b) A regressão A Interpretação dos Sonhos · Capítulo 36 de 44
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b) A regressão

b) A regressão.

Agora, porém, depois de nos termos resguardado contra as objeções ou, ao menos, indicado onde repousam nossas armas de defesa, já não podemos adiar a entrada nas investigações psicológicas para as quais há muito nos preparamos.

Reunamos os resultados principais de nossa investigação até aqui. O sonho é um ato psíquico de pleno valor; sua força impulsora é sempre um desejo a ser realizado; sua irreconhecibilidade como desejo e suas muitas singularidades e absurdos provêm da influência da censura psíquica que ele sofreu durante sua formação; além da necessidade de escapar a essa censura, colaboraram em sua formação uma necessidade de condensação do material psíquico, uma consideração pela representabilidade em imagens sensoriais e, embora não de modo regular, uma consideração por um aspecto racional e inteligível da formação onírica. De cada uma dessas proposições parte um caminho que leva a postulados e conjecturas psicológicas; deve-se investigar a relação recíproca entre o motivo do desejo e as quatro condições, bem como entre essas condições mesmas; o sonho deve ser inserido no conjunto da vida psíquica. Colocamos um sonho no início desta seção para nos lembrar dos enigmas cuja solução ainda está pendente. A interpretação desse sonho da criança que queima não nos ofereceu dificuldades, embora não tenha sido dada de modo completo em nosso sentido. Perguntamos por que ali se sonhou em vez de despertar, e reconhecemos como um dos motivos do sonhar o desejo de representar a criança como viva. Que ainda outro desejo desempenha aí um papel, poderemos compreender depois de considerações posteriores. Por ora, portanto, é em favor da realização de desejo que o processo de pensamento do sono foi transformado em sonho. Se desfizermos essa realização, resta apenas um traço que distingue as duas espécies de acontecer psíquico. O pensamento do sonho teria soado assim: vejo uma claridade vinda do quarto em que está o cadáver. Talvez uma vela tenha caído, e a criança esteja queimando! O sonho reproduz sem alteração o resultado dessa reflexão, mas o representa numa situação presente, apreensível pelos sentidos como uma experiência da vigília. Este é, porém, o caráter psicológico mais geral e mais notável do sonhar: um pensamento, em regra o pensamento desejado, é objetivado no sonho, representado como cena ou, como dizemos, vivenciado.

Como explicar então essa propriedade característica do trabalho do sonho ou, dito com mais modéstia, como inseri-la no conjunto dos processos psíquicos? Olhando mais de perto, percebe-se que na forma de manifestação do sonho estão impressos dois traços quase independentes um do outro. Um é a representação como situação presente, com supressão do "talvez"; o outro é a transposição do pensamento em imagens visuais e em fala. A transformação que os pensamentos do sonho sofrem pelo fato de a expectativa neles expressa ser posta no presente talvez não pareça muito notável justamente nesse sonho. Isso se relaciona ao papel especial, na verdade secundário, da realização de desejo nesse sonho. Tomemos outro sonho, no qual o desejo do sonho não se separa da continuação dos pensamentos de vigília no sono, por exemplo o da injeção de Irma. Aqui, o pensamento do sonho que chega à representação é um optativo: quem dera Otto fosse culpado pela doença de Irma! O sonho recalca o optativo e o substitui por um simples presente. Sim, Otto é culpado pela doença de Irma. Esta é, portanto, a primeira das transformações que também o sonho livre de deformação efetua nos pensamentos do sonho. Não nos deteremos longamente nessa primeira peculiaridade do sonho. Damos conta dela remetendo à fantasia consciente, ao sonho diurno, que procede do mesmo modo com seu conteúdo representacional. Quando o Mr. Joyeuse, de Daudet, vaga sem ocupação pelas ruas de Paris, enquanto suas filhas devem acreditar que ele tem um emprego e está sentado em seu escritório, ele também sonha, no presente, com os acontecimentos que deverão ajudá-lo a obter proteção e um emprego. O sonho usa, portanto, o presente do mesmo modo e com o mesmo direito que o sonho diurno. O presente é a forma temporal em que o desejo é representado como realizado.

O que é próprio apenas do sonho, em distinção do sonho diurno, é o segundo traço: o conteúdo representacional não é pensado, mas transformado em imagens sensoriais, às quais então se dá crédito e que se julga vivenciar. Acrescentemos logo que nem todos os sonhos mostram a transformação de representação em imagem sensorial; há sonhos que consistem apenas em pensamentos, sem que por isso se possa negar-lhes a natureza de sonhos. Meu sonho: "Autodidasker, a fantasia diurna com o professor N.", é um desses; nele quase não se misturam mais elementos sensoriais do que se eu tivesse pensado seu conteúdo durante o dia. Além disso, em todo sonho mais longo há elementos que não passaram pela transformação em sensorialidade, que são simplesmente pensados ou sabidos, como estamos habituados na vigília. Devemos ainda lembrar aqui que tal transformação de representações em imagens sensoriais não pertence apenas ao sonho, mas igualmente à alucinação, às visões, que por vezes aparecem de modo autônomo na saúde ou como sintomas das psiconeuroses. Em suma, a relação que aqui investigamos não é exclusiva em nenhuma direção; permanece, porém, que esse caráter do sonho, quando ocorre, parece-nos o mais notável, a ponto de não podermos imaginá-lo ausente da vida onírica. Sua compreensão, contudo, exige considerações de amplo alcance.

A ideia de Fechner de uma localidade psíquica.

Entre todas as observações sobre a teoria do sonhar que se encontram nos autores, gostaria de destacar uma como apropriada para servir de ponto de partida. O grande G. Th. Fechner, em sua Psicofísica, segunda parte, p. 520, no contexto de algumas considerações dedicadas ao sonho, exprime a suposição de que o palco dos sonhos é outro que não o da vida representacional de vigília. Nenhuma outra hipótese permitiria compreender as peculiaridades especiais da vida onírica.

A ideia que assim se põe à nossa disposição é a de uma localidade psíquica. Deixaremos inteiramente de lado que o aparelho anímico de que aqui se trata também nos é conhecido como preparação anatômica, e evitaremos cuidadosamente a tentação de determinar anatomicamente a localidade psíquica. Permanecemos em terreno psicológico e pretendemos apenas seguir a solicitação de imaginar o instrumento que serve às realizações psíquicas como algo semelhante a um microscópio composto, a um aparelho fotográfico e assim por diante. A localidade psíquica corresponde então a um lugar, no interior de tal aparelho, em que se forma uma das etapas preliminares da imagem. No microscópio e no telescópio, como se sabe, trata-se em parte de localidades ideais, regiões em que não se encontra nenhum componente tangível do aparelho. Considero supérfluo pedir desculpas pelas imperfeições dessa e de todas as imagens semelhantes. Essas comparações devem apenas nos auxiliar numa tentativa que empreende tornar compreensível a complicação da realização psíquica, decompondo essa realização e atribuindo a operação isolada aos componentes isolados do aparelho. A tentativa de adivinhar a composição do instrumento psíquico a partir de tal decomposição, que eu saiba, ainda não foi ousada. Ela me parece inofensiva. Quero dizer: podemos dar livre curso às nossas conjecturas, desde que preservemos nosso juízo frio e não tomemos o andaime pelo edifício. Como não necessitamos de outra coisa senão representações auxiliares para uma primeira aproximação de algo desconhecido, preferiremos de início as hipóteses mais grosseiras e mais palpáveis a todas as outras.

Imaginemos, portanto, o aparelho psíquico como um instrumento composto, cujos componentes queremos chamar de instâncias ou, em favor da clareza intuitiva, de sistemas. Formamos então a expectativa de que esses sistemas talvez tenham entre si uma orientação espacial constante, mais ou menos como os diversos sistemas de lentes do telescópio se dispõem uns atrás dos outros. A rigor, não precisamos admitir uma disposição realmente espacial dos sistemas psíquicos. Basta-nos que uma sequência fixa seja estabelecida pelo fato de, em certos processos psíquicos, os sistemas serem percorridos pela excitação numa determinada sucessão temporal. Essa sequência pode sofrer modificação em outros processos; queremos deixar aberta essa possibilidade. Doravante, por brevidade, falaremos dos componentes do aparelho como "sistemas Ψ".

A primeira coisa que nos chama a atenção é que esse aparelho composto por sistemas Ψ tem uma direção. Toda a nossa atividade psíquica parte de estímulos, internos ou externos, e termina em inervações. Por isso atribuímos ao aparelho uma extremidade sensível e uma extremidade motora; na extremidade sensível encontra-se um sistema que recebe as percepções; na extremidade motora, outro que abre as comportas da motilidade. O processo psíquico decorre, de modo geral, da extremidade perceptiva para a extremidade motora. O esquema mais geral do aparelho psíquico teria, portanto, o seguinte aspecto:

[Ilustração: Fig. 1.]

Mas isso é apenas a satisfação de uma exigência há muito conhecida por nós, a de que o aparelho psíquico deve ser construído como um aparelho reflexo. O processo reflexo permanece o modelo também de toda realização psíquica.

Um esquema do aparelho psíquico.

Temos agora razões para introduzir uma primeira diferenciação na extremidade sensível. Das percepções que chegam até nós, permanece em nosso aparelho psíquico um traço que podemos chamar de "traço mnêmico". A função que se relaciona com esse traço mnêmico chamamos justamente de memória. Se levarmos a sério o propósito de ligar os processos psíquicos a sistemas, o traço mnêmico só pode consistir em alterações permanentes nos elementos dos sistemas. Ora, como já foi exposto por outros lados, é evidente que surgem dificuldades quando um mesmo sistema deve conservar fielmente alterações em seus elementos e, ao mesmo tempo, permanecer sempre fresco e receptivo a novas ocasiões de alteração. Segundo o princípio que guia nossa tentativa, distribuiremos então essas duas realizações por sistemas diferentes. Admitimos que um sistema situado mais à frente do aparelho recebe os estímulos perceptivos, mas nada conserva deles, não tem, portanto, memória; atrás dele, haveria um segundo sistema, que transpõe a excitação momentânea do primeiro em traços permanentes. Esta seria então a imagem de nosso aparelho psíquico:

[Ilustração: Fig. 2.]

É sabido que, das percepções que atuam sobre o sistema W, conservamos como permanente ainda outra coisa além de seu conteúdo. Nossas percepções também se mostram vinculadas umas às outras na memória, e isso sobretudo segundo seu encontro anterior na simultaneidade. Chamamos isso de fato da associação. Ora, é claro que, se o sistema W não tem memória alguma, também não pode conservar os traços da associação; os elementos W individuais seriam intoleravelmente impedidos em sua função se, contra uma nova percepção, se fizesse valer um resto de ligação anterior. Devemos, portanto, admitir antes os sistemas mnêmicos como base da associação. O fato da associação consiste então em que, em consequência de reduções de resistência e facilitações, a excitação de um dos elementos Er se propaga mais prontamente para um segundo elemento Er do que para um terceiro.

Uma consideração mais detida mostra a necessidade de admitir não um, mas vários desses sistemas Er, nos quais a mesma excitação propagada pelos elementos W sofre fixações de tipos diversos. O primeiro desses sistemas Er conterá sem dúvida a fixação da associação por simultaneidade; nos que se acham mais distantes, o mesmo material de excitação será ordenado segundo outros tipos de encontro, de modo que, por exemplo, relações de semelhança, entre outras, seriam representadas por esses sistemas posteriores. Naturalmente, seria inútil querer indicar em palavras o significado psíquico de tal sistema. Sua característica residiria na intimidade de suas relações com elementos da matéria-prima mnêmica, isto é, se quisermos apontar para uma teoria mais profunda, nos graus do resíduo de condução em direção a esses elementos. Uma observação de natureza geral, que talvez aponte para algo significativo, deve ser aqui inserida. O sistema W, que não possui capacidade de conservar alterações, logo, nenhuma memória, fornece para nossa consciência toda a multiplicidade das qualidades sensoriais. Inversamente, nossas lembranças, sem excluir as mais profundamente gravadas em nós, são em si inconscientes. Elas podem tornar-se conscientes; não há dúvida, porém, de que, no estado inconsciente, desenvolvem todos os seus efeitos. O que chamamos de nosso caráter baseia-se justamente nos traços mnêmicos de nossas impressões, e são precisamente as impressões que atuaram sobre nós com mais força, as de nossa primeira juventude, aquelas que quase nunca se tornam conscientes. Mas quando as lembranças voltam a se tornar conscientes, elas não mostram nenhuma qualidade sensorial, ou mostram uma qualidade sensorial muito pequena em comparação com as percepções. Se agora se pudesse confirmar que memória e qualidade para a consciência se excluem mutuamente nos sistemas Ψ, abrir-se-ia uma via promissora para compreender as condições da excitação neuronal.

Aquilo que até aqui admitimos sobre a composição do aparelho psíquico na extremidade sensível ocorreu sem levar em conta o sonho e os esclarecimentos psicológicos que dele podem ser derivados. Para o conhecimento de outra parte do aparelho, porém, o sonho nos servirá como fonte de prova. Vimos que se tornou impossível explicar a formação do sonho se não ousássemos admitir duas instâncias psíquicas, das quais uma submete a atividade da outra a uma crítica, e como consequência dessa crítica se dá a exclusão do tornar-se consciente. A instância crítica, concluímos, mantém relações mais próximas com a consciência do que a criticada. Ela está entre esta e a consciência como um anteparo. Encontramos ainda pontos de apoio para identificar a instância crítica com aquilo que dirige nossa vida de vigília e decide sobre nosso agir voluntário e consciente. Se agora substituirmos essas instâncias por sistemas, de acordo com nossas hipóteses, então, por essa última constatação, o sistema crítico é deslocado para a extremidade motora. Inserimos agora os dois sistemas em nosso esquema e, pelos nomes que lhes damos, exprimimos sua relação com a consciência.

[Ilustração: Fig. 3.]

O último dos sistemas na extremidade motora chamamos de pré-consciente, para indicar que os processos de excitação nele podem chegar à consciência sem nova detenção, desde que ainda se cumpram certas condições, por exemplo a obtenção de certa intensidade, certa distribuição daquela função que se deve chamar de atenção, e assim por diante. Ele é, ao mesmo tempo, o sistema que detém as chaves da motilidade voluntária. O sistema situado atrás dele chamamos de inconsciente, porque não tem acesso à consciência a não ser pelo pré-consciente, em cuja passagem seu processo de excitação deve aceitar modificações. Em qual desses sistemas situamos agora o impulso para a formação do sonho? Por simplificação, no sistema Ubw. É verdade que ouviremos, em considerações posteriores, que isso não é inteiramente correto, que a formação do sonho é obrigada a ligar-se a pensamentos do sonho que pertencem ao sistema do pré-consciente. Mas também saberemos em outro ponto, quando tratarmos do desejo do sonho, que a força impulsora do sonho é fornecida pelo Ubw, e por causa desse último fator admitiremos o sistema inconsciente como ponto de partida da formação do sonho. Essa excitação onírica manifestará então, como todas as outras formações de pensamento, o esforço de prosseguir para o Vbw e de, a partir dele, obter acesso à consciência.

A experiência nos ensina que durante o dia esse caminho que leva, pelo pré-consciente, à consciência, está interditado aos pensamentos do sonho pela censura da resistência. À noite, eles criam para si o acesso à consciência; mas surge a pergunta: por qual caminho e graças a que alteração? Se isso fosse possibilitado aos pensamentos do sonho pelo fato de, à noite, diminuir a resistência que vigia na fronteira entre inconsciente e pré-consciente, obteríamos sonhos no material de nossas representações, mas não sonhos que apresentassem o caráter alucinatório que agora nos interessa. A diminuição da censura entre os dois sistemas, Ubw e Vbw, só pode explicar, portanto, formações oníricas como Autodidasker, mas não sonhos como o da criança que queima, que pusemos como problema no início destas investigações.

A direção do fluxo de excitação.

O que se passa no sonho alucinatório só podemos descrever dizendo: a excitação toma um caminho retrocedente. Em vez de se propagar rumo à extremidade motora do aparelho, ela se propaga rumo à extremidade sensível e, por fim, chega ao sistema das percepções. Se chamamos de progrediente a direção em que o processo psíquico a partir do inconsciente se prolonga na vigília, podemos afirmar do sonho que ele tem caráter regrediente(231).

(231) A primeira indicação do fator da regressão já se encontra em Alberto Magno. A imaginatio, diz-se nele, constrói o sonho a partir das imagens conservadas dos objetos sensíveis. O processo se realiza de modo inverso ao da vigília, segundo Diepgen, p. 14. Hobbes diz no Leviatã, 1651: "In sum, our dreams are the reverse of our waking imaginations, the motion, when we are awake, beginning at one end, and when we dream at another." Segundo H. Ellis, p. 112.

Essa regressão é, com certeza, uma das mais importantes peculiaridades psicológicas do processo onírico; não devemos esquecer, porém, que ela não pertence somente aos sonhos. Também a recordação intencional e outros processos parciais de nosso pensamento normal correspondem a um retrocesso no aparelho psíquico, de algum ato representacional complexo para a matéria-prima dos traços mnêmicos que lhe servem de base. Durante a vigília, porém, esse retrocesso nunca ultrapassa as imagens mnêmicas; ele não é capaz de produzir a animação alucinatória das imagens perceptivas. Por que isso é diferente no sonho? Quando falamos do trabalho de condensação do sonho, não pudemos evitar a hipótese de que, pelo trabalho do sonho, as intensidades aderidas às representações são plenamente transferidas de uma para outra. É provavelmente essa alteração do processo psíquico habitual que torna possível investir o sistema W, até a plena vivacidade sensorial, em direção inversa, a partir dos pensamentos.

Espero que estejamos longe de nos iludir sobre o alcance dessas considerações. Nada fizemos senão dar um nome a um fenômeno que não pode ser explicado. Chamamo-lo de regressão quando, no sonho, a representação se reconverte na imagem sensorial da qual, em algum momento, partiu. Também esse passo, porém, exige justificação. Para que nomear, se isso nada nos ensina de novo? Ora, penso que o nome "regressão" nos serve na medida em que liga o fato que conhecemos ao esquema do aparelho psíquico dotado de uma direção. Nesse ponto, pela primeira vez, valeu a pena ter estabelecido tal esquema. Pois outra peculiaridade da formação do sonho se tornará compreensível sem nova reflexão, apenas com a ajuda do esquema. Se encararmos o processo onírico como uma regressão no interior do aparelho psíquico por nós admitido, explica-se sem dificuldade o fato empiricamente constatado de que todas as relações de pensamento dos pensamentos do sonho se perdem no trabalho do sonho ou só encontram expressão de modo laborioso. Segundo nosso esquema, essas relações de pensamento não estão contidas nos primeiros sistemas Er, mas em sistemas situados mais adiante, e, na regressão até as imagens perceptivas, devem perder sua expressão. A estrutura dos pensamentos do sonho é dissolvida, pela regressão, em sua matéria-prima.

Regressão histérica, visões.

Por que alteração se torna possível, porém, a regressão impossível durante o dia? Queremos aqui nos contentar com conjecturas. Deve tratar-se, provavelmente, de alterações nos investimentos de energia dos sistemas isolados, pelas quais eles se tornam mais ou menos transitáveis para o fluxo da excitação; mas, em todo aparelho desse tipo, o mesmo efeito para o caminho da excitação poderia ser produzido por mais de uma espécie dessas alterações. Pensa-se naturalmente, de imediato, no estado de sono e nas alterações de investimento que ele provoca na extremidade sensível do aparelho. Durante o dia, há uma corrente contínua que vai do sistema Ψ da W até a motilidade; à noite, essa corrente cessa e já não poderia opor obstáculo a uma corrente inversa da excitação. Seria esse o "fechamento em relação ao mundo exterior", que, na teoria de alguns autores, deve esclarecer os caracteres psicológicos do sonho, cf. p. 38. Entretanto, ao explicar a regressão do sonho, será preciso levar em conta aquelas outras regressões que se produzem em estados patológicos de vigília. Nessas formas, a explicação recém-dada naturalmente falha. A regressão ocorre apesar da corrente sensível ininterrupta em direção progrediente.

Para as alucinações da histeria, da paranoia e para as visões de pessoas psiquicamente normais, posso dar a explicação de que elas correspondem de fato a regressões, isto é, são pensamentos transformados em imagens, e de que apenas sofrem essa transformação aqueles pensamentos que estão em relação íntima com lembranças suprimidas ou que permaneceram inconscientes. Por exemplo, um de meus jovens histéricos, um menino de doze anos, é impedido de adormecer por "rostos verdes com olhos vermelhos", diante dos quais se aterroriza. A fonte desse fenômeno é a lembrança suprimida, mas outrora consciente, de um menino que ele vira muitas vezes quatro anos antes e que lhe oferecia uma imagem assustadora de muitos maus hábitos infantis, entre eles também o onanismo, pelo qual ele agora faz a si mesmo uma censura posterior. A mãe havia observado naquela época que o menino malcriado tinha uma cor de rosto esverdeada e olhos vermelhos, isto é, com bordas avermelhadas. Daí o fantasma assustador, que, aliás, se destina apenas a lembrá-lo de outra profecia da mãe: a de que tais meninos ficam imbecis, não aprendem nada na escola e morrem cedo. Nosso pequeno paciente realiza uma parte da profecia; não progride no ginásio e, como mostra o interrogatório de suas associações involuntárias, tem pavor da segunda parte. Após pouco tempo, contudo, o tratamento tem como resultado que ele dorme, perde sua angústia e conclui seu ano escolar com certificado de distinção.

Posso anexar aqui a solução de uma visão que uma paciente histérica de quarenta anos me contou, de seus dias saudáveis. Certa manhã, ela abre os olhos e vê seu irmão no quarto, embora saiba que ele se encontra numa instituição psiquiátrica. Seu filho pequeno dorme na cama ao lado dela. Para que a criança não se assuste e caia em convulsões ao ver o tio, ela puxa a coberta sobre ela, e então a aparição desaparece. A visão é a reelaboração de uma lembrança infantil da senhora, lembrança que era consciente, mas que se achava em relação íntima com todo o material inconsciente em seu interior. Sua babá lhe havia contado que a mãe, morta muito cedo, pois a paciente tinha apenas um ano e meio na época da morte, sofrera convulsões epilépticas ou histéricas desde um susto causado por seu irmão, o tio de minha paciente, que lhe apareceu como fantasma com uma coberta sobre a cabeça. A visão contém os mesmos elementos que a lembrança: a aparição do irmão, a coberta, o susto e seu efeito. Esses elementos, porém, estão ordenados numa nova conexão e transferidos para outras pessoas. O motivo manifesto da visão, o pensamento por ela substituído, é a preocupação de que seu filho pequeno, tão parecido fisicamente com o tio, pudesse compartilhar o destino deste.

Os dois exemplos aqui citados não estão livres de toda relação com o estado de sono e, por isso, talvez sejam inadequados para a prova de que necessito. Remeto, portanto, à minha análise de uma paciente paranoica com alucinações(232) e aos resultados de meus estudos ainda não publicados sobre a psicologia das psiconeuroses, para confirmar que, nesses casos de transformação regrediente de pensamentos, não se deve negligenciar a influência de uma lembrança suprimida ou que permaneceu inconsciente, geralmente infantil. Essa lembrança, por assim dizer, arrasta para a regressão o pensamento que está ligado a ela e que foi impedido de se expressar pela censura, levando-o àquela forma de representação na qual ela mesma existe psiquicamente. Posso mencionar aqui, como resultado dos estudos sobre a histeria, que as cenas infantis, sejam elas lembranças ou fantasias, quando se consegue torná-las conscientes, são vistas de modo alucinatório e só perdem esse caráter depois de serem comunicadas. Também é sabido que, mesmo em pessoas que de outro modo não são visuais ao recordar, as primeiras lembranças infantis conservam até anos tardios o caráter da vivacidade sensorial.

(232) "Novas observações sobre as neuropsicoses de defesa". Neurologisches Zentralblatt, 1896, n. 10. Sammlung kleiner Schriften zur Neurosenlehre, p. 112.

Quando se recorda agora o papel que cabe, nos pensamentos do sonho, às experiências infantis ou às fantasias fundadas sobre elas, a frequência com que fragmentos delas reaparecem no conteúdo do sonho e o quanto os próprios desejos do sonho derivam frequentemente delas, não se pode recusar também para o sonho a probabilidade de que a transformação de pensamentos em imagens visuais seja em parte consequência da atração que a lembrança visualmente representada, esforçando-se por reviver, exerce sobre o pensamento cortado da consciência e em luta por expressão. Segundo essa concepção, também se poderia descrever o sonho como o substituto da cena infantil, modificado pela transferência para o recente. A cena infantil não consegue impor sua renovação; precisa contentar-se com o retorno como sonho.

A regressão explicada pela atração das cenas infantis.

A indicação do significado, de certo modo exemplar, das cenas infantis, ou de suas repetições fantásticas, para o conteúdo do sonho torna supérflua uma das hipóteses de Scherner e de seus seguidores sobre as fontes internas de estímulo. Scherner admite um estado de "estímulo visual", de excitação interna no órgão visual, quando os sonhos deixam reconhecer uma vivacidade especial de seus elementos visuais ou uma riqueza especial desses elementos. Não precisamos nos insurgir contra essa hipótese; podemos talvez contentar-nos em postular tal estado de excitação apenas para o sistema perceptivo psíquico do órgão visual, mas sustentaremos que esse estado de excitação é produzido pela lembrança, a renovação da excitação visual que outrora foi atual. Não tenho à mão, a partir de minha própria experiência, um bom exemplo dessa influência de uma lembrança infantil; meus sonhos, em geral, são menos ricos em elementos sensoriais do que devo supor que sejam os de outras pessoas. Mas, no mais belo e vívido sonho destes últimos anos, posso facilmente remeter a clareza alucinatória do conteúdo do sonho a qualidades sensoriais de impressões recentes e ocorridas pouco antes. Mencionei, na p. 332, um sonho no qual a cor azul-profunda da água, a cor marrom da fumaça das chaminés dos navios e o marrom e vermelho sombrios dos edifícios que eu via me deixaram uma impressão profunda. Se algum sonho devia ser interpretado como estímulo visual, era esse. E o que havia colocado meu órgão visual nesse estado de excitação? Uma impressão recente, que se somava a uma série de impressões anteriores. As cores que eu via eram, antes de tudo, as do conjunto de blocos Anker, com o qual as crianças, no dia anterior ao meu sonho, haviam erguido uma construção magnífica para me mostrar. Ali se encontravam o mesmo vermelho sombrio nas peças grandes, e o azul e o marrom nas pequenas. A isso se acrescentavam as impressões cromáticas das últimas viagens à Itália, o belo azul do Isonzo e da laguna, e o marrom do Karst. A beleza cromática do sonho era apenas uma repetição do que fora visto na lembrança.

Resumamos o que aprendemos sobre a peculiaridade do sonho de verter seu conteúdo representacional em imagens sensoriais. Não explicamos esse caráter do trabalho do sonho nem o reconduzimos a leis conhecidas da psicologia; antes, destacamo-lo como indicação de relações desconhecidas e o assinalamos pelo nome de caráter "regrediente". Opinamos que essa regressão, onde quer que ocorra, seja provavelmente um efeito da resistência que se opõe ao avanço do pensamento para a consciência pelo caminho normal, bem como da atração simultânea que lembranças existentes com força sensorial exercem sobre ele(233). No sonho, talvez venha facilitar a regressão a cessação da corrente diurna progrediente a partir dos órgãos dos sentidos, fator auxiliar que, nas outras formas de regressão, precisa ser compensado pelo reforço dos outros motivos da regressão. Também não nos esqueçamos de observar que, nesses casos patológicos de regressão, assim como no sonho, o processo de transferência de energia deve ser outro que não o das regressões da vida psíquica normal, pois por meio dele se torna possível um investimento alucinatório pleno dos sistemas perceptivos. Aquilo que, na análise do trabalho do sonho, descrevemos como "consideração pela representabilidade" deve referir-se à atração seletiva das cenas visualmente lembradas que foram tocadas pelos pensamentos do sonho.

(233) Numa exposição da doutrina do recalque, seria preciso mostrar que um pensamento cai no recalque pela cooperação de dois fatores que o influenciam. Ele é repelido de um lado, pela censura do Bw., o consciente, e atraído de outro, pelo Ubw., o inconsciente, algo semelhante ao modo como se chega ao topo da grande pirâmide.

Sobre a regressão, queremos ainda observar que ela desempenha na teoria da formação neurótica de sintomas um papel não menos importante que na teoria do sonho. Distinguimos então uma tríplice espécie de regressão: a) uma regressão tópica, no sentido do esquema dos sistemas Ψ aqui desenvolvido; b) uma regressão temporal, na medida em que se trata de um retorno a formações psíquicas mais antigas; e c) uma regressão formal, quando modos primitivos de expressão e representação substituem os habituais. Todas as três espécies de regressão são, porém, no fundo, uma só, e na maioria dos casos coincidem, pois o mais antigo no tempo é também o formalmente primitivo e, na tópica psíquica, o mais próximo da extremidade perceptiva.

É bem possível que esta primeira parte de nosso aproveitamento psicológico do sonho não nos satisfaça muito. Consolemo-nos com o fato de que somos obrigados a construir rumo ao escuro. Se não nos desviamos inteiramente, devemos chegar, a partir de outro ponto de ataque, aproximadamente à mesma região, na qual talvez possamos nos orientar melhor.

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