e) As particularidades psicológicas do sonho
e) As particularidades psicológicas do sonho.
Partimos, na consideração científica do sonho, da suposição de que o sonho é resultado de nossa própria atividade psíquica; no entanto, o sonho acabado nos aparece como algo estranho, cuja autoria tão pouco somos impelidos a confessar que dizemos com igual agrado: “sonhou-me” e “sonhei”. De onde provém essa “estranheza psíquica” do sonho? Segundo nossas discussões sobre as fontes do sonho, deveríamos supor que ela não é determinada pelo material que entra no conteúdo do sonho, pois este é, em sua maior parte, comum à vida onírica e à vida de vigília.
Pode-se perguntar se não são modificações dos processos psíquicos no sonho que produzem essa impressão, e assim tentar uma caracterização psicológica do sonho.
Ninguém destacou com mais força a diferença essencial entre vida onírica e vida de vigília, nem a utilizou para conclusões de maior alcance, que G. Th. Fechner, em algumas observações de seus Elementos de psicofísica (p. 520, II). Ele pensa que “nem o simples rebaixamento da vida psíquica consciente abaixo do limiar principal”, nem a retirada da atenção das influências do mundo exterior bastam para esclarecer as peculiaridades da vida onírica em contraste com a vida desperta.
Ele supõe, antes, que também o palco dos sonhos é outro que não o da vida representativa desperta. “Se o palco da atividade psicofísica durante o sono e durante a vigília fosse o mesmo, o sonho, a meu ver, poderia ser apenas uma continuação da vida representativa desperta mantida em grau inferior de intensidade, e deveria, além disso, partilhar sua matéria e sua forma. Mas as coisas se passam de modo inteiramente diferente.”
O que Fechner entende por uma tal transferência da atividade psíquica provavelmente não ficou claro; e nenhum outro, tanto quanto sei, prosseguiu no caminho cuja trilha ele indicou nessa observação. Uma interpretação anatômica, no sentido da localização cerebral fisiológica, ou mesmo com referência à estratificação histológica do córtex cerebral, deve provavelmente ser excluída.
Talvez, porém, a ideia um dia se revele engenhosa e fecunda se a referirmos a um aparelho psíquico composto de várias instâncias dispostas uma após a outra.
Outros autores contentaram-se em destacar uma ou outra das particularidades psicológicas mais apreensíveis da vida onírica, talvez tomando-a como ponto de partida para tentativas explicativas de alcance mais amplo.
Por que acreditamos na realidade das imagens oníricas?
Observou-se com razão que uma das principais particularidades da vida onírica já surge no estado de adormecimento e deve ser designada como fenômeno introdutório ao sono. O característico do estado desperto, segundo Schleiermacher (p. 351), é que a atividade de pensamento se processa em conceitos e não em imagens.
Ora, o sonho pensa principalmente em imagens, e pode-se observar que, com a aproximação do sono, no mesmo grau em que as atividades voluntárias se mostram dificultadas, emergem representações involuntárias, todas pertencentes à classe das imagens.
A incapacidade para esse trabalho representativo que sentimos como intencionalmente querido, e o surgimento de imagens regularmente ligado a essa dispersão, são dois caracteres que permanecem no sonho e que, na análise psicológica dele, devemos reconhecer como caracteres essenciais da vida onírica. Quanto às imagens, as alucinações hipnagógicas, aprendemos que, mesmo pelo conteúdo, são idênticas às imagens oníricas(13).
O sonho, portanto, pensa predominantemente em imagens visuais, embora não exclusivamente. Ele trabalha também com imagens auditivas e, em menor medida, com impressões dos outros sentidos. Muita coisa também é simplesmente pensada ou representada no sonho, provavelmente, portanto, por restos de representações verbais, exatamente como no estado de vigília. Característicos do sonho, porém, são apenas aqueles elementos de conteúdo que se comportam como imagens, isto é, que se assemelham mais às percepções do que às representações de lembrança.
Deixando de lado todas as discussões, bem conhecidas do psiquiatra, sobre a essência da alucinação, podemos afirmar, com todos os autores competentes, que o sonho alucina, que substitui pensamentos por alucinações.
Sob esse aspecto, não há diferença entre representações visuais e acústicas; observou-se que a lembrança de uma sequência sonora com a qual se adormece se transforma, ao mergulhar no sono, na alucinação dessa mesma melodia, para, ao recobrar-se, coisa que pode alternar-se várias vezes com o cochilo, ceder novamente lugar à representação de lembrança mais fraca e qualitativamente diversa.
A transformação da representação em alucinação não é o único desvio do sonho em relação a um pensamento de vigília que talvez lhe correspondesse. A partir dessas imagens, o sonho configura uma situação; representa algo como presente; dramatiza uma ideia, como diz Spitta (p. 145).
A caracterização desse lado da vida onírica só se completa, porém, quando se acrescenta que, ao sonhar, em regra, as exceções exigem uma explicação especial, não se julga pensar, mas viver; acolhe-se, portanto, a alucinação com plena crença. A crítica de que nada se viveu, mas apenas se pensou de forma peculiar, isto é, sonhou-se, só se agita ao despertar.
Esse caráter separa o verdadeiro sonho do sono da fantasia diurna, que jamais é confundida com a realidade.
Burdach resumiu os caracteres até aqui considerados da vida onírica nas seguintes frases (p. 476): “Pertence aos traços essenciais do sonho: a) que a atividade subjetiva de nossa alma aparece como objetiva, na medida em que a faculdade perceptiva apreende os produtos da fantasia como se fossem estímulos sensíveis; ... b) o sono é uma suspensão da iniciativa própria. Por isso, certa passividade pertence ao adormecer... As imagens do cochilo são condicionadas pelo relaxamento da iniciativa própria.”
Trata-se agora da tentativa de explicar a credulidade da alma diante das alucinações do sonho, que só podem surgir depois da suspensão de certa atividade autônoma. Strümpell expõe que, nisso, a alma se comporta de modo correto e conforme seu mecanismo. Os elementos do sonho de modo algum são meras representações, mas verdadeiras e reais vivências da alma, como as que ocorrem na vigília por mediação dos sentidos (p. 34).
Enquanto, desperta, a alma representa e pensa em imagens verbais e na linguagem, no sonho ela representa e pensa em imagens sensíveis reais (p. 35). Além disso, no sonho acrescenta-se uma consciência espacial, na medida em que, como na vigília, sensações e imagens são deslocadas para um espaço exterior (p. 36). Deve-se, portanto, admitir que a alma se encontra, no sonho, diante de suas imagens e percepções na mesma posição em que se encontra na vigília (p. 43).
Se, apesar disso, ela erra, é porque, no estado de sono, falta-lhe o critério que, sozinho, pode distinguir entre percepções sensoriais dadas de fora e de dentro. Ela não pode submeter suas imagens às provas que, sozinhas, demonstram sua realidade objetiva. Além disso, negligencia a diferença entre imagens que podem ser trocadas arbitrariamente e outras em que essa arbitrariedade deixa de existir.
Ela erra porque não pode aplicar a lei da causalidade ao conteúdo de seu sonho (p. 58). Em suma, seu afastamento do mundo exterior contém também a razão de sua crença no mundo subjetivo do sonho.
Separação das representações de seus valores psíquicos.
À mesma conclusão chega Delboeuf, por desenvolvimentos psicológicos parcialmente diferentes. Concedemos às imagens oníricas a crença de realidade porque, no sono, não temos outras impressões para comparação, porque estamos desligados do mundo exterior. Mas não é por nos ter sido retirada, no sono, a possibilidade de fazer provas que acreditamos na verdade de nossas alucinações.
O sonho pode simular todas essas verificações, pode, por exemplo, mostrar-nos que tocamos a rosa vista, e ainda assim sonhamos. Para Delboeuf, não há critério incontestável para saber se algo é sonho ou realidade desperta, salvo, e isso apenas em generalidade prática, o fato do despertar. Declaro ilusão tudo o que foi vivido entre o adormecer e o despertar quando, pelo despertar, noto que estou despido em minha cama (p. 84).
Durante o sono, tomei as imagens oníricas por verdadeiras em consequência do hábito de pensamento, que não se deixa adormecer, de admitir um mundo exterior ao qual contraponho o meu eu(14).
Se o afastamento do mundo exterior é assim elevado a fator determinante para a configuração dos caracteres mais notáveis da vida onírica, vale a pena citar algumas observações sutis do velho Burdach, que lançam luz sobre a relação da alma adormecida com o mundo exterior e que são apropriadas para nos conter diante de uma superestimação das deduções precedentes. “O sono ocorre apenas sob a condição”, diz Burdach, “de que a alma não seja excitada por estímulos sensoriais... mas não é tanto a falta de estímulos sensoriais a condição do sono, e sim a falta de interesse por eles(15); alguma impressão sensível é até necessária, na medida em que serve para acalmar a alma, assim como o moleiro só dorme quando ouve o estalar de seu moinho, e aquele que, por precaução, considera necessário manter uma luz noturna acesa, não consegue adormecer no escuro” (p. 457).
“A alma, no sono, isola-se contra o mundo exterior e se retira da periferia... Entretanto, a conexão não é inteiramente interrompida: se não se ouvisse e sentisse no próprio sono, mas apenas depois do despertar, não se poderia ser despertado de modo algum.
A continuação da sensação é ainda mais provada pelo fato de que nem sempre se desperta pela simples intensidade sensorial de uma impressão, mas pela relação psíquica dela; uma palavra indiferente não desperta quem dorme, mas, se o chamam pelo nome, ele desperta... a alma distingue, portanto, entre as sensações no sono...
Por isso, também se pode despertar pela falta de um estímulo sensorial quando este se refere a algo importante para a representação; assim se desperta quando uma luz noturna se apaga, e o moleiro quando seu moinho para, isto é, pelo cessar da atividade sensorial, o que pressupõe que ela foi percebida, mas que, como indiferente ou antes satisfatória, não perturbou a alma” (p. 460 e segs.).
Mesmo que queiramos deixar de lado essas objeções, que não devem ser subestimadas, ainda assim temos de admitir que as propriedades da vida onírica até aqui apreciadas e derivadas do afastamento do mundo exterior não conseguem cobrir plenamente sua estranheza. Caso contrário, seria possível reconverter as alucinações do sonho em representações, as situações do sonho em pensamentos, e assim resolver a tarefa da interpretação dos sonhos.
Ora, não procedemos de outro modo quando, depois do despertar, reproduzimos o sonho a partir da memória; e, quer essa retradução nos seja bem-sucedida total ou apenas parcialmente, o sonho conserva intacto seu caráter enigmático.
Todos os autores admitem também sem hesitação que, no sonho, ocorreram outras modificações mais profundas com o material representativo da vigília. Strümpell procura destacar uma delas na seguinte discussão (p. 17): “Com a cessação da intuição sensorialmente ativa e da consciência normal da vida, a alma perde também o solo em que se enraízam seus sentimentos, desejos, interesses e ações.
Também aqueles estados espirituais, sentimentos, interesses, valorações, que na vigília aderem às imagens de lembrança, ficam sujeitos a uma pressão obscurecedora, em consequência da qual sua conexão com as imagens se desfaz; as imagens perceptivas de coisas, pessoas, localidades, acontecimentos e ações da vida desperta são reproduzidas isoladamente, em grande número, mas nenhuma delas traz consigo seu valor psíquico.
Este se separou delas, e por isso elas flutuam na alma segundo seus próprios meios...”
A absurdidade do sonho.
Esse desnudamento das imagens de seu valor psíquico, que por sua vez é reconduzido ao afastamento do mundo exterior, deve, segundo Strümpell, ter parte principal na impressão de estranheza com que o sonho se coloca, em nossa lembrança, diante da vida.
Ouvimos que já o adormecer traz consigo a renúncia a uma das atividades psíquicas, a direção voluntária do curso das representações. Impõe-se assim a suposição, de resto próxima, de que o estado de sono talvez se estenda também às funções psíquicas.
Uma ou outra dessas funções talvez seja inteiramente suspensa; se as que restam continuam a trabalhar sem perturbação, se nessas condições podem realizar trabalho normal, é o que se torna agora questão. Surge o ponto de vista de que se poderiam explicar as particularidades do sonho pela diminuição do rendimento psíquico no estado de sono; e a impressão que o sonho produz sobre nosso juízo desperto vem ao encontro de tal concepção.
O sonho é desconexo, reúne sem incômodo as contradições mais graves, admite impossibilidades, deixa de lado nosso saber influente durante o dia, mostra-nos embotados ética e moralmente. Quem, em vigília, se comportasse como o sonho o faz em suas situações seria considerado louco; quem, em vigília, falasse ou quisesse comunicar coisas como as que ocorrem no conteúdo do sonho, nos daria a impressão de uma pessoa confusa e débil.
Assim, acreditamos apenas dar palavras aos fatos quando avaliamos muito baixo a atividade psíquica no sonho e declaramos, em particular, que as realizações intelectuais superiores estão suspensas no sonho, ou pelo menos gravemente prejudicadas.
Com unanimidade incomum, das exceções se falará em outro lugar, os autores emitiram sobre o sonho tais juízos, que conduzem imediatamente também a uma determinada teoria ou explicação da vida onírica. É hora de substituir meu resumo recém-formulado por uma coleção de declarações de vários autores, filósofos e médicos, sobre os caracteres psicológicos do sonho.
Segundo Lemoine, a incoerência das imagens oníricas é o único caráter essencial do sonho.
Maury concorda com isso; diz ele (p. 163): “não há sonhos absolutamente razoáveis que não contenham alguma incoerência, algum anacronismo, alguma absurdidade”.
Segundo Hegel, em Spitta, falta ao sonho toda conexão objetiva inteligível.
Dugas diz: “O sonho é a anarquia psíquica, afetiva e mental; é o jogo das funções entregues a si mesmas, exercendo-se sem controle e sem objetivo; no sonho, o espírito é um autômato espiritual.”
“A frouxidão, dissolução e mistura desordenada da vida representativa, mantida na vigília pela força lógica do eu central”, isso admite até Volkelt (p. 14), segundo cuja doutrina a atividade psíquica durante o sono de modo algum aparece sem finalidade.
A absurdidade das conexões representativas que ocorrem no sonho dificilmente poderia ser condenada de modo mais severo do que já o fez Cícero (De divin. II): nada se pode pensar de tão absurdo, tão desordenado, tão monstruoso, que não possamos sonhá-lo.
Fechner diz (p. 522): “É como se a atividade psicológica se transferisse do cérebro de um homem sensato para o de um louco.”
Radestock (p. 145): “De fato, parece impossível reconhecer leis firmes nessa agitação insensata. Escapando à estrita polícia da vontade racional, que conduz o curso desperto das representações, e à atenção, o sonho faz tudo girar caleidoscopicamente em jogo insensato.”
Hildebrandt (p. 45): “Que saltos maravilhosos permite a si mesmo o sonhador, por exemplo, em suas conclusões intelectuais! Com que despreocupação vê os princípios mais conhecidos da experiência virados simplesmente do avesso! Que contradições ridículas pode suportar nas ordens da natureza e da sociedade antes que, como se diz, a coisa passe dos limites e a tensão excessiva do absurdo provoque o despertar! Multiplicamos, às vezes, com toda inocência: três vezes três fazem vinte; não nos admira que um cachorro nos recite um verso, que um morto caminhe com os próprios pés até o túmulo, que uma rocha flutue sobre a água; vamos com toda seriedade, por ordem superior, ao ducado de Bernburg ou ao principado de Liechtenstein para observar a marinha de guerra do país, ou deixamo-nos recrutar como voluntários por Carlos XII pouco antes da batalha de Poltava.”
Binz (p. 33), com referência à teoria do sonho que decorre dessas impressões: “De dez sonhos, pelo menos nove têm conteúdo absurdo. Neles acoplamos pessoas e coisas que não têm entre si a menor relação.
Logo no instante seguinte, como em um caleidoscópio, o agrupamento se transforma, se possível ainda mais insensato e louco do que já era; e assim prossegue o jogo mutável do cérebro imperfeitamente adormecido, até que despertemos, levemos a mão à testa e nos perguntemos se de fato ainda possuímos a capacidade de representar e pensar racionalmente.”
As associações superficiais no sonho.
Maury (p. 50) encontra, para a relação das imagens oníricas com os pensamentos da vigília, uma comparação muito impressionante para o médico: “A produção dessas imagens, que no homem desperto a vontade faz nascer na maioria das vezes, corresponde, para a inteligência, ao que são, para a motilidade, certos movimentos que nos oferecem a coreia e as afecções paralíticas...” Além disso, o sonho é para ele “toda uma série de degradações da faculdade pensante e raciocinante” (p. 27).
Quase não é necessário citar as declarações dos autores que repetem a tese de Maury para as realizações psíquicas superiores em particular.
Segundo Strümpell, no sonho, naturalmente também ali onde o absurdo não é evidente, recuam todas as operações lógicas da alma baseadas em relações e conexões (p. 26). Segundo Spitta (p. 148), as representações parecem, no sonho, inteiramente subtraídas à lei da causalidade. Radestock e outros acentuam a fraqueza própria do sonho quanto ao juízo e à conclusão.
Segundo Jodl (p. 123), não há crítica no sonho, não há correção de uma série de percepções pelo conteúdo da consciência total. O mesmo autor declara: “Todas as espécies de atividade da consciência ocorrem no sonho, mas de modo incompleto, inibido, isolado umas das outras.” As contradições em que o sonho entra contra nosso saber desperto são explicadas por Stricker, com muitos outros, pelo fato de que fatos são esquecidos no sonho ou relações lógicas entre representações se perdem (p. 98) etc. etc.
Entretanto, os autores que em geral julgam tão desfavoravelmente as realizações psíquicas no sonho admitem que certo resto de atividade psíquica permanece no sonho. Wundt, cujas doutrinas se tornaram determinantes para tantos outros elaboradores dos problemas dos sonhos, reconhece isso expressamente. Poder-se-ia perguntar pela espécie e pela constituição do resto de atividade psíquica normal que se manifesta no sonho.
É agora admitido de modo bastante geral que a capacidade de reprodução, a memória no sonho, parece ter sofrido menos, e até pode mostrar certa superioridade sobre a mesma função na vigília, embora parte das absurdidades do sonho deva ser explicada justamente pelo esquecimento dessa vida onírica. Segundo Spitta, é a vida afetiva da alma que não é atingida pelo sono e que então dirige o sonho.
Por “ânimo” ele designa “a síntese constante dos sentimentos como essência subjetiva mais íntima do homem” (p. 84).
Scholz (p. 37) vê uma das atividades psíquicas que se manifestam no sonho na “transposição alegorizante” à qual o material do sonho é submetido. Siebeck também constata no sonho a “atividade interpretativa complementar” da alma (p. 11), exercida por ela diante de todo perceber e intuir. Há uma dificuldade particular, para o sonho, quando se trata de avaliar a função psíquica supostamente mais elevada, a da consciência.
Como só sabemos algo do sonho pela consciência, não pode haver dúvida quanto à conservação dela; contudo, Spitta opina que, no sonho, conserva-se apenas a consciência, não também a autoconsciência. Delboeuf admite que não consegue compreender essa distinção.
As leis de associação segundo as quais as representações se ligam valem também para as imagens oníricas, e sua origem se exprime no sonho de modo mais puro e forte.
Strümpell (p. 70): “O sonho transcorre, ao que parece, ou exclusivamente segundo as leis de representações nuas, ou segundo estímulos orgânicos com tais representações, isto é, sem que reflexão e entendimento, gosto estético e juízo moral possam algo nisso.” Os autores cujas opiniões reproduzo aqui imaginam a formação dos sonhos mais ou menos do seguinte modo: a soma dos estímulos sensoriais que atuam no sono a partir das diversas fontes mencionadas em outro lugar desperta primeiro, na alma, um número de representações que se apresentam como alucinações, ou, segundo Wundt, mais corretamente como ilusões, por causa de sua procedência de estímulos externos e internos.
Essas representações se ligam entre si segundo as conhecidas leis da associação e, por sua vez, despertam, segundo as mesmas regras, uma nova série de representações, imagens. Todo o material é então trabalhado, tão bem quanto possível, pelo resto ainda ativo das faculdades ordenadoras e pensantes da alma, cf. Wundt e Weygandt, por exemplo.
Apenas ainda não se conseguiu discernir os motivos que decidem se o despertar das imagens não provenientes de fora se processa segundo esta ou aquela lei de associação.
Observou-se repetidas vezes, porém, que as associações que ligam entre si as representações do sonho são de tipo muito particular e diferem das que atuam no pensamento desperto. Assim diz Volkelt (p. 15): “No sonho, as representações se perseguem e se apanham segundo semelhanças casuais e conexões quase imperceptíveis.
Todos os sonhos são atravessados por associações tão negligentes e livres.” Maury atribui o maior valor a esse caráter da ligação representativa, que lhe permite aproximar mais a vida onírica de certas perturbações mentais. Ele reconhece dois caracteres principais do “delírio”: 1. uma ação espontânea e como que automática do espírito; 2. uma associação viciosa e irregular das ideias (p. 126).
Do próprio Maury provêm dois excelentes exemplos de sonho nos quais o simples som semelhante das palavras medeia a ligação das representações oníricas. Certa vez, sonhou que empreendia uma peregrinação, pèlerinage, a Jerusalém ou Meca; depois de muitas aventuras, encontrava-se junto ao químico Pelletier, que, após uma conversa, lhe dava uma pá, pelle, de zinco, e esta, em um trecho onírico subsequente, tornava-se sua grande espada de combate (p. 137).
De outra vez, no sonho, caminhava por uma estrada e lia, nos marcos, os quilômetros; em seguida, estava junto a um merceeiro que possuía uma grande balança, e um homem colocava pesos de quilo no prato para pesar Maury; então o merceeiro lhe dizia: “O senhor não está em Paris, mas na ilha de Gilolo.” Seguiram-se várias imagens nas quais ele via a flor Lobelia, depois o general Lopez, cuja morte ele lera pouco antes; por fim, despertou jogando uma partida de lotto(16).
Apreciação psicológica da vida onírica.
Estamos, porém, preparados para que essa baixa avaliação das realizações psíquicas do sonho não tenha ficado sem contestação por parte de outros. É verdade que aqui a contestação parece difícil.
Pouco significa quando um dos depreciadores da vida onírica assegura (Spitta, p. 118) que as mesmas leis psicológicas que governam a vigília governam também o sonho, ou quando outro (Dugas) declara: “O sonho não é desrazão, nem mesmo pura irrazão”, enquanto ambos não se dão ao trabalho de harmonizar essa apreciação com a anarquia psíquica e a dissolução de todas as funções no sonho que eles mesmos descrevem.
Mas a outros parece ter despontado a possibilidade de que a loucura do sonho talvez não seja sem método, talvez seja apenas disfarce, como a do príncipe dinamarquês, a cujo delírio se aplica o juízo perspicaz aqui citado. Esses autores devem ter evitado julgar pela aparência, ou a aparência que o sonho lhes oferecia era outra.
Assim, Havelock Ellis (1899) aprecia o sonho, sem querer deter-se em sua absurdidade aparente, como “um mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, cujo estudo poderia ensinar-nos estágios primitivos de desenvolvimento da vida psíquica. J. Sully (p. 362) defende a mesma concepção do sonho de modo ainda mais amplo e mais profundo.
Suas declarações merecem ainda mais atenção se acrescentarmos que ele, talvez como nenhum outro psicólogo, estava convencido da sensatez velada do sonho. “Ora, nossos sonhos são um meio de conservar essas personalidades sucessivas. Quando dormimos, voltamos às antigas maneiras de ver as coisas e de senti-las, a impulsos e atividades que há muito nos dominavam.”
Um pensador como Delboeuf afirma, sem, é verdade, fornecer a prova contra o material contraditório, e por isso, propriamente, sem razão: “No sono, à exceção da percepção, todas as faculdades do espírito, inteligência, imaginação, memória, vontade, moralidade, permanecem intactas em sua essência; apenas se aplicam a objetos imaginários e móveis. O sonhador é um ator que representa, à vontade, loucos e sábios, carrascos e vítimas, anões e gigantes, demônios e anjos” (p. 222).
Quem parece ter contestado com mais energia a depreciação da realização psíquica no sonho foi o marquês d’Hervey, contra quem Maury polemiza vivamente, e cujo escrito não pude obter apesar de todos os esforços. Maury diz a respeito dele (p. 19): “O senhor marquês d’Hervey atribui à inteligência, durante o sono, toda a sua liberdade de ação e de atenção, e parece fazer consistir o sono apenas na oclusão dos sentidos, em seu fechamento ao mundo exterior; de modo que o homem que dorme mal se distingue, segundo sua maneira de ver, do homem que deixa seu pensamento vagar tapando os sentidos; toda a diferença que então separa o pensamento comum daquele do adormecido é que, neste, a ideia toma uma forma visível, objetiva, e se assemelha, a ponto de confundir-se com ela, à sensação determinada pelos objetos exteriores; a lembrança assume a aparência do fato presente.”
Maury acrescenta, porém: “há uma diferença a mais, e capital, a saber, que as faculdades intelectuais do homem adormecido não oferecem o equilíbrio que conservam no homem desperto.”
Em Vaschide, que nos transmite um conhecimento melhor do livro de d’Hervey, encontramos que esse autor se expressa da seguinte maneira sobre a aparente incoerência dos sonhos. “A imagem do sonho é a cópia da ideia. O principal é a ideia; a visão é apenas acessória. Estabelecido isso, é preciso saber seguir a marcha das ideias, é preciso saber analisar o tecido dos sonhos; então a incoerência se torna compreensível, as concepções mais fantasiosas tornam-se fatos simples e perfeitamente lógicos” (p. 146). E (p. 147): “Os sonhos mais bizarros encontram até uma explicação das mais lógicas quando se sabe analisá-los.”
J. Stärcke chamou a atenção para o fato de que uma dissolução semelhante da incoerência onírica foi defendida por um autor antigo, Wolf Davidson, que eu desconhecia, em 1799 (p. 136): “Os estranhos saltos de nossas representações no sonho têm todos seu fundamento na lei da associação, só que essa ligação às vezes se passa de modo muito obscuro na alma, de modo que muitas vezes acreditamos observar um salto da representação quando, na verdade, não há salto algum.”
Avaliação psicológica do sonho.
A escala da apreciação do sonho como produto psíquico tem, na literatura, grande amplitude; vai da mais profunda depreciação, cuja expressão conhecemos, passando pela suspeita de um valor ainda não desvelado, até a superestimação que coloca o sonho muito acima das realizações da vida de vigília.
Hildebrandt, que, como sabemos, esboça em três antinomias a caracterização psicológica da vida onírica, reúne no terceiro desses contrastes os extremos dessa série (p. 19): “É o contraste entre uma elevação, uma intensificação que não raro chega à virtuosidade, e, por outro lado, uma diminuição e enfraquecimento decididos, muitas vezes até abaixo do nível humano, da vida psíquica.”
“Quanto ao primeiro, quem não poderia confirmar por experiência própria que, no criar e tecer do gênio do sonho, por vezes vêm à luz uma profundidade e intimidade do ânimo, uma delicadeza da sensação, uma clareza da intuição, uma finura da observação, uma prontidão do espírito, tais como modestamente negaríamos possuir como propriedade constante durante a vida desperta? O sonho tem uma poesia maravilhosa, uma alegoria excelente, um humor incomparável, uma ironia deliciosa.
Ele contempla o mundo sob uma luz idealizante peculiar e intensifica muitas vezes o efeito de suas aparições com a compreensão mais cheia de sentido da essência que lhes serve de base.
Ele coloca diante de nossos olhos a beleza terrena em brilho verdadeiramente celestial, o sublime em máxima majestade, o que por experiência é terrível na forma mais horripilante, o ridículo com comicidade indizivelmente drástica; e, às vezes, depois do despertar, ainda estamos tão cheios de uma dessas impressões que nos parece que o mundo real nunca, jamais, nos ofereceu algo semelhante.”
Pode-se perguntar: é realmente o mesmo objeto a que se referem aquelas observações depreciativas e este elogio entusiasmado? Uns teriam deixado de ver os sonhos imbecis, outros os profundos e sutis? E, se ambos ocorrem, sonhos que merecem um juízo e sonhos que merecem o outro, não pareceria inútil procurar uma caracterização psicológica do sonho? Não bastaria dizer que, no sonho, tudo é possível, da mais profunda degradação da vida psíquica até uma elevação dela pouco habitual na vigília? Por mais cômoda que fosse essa solução, ela tem contra si o fato de que, nos esforços de todos os pesquisadores do sonho, parece estar pressuposto que existe uma tal caracterização do sonho, válida em geral em seus traços essenciais, capaz de ajudar a superar aquelas contradições.
É indiscutível que as realizações psíquicas do sonho encontraram reconhecimento mais disposto e caloroso naquele período intelectual que agora ficou para trás, quando a filosofia, e não as ciências naturais exatas, dominava os espíritos.
Declarações como a de Schubert, de que o sonho é uma libertação do espírito em relação ao poder da natureza exterior, uma soltura da alma dos grilhões da sensorialidade, e juízos semelhantes do Fichte mais jovem(17) e de outros, todos eles representando o sonho como um impulso ascendente da vida psíquica a um estágio superior, quase nos parecem hoje incompreensíveis; no presente, só são repetidos por místicos e devotos(18).
Com a penetração do modo de pensar das ciências naturais, veio uma reação na apreciação do sonho. Precisamente os autores médicos são os mais inclinados a avaliar a atividade psíquica no sonho como pequena e sem valor, enquanto filósofos e observadores não profissionais, psicólogos amadores, cujas contribuições justamente nesse campo não devem ser desprezadas, na maioria das vezes preservaram, em melhor concordância com as intuições do povo, o valor psíquico dos sonhos.
Quem se inclina à depreciação da realização psíquica no sonho prefere, compreensivelmente, na etiologia do sonho, as fontes somáticas de estímulo; para aquele que deixou à alma sonhadora a maior parte de suas capacidades da vigília, desaparece naturalmente qualquer motivo para não lhe conceder também estímulos autônomos ao sonhar.
Entre as realizações superiores que se pode ser tentado, mesmo em comparação sóbria, a atribuir à vida onírica, a mais notável é a da memória; tratamos extensamente das experiências, nada raras, que a comprovam. Outra vantagem da vida onírica, frequentemente celebrada por autores antigos, a de poder colocar-se soberanamente acima das distâncias de tempo e de espaço, pode ser facilmente reconhecida como uma ilusão.
Essa vantagem, como observa Hildebrandt, é justamente uma vantagem ilusória; o sonhar não se coloca acima do tempo e do espaço de outro modo que o pensamento desperto, e justamente porque é apenas uma forma do pensamento. Com relação à temporalidade, o sonho deveria ainda gozar de outra vantagem, e ser em outro sentido independente do curso do tempo. Sonhos como o de Maury, relatado acima, p. 20, sobre sua execução pela guilhotina, parecem provar que o sonho consegue comprimir, em um intervalo de tempo muito curto, muito mais conteúdo perceptivo do que nossa atividade psíquica em vigília consegue manejar em conteúdo de pensamento.
Contudo, essa conclusão foi contestada com múltiplos argumentos; desde os artigos de Le Lorrain e Egger “sobre a duração aparente dos sonhos”, desenvolveu-se a esse respeito uma discussão interessante, que provavelmente ainda não alcançou seu esclarecimento final nessa questão delicada e profunda(19).
Que o sonho seja capaz de retomar os trabalhos intelectuais do dia e levá-los a uma conclusão não alcançada durante o dia, que ele possa resolver dúvidas e problemas, tornar-se fonte de novas inspirações em poetas e compositores, parece incontestável segundo numerosos relatos e segundo a coleção reunida por Chabaneix. Mas, ainda que não se duvide do fato, sua concepção está sujeita a muitas dúvidas que tocam o princípio(20).
Por fim, a suposta força divinatória do sonho constitui um objeto de disputa em que objeções dificilmente superáveis se encontram com afirmações obstinadamente repetidas. Evita-se, e provavelmente com razão, negar tudo que possa haver de factual nesse tema, porque, para uma série de casos, talvez esteja próxima a possibilidade de uma explicação psicológica natural.