a) O esquecimento dos sonhos
a) O esquecimento dos sonhos.
Penso, portanto, que nos voltemos antes a um tema do qual se deriva uma objeção até agora não considerada, mas que poderia parecer capaz de minar nossos esforços em torno da interpretação dos sonhos. Foi-nos objetado, por mais de um lado, que na verdade não conhecemos o sonho que queremos interpretar, ou, mais corretamente, que não temos garantia de conhecê-lo tal como ele realmente ocorreu (cf. p. 34). Aquilo que recordamos do sonho, e sobre o que exercitamos nossas artes interpretativas, é em primeiro lugar mutilado pela infidelidade de nossa memória, que parece incapaz em grau muito especial de conservar o sonho, e talvez tenha perdido justamente os trechos mais significativos de seu conteúdo. Com efeito, tantas vezes, quando queremos prestar atenção aos nossos sonhos, somos levados à queixa de que sonhamos muito mais e, infelizmente, nada sabemos disso além de um único fragmento, cuja própria lembrança nos parece singularmente insegura. Em segundo lugar, porém, tudo indica que nossa lembrança reproduz o sonho não só de maneira lacunar, mas também infiel e falsificada. Assim como, de um lado, se pode duvidar de que o sonhado tenha sido realmente tão desconexo e turvo quanto o temos na memória, também se pode, de outro lado, pôr em dúvida se um sonho foi tão coerente quanto o narramos, se, na tentativa de reproduzi-lo, não preenchemos lacunas inexistentes ou criadas pelo esquecimento com material novo escolhido arbitrariamente, adornando, arredondando e preparando o sonho, de modo que se torna impossível qualquer juízo sobre qual foi o conteúdo real de nosso sonho. Sim, em vários autores (Spitta, Foucault, Tannery) encontramos a suposição de que tudo o que há de ordem e conexão é introduzido no sonho apenas na tentativa de recordá-lo. Assim corremos o perigo de que nos arranquem das mãos o próprio objeto cujo valor nos propusemos determinar.
Até agora, em nossas interpretações de sonhos, ignoramos essas advertências. Sim, ao contrário, encontramos nos menores, mais apagados e mais incertos componentes do conteúdo do sonho um convite à interpretação não menos audível do que nos componentes conservados de modo claro e seguro. No sonho da injeção de Irma, dizia-se: chamo rapidamente o Dr. M., e presumimos que esse pequeno acréscimo também não teria chegado ao sonho se não admitisse uma derivação especial. Assim chegamos à história daquela infeliz paciente junto a cujo leito chamei «rapidamente» o colega mais velho. No sonho aparentemente absurdo, que trata a diferença entre 51 e 56 como quantité négligeable, o número 51 fora mencionado várias vezes. Em vez de considerar isso evidente ou indiferente, inferimos daí uma segunda sequência de pensamentos no conteúdo latente do sonho, que conduz ao número 51; e o rastro que seguimos adiante nos levou a temores que situavam os 51 anos como limite da vida, em oposição muito aguda a uma corrente de pensamento dominante, que se vangloriava espalhafatosamente dos anos de vida. No sonho «Non vixit», encontrei como inserção aparentemente insignificante, que no início eu deixara passar, o trecho: «Como P. não o compreende, Fl. me pergunta etc.» Quando a interpretação então emperrou, voltei a essas palavras e, a partir delas, encontrei o caminho para a fantasia infantil que aparece nos pensamentos do sonho como ponto nodal intermediário. Isso ocorreu por meio dos versos do poeta: Raras vezes me compreendestes, raras vezes também vos compreendi; só quando nos encontramos na lama, então logo nos compreendemos!
A dúvida sobre a fidelidade da lembrança do sonho.
Toda análise poderia documentar com exemplos como precisamente os traços mais insignificantes do sonho são indispensáveis à interpretação, e como a conclusão da tarefa se atrasa quando a atenção só se volta para eles tardiamente. Na interpretação dos sonhos, concedemos a mesma consideração a cada nuance da expressão verbal na qual o sonho se apresentava; sim, quando nos era apresentado um teor verbal sem sentido ou insuficiente, como se o esforço não tivesse conseguido traduzir o sonho para a formulação correta, respeitamos também essas falhas de expressão. Em suma, aquilo que, segundo a opinião dos autores, seria uma improvisação arbitrária, preparada às pressas no embaraço, nós tratamos como texto sagrado. Essa contradição exige esclarecimento. Ele se dá a nosso favor, sem que por isso se faça injustiça aos autores. Do ponto de vista de nossas novas concepções sobre o surgimento do sonho, as contradições se conciliam sem resto. É correto que, na tentativa de reprodução, deformamos o sonho; reencontramos aí aquilo que designamos como elaboração secundária e frequentemente equivocada do sonho pela instância do pensamento normal. Mas essa deformação é ela mesma nada mais que uma parte da elaboração à qual os pensamentos do sonho, em consequência da censura do sonho, estão regularmente submetidos. Os autores pressentiram ou notaram aqui a parte da deformação do sonho que trabalha de modo manifesto; isso pouco nos perturba, pois sabemos que um trabalho de deformação muito mais amplo, menos fácil de apreender, já escolheu o sonho como objeto a partir dos pensamentos ocultos do sonho. Os autores erram apenas ao considerar arbitrária a modificação do sonho ao ser lembrado e posto em palavras, portanto não mais passível de dissolução e, por isso, apta a nos desviar do conhecimento do sonho. Eles subestimam a determinação no psíquico. Aí não há nada de arbitrário. Pode-se mostrar, de modo inteiramente geral, que uma segunda sequência de pensamentos assume imediatamente a determinação do elemento que a primeira deixou indeterminado. Eu quero, por exemplo, deixar que me ocorra um número de modo inteiramente arbitrário; isso não é possível. O número que me ocorre é determinado, de maneira inequívoca e necessária, por pensamentos em mim que talvez estejam distantes de minha intenção momentânea(223). Tampouco são arbitrárias as modificações que o sonho sofre na redação da vigília. Elas permanecem em vínculo associativo com o conteúdo em cujo lugar se colocam e servem para nos indicar o caminho até esse conteúdo, que por sua vez pode ser o substituto de outro.
(223) Cf. Psicopatologia da vida cotidiana, 1ª ed., 1901 e 1904; 4ª ed., 1912.
Nas análises de sonhos com pacientes, costumo submeter essa afirmação a uma prova que nunca falha. Quando o relato de um sonho me parece inicialmente difícil de compreender, peço ao narrador que o repita. Isso raramente acontece com as mesmas palavras. Mas os pontos em que ele modificou a expressão me são assinalados como os pontos fracos do disfarce do sonho, e me servem como a marca bordada no traje de Siegfried serviu a Hagen. Ali a interpretação do sonho pode começar. Pela minha solicitação, o narrador foi advertido de que pretendo empregar um esforço especial para solucionar o sonho; assim, sob a pressão da resistência, ele protege rapidamente os pontos fracos do disfarce do sonho, substituindo uma expressão denunciadora por outra mais distante. Desse modo, chama minha atenção para a expressão que abandonou. Da dificuldade com que a solução do sonho é defendida, posso também inferir o cuidado com que se teceu a roupagem do sonho.
Significado dos acréscimos posteriores ao sonho.
Menos razão têm os autores quando concedem tanto espaço à dúvida com que nosso juízo acolhe o relato do sonho. Pois essa dúvida carece de garantia intelectual; nossa memória não conhece garantias em geral, e no entanto nos submetemos, com muito mais frequência do que seria objetivamente justificado, à coerção de acreditar em seus dados. A dúvida quanto à reprodução correta do sonho ou de certos dados do sonho é, novamente, apenas um derivado da censura do sonho, da resistência contra a passagem dos pensamentos do sonho à consciência. Essa resistência nem sempre se esgota nos deslocamentos e substituições que impôs; então ela ainda se prende, como dúvida, àquilo que deixou passar. Reconhecemos tanto menos essa dúvida porque ela se vale da cautela de nunca atacar elementos intensos do sonho, mas apenas os fracos e indistintos. Sabemos agora, porém, que entre pensamentos do sonho e sonho se deu uma completa reavaliação de todos os valores psíquicos; a deformação só foi possível por uma retirada de valor, manifesta-se regularmente nela e ocasionalmente se contenta com isso. Quando a um elemento indistinto do conteúdo do sonho se acrescenta ainda a dúvida, podemos reconhecer nesse elemento, seguindo a indicação, um derivado mais direto de um dos pensamentos do sonho proscritos. É como depois de uma grande revolução em uma das repúblicas da Antiguidade ou do Renascimento. As famílias nobres e poderosas antes dominantes estão agora banidas; todos os altos cargos foram ocupados por novos-ricos; na cidade só são tolerados membros muito empobrecidos e sem poder, ou partidários distantes dos derrubados. Mas mesmo estes não gozam de plenos direitos civis; são vigiados com desconfiança. No lugar da desconfiança no exemplo, em nosso caso está a dúvida.
Por isso exijo, na análise de um sonho, que se abandone toda a escala de avaliação da certeza, e que a mais leve possibilidade de algo dessa ou daquela espécie ter ocorrido no sonho seja tratada como plena certeza. Enquanto alguém, no seguimento de um elemento do sonho, não se decidir a renunciar a essa consideração, a análise ficará bloqueada nesse ponto. O desprezo pelo elemento em questão tem, naquele que é analisado, o efeito psíquico de impedir que lhe ocorram as representações involuntárias por trás dele. Tal efeito não é, propriamente, evidente; não seria absurdo se alguém dissesse: Não sei com certeza se isto ou aquilo estava contido no sonho, mas a esse respeito me ocorre o seguinte. Nunca ele diz isso; e justamente esse efeito da dúvida, que perturba a análise, denuncia-a como derivado e instrumento da resistência psíquica. A psicanálise é desconfiada com razão. Uma de suas regras diz: tudo o que perturba a continuação do trabalho é uma resistência. Também o esquecimento dos sonhos permanece inexplicável enquanto não se convoca, para explicá-lo, o poder da censura psíquica.
A sensação de que se sonhou muito em uma noite e se conservou apenas pouco disso pode ter, em uma série de casos, outro sentido: talvez o de que o trabalho do sonho se realizou durante a noite de modo perceptível e deixou apenas um breve sonho. De resto, não há dúvida possível quanto ao fato de que se esquece progressivamente o sonho depois do despertar. Esquece-se muitas vezes apesar de penosos esforços para fixá-lo. Mas penso que, assim como em geral se superestima a extensão desse esquecimento, também se superestima a perda de conhecimento ligada às lacunas do sonho. Tudo o que o esquecimento custou ao conteúdo do sonho pode muitas vezes ser recuperado pela análise; ao menos em uma série inteira de casos, pode-se, a partir de um único fragmento restante, encontrar não o sonho, mas isso também não importa, e sim todos os pensamentos do sonho. Isso exige maior dispêndio de atenção e autodomínio na análise; é tudo, mas mostra, contudo, que o esquecimento do sonho não deixou de cumprir uma intenção hostil.
Uma prova convincente da natureza tendenciosa e servidora da resistência do esquecimento do sonho(224) obtém-se nas análises pela apreciação de um estágio preliminar do esquecimento. Não é nada raro que, em meio ao trabalho interpretativo, surja de repente um trecho omitido do sonho, até então descrito como esquecido. Esse pedaço do sonho arrancado ao esquecimento é sempre o mais importante; ele está no caminho mais curto para a solução do sonho e, por isso, foi o mais exposto à resistência. Entre os exemplos de sonhos que inseri no contexto deste tratado, ocorre uma vez que eu tenha de acrescentar posteriormente um trecho assim do conteúdo do sonho. Trata-se de um sonho de viagem que se vinga de uma companheira de viagem desagradável, e que deixei quase sem interpretação por causa de seu conteúdo em parte grosseiramente obsceno. O trecho omitido diz: Digo a respeito de um livro de Schiller: It is from... mas me corrijo, percebendo eu mesmo o erro: It is by... O homem observa então à irmã: «Ele disse certo(225).»
(224) Cf., sobre a intenção no esquecimento em geral, meu pequeno ensaio sobre o «mecanismo psíquico do esquecimento», na Monatschrift für Psychiatrie und Neurologie, 1898. Mais tarde ele foi incorporado à Psicopatologia da vida cotidiana.
(225) Tais correções no uso de línguas estrangeiras não são raras em sonhos, mas são mais frequentemente atribuídas a outras pessoas. Maury (p. 143) sonhou certa vez, no tempo em que aprendia inglês, que comunicava a outra pessoa que a havia visitado no dia anterior com as palavras: I called for you yesterday. O outro respondeu corretamente: diz-se I called on you yesterday. A autocorreção no sonho, que a alguns autores pareceu tão admirável, não merece ocupar-nos. Prefiro indicar, para o erro de língua no sonho, o modelo tirado de minha lembrança. Eu tinha dezenove anos quando estive pela primeira vez na Inglaterra e passei um dia na praia do Irish Sea. Naturalmente, eu me deleitava em apanhar os animais marinhos deixados pela maré, e estava justamente ocupado com uma estrela-do-mar (o sonho começa com: Hollthurn-Holothurien), quando uma encantadora garotinha se aproximou de mim e perguntou: Is it a starfish? Is it alive? Respondi: Yes he is alive, mas envergonhei-me então da incorreção e repeti a frase corretamente. No lugar do erro de linguagem que cometi naquela ocasião, o sonho coloca outro, no qual o alemão cai com igual facilidade. «O livro é de Schiller» não se deve traduzir por from..., mas por by.... Que o trabalho do sonho efetue essa substituição porque from, pela homofonia com o adjetivo alemão fromm, permite uma magnífica condensação, já não nos surpreende depois de tudo o que ouvimos sobre as intenções do trabalho do sonho e sua falta de escrúpulos na escolha dos meios. Mas o que quer dizer a lembrança inofensiva da praia no contexto do sonho? Ela esclarece, por meio de um exemplo tão inocente quanto possível, que uso o artigo de gênero no lugar errado, isto é, que coloco o sexual (he) onde ele não pertence. Isso é, de fato, uma das chaves para a solução do sonho. Quem depois ainda tiver ouvido a derivação do título do livro Matter and Motion (Molière no Malade imaginaire: La matière est-elle laudable?; a motion of the bowels), poderá completar facilmente o que falta.
Interpretação retardada de sonhos.
Posso, aliás, resolver por uma demonstratio ad oculos a prova de que o esquecimento do sonho é, em grande parte, realização da resistência. Um paciente conta que sonhou, mas esqueceu o sonho sem deixar rastro; então o sonho vale simplesmente como não ocorrido. Continuamos o trabalho, eu tropeço numa resistência, esclareço algo ao doente, ajudo-o por persuasão e pressão a reconciliar-se com algum pensamento desagradável, e mal isso se realiza, ele exclama: agora sei de novo o que sonhei. A mesma resistência que naquele dia o perturbara no trabalho o fizera também esquecer o sonho.
Por meio da superação dessa resistência, fiz o sonho ascender à lembrança. Do mesmo modo, quando o paciente chega a certo ponto do trabalho, pode recordar um sonho ocorrido três, quatro ou mais dias antes, e que até então havia repousado no esquecimento(226).
(226) E. Jones descreve o caso análogo, frequente, de que durante a análise de um sonho seja recordado um segundo sonho da mesma noite, até então esquecido, e nem sequer suspeitado.
A experiência psicanalítica nos forneceu ainda outra prova de que o esquecimento dos sonhos depende muito mais da resistência do que da estranheza entre o estado de vigília e o estado de sono, como supõem os autores. Não é raro acontecer comigo, como com outros analistas e com pacientes submetidos a esse tratamento, que sejamos despertados do sono por um sonho e, como gostaríamos de dizer, imediatamente em plena posse de nossa atividade de pensamento, comecemos a interpretar o sonho. Nesses casos, muitas vezes não descansei até ter alcançado a plena compreensão do sonho; e, no entanto, pôde acontecer que, depois de acordar, eu tivesse esquecido o trabalho interpretativo tão completamente quanto o conteúdo do sonho, embora soubesse que havia sonhado e que havia interpretado o sonho. Muito mais frequentemente o sonho arrastara consigo ao esquecimento o resultado do trabalho interpretativo do que a atividade intelectual conseguira conservar o sonho para a lembrança. Entre esse trabalho interpretativo e o pensamento de vigília, porém, não existe aquele abismo psíquico pelo qual os autores pretendem explicar de modo exclusivo o esquecimento do sonho.
Quando Morton Prince objeta à minha explicação do esquecimento dos sonhos que ele é apenas um caso especial da amnésia para estados psíquicos cindidos (dissociated states), e que a impossibilidade de transferir minha explicação dessa amnésia especial para outros tipos de amnésia a torna sem valor também para sua finalidade imediata, ele lembra ao leitor que, em todas as suas descrições desses estados dissociados, jamais tentou encontrar a explicação dinâmica desses fenômenos. De outro modo, teria de descobrir que o recalque, respectivamente a resistência criada por ele, é tanto a causa dessas cisões quanto da amnésia de seu conteúdo psíquico. Que os sonhos não são esquecidos de modo diferente de outros atos psíquicos, e que também quanto à sua fixação na memória devem ser equiparados sem diminuição às demais realizações psíquicas, mostra-me uma experiência que pude fazer durante a redação deste manuscrito. Eu havia conservado em minhas notas muitos sonhos próprios que naquele tempo, por alguma razão, eu só pudera submeter à interpretação de modo muito incompleto, ou mesmo de modo algum. Em alguns deles, um ou dois anos depois, empreendi a tentativa de interpretá-los, com a intenção de obter material para ilustrar minhas afirmações. Essa tentativa teve êxito sem exceção; sim, eu gostaria de afirmar que, tanto tempo depois, a interpretação se processou mais facilmente do que na época em que os sonhos eram experiências frescas, para o que posso indicar, como explicação possível, que desde então passei por cima de certas resistências em meu interior que naquela época me perturbavam. Em tais interpretações posteriores, comparei os resultados de então em pensamentos do sonho com os de hoje, em geral muito mais ricos, e encontrei o de então inalterado sob o de hoje. Cortei a tempo meu espanto diante disso, lembrando-me de que há muito tempo estou habituado a fazer meus pacientes interpretarem sonhos de anos anteriores, que eles ocasionalmente me contam, como se fossem sonhos da noite passada, segundo o mesmo procedimento e com o mesmo êxito. Na discussão dos sonhos de angústia, comunicarei dois exemplos de uma interpretação de sonhos desse tipo, retardada. Quando empreendi pela primeira vez essa tentativa, guiava-me a expectativa justificada de que também nisso o sonho se comportaria apenas como um sintoma neurótico. Pois quando trato, por meio da psicanálise, um psiconeurótico, por exemplo uma histeria, preciso esclarecer os primeiros sintomas, há muito superados, de sua enfermidade, assim como os que ainda existem hoje e que o trouxeram até mim, e acho a primeira tarefa apenas mais fácil de resolver que a atualmente urgente. Já nos Estudos sobre a histeria, publicados em 1895, pude comunicar o esclarecimento de um primeiro ataque histérico de angústia que a mulher, então com mais de quarenta anos, tivera aos quinze.
Sobre a técnica da interpretação dos sonhos.
Em sequência mais livre, quero ainda apresentar aqui algo do que tenho a observar sobre a interpretação dos sonhos, e que talvez oriente o leitor que quiser me controlar retrabalhando seus próprios sonhos. Ninguém poderá esperar que a interpretação de seus sonhos lhe caia no colo sem esforço. Já para perceber fenômenos endópticos e outras sensações de ordinário retiradas da atenção é preciso exercício, embora nenhum motivo psíquico se oponha a esse grupo de percepções. É consideravelmente mais difícil apoderar-se das «representações involuntárias». Quem exige isso terá de imbuir-se das expectativas despertadas neste tratado e, obedecendo às regras aqui dadas, esforçar-se por reprimir em si, durante o trabalho, toda crítica, todo preconceito, toda tomada de partido afetiva ou intelectual. Deverá conservar na memória a prescrição que Claude Bernard estabeleceu para o experimentador no laboratório fisiológico: Travailler comme une bête, isto é, com tanta perseverança quanto despreocupação pelo resultado. Quem seguir esses conselhos, por certo, já não achará a tarefa difícil.
A interpretação de um sonho também nem sempre se realiza de uma só vez; não raramente sentimos nossa capacidade esgotada depois de seguir um encadeamento de associações; nesse dia, o sonho já não nos diz nada. Então é bom interromper e voltar ao trabalho em outro dia. Nesse momento, outro fragmento do conteúdo do sonho atrai a atenção, e encontra-se o acesso a uma nova camada de pensamentos do sonho. Pode-se chamar isso de interpretação «fracionada» do sonho. O mais difícil é levar o principiante na interpretação dos sonhos a reconhecer o fato de que sua tarefa não está plenamente cumprida quando ele tem em mãos uma interpretação completa do sonho, uma interpretação rica de sentido, coerente e que dá conta de todos os elementos do conteúdo do sonho. Além disso, pode haver outra interpretação, uma sobreinterpretação do mesmo sonho, que lhe escapou. Não é realmente fácil formar uma ideia da riqueza de encadeamentos de pensamento inconscientes que, em nosso pensar, pressionam por expressão, nem acreditar na habilidade do trabalho do sonho para, mediante uma forma de expressão ambígua, acertar de cada vez, por assim dizer, sete moscas com um só golpe, como o alfaiatezinho do conto. O leitor estará sempre inclinado a censurar o autor por desperdiçar inutilmente seu espírito; quem adquiriu experiência própria verá que as coisas são diferentes.
À pergunta se todo sonho pode ser levado à interpretação, deve-se responder que não. Não se deve esquecer que no trabalho interpretativo se têm contra si as forças psíquicas que causaram a deformação do sonho. Torna-se, assim, uma questão da relação de forças saber se, com o próprio interesse intelectual, a capacidade de autodomínio, os conhecimentos psicológicos e o exercício na interpretação dos sonhos, alguém consegue impor-se às resistências internas. Até certo ponto isso sempre é possível, ao menos o bastante para adquirir a convicção de que o sonho é uma formação rica de sentido e, na maioria das vezes, também para alcançar uma intuição desse sentido. Com bastante frequência, um sonho subsequente permite assegurar e prosseguir a interpretação assumida para o primeiro. Uma série inteira de sonhos, que se estende por semanas ou meses, muitas vezes repousa sobre um terreno comum e deve então ser submetida à interpretação em conjunto. Em sonhos consecutivos, pode-se frequentemente notar como um toma como centro aquilo que no seguinte é apenas indicado na periferia, e vice-versa, de modo que os dois se completam também na interpretação. Já provei por exemplos que os diversos sonhos da mesma noite devem ser tratados com toda regularidade pelo trabalho interpretativo como um todo. Nos sonhos mais bem interpretados, muitas vezes é preciso deixar um ponto no escuro, porque se percebe, na interpretação, que ali começa um novelo de pensamentos do sonho que não quer se desenredar, mas que também não forneceu novas contribuições ao conteúdo do sonho. Esse é então o umbigo do sonho, o ponto em que ele se assenta sobre o desconhecido. Pois os pensamentos do sonho a que se chega na interpretação devem, de modo inteiramente geral, permanecer sem fecho e correr por todos os lados para a trama reticular de nosso mundo de pensamentos. De um ponto mais denso desse tecido eleva-se então o desejo do sonho, como o cogumelo de seu micélio.
Retornamos aos fatos do esquecimento dos sonhos. Deixamos de extrair deles uma conclusão importante. Se a vida de vigília mostra a inequívoca intenção de esquecer o sonho formado durante a noite, seja como um todo logo depois do despertar, seja por partes ao longo do dia, e se reconhecemos como principal participante desse esquecimento a resistência psíquica contra o sonho, resistência que já fez o que lhe cabia contra ele durante a noite, então se impõe a pergunta: o que torna possível a formação do sonho contra essa resistência? Tomemos o caso mais flagrante, em que a vida de vigília remove de novo o sonho como se ele jamais tivesse ocorrido. Se consideramos aí o jogo das forças psíquicas, precisamos declarar que o sonho não teria chegado a se formar se a resistência tivesse atuado à noite como atua de dia. Nossa conclusão é que, durante o período noturno, ela havia perdido uma parte de sua força; sabemos que ela não estava abolida, pois demonstramos sua participação na formação do sonho por meio da deformação do sonho. Mas a possibilidade que se impõe a nós é que ela estivesse diminuída durante a noite, que a formação do sonho se tornasse possível por essa redução da resistência, e então compreendemos facilmente que, restituída ao despertar em toda a sua força, ela logo torne a eliminar aquilo que teve de admitir enquanto estava fraca. A psicologia descritiva nos ensina, de fato, que a principal condição da formação do sonho é o estado de sono da alma; poderíamos agora acrescentar a explicação: o estado de sono torna possível a formação do sonho ao rebaixar a censura endopsíquica.
Objeções contra a técnica da interpretação dos sonhos.
Certamente somos tentados a considerar essa conclusão a única possível a partir dos fatos do esquecimento dos sonhos, e a desenvolver a partir dela outras inferências sobre as relações de energia do sono e da vigília. Mas queremos, por enquanto, deter-nos nisso. Quando nos aprofundarmos um pouco mais na psicologia do sonho, saberemos que a possibilitação da formação do sonho também pode ser concebida de outra maneira. A resistência contra o tornar-se consciente dos pensamentos do sonho talvez também possa ser contornada sem que ela mesma tenha experimentado uma redução. Também é plausível que os dois fatores favoráveis à formação do sonho, a redução e o contorno da resistência, sejam simultaneamente possibilitados pelo estado de sono. Interrompemos aqui para retomar este ponto daqui a pouco.
Há outra série de objeções contra nosso procedimento na interpretação dos sonhos, da qual devemos agora nos ocupar. Procedemos aqui deixando cair todas as representações-meta que habitualmente dominam o ato de pensar, dirigimos nossa atenção para um único elemento do sonho e então anotamos o que nos ocorre a seu respeito em pensamentos involuntários. Depois tomamos um componente seguinte do conteúdo do sonho, repetimos com ele o mesmo trabalho e nos deixamos conduzir adiante por esses pensamentos, sem nos preocuparmos com a direção para a qual eles derivam, sendo levados, como se costuma dizer, do cem ao mil. Nutrimos nisso a confiante expectativa de que, ao final, sem qualquer intervenção nossa, chegaremos aos pensamentos do sonho dos quais o sonho se originou.
Contra isso, a crítica poderá objetar mais ou menos o seguinte: não é nada admirável que, de um elemento isolado do sonho, se chegue a algum lugar. A qualquer representação se pode associar alguma coisa; o que é estranho é que, nesse curso de pensamentos sem meta e arbitrário, se deva chegar justamente aos pensamentos do sonho. Provavelmente trata-se de uma autoilusão; segue-se a cadeia associativa a partir de um elemento até perceber, por alguma razão, que ela se rompe; quando então se toma um segundo elemento, é apenas natural que a ausência inicial de limitação da associação sofra agora uma restrição. Tem-se ainda na memória a cadeia de pensamentos anterior e, por isso, na análise da segunda representação do sonho, encontrar-se-ão mais facilmente associações que tenham algo em comum com as associações da primeira cadeia. Então se imagina ter encontrado um pensamento que representa um ponto nodal entre dois elementos do sonho. Como se permite, de resto, toda liberdade de conexão dos pensamentos e, na verdade, só se excluem as transições de uma representação a outra que vigoram no pensamento normal, não será difícil, por fim, preparar a partir de uma série de «pensamentos intermediários» algo que se chama pensamentos do sonho e que, sem qualquer garantia, já que estes não são conhecidos de outro modo, se apresenta como substituto psíquico do sonho. Mas nisso tudo haveria arbitrariedade e aproveitamento do acaso com aparência espirituosa, e qualquer pessoa que se submeta a esse esforço inútil poderá matutar, por esse caminho, uma interpretação qualquer para qualquer sonho.
Se tais objeções realmente nos forem apresentadas, poderemos invocar, em nossa defesa, a impressão produzida por nossas interpretações dos sonhos, as conexões surpreendentes com outros elementos do sonho que se estabelecem durante o seguimento das representações isoladas e a improbabilidade de que algo que cubra e esclareça o sonho de modo tão exaustivo como uma de nossas interpretações possa ser obtido de outro modo que não seguindo conexões psíquicas previamente estabelecidas. Poderíamos também chamar em nossa justificação o fato de que o procedimento na interpretação dos sonhos é idêntico ao empregado na resolução dos sintomas histéricos, onde a correção do procedimento é assegurada pelo surgimento e desaparecimento dos sintomas em seu devido lugar, de maneira que a interpretação do texto encontra apoio nas ilustrações inseridas. Mas não temos razão para evitar o problema de como, pelo seguimento de uma cadeia de pensamentos que continua a se tecer arbitrariamente e sem meta, se pode chegar a uma meta preexistente, pois não somos capazes de resolver esse problema, mas somos capazes de eliminá-lo por completo.
Determinação das associações livres.
É demonstravelmente incorreto que nos entreguemos a um curso de representações sem meta quando, como no trabalho de interpretação dos sonhos, deixamos cair o pensamento deliberado e permitimos que surjam as representações involuntárias. Pode-se mostrar que só podemos renunciar às representações-meta conhecidas por nós, e que, com a cessação destas, imediatamente representações-meta desconhecidas, que chamamos de modo impreciso de inconscientes, chegam ao poder e mantêm então determinado o curso das representações involuntárias. Um pensamento sem representações-meta não pode ser produzido de modo algum por nossa própria influência sobre nossa vida psíquica; tampouco sei em quais estados de desorganização psíquica ele poderia produzir-se(227). Os psiquiatras renunciaram aqui cedo demais à solidez da estrutura psíquica. Sei que um curso de pensamentos irregular, desprovido de representações-meta, não ocorre no âmbito da histeria e da paranoia, assim como não ocorre na formação ou na resolução dos sonhos. Talvez ele não ocorra absolutamente nas afecções psíquicas endógenas; mesmo os delírios dos confusos, segundo uma engenhosa suposição de Leuret, são ricos de sentido e tornam-se incompreensíveis para nós apenas por omissões. Obtive a mesma convicção onde tive ocasião de observar. Os delírios são obra de uma censura que já não se dá ao trabalho de ocultar sua atuação; em vez de prestar sua colaboração a uma reelaboração que já não seja ofensiva, ela risca sem consideração aquilo contra o que levanta objeção, e então o que sobra se torna desconexo. Essa censura procede de maneira inteiramente análoga à censura russa de jornais na fronteira, que só deixa os periódicos estrangeiros chegarem às mãos dos leitores a serem protegidos atravessados por tarjas negras.
(227) Só mais tarde fui chamado a notar que Ed. von Hartmann, neste ponto psicologicamente importante, sustenta a mesma concepção: «Por ocasião da discussão do papel do inconsciente na criação artística (Philos. d. Unbew., vol. I, seção B, cap. V), Eduard von Hartmann enunciou em palavras claras a lei da associação de ideias guiada por representações-meta inconscientes, embora sem se dar conta do alcance dessa lei. Seu interesse é provar que toda combinação de representações sensíveis, se não deve ficar entregue puramente ao acaso, mas conduzir a uma meta determinada, necessita do auxílio do inconsciente, e que o interesse consciente por uma determinada conexão de pensamentos é um estímulo para que o inconsciente encontre, entre as inumeráveis representações possíveis, aquela que corresponde ao fim. É o inconsciente que escolhe segundo os fins do interesse; e isso vale para a associação de ideias no pensamento abstrato, como representação sensível ou combinação artística, e também para o chiste. Por isso não se pode manter, no sentido da psicologia associacionista pura, uma limitação da associação de ideias à representação evocadora e à representação evocada. Tal limitação só estaria de fato justificada se houvesse estados na vida humana em que o homem estivesse livre não só de todo fim consciente, mas também do domínio ou da participação de todo interesse inconsciente, de todo estado de ânimo. Mas esse é um estado que quase nunca ocorre, pois mesmo quando alguém entrega aparentemente a sequência de seus pensamentos inteiramente ao acaso, ou quando se abandona por completo aos sonhos involuntários da fantasia, em uma hora governam no ânimo outros interesses principais, sentimentos e disposições determinantes do que em outra, e estes sempre exercerão influência sobre a associação de ideias.» (Philos. d. Unbew., 11ª ed., I, 246.) Nos sonhos semiconscientes surgem sempre apenas aquelas representações que correspondem ao interesse principal momentâneo, inconsciente (loc. cit.). A ênfase no influxo dos sentimentos e dos estados de ânimo sobre a livre sequência de pensamentos faz com que o procedimento metódico da psicanálise pareça inteiramente justificado também do ponto de vista da psicologia hartmanniana. (N. E. Pohorilles, Internat. Zschr. f. ärztl. Ps.-A. I, 1913, p. 605 s.) Du Prel conclui, a partir do fato de que um nome de que tentamos lembrar em vão muitas vezes nos ocorre de repente, como que sem mediação, que há um pensamento inconsciente e, no entanto, orientado para uma meta, cujo resultado então chega à consciência (Philos. d. Mystik, p. 107).
O livre jogo das representações segundo encadeamento associativo arbitrário talvez se manifeste em processos orgânicos destrutivos do cérebro; aquilo que nas psiconeuroses é tomado por algo desse tipo sempre pode ser esclarecido pela ação da censura sobre uma série de pensamentos que é empurrada para o primeiro plano por representações-meta que permaneceram ocultas(228). Considerou-se sinal infalível da associação livre de representações-meta quando as representações ou imagens que aparecem se mostram ligadas entre si pelos laços das chamadas associações superficiais, isto é, pela assonância, pela ambiguidade verbal, pela coincidência temporal sem relação interna de sentido, por todas as associações que nos permitimos aproveitar no chiste e no jogo de palavras. Esse traço vale para as conexões de pensamentos que nos conduzem dos elementos do conteúdo do sonho aos colaterais e, destes, aos pensamentos propriamente ditos do sonho; em muitas análises de sonhos encontramos exemplos disso, que forçosamente nos causaram estranheza. Nenhum vínculo era aí frouxo demais, nenhum chiste desprezível demais para não poder construir a ponte de um pensamento a outro. Mas o entendimento correto de semelhante indulgência não está distante.
Sempre que um elemento psíquico está ligado a outro por uma associação chocante e superficial, há também entre os dois uma conexão correta e mais profunda, submetida à resistência da censura.
(228) Cf. a brilhante confirmação dessa afirmação, fornecida por C. G. Jung por meio de análises na Dementia praecox («Zur Psychologie der Dementia praecox», 1907).
A pressão da censura, não a suspensão das representações-meta, é a justificativa correta para o predomínio das associações superficiais. As associações superficiais substituem, na representação, as profundas, quando a censura torna impraticáveis essas vias normais de conexão. É como quando um obstáculo geral ao tráfego, por exemplo uma inundação, torna intransitáveis nas montanhas as estradas grandes e largas; o tráfego então é mantido por trilhas incômodas e íngremes, que em outras circunstâncias só o caçador percorreu. Podemos distinguir aqui dois casos, que no essencial são um só. Ou a censura se dirige apenas contra a conexão de dois pensamentos que, desligados um do outro, escapam à objeção. Então os dois pensamentos chegam sucessivamente à consciência; sua conexão permanece oculta; em seu lugar, porém, ocorre-nos uma ligação superficial entre ambos, na qual em outras circunstâncias não teríamos pensado, e que em regra se prende a outro canto do complexo de representações, diverso daquele de onde parte a conexão suprimida, mas essencial. Ou então ambos os pensamentos, por causa de seu próprio conteúdo, ficam submetidos à censura; nesse caso, ambos aparecem não em sua forma correta, mas em forma modificada, substituída, e os dois pensamentos substitutivos são escolhidos de tal modo que reproduzem, por uma associação superficial, a conexão essencial em que se acham os pensamentos por eles substituídos.
Sob a pressão da censura, ocorreu aqui, em ambos os casos, um deslocamento de uma associação normal e séria para uma associação superficial, de aparência absurda. Como conhecemos esses deslocamentos, confiamos também, na interpretação dos sonhos, nas associações superficiais sem a menor hesitação(229).
(229) As mesmas considerações valem, naturalmente, também para o caso em que as associações superficiais são expostas no conteúdo do sonho, como, por exemplo, nos dois sonhos comunicados por Maury (p. 45: pélerinage, Pelletier, pelle; Kilometer, Kilogramm, Gilolo, Lobelia, Lopez, Lotto). Pelo trabalho com neuróticos, sei qual reminiscência gosta de se representar desse modo. É a consulta ao dicionário enciclopédico, ao léxico em geral, do qual a maioria, no tempo da curiosidade pubertária, satisfez sua necessidade de esclarecimento dos enigmas sexuais.
Justificação da técnica de interpretação.
Dos dois enunciados segundo os quais, com o abandono das representações-meta conscientes, o domínio sobre o curso das representações passa a representações-meta ocultas, e segundo os quais associações superficiais são apenas um substituto por deslocamento para associações recalcadas e mais profundas, a psicanálise faz o uso mais amplo nas neuroses; sim, ela eleva os dois enunciados à condição de pilares fundamentais de sua técnica. Quando encarrego um paciente de deixar de lado todo ato de pensar e de me comunicar tudo o que então lhe venha à mente, sustento o pressuposto de que ele não pode deixar de lado as representações-meta do tratamento, e considero-me autorizado a concluir que o que ele me relata de aparentemente mais inofensivo e arbitrário está em conexão com seu estado patológico. Outra representação-meta, da qual o paciente nada suspeita, é a de minha pessoa. A plena apreciação, bem como a demonstração detalhada desses dois esclarecimentos, pertence, portanto, à exposição da técnica psicanalítica como método terapêutico. Chegamos aqui a uma das conexões em que abandonamos deliberadamente o tema da interpretação dos sonhos(230).
(230) Os enunciados aqui apresentados, que à época soavam muito improváveis, receberam mais tarde uma justificação e uma aplicação experimentais por meio dos «estudos diagnósticos de associação» de Jung e de seus alunos.
Uma só coisa é correta e resta das objeções: não precisamos transpor para o trabalho noturno do sonho todas as associações que surgem no trabalho interpretativo. Ao interpretar na vigília, percorremos um caminho que retrocede dos elementos do sonho aos pensamentos do sonho. O trabalho do sonho tomou o caminho inverso, e não é de modo algum provável que esses caminhos sejam transitáveis em direção oposta. Verifica-se, antes, que de dia abrimos galerias por novas conexões de pensamento, as quais encontram os pensamentos intermediários e os pensamentos do sonho ora num ponto, ora noutro. Podemos ver como o material fresco de pensamentos do dia se insere nas séries interpretativas, e provavelmente também o aumento da resistência, ocorrido desde a noite, obriga a novos e mais remotos desvios. Mas o número ou a espécie dos colaterais que assim tecemos de dia é psicologicamente de todo indiferente, desde que eles nos conduzam aos pensamentos do sonho procurados.