b) O trabalho de deslocamento A Interpretação dos Sonhos · Capítulo 23 de 44
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b) O trabalho de deslocamento

b) O trabalho de deslocamento.

Outra relação, provavelmente não menos significativa, já devia ter-nos chamado a atenção enquanto reuníamos os exemplos da condensação do sonho. Pudemos notar que os elementos que, no conteúdo do sonho, se impõem como seus componentes essenciais, de modo algum desempenham o mesmo papel nos pensamentos do sonho. Como correlato disso, também se pode formular a inversão dessa proposição. Aquilo que nos pensamentos do sonho é manifestamente o conteúdo essencial não precisa estar representado no sonho.

O sonho é, por assim dizer, centrado de outro modo; seu conteúdo está ordenado em torno de outros elementos como ponto central, diferentemente dos pensamentos do sonho. Assim, por exemplo, no sonho da monografia botânica, o centro do conteúdo do sonho é manifestamente o elemento “botânico”; nos pensamentos do sonho, trata-se das complicações e dos conflitos resultantes de prestações obrigatórias entre colegas, e, em seguida, da acusação de que costumo sacrificar demais a minhas predileções; o elemento “botânico” não ocupa absolutamente nenhum lugar nesse núcleo dos pensamentos do sonho, a não ser que esteja frouxamente ligado a ele por uma oposição, pois a botânica jamais teve lugar entre meus estudos prediletos.

No sonho de Sappho de meu paciente, o subir e descer, o estar em cima e embaixo, torna-se o centro; mas o sonho trata dos perigos de relações sexuais com pessoas de posição baixa, de modo que apenas um dos elementos dos pensamentos do sonho, e este ainda em ampliação indevida, parece ter entrado no conteúdo do sonho.

De modo semelhante, no sonho dos besouros de maio, cujo tema são as relações entre sexualidade e crueldade, o momento da crueldade reapareceu no conteúdo do sonho, mas em outra ligação e sem menção do sexual, portanto arrancado de seu contexto e, por isso, transformado em algo estranho. No sonho do tio, por sua vez, a barba loira, que constitui seu centro, parece estar fora de toda relação de sentido com os desejos de grandeza que reconhecemos como núcleo dos pensamentos do sonho.

Tais sonhos causam, então, com pleno direito, uma impressão “deslocada”. Em completa oposição a esses exemplos, o sonho da injeção de Irma mostra que, na formação do sonho, os elementos isolados também podem conservar o lugar que ocupam nos pensamentos do sonho. O conhecimento dessa nova relação, inteiramente inconstante quanto ao seu sentido, entre pensamentos do sonho e conteúdo do sonho, é, de início, capaz de provocar nosso espanto.

Quando encontramos, em um processo psíquico da vida normal, que uma representação foi destacada entre várias outras e adquiriu vivacidade especial para a consciência, costumamos considerar esse resultado como prova de que cabe à representação vencedora um valor psíquico especialmente alto, certo grau de interesse. Agora fazemos a experiência de que esse valor dos elementos isolados nos pensamentos do sonho não é preservado, ou não entra em consideração, na formação do sonho. Pois não há dúvida alguma sobre quais são os elementos de maior valor nos pensamentos do sonho; nosso juízo nos diz isso imediatamente.

Na formação do sonho, porém, esses elementos essenciais, acentuados com intenso interesse, podem ser tratados como se fossem de valor menor, e, em seu lugar, entram no sonho outros elementos que, nos pensamentos do sonho, certamente tinham valor menor. À primeira vista, tem-se a impressão de que a intensidade psíquica(108) das representações isoladas não entra absolutamente em consideração para a seleção onírica, mas apenas sua determinação mais ou menos multilateral.

Não aquilo que é importante nos pensamentos do sonho entra no sonho, poder-se-ia pensar, mas aquilo que neles está contido várias vezes. A compreensão da formação do sonho, porém, não avança muito com essa suposição, pois, de saída, não se poderá crer que os dois momentos, o da determinação múltipla e o do valor próprio, possam agir na seleção onírica senão no mesmo sentido. As representações que são as mais importantes nos pensamentos do sonho serão provavelmente também as que neles retornam com maior frequência, pois delas irradiam, como de centros, os pensamentos isolados do sonho. E, no entanto, o sonho pode rejeitar esses elementos intensamente acentuados e sustentados de muitos lados, e acolher em seu conteúdo outros elementos aos quais cabe apenas a segunda dessas propriedades.

(108) Intensidade psíquica, valor, acento de interesse de uma representação devem, naturalmente, ser mantidos separados da intensidade sensível, da intensidade do representado.

A sobredeterminação.

Para resolver essa dificuldade, convém utilizar outra impressão que se recebeu na investigação da sobredeterminação do conteúdo do sonho. Talvez algum leitor desta investigação já tenha julgado consigo mesmo que a sobredeterminação dos elementos do sonho não é uma descoberta significativa, porque é algo evidente. Na análise, parte-se dos elementos do sonho e registra-se tudo o que ocorre em associação com eles; não é de espantar, então, que, no material de pensamentos assim obtido, justamente esses elementos sejam encontrados com especial frequência.

Eu não poderia aceitar essa objeção, mas vou eu mesmo formular algo que soa parecido com ela. Entre os pensamentos que a análise traz à luz, há muitos que se encontram mais afastados do núcleo do sonho e que parecem inserções artificiais feitas com determinado fim. Esse fim se reconhece facilmente: são precisamente esses pensamentos que estabelecem uma ligação, muitas vezes forçada e procurada, entre conteúdo do sonho e pensamentos do sonho; e, se esses elementos fossem eliminados da análise, os componentes do conteúdo do sonho muitas vezes perderiam não apenas a sobredeterminação, mas, de todo modo, uma determinação suficiente pelos pensamentos do sonho.

Somos assim conduzidos à conclusão de que a determinação múltipla, que decide a seleção onírica, talvez nem sempre seja um momento primário da formação do sonho, mas frequentemente um resultado secundário de uma força psíquica que ainda desconhecemos. Apesar disso, ela deve ter importância para a entrada dos elementos isolados no sonho, pois podemos observar que é produzida com certo dispêndio onde não resulta do material do sonho sem auxílio.

Surge então a ideia de que, no trabalho do sonho, manifesta-se uma força psíquica que, por um lado, despoja de sua intensidade os elementos psiquicamente valiosos e, por outro, pelo caminho da sobredeterminação, cria novos valores a partir de elementos de menor valor, que então chegam ao conteúdo do sonho.

Se é assim que as coisas se passam, então, na formação do sonho, ocorreu uma transferência e um deslocamento das intensidades psíquicas dos elementos isolados, como consequência dos quais aparece a diferença textual entre conteúdo do sonho e pensamentos do sonho. O processo que assim supomos é precisamente a peça essencial do trabalho do sonho; ele merece o nome de deslocamento do sonho.

Deslocamento do sonho e condensação do sonho são os dois artífices a cuja atividade podemos atribuir principalmente a configuração do sonho. Penso que também nos é fácil reconhecer a força psíquica que se manifesta nos fatos do deslocamento do sonho. O resultado desse deslocamento é que o conteúdo do sonho já não se parece com o núcleo dos pensamentos do sonho, que o sonho reproduz apenas uma deformação do desejo do sonho no inconsciente.

A deformação do sonho, porém, já nos é conhecida; nós a reconduzimos à censura que uma instância psíquica exerce, na vida do pensamento, contra outra. O deslocamento do sonho é um dos principais meios para produzir essa deformação. Is fecit, cui profuit. Podemos supor que o deslocamento do sonho se produz sob a influência daquela censura, da defesa endopsíquica.(109)

(109) Como posso designar a recondução da deformação do sonho à censura como o núcleo de minha concepção do sonho, insiro aqui o último trecho daquela narrativa “Sonhar como acordado”, das Fantasias de um realista, de Lynkeus, Viena, 2ª edição, 1900, na qual reencontro esse traço principal de minha doutrina:

“De um homem que tinha a curiosa propriedade de jamais sonhar coisas sem sentido.”

“Tua magnífica propriedade de sonhar como acordado repousa sobre tuas virtudes, sobre tua bondade, tua justiça, teu amor à verdade; é a clareza moral de tua natureza que torna tudo em ti compreensível para mim.”

“Mas, pensando bem”, respondeu o outro, “quase creio que todos os homens são constituídos como eu, e que ninguém jamais sonha coisas sem sentido! Um sonho de que alguém se lembra com tanta clareza que pode narrá-lo, e que portanto não é um sonho febril, tem sempre sentido, e nem poderia ser de outro modo! Pois aquilo que se contradiz não poderia agrupar-se em um todo. Que tempo e espaço sejam muitas vezes remexidos um no outro não retira nada do verdadeiro conteúdo do sonho, pois ambos certamente não tiveram importância alguma para seu conteúdo essencial. Muitas vezes também fazemos assim na vigília; pense no conto maravilhoso, em tantas construções fantásticas ousadas e cheias de sentido, das quais apenas um tolo diria: ‘Isso é absurdo! Pois isso não é possível!’”

“Se ao menos sempre se soubesse interpretar os sonhos corretamente, como acabaste de fazer com o meu!”, disse o amigo.

“Certamente não é uma tarefa fácil, mas, com alguma atenção, o próprio sonhador deveria quase sempre consegui-lo. Por que, na maioria das vezes, não consegue? Parece haver em vossos sonhos algo oculto, algo impudico de espécie própria e mais elevada, certa coisa secreta em vosso ser, difícil de conceber; e por isso vosso sonhar parece tantas vezes sem sentido, até mesmo um contrassenso. Mas, no fundo mais profundo, não é absolutamente assim; sim, não pode ser assim, pois é sempre o mesmo homem, esteja ele acordado ou sonhando.”

De que modo os momentos do deslocamento, da condensação e da sobredeterminação se entrelaçam na formação do sonho, qual deles se torna o fator superior e qual o acessório, deixaremos para investigações posteriores.

Provisoriamente, podemos indicar como uma segunda condição, à qual devem satisfazer os elementos que entram no sonho, que eles estejam subtraídos à censura da resistência. De agora em diante, porém, na interpretação dos sonhos, levaremos em conta o deslocamento do sonho como fato indubitável.

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