidando da realidade da recordação, pergunta a uma velha criada, que está com ele desde a infância, se ela consegue lembrar-se de um homem com esse nome. Certamente, foi a resposta; ele era o guarda da ponte que seu pai construíra na época.
Um exemplo igualmente bem confirmado da segurança da lembrança infantil que surge no sonho é relatado por Maury acerca de um senhor F..., que havia crescido em Montbrison quando criança. Esse homem decidiu, 25 anos depois de sua partida, visitar novamente a terra natal e velhos amigos da família, que não vira desde então. Na noite anterior à sua viagem, sonha que chegou ao destino e que, nas proximidades de Montbrison, encontra um senhor que lhe é desconhecido de vista, e que lhe diz ser o senhor T., amigo de seu pai. O sonhador sabia que, quando criança, conhecera um senhor desse nome, mas na vigília já não se lembrava de sua aparência. Alguns dias depois, chegando de fato a Montbrison, encontra de novo a localidade do sonho que julgara desconhecida e vê um senhor que imediatamente reconhece como o T. do sonho. A pessoa real estava apenas mais envelhecida do que a imagem onírica havia mostrado.
Material infantil e recente.
Posso narrar aqui um sonho próprio no qual a impressão a ser recordada é substituída por uma relação. Vi em um sonho uma pessoa de quem, no sonho, eu sabia que era o médico da minha cidade natal. Seu rosto não era nítido, mas se misturava à representação de um de meus professores do ginásio, que ainda hoje encontro ocasionalmente. Que relação ligava as duas pessoas, não pude descobrir depois, na vigília. Quando, porém, perguntei à minha mãe sobre o médico desses meus primeiros anos de criança, soube que ele tinha um só olho, e também tem um só olho o professor do ginásio cuja pessoa encobrira, no sonho, a do médico. Havia 38 anos que eu não via mais o médico e, que eu saiba, nunca pensei em sua pessoa na vida desperta, embora uma cicatriz no queixo pudesse ter-me lembrado sua assistência.
Soa como se se devesse criar um contrapeso ao papel excessivamente grande das impressões da infância na vida onírica quando vários autores afirmam que, na maioria dos sonhos, podem-se demonstrar elementos dos dias mais recentes. Robert (p. 46) chega a declarar: “Em geral, o sonho normal se ocupa apenas das impressões dos últimos dias.” Contudo, veremos que a teoria do sonho construída por Robert exige imperiosamente tal recuo das impressões mais antigas e tal avanço das mais recentes. Mas o fato a que Robert dá expressão subsiste com razão, como posso assegurar a partir de minhas próprias investigações. Um autor americano, Nelson, considera que no sonho se encontram com maior frequência impressões do dia anterior ao dia do sonho ou do terceiro dia antes dele, como se as impressões do dia imediatamente anterior ao sonho não fossem suficientemente enfraquecidas, isto é, suficientemente remotas.
Chamou a atenção de vários autores, que não desejavam duvidar da conexão íntima entre o conteúdo do sonho e a vida de vigília, o fato de que impressões que ocupam intensamente o pensamento desperto só aparecem no sonho quando já foram em alguma medida postas de lado pela atividade dos pensamentos diurnos. Assim, em geral, não se sonha com um morto querido logo no primeiro período, enquanto o luto preenche inteiramente o sobrevivente (Delage). Entretanto, uma das observadoras mais recentes, Miss Hallam, reuniu também exemplos do comportamento contrário, e defende nesse ponto o direito da individualidade psicológica.
A terceira, mais notável e mais incompreensível particularidade da memória no sonho se mostra na seleção do material reproduzido, na medida em que, diferentemente do que ocorre na vigília, não apenas o mais significativo, mas, ao contrário, também o mais indiferente e o mais insignificante é considerado digno de recordação. Deixo falar aqui aqueles autores que deram expressão mais forte ao seu espanto.
Hildebrandt (p. 11): “Pois o notável é que o sonho toma seus elementos, em regra, não dos grandes e profundos acontecimentos, não dos interesses poderosos e impelentes do dia passado, mas dos acréscimos secundários, por assim dizer dos fragmentos sem valor do passado recentemente vivido ou mais remoto. O abalo de uma morte em nossa família, sob cujas impressões adormecemos tarde, fica apagado de nossa memória até que o primeiro momento desperto o faça retornar a ela com força entristecedora. Em contrapartida, a verruga na testa de um estranho que encontramos, e em quem não pensamos nem por um instante depois de passar por ele, essa desempenha um papel em nosso sonho...”
Strümpell (p. 39): “... aqueles casos em que a decomposição de um sonho encontra componentes dele que, embora provenham das vivências do dia anterior ou retrasado, eram tão insignificantes e sem valor para a consciência desperta que caíram no esquecimento pouco depois de vividos. Tais vivências são, por exemplo, manifestações ouvidas por acaso, ações de outra pessoa observadas superficialmente, percepções rapidamente passageiras de coisas ou pessoas, pequenos trechos isolados de uma leitura e coisas semelhantes.”
Havelock Ellis (1899, p. 727): “As emoções profundas da vida desperta, as questões e os problemas aos quais dedicamos nossa principal energia mental voluntária, não são aqueles que em geral se apresentam imediatamente à consciência onírica. Na medida em que se trata do passado imediato, são sobretudo as impressões triviais, incidentais, ‘esquecidas’ da vida diária que reaparecem em nossos sonhos. As atividades psíquicas que estão mais intensamente despertas são as que dormem mais profundamente.”
Binz (p. 45) toma justamente as particularidades da memória no sonho de que estamos tratando como ocasião para manifestar sua insatisfação com as explicações do sonho que ele mesmo apoia: “E o sonho natural nos coloca questões semelhantes. Por que não sonhamos sempre as impressões de memória dos últimos dias vividos, mas muitas vezes mergulhamos, sem qualquer motivo reconhecível, em um passado distante, quase apagado? Por que no sonho a consciência recebe tantas vezes a impressão de imagens mnêmicas indiferentes, enquanto as células cerebrais, lá onde trazem em si os registros mais excitáveis do vivido, em geral permanecem mudas e rígidas, a não ser que uma reanimação aguda durante a vigília as tenha excitado pouco antes?”
Recordação de impressões secundárias.
Vê-se facilmente como a estranha predileção da memória do sonho pelo indiferente e, por isso, desatendido nas vivências diurnas teve de levar, na maioria das vezes, a desconhecer por completo a dependência do sonho em relação à vida diurna, e então ao menos a dificultar a comprovação dessa dependência em cada caso isolado. Assim foi possível que Miss Whiton Calkins, ao trabalhar estatisticamente seus sonhos e os de seu companheiro, ainda conservasse 11% do total nos quais não era visível uma relação com a vida diurna. Certamente Hildebrandt tem razão ao afirmar que todas as imagens oníricas se explicariam geneticamente para nós se empregássemos, a cada vez, tempo e concentração suficientes para investigar sua origem. Ele chama isso, porém, de “um trabalho extremamente penoso e ingrato. Pois, na maioria das vezes, isso acabaria por fazer vasculhar toda sorte de coisas psiquicamente sem valor nos cantos mais afastados da câmara da memória, por trazer de volta à luz toda sorte de momentos completamente indiferentes de um tempo há muito passado, retirando-os do soterramento que talvez já lhes tivesse trazido a hora seguinte.”
Devo lamentar, contudo, que o autor sagaz tenha se deixado deter na perseguição do caminho que começa de modo tão insignificante; esse caminho o teria levado diretamente ao centro da explicação dos sonhos. O comportamento da memória do sonho é certamente da maior importância para qualquer teoria da memória em geral. Ele ensina que “nada do que possuímos uma vez no espírito pode perder-se inteira e absolutamente” (Scholz, p. 34). Ou, como Delboeuf o expressa, “toda impressão, mesmo a mais insignificante, deixa um traço inalterável, indefinidamente suscetível de reaparecer à luz do dia”, uma conclusão para a qual também impelem tantos outros fenômenos patológicos da vida psíquica.
Tenha-se agora diante dos olhos essa capacidade extraordinária da memória no sonho, para sentir vivamente a contradição que certas teorias do sonho, a serem mencionadas mais tarde, terão de estabelecer quando quiserem explicar o absurdo e a incoerência dos sonhos por um esquecimento parcial daquilo que conhecemos durante o dia.
Poder-se-ia talvez ter a ideia de reduzir o fenômeno do sonhar, em geral, ao fenômeno do recordar, vendo no sonho a manifestação de uma atividade reprodutora que não repousa nem mesmo à noite e que é fim de si mesma. Comunicações como as de Pilcz concordariam com isso, segundo as quais se podem demonstrar relações fixas entre o tempo do sonhar e o conteúdo dos sonhos, de tal modo que, no sono profundo, são reproduzidas pelo sonho impressões dos tempos mais antigos, mas, pela manhã, impressões recentes. Tal concepção, porém, torna-se de antemão improvável pelo modo como o sonho procede com o material a ser recordado.
Strümpell chama a atenção, com razão, para o fato de que no sonho não ocorrem repetições de vivências. O sonho talvez faça uma tentativa nesse sentido, mas o elo seguinte falta; ele surge modificado, ou em seu lugar aparece algo inteiramente estranho. O sonho traz apenas fragmentos de reproduções. Certamente isso é a regra em medida suficiente para permitir um aproveitamento teórico. Todavia, há exceções nas quais um sonho repete uma vivência de modo tão completo quanto nossa memória na vigília é capaz de fazê-lo. Delboeuf conta, a respeito de um de seus colegas universitários, que este reviveu em sonho, com todos os seus detalhes, uma perigosa viagem de carro na qual escapou de um acidente quase por milagre. Miss Calkins menciona dois sonhos que tinham como conteúdo a reprodução exata de uma vivência do dia anterior, e eu mesmo terei mais tarde ocasião de comunicar um exemplo, que se tornou conhecido por mim, do retorno onírico inalterado de uma vivência infantil(7).
(7) A partir de experiência posterior, acrescento que não é tão raro que ocupações inofensivas e sem importância do dia sejam repetidas pelo sonho, como fazer malas, preparar alimentos na cozinha e coisas semelhantes. Em tais sonhos, porém, o próprio sonhador não acentua o caráter da recordação, mas o da “realidade”. “Eu realmente fiz tudo isso durante o dia.”