γ) O sonho de exame
γ) O sonho de exame
Entre os sonhos típicos da primeira espécie, já tratei mais detidamente do sonho de exame. Por sua impressão afetiva semelhante, os sonhos de não alcançar um trem merecem ser alinhados aos sonhos de exame. Seu esclarecimento justifica essa aproximação. São sonhos de consolação contra outra moção de angústia sentida durante o sono, a angústia de morrer. “Partir” é um dos símbolos de morte mais frequentes e melhor fundamentados. O sonho diz então, consolando: fica tranquilo, você não vai morrer, partir, assim como o sonho de exame acalmava: não tema, nada lhe acontecerá desta vez.
A dificuldade na compreensão de ambos os tipos de sonho vem do fato de que a sensação de angústia se prende justamente à expressão da consolação.
Sonhos de estímulo dentário.
O sentido dos sonhos de estímulo dentário, que tive de analisar muitas vezes em meus pacientes, escapou-me por longo tempo, porque, para minha surpresa, resistências demasiado grandes se opunham regularmente à sua interpretação. Por fim, a evidência excessiva não deixou dúvida de que, nos homens, nada mais que o desejo masturbatório da puberdade fornece a força propulsora desses sonhos. Quero analisar dois desses sonhos, um dos quais é ao mesmo tempo um sonho de voo.
Ambos provêm da mesma pessoa, um jovem com homossexualidade forte, mas inibida na vida:
“Ele se encontra em uma apresentação de Fidelio, na plateia da ópera, ao lado de L., uma pessoa que lhe é simpática e cuja amizade gostaria de conquistar. De repente, voa obliquamente por sobre a plateia até o fundo, depois põe a mão na boca e arranca dois dentes.”
Ele próprio descreve o voo como se fosse “lançado” no ar. Como se trata de uma apresentação de Fidelio, vem à mente o verso do poeta: “Quem conquistou uma mulher encantadora...” Mas conquistar até a mulher mais encantadora não pertence aos desejos do sonhador. Com estes combinam melhor outros dois versos: “A quem coube o grande lance, ser amigo de um amigo...” O sonho contém, então, esse “grande lance”, que não é apenas realização de desejo.
Por trás dele se esconde também a reflexão penosa de que ele já teve tantas vezes azar em suas tentativas de conquistar amizade, foi “lançado para fora”, e o medo de que esse destino pudesse repetir-se com o jovem ao lado de quem assiste a Fidelio. E a isso se liga a confissão, vergonhosa para o sonhador sensível, de que certa vez, depois de ser rejeitado por um amigo, masturbou-se duas vezes seguidas em excitação sensual por saudade dele.
O outro sonho: “Dois professores universitários que ele conhece tratam-no em meu lugar. Um faz alguma coisa em seu membro; ele tem medo de uma operação. O outro bate em sua boca com uma barra de ferro, de modo que ele perde um ou dois dentes. Está amarrado com quatro lenços de seda.”
O sentido sexual desse sonho é certamente indiscutível. Os lenços de seda correspondem a uma identificação com um homossexual que ele conhece. O sonhador, que nunca realizou coito e jamais procurou, na realidade, relação sexual com homens, imagina a relação sexual segundo o modelo da masturbação de puberdade que lhe foi outrora familiar.
Sobre a simbólica do estímulo dentário.
Creio que também as modificações frequentes do sonho típico de estímulo dentário, por exemplo quando outra pessoa arranca o dente do sonhador e coisas semelhantes, tornam-se compreensíveis pela mesma explicação.(147) Pode parecer enigmático, porém, como o “estímulo dentário” pode chegar a esse significado. Chamo atenção aqui para o deslocamento tão frequente de baixo para cima, que está a serviço do recalque sexual e por meio do qual, na histeria, toda sorte de sensações e intenções que deveriam ocorrer nas genitálias podem realizar-se ao menos em outras partes irrepreensíveis do corpo.
Temos um caso desse deslocamento quando, na simbólica do pensamento inconsciente, as genitálias são substituídas pelo rosto. O uso da linguagem coopera aqui, reconhecendo as nádegas como homólogas das bochechas e falando em “lábios pudendos” ao lado dos lábios que emolduram a fenda da boca. O nariz é equiparado ao pênis em numerosas alusões, e a pilosidade aqui e lá completa a semelhança.
Só uma formação fica fora de toda possibilidade de comparação: os dentes. E justamente esse encontro de concordância e desvio torna os dentes aptos aos fins da representação sob a pressão do recalque sexual.
(147) O arrancar de um dente por outra pessoa deve, na maior parte das vezes, ser interpretado como castração, de modo semelhante ao corte de cabelo pelo barbeiro, Stekel. Deve-se distinguir entre sonhos de estímulo dentário e sonhos de dentista em geral, como os que foram comunicados, por exemplo, por Coriat, Zentralbl. f. Ps.-A. III, 440.
Não quero afirmar que a interpretação do sonho de estímulo dentário como sonho de masturbação, de cuja legitimidade não posso duvidar, tenha agora se tornado inteiramente transparente.(148) Dou tudo o que sei para explicá-la e devo deixar um resto não resolvido. Mas também preciso apontar outra conexão contida na expressão linguística. Em nossas regiões, existe uma designação grosseira para o ato masturbatório: arrancar um, ou puxar um para baixo.(149) Não sei dizer de onde vêm esses modos de falar, que figuração lhes serve de base, mas ao primeiro dos dois o “dente” se ajustaria muito bem.(150)
(148) Segundo comunicação de C. G. Jung, os sonhos de estímulo dentário nas mulheres têm o significado de sonhos de nascimento.
(149) Cf. a esse respeito o sonho “biográfico” da p. 289.
(150) Como os sonhos de extração de dente ou de queda de dentes são interpretados na crença popular como a morte de um parente, enquanto a psicanálise só pode conceder-lhes esse significado no sentido parodístico indicado acima, intercalo aqui um “sonho de estímulo dentário” cedido por Otto Rank:
“Sobre o tema dos sonhos de estímulo dentário, recebi de um colega, que há algum tempo começou a interessar-se mais vivamente pelos problemas da interpretação dos sonhos, o seguinte relato:
‘Sonhei recentemente que estava no dentista, que me perfurava um dente posterior da mandíbula inferior. Ele trabalha tanto tempo nele que o dente se torna inutilizável. Então o segura com a pinça e o arranca com uma facilidade lúdica que me espanta. Diz que eu não devo me preocupar, pois aquele nem é o dente propriamente tratado, e o coloca sobre a mesa, onde o dente, que agora me parece um incisivo superior, se desfaz em várias camadas. Levanto-me da cadeira de operação, aproximo-me curioso e faço, interessado, uma pergunta médica. O médico me explica, enquanto separa os pedaços do dente surpreendentemente branco e os esmaga, pulveriza, com um instrumento, que isso tem a ver com a puberdade e que os dentes só saem com tanta facilidade antes da puberdade; nas mulheres, o momento decisivo para isso seria o nascimento de uma criança.
Percebo então, creio que em meio-sono, que esse sonho foi acompanhado de uma polução, mas não posso inseri-la com segurança em uma parte determinada do sonho; parece-me mais provável que tenha ocorrido no momento da extração do dente.
Depois continuo sonhando com um processo de que já não me lembro, e que terminava com eu deixando em algum lugar, possivelmente no guarda-roupa do dentista, chapéu e casaco, na esperança de que me trouxessem essas peças de roupa, e me apressando, vestido apenas com o sobretudo, para ainda alcançar um trem que partia. No último momento consegui saltar sobre o vagão de trás, onde alguém já estava. No entanto, não pude mais entrar no interior do vagão e tive de fazer a viagem em uma posição incômoda, da qual finalmente consegui me libertar. Passamos por um grande túnel, enquanto na direção oposta dois trens atravessam nosso trem, como se este fosse o túnel. Olho para dentro como se fosse de fora, através de uma janela do vagão.’
Como material para uma interpretação desse sonho resultam as seguintes vivências e pensamentos do dia anterior:
I. Estou de fato, há pouco tempo, em tratamento dentário e, na época do sonho, sinto continuamente dores no dente da mandíbula inferior que no sonho é perfurado e no qual o médico, também na realidade, já trabalha há mais tempo do que eu gostaria. Na manhã do dia do sonho, estive novamente no médico por causa das dores; ele me sugeriu extrair outro dente no mesmo maxilar, diferente do tratado, de onde provavelmente viria a dor. Tratava-se de um ‘dente do siso’ que estava acabando de nascer. Tive, nessa ocasião, de fazer uma pergunta referente à consciência médica dele.
II. Na tarde do mesmo dia, fui obrigado a desculpar meu mau humor com uma dama por causa da dor de dente; então ela me contou que tinha medo de arrancar uma raiz cuja coroa estava quase inteiramente quebrada. Achava que a extração dos caninos seria particularmente dolorosa e perigosa, embora, por outro lado, uma conhecida lhe tivesse dito que nos dentes do maxilar superior, e era esse o seu caso, era mais fácil. Essa conhecida também lhe contara que certa vez, sob anestesia, lhe fora arrancado um dente falso, comunicação que só aumentou seu receio diante da operação necessária. Ela então me perguntou se por caninos se deviam entender molares ou dentes pontiagudos e o que se sabia sobre isso. Chamei-lhe a atenção, por um lado, para o elemento supersticioso em todas essas opiniões, sem deixar, contudo, de acentuar o núcleo correto de certas concepções populares.
Ela então me conta uma crença popular muito antiga e, segundo sua experiência, bastante conhecida, que afirma: se uma grávida tem dor de dente, terá um menino.
III. Esse provérbio me interessou em vista do significado típico dos sonhos de estímulo dentário como substituto da masturbação, comunicado por Freud em sua Interpretação dos sonhos, 2ª ed., p. 193 e seg., pois também no provérbio popular o dente e a genitália masculina, menino, entram em certa relação.
Li, portanto, na noite do mesmo dia, a passagem correspondente da Interpretação dos sonhos e encontrei nela, entre outras, as exposições reproduzidas a seguir, cuja influência sobre meu sonho é tão fácil de reconhecer quanto o efeito das duas vivências anteriormente mencionadas. Freud escreve, sobre os sonhos de estímulo dentário, “que nos homens nada mais que o desejo masturbatório da puberdade fornece a força propulsora desses sonhos” (p. 193). Além disso: “Creio que também as modificações frequentes do sonho típico de estímulo dentário, por exemplo quando outra pessoa arranca o dente do sonhador e coisas semelhantes, tornam-se compreensíveis pela mesma explicação. Pode parecer enigmático, porém, como o estímulo dentário pode chegar a esse significado. Chamo atenção aqui para o deslocamento tão frequente de baixo para cima”, no sonho presente, também do maxilar inferior para o superior, “que está a serviço do recalque sexual e por meio do qual, na histeria, toda sorte de sensações e intenções que deveriam ocorrer nas genitálias podem realizar-se ao menos em outras partes irrepreensíveis do corpo” (p. 194). “Mas também preciso apontar outra conexão contida na expressão linguística. Em nossas regiões, existe uma designação grosseira para o ato masturbatório: arrancar um ou puxar um para baixo” (p. 195).
Essa expressão já me era familiar desde a primeira juventude como designação da masturbação, e, a partir daí, o intérprete exercitado do sonho encontrará sem dificuldade o acesso ao material infantil que deve estar na base desse sonho.
Menciono ainda apenas que a facilidade com que, no sonho, sai o dente que, depois de extraído, se transforma em um incisivo superior me recorda um episódio de minha infância em que eu mesmo arranquei com facilidade e sem dor um dente da frente superior que estava mole. Esse acontecimento, que ainda hoje recordo claramente em todos os seus detalhes, cai na mesma época inicial em que se situam, em mim, as primeiras tentativas conscientes de masturbação, lembrança encobridora.
A referência de Freud a uma comunicação de C. G. Jung, segundo a qual os sonhos de estímulo dentário nas mulheres têm o significado de sonhos de nascimento, Interpretação dos sonhos, p. 194, nota, assim como a crença popular sobre o significado da dor de dente em grávidas, provocaram no sonho a contraposição do significado feminino ao masculino, puberdade.
A isso se soma a lembrança de um sonho anterior, logo depois de sair do tratamento de um dentista, no qual sonhei que as coroas de ouro que acabavam de ser postas em mim caíam, o que me aborrecia muito no sonho por causa do alto custo que, àquela época, eu ainda não superara inteiramente. Esse sonho agora se torna compreensível para mim, em relação a certa vivência, como elogio das vantagens materiais da masturbação diante do amor de objeto, economicamente mais desvantajoso em qualquer forma, coroas de ouro, e creio que a comunicação daquela dama sobre o significado da dor de dente em grávidas despertou novamente em mim esses cursos de pensamento.”
Até aqui a interpretação sem dificuldade compreensível e, segundo creio, incontestável do colega. Nada tenho a acrescentar a ela, a não ser talvez a indicação do provável sentido da segunda parte do sonho, que, por meio das pontes verbais dente, arrancar, trem, puxar, viajar, parece representar a passagem do sonhador, aparentemente realizada com dificuldades, da masturbação à relação sexual, túnel pelo qual entram e saem trens em diferentes direções, bem como os perigos desta, gravidez, sobretudo.
Em compensação, o caso me parece teoricamente interessante em duas direções. Primeiro, ele prova a conexão descoberta por Freud, pois a ejaculação ocorre no sonho no ato de arrancar o dente. Somos, afinal, obrigados a considerar a polução, em qualquer forma que apareça, como uma satisfação masturbatória que se realiza sem o auxílio de estímulos mecânicos.
Acresce que, nesse caso, a satisfação por polução não ocorre, como de costume, em um objeto, ainda que apenas imaginado, mas sem objeto, se assim se pode dizer, puramente autoerótica, e no máximo deixa reconhecer uma leve nuance homossexual, dentista.
O segundo ponto que me parece digno de destaque é o seguinte: seria fácil objetar que a concepção freudiana procura afirmar-se aqui de maneira totalmente supérflua, uma vez que as vivências do dia anterior bastariam por completo para tornar compreensível o conteúdo do sonho. A visita ao dentista, a conversa com a dama e a leitura da Interpretação dos sonhos explicariam suficientemente que o dorminhoco, também perturbado à noite por dores de dente, produzisse esse sonho, talvez até para afastar a dor que perturbava o sono, por meio da representação da remoção do dente dolorido e simultâneo abafamento da sensação dolorosa temida pela libido.
Mas, mesmo fazendo as concessões mais amplas nessa direção, não se poderá sustentar seriamente que a leitura das explicações de Freud tenha estabelecido no sonhador a conexão entre arrancar dente e ato masturbatório, ou sequer a tenha tornado eficaz, se ela não tivesse sido formada desde muito antes, como o próprio sonhador confessou, “arrancar um”. O que talvez tenha reavivado essa conexão, ao lado da conversa com a dama, fica demonstrado pela comunicação posterior do sonhador: ao ler a Interpretação dos sonhos, por motivos compreensíveis, ele não queria acreditar muito nesse significado típico dos sonhos de estímulo dentário e desejava saber se isso valia para todos os sonhos desse tipo. O sonho lhe confirma isso, ao menos para sua própria pessoa, e lhe mostra por que devia duvidar disso. Também sob esse aspecto, portanto, o sonho é realização de um desejo: o de convencer-se do alcance e da solidez dessa concepção freudiana.”
À segunda classe de sonhos típicos pertencem aqueles em que se voa ou paira, se cai, se nada e coisas semelhantes. O que significam esses sonhos? Não é possível dizê-lo de modo geral. Como ouviremos, eles significam algo diferente em cada caso; apenas o material de sensações que contêm provém sempre da mesma fonte.
Pelas informações obtidas por meio das psicanálises, deve-se concluir que também esses sonhos repetem impressões da infância, isto é, referem-se às brincadeiras de movimento que exercem sobre a criança uma atração tão extraordinária. Que tio nunca fez uma criança voar, correndo com ela pelo quarto de braços estendidos, ou brincou de fazê-la cair, balançando-a sobre os joelhos e esticando de repente a perna, ou levantando-a alto e de súbito fingindo retirar-lhe o apoio? As crianças então gritam de alegria e pedem incansavelmente a repetição, sobretudo quando algum susto e vertigem acompanham a brincadeira; anos depois, criam para si a repetição no sonho, mas no sonho omitem as mãos que as seguravam, de modo que agora pairam e caem livremente.
A predileção de todas as crianças por brincadeiras desse tipo, assim como por balanços e gangorras, é conhecida; quando depois veem acrobacias no circo, a lembrança é novamente refrescada. Em alguns meninos, o ataque histérico consiste apenas em reproduções desses exercícios, que eles executam com grande habilidade. Não raro, nessas brincadeiras de movimento, em si inocentes, também foram despertadas sensações sexuais.(151)
Para dizê-lo com uma palavra de uso comum entre nós, que cobre todos esses procedimentos: é a “agitação” da infância que os sonhos de voar, cair, sentir vertigem etc. repetem, cujas sensações de prazer agora se transformaram em angústia. Mas, como toda mãe sabe, também a agitação das crianças na realidade terminou muitas vezes em briga e choro.
(151) Um jovem colega, livre de nervosismo, comunica-me a esse respeito: “Sei por experiência própria que, antigamente, ao me balançar, e precisamente no momento em que o movimento descendente tinha maior força, eu sentia uma sensação peculiar nas genitálias, que, embora não fosse propriamente agradável, devo designar como sensação de prazer.”
Ouvi muitas vezes de pacientes que as primeiras ereções acompanhadas de sensação de prazer de que se recordam ocorreram na infância, durante escaladas. Das psicanálises resulta com toda segurança que frequentemente as primeiras moções sexuais enraízam-se nas brincadeiras de briga e luta dos anos de infância.
Tenho, portanto, boas razões para rejeitar a explicação de que o estado de nossas sensações cutâneas durante o sono, as sensações oriundas do movimento de nossos pulmões etc. produzam os sonhos de voar e cair. Vejo que essas próprias sensações são reproduzidas a partir da lembrança à qual o sonho se refere; elas são, portanto, conteúdo do sonho, e não fontes do sonho.
Sonhos de voo.
Esse material homogêneo de sensações de movimento, proveniente da mesma fonte, é utilizado para representar os mais variados pensamentos do sonho. Os sonhos de voar ou pairar, geralmente acentuados pelo prazer, exigem as mais diversas interpretações, muito especiais em algumas pessoas, de natureza típica em outras.
Uma de minhas pacientes costumava sonhar com muita frequência que pairava sobre a rua a certa altura, sem tocar o chão. Era de estatura muito baixa e temia toda sujeira trazida pelo contato com as pessoas. Seu sonho de pairar realizava seus dois desejos, levantando seus pés do chão e fazendo sua cabeça alcançar regiões mais altas.
Em outras sonhadoras, o sonho de voo tinha o significado do anseio: se eu fosse um passarinho; outras se tornavam, assim, anjos durante a noite, na falta de serem chamadas assim durante o dia. A estreita ligação do voo com a representação do pássaro torna compreensível que o sonho de voo, nos homens, tenha em geral um significado grosseiramente sensual. Também não nos surpreenderemos ao ouvir que este ou aquele sonhador se sente sempre muito orgulhoso de sua capacidade de voar.
O Dr. Paul Federn, de Viena, propôs a sedutora conjectura de que boa parte dos sonhos de voo são sonhos de ereção, pois o estranho fenômeno da ereção, que ocupa incessantemente a fantasia humana, deve impressionar como uma suspensão da gravidade. Cf. a esse respeito os falos alados da Antiguidade.
É notável que o sóbrio experimentador de sonhos Mourly Vold, na verdade avesso a qualquer interpretação, também defenda a interpretação erótica dos sonhos de voo, ou de pairar, vol. II, p. 791. Ele chama o erotismo de “o motivo mais importante do sonho de pairar”, apoia-se na forte sensação de vibração no corpo que acompanha esses sonhos e na ligação frequente de tais sonhos com ereções ou poluções.
Os sonhos de queda têm com maior frequência caráter de angústia. Nas mulheres, sua interpretação não oferece dificuldade, pois elas aceitam quase regularmente o uso simbólico da queda, que circunscreve a entrega a uma tentação erótica.
Ainda não esgotamos as fontes infantis do sonho de queda; quase todas as crianças caíram alguma vez e depois foram levantadas e acariciadas; se, à noite, haviam caído do berço, foram recolhidas por sua cuidadora e levadas para a cama dela.
Pessoas que frequentemente sonham que nadam, dividem as ondas com grande deleite etc., foram em geral crianças que molhavam a cama e agora repetem no sonho um prazer ao qual aprenderam há muito tempo a renunciar. A que representação os sonhos de nadar facilmente se prestam, logo veremos em um ou outro exemplo.
A interpretação dos sonhos de fogo dá razão a uma proibição do quarto das crianças, que lhes diz para não “brincarem com fogo”, a fim de que não molhem a cama durante a noite. De fato, também nesses sonhos está na base a reminiscência da enuresis nocturna dos anos de infância. No “Fragmento de uma análise de histeria”, 1905,(152) apresentei a análise e a síntese completas de um sonho de fogo desse tipo em conexão com a história clínica da sonhadora, mostrando para a representação de que moções de anos mais maduros esse material infantil pode ser utilizado.
(152) Sammlung kl. Schriften z. Neurosenlehre. Segunda série, 1909.
Poder-se-ia ainda mencionar toda uma série de sonhos “típicos”, se se entender por isso o fato da repetição frequente do mesmo conteúdo manifesto do sonho em diferentes sonhadores, por exemplo os sonhos de caminhar por ruas estreitas, de atravessar uma enfiada inteira de quartos, os sonhos do ladrão noturno, ao qual também se ligam as medidas de precaução dos nervosos antes de dormir, os de perseguição por animais selvagens, touros, cavalos, ou de ameaça com facas, punhais, lanças, sendo estes dois últimos característicos do conteúdo manifesto de pessoas que sofrem de angústia, e assim por diante.
Uma investigação que se ocupasse especialmente desse material seria muito bem-vinda. Em seu lugar, tenho a oferecer duas observações, que, no entanto, não se referem exclusivamente a sonhos típicos.
Predomínio de desejos sexuais nos pensamentos latentes do sonho.
I. Quanto mais se lida com a resolução de sonhos, tanto mais disposto se fica a reconhecer que a maioria dos sonhos de adultos trata de material sexual e expressa desejos eróticos. Só quem realmente analisa sonhos, isto é, avança do conteúdo manifesto aos pensamentos latentes do sonho, pode formar um juízo a esse respeito, nunca quem se contenta em registrar o conteúdo manifesto, como Näcke, por exemplo, em seus trabalhos sobre sonhos sexuais.
Estabeleçamos desde já que esse fato não nos traz nada de surpreendente, mas está em pleno acordo com nossos princípios de explicação do sonho. Nenhuma outra pulsão teve de sofrer, desde a infância, tanta repressão quanto a pulsão sexual em seus numerosos componentes,(153) e de nenhuma outra restam tantos e tão fortes desejos inconscientes que agora, no estado de sono, atuam como produtores de sonhos. Na interpretação dos sonhos, jamais se deve esquecer essa significação dos complexos sexuais, mas tampouco se deve exagerá-la até a exclusividade.
(153) Cf. do autor, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, 1905, 2ª ed., 1910.
Em muitos sonhos, por interpretação cuidadosa, será possível constatar que eles devem ser compreendidos até bissexualmente, pois oferecem uma superinterpretação inevitável em que realizam moções homossexuais, isto é, opostas à atividade sexual normal da pessoa que sonha. Mas afirmar que todos os sonhos devem ser interpretados bissexualmente, como W. Stekel(154) e Alf. Adler(155) fazem, parece-me uma generalização tão indemonstrável quanto improvável, que não gostaria de sustentar.
Acima de tudo, eu não saberia como afastar o fato evidente de que há numerosos sonhos que satisfazem necessidades diferentes das eróticas, no sentido mais amplo, como sonhos de fome e sede, sonhos de comodidade etc. Também as afirmações semelhantes, “de que por trás de todo sonho se encontraria a cláusula de morte”, Stekel, ou de que todo sonho deixaria reconhecer “um avanço da linha feminina para a masculina”, Adler, parecem-me ultrapassar em muito a medida do que é admissível na interpretação dos sonhos.
(154) A linguagem do sonho, 1911.
(155) O hermafroditismo psíquico na vida e na neurose, Fortschritte der Medizin, 1910, n. 16, e trabalhos posteriores no Zentralblatt für Psychoanalyse I, 1910/11.
Que os sonhos notoriamente inofensivos corporifiquem, de modo geral, desejos eróticos grosseiros, já afirmamos em outro lugar e poderíamos confirmar por numerosos novos exemplos. Também muitos sonhos aparentemente indiferentes, nos quais não se notaria nada de especial em nenhuma direção, reduzem-se, depois da análise, a moções de desejo inequivocamente sexuais, muitas vezes de tipo inesperado.
Quem, por exemplo, suspeitaria de um desejo sexual antes do trabalho de interpretação no sonho seguinte? O sonhador relata: “Entre dois palácios imponentes há, um pouco recuada, uma casinha cujos portões estão fechados. Minha mulher me conduz pelo trecho da rua até a casinha, empurra a porta, e então deslizo rápida e facilmente para o interior de um pátio que sobe obliquamente.”
Quem tem alguma prática na tradução de sonhos, porém, logo se lembrará de que a penetração em espaços estreitos e a abertura de portas fechadas pertencem à simbólica sexual mais usual, e reconhecerá sem dificuldade nesse sonho uma representação de uma tentativa de coito por trás, entre as duas nádegas imponentes do corpo feminino. O corredor estreito e obliquamente ascendente é naturalmente a vagina; a ajuda atribuída à mulher do sonhador obriga à interpretação de que, na realidade, apenas a consideração pela esposa se encarrega de impedi-lo de tal tentativa. Uma investigação mostra que, no dia do sonho, entrou na casa do sonhador uma jovem que lhe agradou e lhe deu a impressão de que não se oporia muito a uma aproximação desse tipo.
A casinha entre os dois palácios foi tomada de uma reminiscência do Hradschin, em Praga, e aponta assim novamente para a moça, que vem dessa cidade.
Quando enfatizo, diante dos pacientes, a frequência do sonho de Édipo, de ter relação sexual com a própria mãe, recebo a resposta: não consigo me lembrar de um sonho assim. Logo depois, porém, surge a lembrança de outro sonho irreconhecível e indiferente, que se repetiu frequentemente na pessoa em questão, e a análise mostra que se trata de um sonho de mesmo conteúdo, isto é, novamente de um sonho de Édipo. Posso assegurar que os sonhos disfarçados de relação sexual com a mãe são muitas vezes mais frequentes que os francos.(156)
(156) Publiquei um exemplo típico de sonho de Édipo disfarçado no n. 1 do Zentralblatt für Psychoanalyse; outro, com interpretação detalhada, foi publicado por O. Rank no mesmo periódico, n. 4. Sobre outros sonhos de Édipo disfarçados, nos quais aparece a simbólica do olho, ver Rank, Internat. Zeitschrift für Psychoanalyse I, 1913. Ali também se encontram trabalhos sobre “sonhos de olhos” e simbólica do olho, de Eder, Ferenczi, Reitler. A cegueira na saga de Édipo, como em outros lugares, é substituição da castração.
Aos antigos, aliás, também não era estranha a interpretação simbólica dos sonhos de Édipo não velados. Cf. O. Rank, Jahrb. II, p. 534: “Assim, relata-se de Júlio César um sonho de relação sexual com a mãe, que os intérpretes de sonhos explicaram como presságio favorável para a tomada de posse da terra, mãe-terra. Igualmente conhecido é o oráculo dado aos Tarquínios: a soberania de Roma caberia àquele dentre eles que primeiro beijasse a mãe, osculum matri tulerit, o que Brutus entendeu como referência à mãe-terra, terram osculo contigit, scilicet quod ea communia mater omnium mortalium esset. Lívio I, LXI. Cf. a esse respeito o sonho de Hípias em Heródoto VI, 107: ‘Os bárbaros, porém, foram conduzidos por Hípias a Maratona, depois de ele ter tido, na noite anterior, a seguinte visão onírica: pareceu a Hípias que dormia com sua própria mãe. A partir desse sonho, concluiu que voltaria para Atenas, recuperaria seu domínio e morreria na pátria em idade avançada.’”
Esses mitos e interpretações apontam para um correto conhecimento psicológico. Encontrei que as pessoas que sabem ter sido preferidas ou distinguidas pela mãe manifestam na vida aquela confiança especial em si mesmas, aquele otimismo inabalável, que não raro aparecem como heroicos e forçam o verdadeiro sucesso.
Há sonhos de paisagens ou localidades nos quais ainda se acentua, no sonho, a certeza: já estive aqui uma vez. Esse déjà vu tem, porém, significado especial no sonho. Essa localidade é então sempre a genitália da mãe; de fato, de nenhuma outra se pode afirmar com tanta certeza que já se esteve ali uma vez.
Uma única vez um neurótico obsessivo me deixou embaraçado com a comunicação de um sonho em que se dizia que ele visitava uma casa onde já estivera duas vezes. Mas justamente esse paciente havia me contado, bastante tempo antes, como episódio de seu sexto ano de vida, que naquela época certa vez partilhara a cama da mãe e aproveitara a ocasião para introduzir o dedo na genitália da adormecida.
Sonhos de nascimento.
Uma grande quantidade de sonhos, frequentemente cheios de angústia, muitas vezes tendo por conteúdo a passagem por espaços estreitos ou a permanência na água, baseia-se em fantasias sobre a vida intrauterina, a permanência no ventre materno e o ato do nascimento. A seguir, dou o sonho de um jovem que, em fantasia, já aproveitara a oportunidade intrauterina para espiar um coito entre os pais.
“Ele se encontra em um poço profundo, no qual há uma janela como no túnel de Semmering. Por essa janela, vê primeiro uma paisagem vazia, e então compõe dentro dela uma imagem, que logo está ali e preenche o vazio. A imagem representa um campo profundamente revolvido pelo instrumento, e o belo ar, a ideia do trabalho minucioso ali presente, os torrões azul-escuros, tudo causa uma bela impressão. Depois ele segue adiante, vê uma pedagogia aberta... e admira-se de que nela se dê tanta atenção aos sentimentos sexuais da criança, ocasião em que deve pensar em mim.”
Um belo sonho aquático de uma paciente, que teve utilização especial no tratamento, é o seguinte:
“Em sua residência de verão no lago **, ela se lança na água escura no ponto em que a lua pálida se espelha na água.”
Sonhos dessa espécie são sonhos de nascimento; chega-se à sua interpretação quando se inverte o fato comunicado no sonho manifesto, portanto, em vez de lançar-se na água, sair da água, isto é, nascer.(157)
Reconhece-se a localidade da qual a pessoa nasce quando se pensa no sentido malicioso de “la lune” em francês. A lua pálida é então o traseiro branco, de onde a criança logo adivinha ter vindo. Que quer dizer então que a paciente deseja “nascer” em sua residência de verão? Interrogo a sonhadora, que responde sem hesitar: Não estou, pelo tratamento, como que renascida? Assim, esse sonho se torna um convite a prosseguir o tratamento naquele lugar de verão, isto é, a visitá-la lá; talvez contenha também uma indicação muito tímida do desejo de tornar-se mãe.(158)
(157) Sobre o significado mitológico do nascimento pela água, ver Rank: O mito do nascimento do herói, 1909.
(158) Só tarde aprendi a avaliar o significado das fantasias e pensamentos inconscientes sobre a vida no ventre materno. Eles contêm tanto o esclarecimento para a estranha angústia de tantas pessoas de serem enterradas vivas quanto a fundamentação inconsciente mais profunda da crença numa vida após a morte, que não é senão a projeção no futuro dessa vida inquietante antes do nascimento. O ato do nascimento, aliás, é a primeira vivência de angústia e, portanto, a fonte e o modelo do afeto de angústia.
Outro sonho de nascimento tomo, juntamente com sua interpretação, de um trabalho de E. Jones:
“Ela estava à beira-mar e supervisionava um menino pequeno, que parecia ser dela, enquanto ele entrava na água. Ele foi até tão longe que a água o cobriu, de modo que ela só podia ver ainda sua cabeça movendo-se para cima e para baixo na superfície. A cena transformou-se então no saguão cheio de um hotel. Seu marido deixou-a, e ela ‘entrou em conversa com’ um estranho.”
A segunda metade do sonho revelou-se sem dificuldade, na análise, como representação de uma fuga do marido e estabelecimento de relações íntimas com uma terceira pessoa. A primeira parte do sonho era uma evidente fantasia de nascimento.
Nos sonhos, como na mitologia, o parto de uma criança a partir do líquido amniótico costuma ser representado, por inversão, como a entrada da criança na água; entre muitos outros, o nascimento de Adônis, Osíris, Moisés e Baco oferecem exemplos conhecidos disso.
O subir e descer da cabeça na água recorda imediatamente à paciente a sensação dos movimentos da criança, que ela conhecera durante sua única gravidez. O pensamento no menino que entra na água desperta uma fantasia em que ela via a si mesma puxando-o para fora da água, levando-o ao quarto das crianças, lavando-o, vestindo-o e, finalmente, conduzindo-o para sua casa.
A segunda metade do sonho representa, então, pensamentos que dizem respeito à fuga, a qual se relaciona com a primeira metade dos pensamentos oníricos ocultos; a primeira metade do sonho corresponde ao conteúdo latente da segunda metade, a fantasia de nascimento. Além da inversão antes mencionada, há outras inversões em cada metade do sonho. Na primeira metade, a criança entra na água e depois sua cabeça oscila; nos pensamentos oníricos subjacentes, primeiro emergem os movimentos da criança e depois ela sai da água, dupla inversão. Na segunda metade, seu marido a deixa; nos pensamentos do sonho, ela deixa seu marido. Traduzido por O. Rank.
Sonhos de nascimento e salvamento.
Abraham conta outro sonho de nascimento de uma jovem mulher que esperava seu primeiro parto. De um ponto do assoalho do quarto, um canal subterrâneo conduz diretamente à água, caminho do nascimento, líquido amniótico. Ela levanta uma tampa no assoalho, e logo aparece uma criatura vestida com uma pele castanha, quase semelhante a uma foca. Esse ser revela-se como o irmão mais novo da sonhadora, com quem ela sempre tivera uma relação maternal.
Rank mostrou, em uma série de sonhos, que os sonhos de nascimento se servem da mesma simbólica que os sonhos de estímulo urinário. Neles, o estímulo erótico é representado como estímulo urinário; a estratificação do significado nesses sonhos corresponde a uma transformação de significado do símbolo desde a infância.
Aos sonhos de nascimento ligam-se os sonhos de “salvamento”. Salvar, especialmente salvar da água, equivale a dar à luz quando é sonhado por uma mulher, mas modifica esse sentido quando o sonhador é um homem. Ver um sonho desse tipo em Pfister: “Um caso de cura de almas e de cura psicanalítica”, Evangelische Freiheit, 1909. Sobre o símbolo do “salvar”, cf. minha conferência “As chances futuras da terapia psicanalítica”, Zentralblatt für Psychoanalyse, n. 1, 1910, bem como “Contribuições à psicologia da vida amorosa”, I. “Sobre um tipo particular de escolha de objeto no homem”, Jahrbuch f. Ps.-A., vol. II, 1910.(159)
(159) Além disso, Rank: Belege zur Rettungsphantasie, Zentralblatt f. Ps.-A. I, 1910, p. 331; Reik: Zur Rettungssymbolik, ibid., p. 499, e outros.
Os ladrões, assaltantes noturnos e fantasmas diante dos quais a pessoa teme antes de deitar, e que ocasionalmente também visitam o adormecido, provêm de uma mesma reminiscência infantil. São os visitantes noturnos que despertaram a criança do sono para colocá-la no penico, a fim de que não molhasse a cama, ou que levantaram o cobertor para verificar cuidadosamente como ela mantinha as mãos enquanto dormia.
Pelas análises de alguns desses sonhos de angústia, ainda pude levar a pessoa do visitante noturno ao reconhecimento. O ladrão era, em cada caso, o pai; os fantasmas correspondem antes, provavelmente, a pessoas femininas em camisola branca.