III. O sonho é uma realização de desejo
III. O sonho é uma realização de desejo.
Quando se passou por um estreito caminho cavado e de repente se chegou a uma elevação, da qual os caminhos se separam e se abre a mais rica vista em várias direções, é lícito deter-se por um instante e ponderar para onde se deve voltar primeiro. Algo semelhante nos acontece depois de termos superado essa primeira interpretação dos sonhos. Estamos na clareza de um conhecimento súbito. O sonho não é comparável ao som irregular de um instrumento musical que é atingido não pela mão do músico, mas pelo golpe de uma força exterior; ele não é sem sentido, não é absurdo, não pressupõe que uma parte de nosso tesouro de representações durma enquanto outra começa a despertar. Ele é um fenômeno psíquico plenamente válido, e, mais precisamente, uma realização de desejo; deve ser inserido no encadeamento das ações psíquicas compreensíveis da vigília; uma atividade intelectual altamente complexa o construiu. Mas uma profusão de perguntas nos assalta no mesmo momento em que queremos nos alegrar com esse conhecimento.
Se, segundo a indicação da interpretação dos sonhos, o sonho representa um desejo realizado, de onde provém a forma chamativa e estranha na qual essa realização de desejo se expressa? Que transformação ocorreu com os pensamentos do sonho até que deles se configurasse o sonho manifesto, tal como o recordamos ao despertar? Por que caminho ocorreu essa transformação? De onde vem o material elaborado em sonho? De onde provêm algumas das peculiaridades que pudemos notar nos pensamentos do sonho, como, por exemplo, o fato de que eles podem contradizer uns aos outros? A analogia com o caldeirão, p. 92. O sonho pode nos ensinar algo novo sobre nossos processos psíquicos internos? Pode seu conteúdo corrigir opiniões em que acreditamos durante o dia? Proponho deixar todas essas questões de lado por enquanto e seguir um único caminho.
Aprendemos que o sonho representa um desejo como realizado. Nosso próximo interesse deve ser investigar se isso é um caráter geral do sonho ou apenas o conteúdo casual daquele sonho, “da injeção de Irma”, com o qual nossa análise começou, pois, mesmo que estejamos preparados para admitir que todo sonho tem um sentido e valor psíquico, ainda precisamos deixar em aberto a possibilidade de que esse sentido não seja o mesmo em todos os sonhos.
Nosso primeiro sonho foi uma realização de desejo; outro talvez se revele como um temor realizado; um terceiro pode ter por conteúdo uma reflexão; um quarto, simplesmente, reproduzir uma lembrança. Haverá, então, ainda outros sonhos de desejo, ou talvez não haja nada além de sonhos de desejo?
Sonhos de comodidade.
É fácil mostrar que os sonhos frequentemente deixam reconhecer, de modo não encoberto, o caráter da realização de desejo, de tal sorte que se pode espantar que a linguagem dos sonhos não tenha encontrado há muito tempo uma compreensão. Há, por exemplo, um sonho que posso produzir em mim tantas vezes quantas quiser, quase experimentalmente. Quando à noite como anchovas, azeitonas ou outros alimentos muito salgados, fico com sede durante a noite, e essa sede me desperta. Ao despertar, porém, precede um sonho que todas as vezes tem o mesmo conteúdo, a saber, que estou bebendo. Sorvo água em grandes goles; ela me sabe tão deliciosa quanto só pode saber uma bebida fresca quando se está a definhar de sede; então acordo e tenho realmente de beber. O ensejo desse sonho simples é a sede, que afinal sinto ao despertar. Dessa sensação nasce o desejo de beber, e o sonho me mostra esse desejo realizado.
Ele serve, nesse caso, a uma função que logo adivinho. Sou um bom dormidor, não habituado a ser despertado por uma necessidade. Se consigo apaziguar minha sede por meio do sonho de que bebo, então não preciso acordar para satisfazê-la. É, portanto, um sonho de comodidade. O sonhar se põe no lugar do agir, como também acontece em outras situações da vida.
Infelizmente, a necessidade de água para matar a sede não se satisfaz com um sonho como minha sede de vingança contra o amigo Otto e o dr. M., mas a boa vontade é a mesma. Esse mesmo sonho se modificou há pouco, em certa medida. Tive sede antes mesmo de adormecer e esvaziei o copo de água que estava sobre o criado-mudo ao lado de minha cama. Algumas horas mais tarde, durante a noite, veio uma nova crise de sede, com seus incômodos. Para conseguir água, eu teria de me levantar e buscar o copo que estava sobre o criado-mudo de minha mulher. Sonhei, então, de modo adequado ao fim, que minha mulher me dava de beber de um recipiente; esse recipiente era uma urna etrusca para cinzas, que eu trouxera de uma viagem à Itália e desde então havia dado de presente. Mas a água nela tinha um sabor tão salgado (por causa das cinzas, evidentemente) que tive de despertar.
Nota-se como o sonho sabe arranjar as coisas de maneira cômoda; como a realização de desejo é sua única intenção, ele pode ser completamente egoísta. O amor à comodidade realmente não é compatível com a consideração pelos outros. A intromissão da urna de cinzas é provavelmente, de novo, uma realização de desejo; lamento não possuir mais esse recipiente, assim como, aliás, o copo de água do lado de minha mulher não me é acessível. A urna de cinzas também se ajusta à sensação agora mais forte do sabor salgado, da qual sei que me forçará a despertar.(39)
(39) O aspecto factual dos sonhos de sede também era conhecido por Weygandt, que se expressa a respeito, na p. 11: “Justamente a sensação de sede é apreendida da maneira mais precisa entre todas: ela sempre produz uma representação da saciação da sede. A maneira pela qual o sonho representa a saciação da sede é variada e se especializa segundo uma lembrança próxima. Um fenômeno geral, também aqui, é que, logo depois da representação da saciação da sede, instala-se uma decepção diante do pequeno efeito das supostas bebidas refrescantes.” Ele não percebe, porém, o que há de universalmente válido na reação do sonho ao estímulo. Se outras pessoas, acometidas de sede durante a noite, despertam sem antes sonhar, isso não constitui objeção contra meu experimento, mas caracteriza essas outras pessoas como dormidores piores. Compare-se a isso Isaías, 29, 8: “Pois assim como o faminto sonha que come, mas, quando desperta, sua alma ainda está vazia; e como o sedento sonha que bebe, mas, quando desperta, está fraco e sedento”...
Tais sonhos de comodidade eram muito frequentes em mim nos anos juvenis. Habituado desde sempre a trabalhar até altas horas da noite, despertar cedo era sempre uma dificuldade para mim. Eu costumava então sonhar que estava fora da cama e de pé junto ao lavatório. Depois de algum tempo, não podia me fechar à compreensão de que ainda não havia me levantado, mas, nesse intervalo, havia dormido mais um pouco.
Conheço o mesmo sonho de inércia, numa forma especialmente espirituosa, de um jovem colega que parece compartilhar minha inclinação ao sono. A arrumadeira com quem ele morava nas proximidades do hospital tinha a ordem estrita de despertá-lo todas as manhãs no horário, mas também enfrentava uma dificuldade considerável quando queria cumprir essa ordem. Certa manhã, o sono estava especialmente doce. A mulher gritou para dentro do quarto: “Senhor Pepi, levante-se, o senhor precisa ir ao hospital.” Em resposta, o dormidor sonhou com um quarto no hospital, uma cama em que ele estava deitado, e uma plaqueta na cabeceira, onde se lia: Pepi H..., cand. med., 22 anos. Ele disse a si mesmo, sonhando: “Se já estou no hospital, não preciso ir para lá”, virou-se e continuou dormindo. Com isso, confessara sem disfarce o motivo de seu sonhar.
Sonhos de desejo.
Outro sonho cujo estímulo também atua durante o próprio sono: uma de minhas pacientes, que precisara submeter-se a uma operação no maxilar com evolução desfavorável, deveria, segundo o desejo dos médicos, usar dia e noite um aparelho de resfriamento sobre a face doente. Mas costumava jogá-lo longe assim que adormecia. Certo dia me pediram que a repreendesse por isso; ela havia novamente lançado o aparelho ao chão. A doente justificou-se: “Desta vez, realmente, não pude fazer nada; foi consequência de um sonho que tive à noite. No sonho, eu estava num camarote da ópera e me interessava vivamente pelo espetáculo. No sanatório, porém, estava deitado o senhor Karl Meyer, gemendo terrivelmente de dor de cabeça. Eu disse a mim mesma: já que não sou eu que tenho as dores, também não preciso do aparelho; por isso o joguei fora.” Esse sonho da pobre sofredora soa como a representação de uma expressão que nos vem aos lábios em situações desagradáveis: eu saberia encontrar, de fato, um divertimento melhor. O sonho mostra esse divertimento melhor. O senhor Karl Meyer, a quem a sonhadora atribuiu suas dores, era o jovem mais indiferente de seu círculo de conhecidos de que ela conseguiu se lembrar.
Não é mais difícil descobrir a realização de desejo em alguns outros sonhos que reuni junto a pessoas sadias. Um amigo que conhece minha teoria do sonho e a comunicou à mulher me diz um dia: “Devo te contar, da parte de minha mulher, que ontem ela sonhou que havia menstruado. Você saberá o que isso significa.” Naturalmente sei; se a jovem mulher sonhou que estava menstruada, então a menstruação não veio. Posso imaginar que ela gostaria de gozar ainda por algum tempo sua liberdade antes que começassem os incômodos da maternidade. Foi uma forma hábil de anunciar sua primeira gravidez.
Outro amigo escreve que sua mulher sonhou recentemente que notava manchas de leite no peito da camisa. Isso também é um anúncio de gravidez, mas já não da primeira vez; a jovem mãe deseja ter, para o segundo filho, mais alimento do que teve, na época, para o primeiro.
Uma jovem senhora que, por semanas, ficara isolada do convívio enquanto cuidava de seu filho doente de infecção, sonha, depois da feliz conclusão da doença, com uma reunião em que se encontram A. Daudet, Bourget, M. Prévost e outros, todos muito amáveis com ela, divertindo-a de maneira excelente. Os autores em questão trazem, também no sonho, os traços que lhes dão seus retratos; M. Prévost, de quem ela não conhece retrato, parece-se com o homem da desinfecção, que no dia anterior havia limpado os quartos dos doentes e entrara ali como primeiro visitante depois de muito tempo. Acredita-se poder traduzir o sonho sem lacunas: agora já seria tempo de algo mais divertido do que esses eternos cuidados com doentes.
Talvez essa seleção baste para demonstrar que, com muita frequência e sob as mais variadas condições, encontramos sonhos que só podem ser compreendidos como realizações de desejo e que exibem seu conteúdo sem disfarce. Trata-se, em sua maioria, de sonhos curtos e simples, que se destacam agradavelmente das composições oníricas confusas e riquíssimas que atraíram essencialmente a atenção dos autores. Vale a pena, porém, deter-se ainda nesses sonhos simples.
Pode-se esperar encontrar as formas mais simples de sonhos nas crianças, cujas realizações psíquicas são certamente menos complicadas que as dos adultos. A psicologia infantil é, a meu ver, destinada a prestar à psicologia dos adultos serviços semelhantes aos que a investigação da estrutura ou do desenvolvimento dos animais inferiores presta à pesquisa da estrutura das classes animais superiores. Até agora, poucos passos dirigidos foram dados para aproveitar a psicologia infantil com esse fim. Os sonhos das crianças pequenas são frequentemente realizações simples de desejo e, então, em contraste com os sonhos dos adultos, nada têm de interessantes. Eles não propõem enigmas a resolver, mas são naturalmente inestimáveis para a prova de que o sonho, por sua essência mais íntima, significa uma realização de desejo. No material de meus próprios filhos, pude reunir alguns exemplos desses sonhos.
Sonhos de desejo não encobertos.
A uma excursão à bela Hallstatt, no verão de 1896, saindo de Aussee, devo dois sonhos: um de minha filha, então com 8 anos e meio, outro de um menino de 5 anos e um quarto. Como relato preliminar, devo informar que, naquele verão, morávamos numa colina perto de Aussee, de onde, em dias claros, desfrutávamos de uma magnífica vista do Dachstein. Com a luneta, a cabana Simony podia ser bem reconhecida. Os pequenos se esforçaram repetidas vezes para vê-la pela luneta; não sei com que êxito. Antes do passeio, eu havia contado às crianças que Hallstatt ficava ao pé do Dachstein. Elas esperavam o dia com grande alegria. De Hallstatt, seguimos para o vale de Eschern, que encantou muito as crianças por suas vistas cambiantes. Apenas um deles, o menino de 5 anos, foi ficando aos poucos mal-humorado. Toda vez que um novo monte aparecia à vista, ele perguntava: “Este é o Dachstein?”, e eu precisava responder: “Não, apenas um contraforte.” Depois que essa pergunta se repetiu algumas vezes, ele se calou inteiramente; não quis, de modo algum, acompanhar o caminho em degraus até a queda-d’água. Julguei que estivesse cansado. Na manhã seguinte, porém, ele veio até mim radiante e contou: “Esta noite sonhei que estivemos na cabana Simony.” Então o compreendi: ele esperara, quando falei do Dachstein, que na excursão a Hallstatt subiria a montanha e veria a cabana de que tanto se havia falado junto à luneta. Quando percebeu que se esperava dele que se contentasse com contrafortes e uma queda-d’água, sentiu-se enganado e ficou mal-humorado. O sonho o compensou por isso. Tentei obter detalhes do sonho; eram pobres: “A gente sobe seis horas por degraus”, como ele tinha ouvido dizer.
Também na menina de 8 anos e meio, nessa excursão, desejos haviam sido despertados, desejos que o sonho precisaria satisfazer. Havíamos levado conosco a Hallstatt o menino de 12 anos de nossos vizinhos, um cavaleiro perfeito que, segundo me pareceu, já gozava de todas as simpatias da pequena senhorita. Ela contou, então, na manhã seguinte, o seguinte sonho: “Imagine só, sonhei que Emil é um de nós, chama vocês de papai e mamãe e dorme conosco no quarto grande, como nossos meninos. Então mamãe entra no quarto e joga um punhado de grandes barras de chocolate em papéis azuis e verdes debaixo de nossas camas.” Os irmãos, que portanto não entendem de interpretação dos sonhos por transmissão hereditária, declararam, exatamente como nossos autores: “Esse sonho é um absurdo.” A menina defendeu pelo menos uma parte do sonho, e é valioso para a teoria das neuroses saber qual: “Que Emil esteja inteiramente conosco, isso é um absurdo, mas aquilo das barras de chocolate não.” Justamente esse último ponto estava obscuro para mim. A mãe me forneceu a explicação. No caminho da estação para casa, as crianças haviam parado diante do autômato e desejado exatamente aquelas barras de chocolate em papel de brilho metálico que, segundo sua experiência, o autômato vendia. A mãe havia considerado, com razão, que aquele dia trouxera realizações de desejo suficientes, e deixara esse desejo para o sonho. A pequena cena me escapara. A parte do sonho proscrita por minha filha eu compreendi sem dificuldade. Eu mesmo ouvira como o convidado bem-comportado, no caminho, havia pedido às crianças que esperassem até que papai ou mamãe viessem. Dessa pertença temporária, o sonho da pequena fez uma adoção duradoura. Sua ternura ainda não conhecia outras formas de estar junto senão as mencionadas no sonho, tomadas dos irmãos. Por que as barras de chocolate foram jogadas debaixo das camas naturalmente não poderia ser esclarecido sem interrogar a criança.
De uma fonte amiga, soube de um sonho muito semelhante ao de meu menino. Ele dizia respeito a uma menina de 8 anos. O pai empreendera com várias crianças uma caminhada até Dornbach com a intenção de visitar a cabana Rohrer, mas voltou porque já era tarde demais e prometeu às crianças compensá-las em outra ocasião. No caminho de volta, passaram por uma placa que indicava o caminho para o Hameau. As crianças também pediram para ser levadas ao Hameau, mas, pelo mesmo motivo, tiveram de se contentar novamente com outro dia. Na manhã seguinte, a menina de 8 anos veio satisfeita ao encontro do pai: “Papai, hoje sonhei que você estava conosco na cabana Rohrer e no Hameau.” Sua impaciência, portanto, havia antecipado no sonho o cumprimento da promessa feita pelo pai.
Igualmente sincero é outro sonho que a beleza da paisagem de Aussee provocou em minha filhinha, então com 3 anos e um quarto. A pequena atravessara o lago pela primeira vez, e o tempo do passeio de barco passou depressa demais para ela. No local de desembarque, não queria deixar o barco e chorou amargamente. Na manhã seguinte, contou: “Esta noite eu andei de barco no lago.” Esperemos que a duração dessa viagem onírica a tenha satisfeito melhor.
Meu filho mais velho, então com 8 anos, já sonha a realização de suas fantasias. Andou de carro com Aquiles, e Diomedes era o cocheiro. Naturalmente, no dia anterior, havia se entusiasmado com as lendas da Grécia, que haviam sido dadas de presente à irmã mais velha.
Se me concedem que a fala das crianças durante o sono também pertence ao círculo do sonhar, posso comunicar, a seguir, um dos sonhos mais jovens de minha coleção. Minha filha mais nova, então com 19 meses, vomitara certa manhã e, por isso, fora mantida em jejum durante o dia. Na noite que se seguiu a esse dia de fome, ouviram-na gritar excitada durante o sono: “Anna F.eud, mo(r)ango, amo(r)a, omelete, papá.” Naquela época, ela usava seu nome para expressar a tomada de posse; o cardápio abrangia provavelmente tudo o que lhe devia parecer uma refeição desejável. O fato de os morangos aparecerem ali em duas variedades era uma demonstração contra a polícia sanitária doméstica e tinha sua razão na circunstância acessória, percebida por ela, de que a babá havia atribuído sua indisposição a um consumo excessivo de morangos; ela, portanto, tomou sua revanche no sonho contra esse parecer que lhe era incômodo.(40)
(40) A mesma realização que no caso da netinha mais nova o sonho efetua, pouco depois, no caso da avó, cuja idade complementa a da criança em cerca de 70 anos. Depois de ter sido forçada a passar fome durante um dia inteiro pela agitação de seu rim móvel, ela sonha então, evidentemente transposta para a época feliz da mocidade florescente, que foi “convidada para comer fora” nas duas refeições principais e que, em cada uma delas, lhe servem os bocados mais deliciosos.
Sonhos de desejo de crianças pequenas.
Se celebramos a infância como feliz porque ela ainda não conhece o desejo sexual, não devemos ignorar quão rica fonte de decepção, de renúncia e, com isso, de estímulo ao sonho, pode se tornar para ela o outro dos grandes impulsos da vida.(41) Eis um segundo exemplo disso. Meu sobrinho de 22 meses recebeu, no dia de meu aniversário, a tarefa de me cumprimentar e de me entregar como presente uma cestinha de cerejas, que nessa época do ano ainda estão entre as primícias. Isso pareceu-lhe muito difícil, pois repetia sem cessar: “cerejas estão d(r)entro”, e não se deixava mover a tirar a cestinha das mãos. Mas ele soube compensar-se. Até então, costumava contar todas as manhãs à mãe que havia sonhado com o “soldado branco”, um oficial da guarda de capa, que certa vez admirara na rua. No dia seguinte ao sacrifício de aniversário, acorda alegre com a comunicação, que só pode provir de um sonho: “He(r)man comeu todas as cerejas!”(42)
(41) Uma ocupação mais aprofundada com a vida psíquica das crianças nos ensina, é verdade, que forças pulsionais sexuais, em configuração infantil, desempenham na atividade psíquica da criança um papel suficientemente grande, apenas por tempo demais negligenciado, e nos faz duvidar, em certa medida, da felicidade da infância tal como os adultos a constroem posteriormente. Compare-se, do autor, “Três ensaios sobre a teoria sexual”, 1905, e 2ª ed., 1910.
(42) Não deve deixar de ser mencionado que, em crianças pequenas, sonhos mais complicados e menos transparentes costumam logo se apresentar, e que, por outro lado, sonhos de caráter infantil tão simples aparecem com frequência, sob certas circunstâncias, também em adultos. O quão ricos em conteúdo insuspeitado já podem ser os sonhos de crianças entre quatro e cinco anos mostram os exemplos em minha “Análise da fobia de um menino de 5 anos” (Jahrbuch de Bleuler-Freud I, 1909) e em “Sobre conflitos da alma infantil”, de Jung (ibidem, vol. II, 1910). Sonhos infantis interpretados analiticamente encontram-se ainda em v. Hug-Hellmuth, Putnam, Raalte, Spielrein, Tausk; outros em Banchieri, Busemann, Doglia e especialmente em Wigam, que acentua a tendência deles à realização de desejo. Por outro lado, em adultos, sonhos do tipo infantil parecem reaparecer com especial frequência quando eles são colocados sob condições de vida incomuns.
Assim relata Otto Nordenskjöld em seu livro “Antarctic”, de 1904, sobre a tripulação que passou o inverno com ele (vol. I, p. 336): “Muito característicos da direção de nossos pensamentos mais íntimos eram nossos sonhos, que nunca foram mais vívidos e numerosos do que justamente agora. Mesmo aqueles de nossos companheiros que, de outro modo, só excepcionalmente sonhavam, tinham agora, pela manhã, quando trocávamos nossas últimas experiências desse mundo de fantasia, longas histórias a contar. Todos tratavam daquele mundo exterior, que agora nos estava tão distante, mas muitas vezes se ajustavam às nossas condições atuais. Um sonho especialmente característico consistia no fato de um dos companheiros acreditar-se transportado de volta aos bancos da escola, onde lhe cabia a tarefa de tirar a pele de focas minúsculas em miniatura, feitas especialmente para fins de ensino. Comer e beber eram, aliás, os centros em torno dos quais nossos sonhos mais frequentemente giravam. Um de nós, que durante a noite se destacava em ir a grandes almoços, ficava feliz da vida quando, pela manhã, podia relatar ‘que havia tomado um jantar de três pratos’; outro sonhava com tabaco, com montanhas inteiras de tabaco; outros ainda sonhavam com o navio, que vinha em águas abertas com as velas cheias. Outro sonho merece menção: o carteiro chega com a correspondência e dá uma longa explicação de por que ela demorara tanto; ele a havia entregue no lugar errado, e só depois de grande esforço conseguira recuperá-la. Naturalmente, durante o sono, ocupávamo-nos com coisas ainda mais impossíveis, mas a falta de fantasia em quase todos os sonhos que eu mesmo sonhei ou ouvi contar era muito notável. Seria certamente de grande interesse psicológico se todos esses sonhos fossem anotados. Compreender-se-á facilmente, porém, quão desejado era o sono, pois podia nos oferecer tudo aquilo que cada um de nós desejava com mais ardor.”
Segundo Du Prel (p. 231), cito ainda: “Mungo Park, numa viagem pela África, à beira de sucumbir à sede, sonhava sem cessar com vales e campos de sua terra natal, ricos em água. Assim também Trenck, atormentado pela fome na Sternschanze de Magdeburgo, via-se cercado de refeições opulentas; e George Back, participante da primeira expedição de Franklin, quando estava próximo da morte por fome em consequência de privações terríveis, sonhava sempre e uniformemente com refeições abundantes.”
Com o que sonham os animais, não sei. Um provérbio, cuja menção devo a um de meus ouvintes, afirma sabê-lo, pois formula a pergunta: “Com que sonha o ganso?”, e responde: “Com kukuruz”, milho.(43) Toda a teoria de que o sonho é uma realização de desejo está contida nessas duas frases.(44)
(43) Um provérbio húngaro, citado por Ferenczi, afirma mais completamente que “o porco sonha com bolotas; o ganso, com milho”. Um provérbio judaico diz: “Com que sonha a galinha? Com painço.” (Coleção de provérbios e locuções judaicas, ed. por Bernstein, 2ª ed., p. 1160, nº 7.)
(44) Está longe de mim afirmar que nenhum autor antes de mim jamais tenha pensado em derivar um sonho de um desejo. (Compare-se as primeiras frases da próxima seção.) Quem dá valor a tais indicações poderia já citar, da Antiguidade, o médico Herófilo, que viveu sob o primeiro Ptolomeu e que, segundo Büchsenschütz (p. 33), distinguia três tipos de sonhos: os enviados pelos deuses; os naturais, que surgem quando a alma cria uma imagem daquilo que lhe é benéfico e daquilo que há de acontecer; e os mistos, que se formam espontaneamente pela aproximação de imagens quando vemos aquilo que desejamos. Da coleção de exemplos de Scherner, J. Stärcke sabe destacar um sonho que o próprio autor designa como realização de desejo (p. 239). Scherner diz: “A fantasia realizou imediatamente o desejo desperto da sonhadora simplesmente porque ele existia vivamente em seu ânimo.” Esse sonho se encontra entre os “sonhos de estado de ânimo”; em sua proximidade encontram-se sonhos de “anseio amoroso masculino e feminino” e de “disposição aborrecida”. Como se vê, não se trata de Scherner ter atribuído ao desejar, para o sonho, outro significado que não o de qualquer outro estado psíquico da vigília, e muito menos de ter posto o desejo em relação com a essência do sonho.
Percebemos agora que teríamos chegado a nossa doutrina do sentido oculto do sonho também pelo caminho mais curto, se apenas tivéssemos interrogado o uso da linguagem. A sabedoria proverbial fala, é verdade, de modo bastante depreciativo do sonho; poderíamos pensar que ela quer dar razão à ciência quando julga: “sonhos são espuma”; mas, para o uso da linguagem, o sonho é sobretudo o amável realizador de desejos. “Isso eu não teria imaginado nem em meus sonhos mais ousados”, exclama, encantado, quem encontra na realidade algo que superou suas expectativas.