β) Os sonhos da morte de pessoas queridas
β) Os sonhos da morte de pessoas queridas.
Outra série de sonhos que merecem ser chamados de típicos são aqueles cujo conteúdo é que um parente querido, pais ou irmãos, filhos etc., morreu. É preciso distinguir imediatamente duas classes desses sonhos: aqueles nos quais a pessoa permanece, no sonho, intocada pela tristeza, de modo que ao despertar se espanta com sua falta de sentimento, e aqueles nos quais sente profunda dor pelo falecimento, chegando até a expressá-la, durante o sono, em lágrimas ardentes.
Podemos deixar de lado os sonhos do primeiro grupo; eles não têm direito a ser considerados típicos. Quando os analisamos, verificamos que significam algo diferente do que contêm, que estão destinados a encobrir algum outro desejo. É o caso do sonho da tia que vê diante de si, velado para o sepultamento, o único filho de sua irmã (p. 116). Isso não significa que ela deseje a morte do sobrinho pequeno, mas apenas encobre, como soubemos, o desejo de rever, depois de longa privação, certa pessoa amada, a mesma que ela havia revisto antes, depois de uma pausa igualmente longa, junto ao cadáver de outro sobrinho. Esse desejo, que é o conteúdo verdadeiro do sonho, não dá motivo para tristeza, e por isso tampouco se sente tristeza no sonho.
Nota-se aqui que a sensação contida no sonho não pertence ao conteúdo manifesto do sonho, mas ao latente; que o conteúdo afetivo do sonho permaneceu livre da deformação que atingiu o conteúdo representacional. Diferentes são os sonhos nos quais a morte de uma pessoa amada da família é representada e em que, ao mesmo tempo, se sente afeto doloroso. Eles significam o que seu conteúdo diz: o desejo de que a pessoa em questão morra. E como posso esperar aqui que os sentimentos de todos os leitores, e de todas as pessoas que já sonharam algo semelhante, se revoltem contra minha interpretação, devo buscar a prova na base mais ampla possível.
Já elucidamos um sonho do qual pudemos aprender que os desejos que se apresentam como realizados nos sonhos nem sempre são desejos atuais. Podem também ser desejos passados, liquidados, sobrepostos e recalcados, aos quais, apenas por seu reaparecimento no sonho, temos de atribuir uma espécie de continuidade de existência. Eles não estão mortos como os falecidos segundo nosso conceito, mas como as sombras da Odisseia, que despertam para certa vida tão logo tenham bebido sangue.
Naquele sonho da criança morta na caixa (p. 118), tratava-se de um desejo que fora atual quinze anos antes e que, daquela época, foi confessado sem rodeios. Talvez não seja indiferente para a teoria do sonho se acrescento que, mesmo na base desse desejo, havia uma lembrança da primeira infância. A sonhadora ouvira, quando criança pequena, não se pode determinar quando, que sua mãe, durante a gravidez cujo fruto ela própria se tornou, caíra em grave abatimento e desejara ardentemente a morte da criança em seu ventre. Já adulta e grávida, ela apenas seguiu o exemplo da mãe.
Quando alguém sonha, com expressões de dor, que seu pai ou sua mãe, irmão ou irmã morreram, jamais utilizarei esse sonho como prova de que ele lhes deseja a morte agora. A teoria do sonho não exige tanto; ela se satisfaz em concluir que ele lhes desejou a morte em algum momento da infância.
Receio, porém, que essa restrição ainda contribua pouco para acalmar os reclamantes; estes provavelmente negarão com a mesma energia a possibilidade de terem algum dia pensado assim, tal como se sentem seguros de não nutrir, no presente, tais desejos. Devo, por isso, reconstruir uma parte da vida psíquica infantil submersa segundo os testemunhos que o presente ainda oferece(89).
(89) Cf. a esse respeito: Análise da fobia de um menino de 5 anos, no Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen, vol. I, 1909, e “Sobre as teorias sexuais infantis”, em Sammlung kleiner Schriften zur Neurosenlehre, segunda série.
A hostilidade da criança contra irmãos. Consideremos primeiro a relação das crianças com seus irmãos. Não sei por que pressupomos que ela deva ser amorosa, já que os exemplos de hostilidade entre irmãos adultos se impõem à experiência de qualquer um, e tão frequentemente podemos constatar que essa discórdia provém ainda da infância ou existiu desde sempre.
Mas também muitos adultos que hoje se apegam ternamente a seus irmãos e lhes prestam auxílio viveram, na infância, em hostilidade quase ininterrupta com eles. O filho mais velho maltratou o mais novo, denegriu-o, privou-o de seus brinquedos; o mais novo se consumiu em raiva impotente contra o mais velho, invejou-o e temeu-o, ou suas primeiras moções de impulso à liberdade e senso de justiça se voltaram contra o opressor. Os pais dizem que as crianças não se entendem e não conseguem encontrar a razão disso.
Não é difícil ver que também o caráter da criança boazinha é outro do que desejaríamos encontrar em um adulto. A criança é absolutamente egoísta; sente intensamente suas necessidades e se empenha, sem consideração, por sua satisfação, em especial contra seus competidores, outras crianças, e em primeiro lugar contra seus irmãos. Mas nem por isso chamamos a criança de “má”; chamamo-la de “levada”. Ela não responde por suas más ações, nem diante de nosso juízo, nem diante da lei penal. E com razão, pois podemos esperar que, ainda dentro das épocas de vida que atribuímos à infância, despertem, no pequeno egoísta, as moções altruístas e a moral; que, para falar com Meynert, um eu secundário se sobreponha ao primário e o iniba.
É certo que a moralidade não surge simultaneamente em toda a linha; também a duração do período infantil desprovido de moral varia segundo os indivíduos. Onde o desenvolvimento dessa moralidade não ocorre, gostamos de falar em “degeneração”; trata-se evidentemente de uma inibição do desenvolvimento. Onde o caráter primário já foi sobreposto pelo desenvolvimento posterior, ele pode ser desnudado ao menos parcialmente pelo adoecimento por histeria. A concordância entre o chamado caráter histérico e o de uma criança levada é simplesmente notável. A neurose obsessiva, ao contrário, corresponde à irrupção de uma supermoralidade que foi imposta como sobrecarga reforçadora ao caráter primário que volta sempre a se agitar.
Muitas pessoas, portanto, que hoje amam seus irmãos e se sentiriam privadas por sua morte, trazem de tempos anteriores maus desejos contra eles em seu inconsciente, desejos que podem se realizar nos sonhos. É, porém, particularmente interessante observar crianças pequenas de até três anos ou pouco mais em seu comportamento com irmãos mais novos. Até então a criança era a única; agora lhe anunciam que a cegonha trouxe um novo bebê. A criança examina o recém-chegado e declara decididamente: “A cegonha que o leve embora outra vez”(90).
(90) Hans, de três anos e meio, cuja fobia é objeto da análise na publicação há pouco mencionada, grita em meio à febre pouco depois do nascimento de uma irmã: “Mas eu não quero irmãzinha”. Em sua neurose, um ano e meio mais tarde, confessa sem rodeios o desejo de que a mãe deixe a pequena cair na banheira durante o banho, para que ela morra. Apesar disso, Hans é uma criança bondosa e terna, que logo passa a amar também essa irmã e gosta particularmente de protegê-la.
Declaro-me, com toda seriedade, adepto da opinião de que a criança sabe avaliar que desvantagem deve esperar do intruso. Sei, por uma senhora próxima a mim, que hoje se dá muito bem com sua irmã quatro anos mais nova, que ela respondeu à notícia da chegada desta com a reserva: “Mas meu gorro vermelho eu não vou dar a ela”. Se a criança só chega mais tarde a essa compreensão, sua hostilidade despertará nesse momento. Conheço o caso de uma menina de menos de três anos que tentou estrangular, no berço, o lactente cuja continuação no lar não lhe pressagiava nada de bom. Nessa idade, as crianças são capazes de ciúme em toda sua força e nitidez.
Ou então o irmãozinho realmente desaparece pouco depois, a criança reúne novamente sobre si toda a ternura da casa; agora vem outro, enviado pela cegonha. Não é correto que nosso pequeno favorito crie em si o desejo de que o novo concorrente tenha o mesmo destino do anterior, para que ele próprio volte a estar tão bem como antes e como no intervalo?(91) Naturalmente, esse comportamento da criança para com os que nascem depois dela, em circunstâncias normais, é uma função simples da diferença de idade. Em certo intervalo, os instintos maternos já se agitarão na menina mais velha diante do recém-nascido indefeso.
(91) Tais mortes vividas na infância podem ter sido logo esquecidas pela família; a investigação psicanalítica mostra, porém, que elas se tornaram muito significativas para a neurose posterior.
Sensações de hostilidade contra irmãos devem ser, na idade infantil, ainda muito mais frequentes do que parecem à observação embotada dos adultos(92).
(92) Observações relativas à atitude originalmente hostil de crianças contra irmãos e contra um dos pais foram feitas, desde então, em grande número e registradas na literatura psicanalítica. O poeta Spitteler descreveu de modo particularmente autêntico e ingênuo essa atitude infantil típica a partir de sua primeira infância: “Aliás, havia ainda um segundo Adolf. Uma criaturinha de quem se afirmava que era meu irmão, mas de quem eu não entendia para que servia; menos ainda por que se fazia de um ser assim tanta coisa quanto de mim mesmo. Eu bastava para minha necessidade; para que eu precisava de um irmão? E não apenas ele era inútil, mas às vezes chegava a ser um estorvo. Quando eu incomodava a avó, ele também queria incomodá-la; quando eu era levado no carrinho de criança, ele se sentava diante de mim e me tomava metade do espaço, de modo que tínhamos de bater os pés um no outro”.
Com meus próprios filhos, que se seguiram rapidamente uns aos outros, perdi a ocasião de fazer tais observações; recupero-a agora com meu pequeno sobrinho, cuja soberania exclusiva foi perturbada, depois de quinze meses, pelo aparecimento de uma competidora. Ouço dizer, é verdade, que o jovem se comporta de modo muito cavalheiresco com a irmãzinha, beija-lhe a mão e a acaricia; convenço-me, porém, de que, já antes de completar dois anos, ele utiliza sua capacidade de fala para criticar a pessoa que lhe parece supérflua. Sempre que se fala dela, ele se mistura à conversa e grita, contrariado: “Pequena demais, pequena demais”. Nos últimos meses, desde que a criança passou a despertar menos desprezo graças a seu desenvolvimento admirável, ele sabe fundamentar de outro modo sua advertência de que ela não merece tanta atenção. Em todas as ocasiões adequadas, lembra: “Ela não tem dentes”(93).
(93) O pequeno Hans, aos três anos e meio, exclama demolidor contra a irmãzinha: “Mas ela ainda não tem dentes”.
Todos nós conservamos a lembrança de uma filha mais velha de minha irmã, então com seis anos, que durante meia hora fez todas as tias lhe confirmarem: “Não é verdade que Lucie ainda não consegue entender isso?” Lucie era a concorrente, dois anos e meio mais nova.
Os sonhos da morte de irmãos, por exemplo, que correspondem a essa hostilidade acentuada, não me faltaram em nenhuma de minhas pacientes. Encontrei apenas uma exceção, que faci[[FREUD_CLEAN_APPEND_20260709_X9Q4]]