g) Teorias do sonho e função do sonho A Interpretação dos Sonhos · Capítulo 9 de 44
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g) Teorias do sonho e função do sonho

g) Teorias do sonho e função do sonho.

Uma afirmação sobre o sonho que tente explicar, a partir de um único ponto de vista, o maior número possível de seus caracteres observados e, ao mesmo tempo, determinar a posição do sonho em relação a um campo mais amplo de fenômenos poderá ser chamada de teoria do sonho. As teorias particulares do sonho se distinguirão pelo fato de elevarem este ou aquele caráter do sonho ao essencial e de fazerem depender dele explicações e relações. Uma função, isto é, uma utilidade ou outra realização do sonho, não terá necessariamente de ser deduzível da teoria; mas nossa expectativa, habitualmente orientada para a teleologia, virá ao encontro daquelas teorias que se ligam à compreensão de uma função do sonho.

Já conhecemos várias concepções do sonho que mereciam, em maior ou menor medida, o nome de teorias do sonho nesse sentido. A crença dos antigos de que o sonho seria uma missão dos deuses para dirigir as ações dos homens era uma teoria completa do sonho, que dava informação sobre tudo que parecia digno de saber a respeito dele. Desde que o sonho se tornou objeto da investigação biológica, conhecemos um número maior de teorias do sonho, entre elas, porém, algumas bastante incompletas.

Se renunciarmos à completude, podemos tentar aproximadamente o seguinte agrupamento frouxo das teorias do sonho, segundo a suposição posta na base delas acerca da medida e da espécie da atividade psíquica no sonho:

1. Teorias que fazem prosseguir no sonho a plena atividade psíquica da vigília, como a de Delboeuf. Aqui a alma não dorme, seu aparelho permanece intacto, mas, colocado sob as condições do estado de sono, que diferem das da vigília, ele deve produzir, em funcionamento normal, outros resultados que não os da vigília. A pergunta, quanto a essas teorias, é se elas são capazes de derivar das condições do estado de sono todas as diferenças entre o sonho e a reflexão.

Além disso, falta-lhes um possível acesso a uma função do sonho; não se compreende para que se sonha, por que o mecanismo complicado do aparelho psíquico continua a funcionar mesmo quando é posto em condições para as quais não parece calculado. Dormir sem sonhos, ou despertar quando chegam estímulos perturbadores, continuariam sendo as únicas reações adequadas, em vez da terceira, a do sonhar.

2. Teorias que, ao contrário, admitem para o sonho uma redução da atividade psíquica, uma frouxidão das conexões, um empobrecimento de material capaz de exigências mais altas. Segundo essas teorias, deveria ser dada ao sono uma caracterização psicológica inteiramente diferente daquela que lhe caberia, por exemplo, segundo Delboeuf. O sono estende-se muito além da alma; ele não consiste apenas em uma barreira que separa a alma do mundo exterior, mas penetra em seu mecanismo e o torna temporariamente inutilizável.

Se me for permitido recorrer a uma comparação com material psiquiátrico, eu diria que as primeiras teorias constroem o sonho como uma paranoia; as mencionadas em segundo lugar fazem dele o modelo da debilidade mental ou de uma amentia.

A teoria segundo a qual, na vida onírica, apenas uma fração da atividade psíquica paralisada pelo sono chega à expressão é a teoria preferida entre os escritores médicos e no mundo científico em geral. Na medida em que se possa pressupor um interesse mais geral pela explicação dos sonhos, ela bem pode ser designada como a teoria dominante do sonho.

Cumpre destacar com que facilidade justamente essa teoria evita o pior escolho de toda explicação do sonho, isto é, fracassar diante de um dos contrastes incorporados pelo sonho. Como, para ela, o sonho é resultado de uma vigília parcial, “uma vigília gradual, parcial e ao mesmo tempo muito anômala”, como diz a Psicologia de Herbart sobre o sonho, ela pode cobrir, por uma série de estados de despertar cada vez mais amplo até a vigília plena, toda a sequência que vai do desempenho inferior do sonho, denunciado pela absurdidade, até a realização de pensamento plenamente concentrada.

Aquele para quem o modo fisiológico de exposição se tornou indispensável, ou parece mais científico, encontrará essa teoria do sonho expressa na descrição de Binz (p. 43): “Esse estado, porém, de rigidez, só chega gradualmente ao fim nas primeiras horas da manhã. Tornam-se cada vez menores as substâncias de fadiga acumuladas na albumina cerebral, e cada vez mais elas são decompostas ou levadas pela corrente sanguínea que impele sem repouso. Aqui e ali já brilham, despertos, grupos isolados de células, enquanto ao redor tudo ainda repousa em rigidez. O trabalho isolado dos grupos individuais apresenta-se então diante de nossa consciência enevoada, e a ele falta o controle de outras partes do cérebro, que presidem à associação. Por isso, as imagens criadas, que em geral correspondem às impressões materiais de um passado próximo, se encadeiam de modo selvagem e irregular. Quanto maior se torna o número das células cerebrais libertadas, tanto menor se torna a desrazão do sonho.”

A concepção do sonhar como uma vigília incompleta, parcial, ou vestígios de sua influência, será certamente encontrada em todos os fisiologistas e filósofos modernos. Ela está exposta de modo mais detalhado em Maury. Ali, muitas vezes, parece que o autor imagina o estar desperto ou adormecido como deslocável segundo regiões anatômicas, embora lhe pareça, é verdade, que uma província anatômica esteja ligada a uma função psíquica determinada. Quero apenas indicar aqui que, se a teoria da vigília parcial se confirmasse, ainda haveria muito a discutir sobre sua elaboração mais fina.

Uma função do sonho naturalmente não pode resultar dessa concepção da vida onírica. Antes, o juízo sobre a posição e o significado do sonho é dado, de maneira consequente, pela afirmação de Binz (p. 357): “Todos os fatos, como vemos, impelem a caracterizar o sonho como um processo corporal, inútil em todos os casos, e em muitos casos francamente mórbido...”

A expressão “corporal”, com referência ao sonho, expressão que deve seu destaque ao próprio autor, aponta provavelmente para mais de uma direção. Ela se refere, antes de tudo, à etiologia do sonho, que interessava de modo especial a Binz quando estudava a produção experimental de sonhos pela administração de venenos. Está no nexo dessa espécie de teorias do sonho fazer partir, se possível exclusivamente do lado somático, o incitamento ao sonhar.

Exposta em sua forma mais extrema, a ideia seria a seguinte: depois de nos termos posto no sono pela remoção dos estímulos, não haveria necessidade nem ocasião para sonhar até a manhã, quando o despertar gradual por meio dos estímulos recém-chegados poderia refletir-se no fenômeno do sonhar. Mas não se consegue manter o sono sem estímulos. Semelhantes aos germes vitais de que se queixa Mefisto, estímulos chegam ao adormecido de todos os lados: de fora, de dentro, até de todos os domínios corporais com os quais, estando desperto, nunca se preocupou. Assim o sono é perturbado; a alma é sacudida ora por esta, ora por aquela pontinha, e então funciona por algum tempo com a parte despertada, contente por tornar a adormecer.

O sonho é a reação à perturbação do sono causada pelo estímulo; de resto, uma reação puramente supérflua.

Teoria do sono parcial da alma.

Mas designar o sonho, que afinal continua sendo uma realização do órgão da alma, como processo corporal tem ainda outro sentido. É a dignidade de um processo psíquico que se pretende negar ao sonho. A comparação, já muito antiga em sua aplicação ao sonho, dos “dez dedos de alguém inteiramente ignorante em música correndo sobre as teclas do instrumento” talvez ilustre do melhor modo a apreciação que a realização onírica encontrou, na maioria das vezes, entre os representantes da ciência exata.

Nessa concepção, o sonho se torna algo inteiramente indecifrável; pois como poderiam os dez dedos do músico ignorante produzir uma peça musical?

A teoria da vigília parcial não tardou a encontrar objeções. Burdach observou, em 1830: “Quando se diz que o sonho é uma vigília parcial, em primeiro lugar não se explica nem a vigília nem o sono; em segundo lugar, não se diz outra coisa senão que algumas forças da alma estão ativas no sonho, enquanto outras repousam. Mas tal desigualdade ocorre durante toda a vida...” (p. 483).

À teoria dominante do sonho, que vê no sonho um processo “corporal”, liga-se uma concepção muito interessante, enunciada apenas em 1866 por Robert, e que exerce atração porque sabe indicar para o sonhar uma função, um efeito útil.

Robert toma como base de sua teoria dois fatos da observação, nos quais já nos detivemos ao apreciar o material do sonho (cf. p. 14), isto é, que se sonha com tanta frequência com as impressões mais secundárias do dia e que tão raramente se leva para o sonho os grandes interesses do dia. Robert afirma como exclusivamente correto: “Nunca as coisas que se pensou até o fim se tornam desencadeadoras do sonho, mas sempre apenas aquelas que permanecem inacabadas no espírito ou roçam o espírito de modo fugaz” (p. 10). “Por isso, na maioria das vezes não se consegue explicar o sonho, pois suas causas são justamente as impressões sensoriais do dia transcorrido que não chegaram ao conhecimento suficiente do sonhador.”

A condição para que uma impressão entre no sonho é, portanto, ou que essa impressão tenha sido perturbada em sua elaboração, ou que, por ser demasiado insignificante, não tenha tido direito a essa elaboração.

O sonho se apresenta então a Robert “como um processo corporal de eliminação que chega ao conhecimento em sua manifestação reativa espiritual”. Os sonhos são eliminações de pensamentos sufocados em germe. “Um homem a quem fosse retirada a capacidade de sonhar teria de, em dado tempo, tornar-se mentalmente perturbado, porque em seu cérebro se acumularia uma massa imensa de pensamentos inacabados, não pensados até o fim, e de impressões rasas, sob cujo volume teria de sufocar aquilo que deveria ser incorporado à memória como um todo acabado.” O sonho presta ao cérebro sobrecarregado os serviços de uma válvula de segurança. “Os sonhos têm força curativa, aliviadora” (p. 32).

Seria um equívoco dirigir a Robert a pergunta sobre como, por meio do representar no sonho, pode ser produzido um alívio da alma. O autor conclui evidentemente, a partir daquelas duas peculiaridades do material onírico, que durante o sono uma tal expulsão de impressões sem valor se realiza de algum modo como processo somático, e que o sonhar não é um processo psíquico especial, mas apenas a notícia que recebemos daquela separação. Além disso, a eliminação não é a única coisa que ocorre à noite na alma. O próprio Robert acrescenta que, além disso, os incitamentos do dia são elaborados, e “aquilo que não se deixa eliminar do material de pensamentos não digeridos que jazem no espírito é ligado, por fios de pensamento tomados de empréstimo à fantasia, em um todo arredondado, e assim incorporado à memória como quadro de fantasia inofensivo” (p. 23).

Teorias de Robert e Delage.

A teoria de Robert, porém, entra no mais brusco contraste com a teoria dominante no julgamento das fontes do sonho. Enquanto nesta última não se sonharia de modo algum se os estímulos sensoriais externos e internos não despertassem repetidas vezes a alma, segundo a teoria de Robert o impulso para sonhar está na própria alma, em sua sobrecarga, que exige alívio; e Robert julga com plena consequência que as causas condicionantes do sonho situadas no estado corporal têm uma posição subordinada, e que não poderiam de modo algum levar a sonhar um espírito no qual não houvesse material, retirado da consciência desperta, para a formação do sonho.

Admite-se apenas que as imagens de fantasia que se desenvolvem no sonho a partir das profundezas da alma podem ser influenciadas pelos estímulos nervosos (p. 48). Assim, segundo Robert, o sonho não é tão inteiramente dependente do somático; é verdade que não é um processo psíquico, não tem lugar entre os processos psíquicos da vigília, é um processo somático noturno no aparelho da atividade psíquica e tem uma função a cumprir: preservar esse aparelho de uma sobrecarga ou, se quisermos trocar a comparação, fazer a limpeza da alma.

Sobre os mesmos caracteres do sonho que se tornam claros na seleção do material onírico, outro autor, Yves Delage, apoia sua própria teoria, e é instrutivo observar como, por uma leve mudança na concepção das mesmas coisas, se obtém um resultado final de alcance inteiramente diverso.

Delage tivera em si mesmo, depois de perder pela morte uma pessoa querida, a experiência de que não se sonha com aquilo que ocupa intensamente durante o dia, ou só se sonha com isso quando começa a ceder, durante o dia, a outros interesses. Suas investigações junto a outras pessoas confirmaram-lhe a generalidade desse estado de coisas. Delage faz uma bela observação desse tipo, caso ela se mostrasse universalmente correta, sobre os sonhos de jovens casais: “Se estiveram fortemente apaixonados, quase nunca sonharam um com o outro antes do casamento ou durante a lua de mel; e, se sonharam com amor, foi para serem infiéis com alguma pessoa indiferente ou odiosa.”

Mas com que se sonha então? Delage reconhece o material que ocorre em nossos sonhos como composto de fragmentos e restos de impressões dos últimos dias e de tempos anteriores. Tudo o que aparece em nossos sonhos, e que a princípio poderíamos inclinar-nos a considerar criação da vida onírica, revela-se, em exame mais preciso, como reprodução não reconhecida, como “souvenir inconscient”, lembrança inconsciente. Mas esse material representativo mostra um caráter comum: provém de impressões que provavelmente afetaram mais nossos sentidos do que nosso espírito, ou das quais a atenção foi novamente desviada pouco depois de seu aparecimento. Quanto menos consciente e, ao mesmo tempo, quanto mais forte tiver sido uma impressão, tanto mais chance terá de desempenhar um papel no sonho seguinte.

São essencialmente as mesmas duas categorias de impressões, as secundárias e as não resolvidas, que Robert destaca; mas Delage dá outra virada ao nexo, ao considerar que essas impressões não se tornam aptas ao sonho porque são indiferentes, mas porque estão não resolvidas. Também as impressões secundárias, de certo modo, não foram plenamente resolvidas; também elas são, por sua natureza de novas impressões, “outras tantas molas tensionadas”, que se relaxarão durante o sono. Mais direito ainda a um papel no sonho do que a impressão fraca e quase não notada terá uma impressão forte que, por acaso, tenha sido detida em sua elaboração ou tenha sido deliberadamente repelida.

A energia psíquica armazenada durante o dia por inibição e supressão torna-se, à noite, a mola propulsora do sonho. No sonho, o psiquicamente suprimido vem à tona(23).

(23) De modo muito semelhante se expressa o poeta Anatole France, em Le lys rouge: “O que vemos à noite são os restos infelizes daquilo que negligenciamos na vigília. O sonho é muitas vezes a revanche das coisas que desprezamos ou a censura dos seres abandonados.”

Infelizmente, o curso de pensamento de Delage se interrompe nesse ponto; ele só pode conceder à atividade psíquica autônoma no sonho o papel mais reduzido, e assim se liga novamente, de modo brusco, com sua teoria do sonho, à doutrina dominante do sono parcial do cérebro: “Em suma, o sonho é o produto do pensamento errante, sem objetivo e sem direção, fixando-se sucessivamente nas lembranças que conservaram intensidade suficiente para colocar-se em seu caminho e detê-lo na passagem, estabelecendo entre elas um vínculo ora fraco e indeciso, ora mais forte e mais estreito, conforme a atividade atual do cérebro esteja mais ou menos abolida pelo sono.”

3. Em um terceiro grupo, podem-se reunir aquelas teorias do sonho que atribuem à alma sonhadora a capacidade e a tendência a realizações psíquicas especiais, que ela, na vigília, ou não consegue executar de modo algum ou só consegue de maneira imperfeita. Da atividade dessas capacidades resulta, na maioria das vezes, uma função útil do sonho. As apreciações que o sonho recebeu entre autores psicológicos mais antigos pertencem, em sua maior parte, a essa série.

Quero contentar-me, porém, em lugar delas, com a declaração de Burdach, segundo a qual o sonho é “a atividade natural da alma, que não é limitada pelo poder da individualidade, não é perturbada pela autoconsciência, não é dirigida pela autodeterminação, mas é a vivacidade dos pontos centrais sensíveis, entregue ao livre jogo” (p. 486). Esse deleitar-se no livre uso das próprias forças é evidentemente imaginado por Burdach e outros como um estado no qual a alma se refresca e reúne novas forças para o trabalho do dia, portanto mais ou menos à maneira de férias.

Burdach cita e aceita, por isso, as palavras amáveis nas quais o poeta Novalis louva o domínio do sonho: “O sonho é uma defesa contra a regularidade e a vulgaridade da vida, uma livre recreação da fantasia presa, em que ela mistura todas as imagens da vida e interrompe a constante seriedade do homem adulto por uma alegre brincadeira infantil; sem os sonhos certamente envelheceríamos mais cedo, e assim se pode considerar o sonho, se não como dado imediatamente do alto, ainda assim como uma tarefa preciosa, como um companheiro amistoso na peregrinação ao túmulo.”

A atividade refrescante e curativa do sonho é descrita de maneira ainda mais insistente por Purkinje (p. 456): “Sobretudo os sonhos produtivos mediariam essas funções. São jogos leves da imaginação, que não têm conexão com os acontecimentos do dia. A alma não quer prosseguir as tensões da vida desperta, mas dissolvê-las, descansar delas. Produz, antes de tudo, estados opostos aos da vigília. Cura a tristeza pela alegria, as preocupações por esperanças e imagens alegres que distraem, o ódio por amor e amistosidade, o medo por coragem e confiança; apazigua a dúvida por convicção e fé firme, a expectativa inútil por realização. Muitas feridas do ânimo, que o dia manteria continuamente abertas, o sono cura cobrindo-as e protegendo-as de nova excitação. Nisso se baseia, em parte, o efeito curativo do tempo sobre a dor.”

Todos sentimos que o sono é um benefício para a vida psíquica, e o pressentimento obscuro da consciência popular evidentemente não se deixa arrancar o preconceito de que o sonho é um dos caminhos pelos quais o sono concede seus benefícios.

A teoria de Scherner.

A tentativa mais original e de maior alcance de explicar o sonho a partir de uma atividade especial da alma, que só no estado de sono pode desenvolver-se livremente, foi empreendida por Scherner em 1861.

O livro de Scherner, escrito em estilo abafado e empolado, sustentado por um entusiasmo quase embriagado pelo objeto, que deve repelir se não conseguir arrastar consigo, opõe tamanhas dificuldades a uma análise que recorremos de bom grado à exposição mais clara e mais breve na qual o filósofo Volkelt nos apresenta as doutrinas de Scherner. “Cintila e reluz, sem dúvida, das condensações místicas, de todo o fluxo de esplendor e brilho, um clarão pressentido de sentido; mas por isso os caminhos do filósofo não se tornam claros.” Tal julgamento é o que a exposição de Scherner recebe até mesmo de seu adepto.

Scherner não pertence aos autores que permitem à alma levar suas faculdades intactas para a vida onírica. Ele mesmo expõe como, no sonho, a centralidade, a energia espontânea do eu, é enfraquecida; como, em consequência dessa descentralização, conhecimento, sentimento, vontade e representação são modificados; e como aos restos dessas forças da alma não cabe verdadeiro caráter espiritual, mas apenas a natureza de um mecanismo.

Em compensação, no sonho, a atividade da alma designada como fantasia, livre de todo domínio do entendimento e, com isso, livre das medidas estritas, eleva-se a domínio ilimitado. Ela toma, é verdade, os últimos blocos de construção da memória da vigília, mas com eles ergue edifícios que são tão distantes das formações da vigília quanto o céu da terra; mostra-se no sonho não apenas reprodutiva, mas também produtiva. Suas peculiaridades conferem à vida onírica seus caracteres especiais. Ela mostra predileção pelo desmedido, pelo exagerado, pelo monstruoso.

Ao mesmo tempo, porém, pela libertação das categorias do pensamento que a entravavam, ela conquista maior maleabilidade, agilidade e gosto pela mudança; torna-se finamente sensível aos delicados estímulos de disposição do ânimo, aos afetos que revolvem, e molda de imediato a vida interior em plasticidade externa e intuitiva.

À fantasia do sonho falta a linguagem conceitual; o que ela quer dizer, precisa pintar de modo concreto, e, como aqui o conceito não atua de maneira enfraquecedora, ela o pinta na plenitude, na força e na grandeza da forma intuitiva. Com isso, sua linguagem, por mais nítida que seja, torna-se prolixa, pesada, desajeitada.

A nitidez de sua linguagem é dificultada de modo especial pelo fato de ela ter aversão a exprimir um objeto por sua imagem própria e preferir escolher uma imagem estranha, desde que esta seja capaz de exprimir por si o momento do objeto cuja representação lhe interessa. Esta é a atividade simbolizante da fantasia...

É ainda muito importante que a fantasia do sonho não reproduza os objetos de modo exaustivo, mas apenas em seu contorno, e este da maneira mais livre. Suas pinturas aparecem, por isso, como sopradas genialmente. A fantasia do sonho não se detém, porém, na simples colocação do objeto; ela é interiormente compelida a envolver mais ou menos o eu do sonho com ele, e assim produzir uma ação. O sonho por estímulo visual, por exemplo, pinta moedas de ouro na rua; o sonhador as recolhe, alegra-se e as leva consigo.

O material sobre o qual a fantasia do sonho realiza sua atividade artística é, segundo Scherner, predominantemente o dos estímulos corporais orgânicos, tão obscuros durante o dia (cf. p. 25), de modo que, na suposição das fontes e dos desencadeadores do sonho, a teoria excessivamente fantástica de Scherner e a doutrina talvez excessivamente sóbria de Wundt e de outros fisiologistas, que de resto se comportam como antípodas, coincidem inteiramente aqui.

Mas, enquanto, segundo a teoria fisiológica, a reação psíquica aos estímulos corporais internos se esgota no despertar de quaisquer representações ajustadas a eles, que então chamam em auxílio algumas outras representações pelo caminho da associação, e enquanto, nesse estágio, a perseguição dos processos psíquicos do sonho parece terminada, os estímulos corporais, segundo Scherner, oferecem à alma apenas um material que ela pode tornar útil para seus propósitos fantásticos.

A formação do sonho começa, para Scherner, somente onde ela se extingue aos olhos dos outros. É verdade que não se poderá considerar adequado o que a fantasia do sonho faz com os estímulos corporais. Ela empreende com eles um jogo provocador, representa a fonte orgânica de onde procedem os estímulos no sonho em questão por alguma simbólica plástica. Sim, Scherner julga, embora Volkelt e outros não o sigam nisso, que a fantasia do sonho possui uma representação preferida determinada para todo o organismo: esta seria a casa.

Felizmente, porém, ela parece não se prender a esse material em suas representações; pode também, inversamente, utilizar séries inteiras de casas para designar um único órgão, por exemplo, ruas de casas muito compridas para o estímulo intestinal. Outras vezes, partes isoladas da casa representam realmente partes isoladas do corpo; assim, por exemplo, no sonho de dor de cabeça, o teto de um quarto, que o sonhador vê coberto de aranhas repugnantes semelhantes a sapos, representa a cabeça.

A fantasia do sonho.

Deixando de lado a simbólica da casa, quaisquer outros objetos são utilizados para representar as partes do corpo que enviam o estímulo do sonho. “Assim, o pulmão que respira encontra seu símbolo no forno cheio de chamas, com seu rugido semelhante ao ar; o coração, em caixas e cestos ocos; a bexiga, em objetos redondos em forma de bolsa ou simplesmente ocos. O sonho de estímulo sexual masculino faz o sonhador encontrar na rua a parte superior de um clarinete, ao lado dela a mesma parte de um cachimbo, e ao lado ainda uma pele. O clarinete e o cachimbo representam a forma aproximada do membro masculino; a pele, os pelos pubianos. No sonho sexual feminino, a estreiteza da passagem entre as coxas fechadas pode simbolizar-se por um pátio estreito cercado de casas; a vagina feminina, por uma trilha estreitíssima, escorregadia e macia, que atravessa o pátio e que a sonhadora precisa percorrer para, por exemplo, levar uma carta a um senhor” (Volkelt, p. 39).

É especialmente importante que, no fim de um tal sonho por estímulo corporal, a fantasia do sonho se desmascare, por assim dizer, apresentando sem véu o órgão excitante ou sua função. Assim, o “sonho por estímulo dentário” costuma terminar com o sonhador tirando um dente da boca.

A fantasia do sonho pode voltar sua atenção não apenas para a forma do órgão excitante; pode também tomar como objeto da simbolização a substância nele contida. Assim, por exemplo, o sonho por estímulo intestinal conduz por ruas sujas de excremento; o sonho por estímulo urinário leva a águas espumantes. Ou então o estímulo como tal, a espécie de sua excitação, o objeto que ele deseja, são representados simbolicamente, ou o eu do sonho entra em ligação concreta com as simbolizações do próprio estado, por exemplo, quando, sob estímulos dolorosos, nos debatemos desesperadamente com cães que mordem ou touros enfurecidos, ou quando a sonhadora, em sonho sexual, vê-se perseguida por um homem nu.

À parte toda a possível riqueza da execução, uma atividade simbolizante da fantasia permanece como força central de todo sonho.

Volkelt procurou então penetrar mais de perto no caráter dessa fantasia e atribuir à atividade psíquica assim reconhecida sua posição em um sistema de pensamentos filosóficos, em seu livro escrito de modo belo e caloroso, mas que permanece difícil demais para quem não foi preparado, por formação precoce, para a apreensão pressentida de esquemas conceituais filosóficos.

Nenhuma função útil está ligada à atividade da fantasia simbolizante de Scherner nos sonhos. A alma, sonhando, brinca com os estímulos que lhe são oferecidos. Poder-se-ia suspeitar que ela brinca de modo travesso. Mas também se poderia dirigir a nós a pergunta: se nossa ocupação minuciosa com a teoria do sonho de Scherner pode conduzir a algo útil, já que sua arbitrariedade e sua desvinculação das regras de toda investigação são demasiado evidentes.

Aqui seria oportuno opor um veto a uma rejeição da doutrina de Scherner, antes de todo exame, como se fosse altiva demais. Essa doutrina se constrói sobre a impressão que alguém teve de seus próprios sonhos, alguém que lhes dedicou grande atenção e que parece pessoalmente muito bem dotado para rastrear coisas psíquicas obscuras. Ela trata, além disso, de um objeto que, ao longo de milênios, apareceu aos homens como enigmático, mas ao mesmo tempo rico em conteúdo e relações, e para cujo esclarecimento a ciência rigorosa, como ela mesma reconhece, pouco contribuiu além de tentar, em pleno contraste com o sentimento popular, negar ao objeto conteúdo e significação.

Por fim, digamos honestamente que parece não ser fácil escapar da fantasia nas tentativas de esclarecer o sonho. Também há fantasia de células ganglionares; o trecho de um pesquisador sóbrio e exato como Binz, citado à p. 58, que descreve como a aurora do despertar percorre os grupos celulares adormecidos do córtex cerebral, não fica atrás, em fantasia e em improbabilidade, das tentativas de interpretação de Scherner.

Espero poder mostrar que por trás destas últimas há algo real, embora reconhecido apenas de maneira confusa e sem o caráter de generalidade a que uma teoria do sonho pode aspirar. Por ora, a teoria do sonho de Scherner, em seu contraste com a teoria médica, pode trazer diante de nossos olhos entre que extremos a explicação da vida onírica ainda oscila hoje.

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