e) O processo primário e o processo secundário. O recalque A Interpretação dos Sonhos · Capítulo 39 de 44
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e) O processo primário e o processo secundário. O recalque

e) O processo primário e o processo secundário. O recalque.

Ao ousar a tentativa de penetrar mais profundamente na psicologia dos processos oníricos, empreendi uma tarefa difícil, diante da qual minha arte de exposição mal se mostra suficiente. Reproduzir por uma sucessão descritiva a simultaneidade de uma conexão tão complicada e, ao mesmo tempo, parecer sem pressupostos em cada formulação, parece-me exigência superior às minhas forças. Vinga-se agora contra mim o fato de que, ao expor a psicologia do sonho, não posso seguir o desenvolvimento histórico de minhas próprias ideias. Os pontos de vista para a compreensão do sonho me foram dados por trabalhos anteriores sobre a psicologia das neuroses, aos quais não devo remeter aqui e aos quais, no entanto, sou obrigado a remeter repetidamente, ao passo que gostaria de proceder na direção inversa e alcançar, a partir do sonho, a conexão com a psicologia das neuroses.

Conheço todas as dificuldades que daí resultam para o leitor; mas não sei como evitá-las. Insatisfeito com essa situação, detenho-me de bom grado em outro ponto de vista, que me parece elevar o valor de meu esforço. Deparei com um tema dominado pelas mais agudas contradições nas opiniões dos autores, como mostrou a introdução da primeira seção. Depois de nosso trabalho sobre os problemas do sonho, abriu-se espaço para a maior parte dessas contradições. Apenas a duas das opiniões expressas, a de que o sonho seria um processo sem sentido e a de que seria um processo somático, tivemos de nos opor decididamente; de resto, pudemos dar razão, em algum ponto da conexão intrincada, a todas as opiniões contraditórias entre si, e demonstrar que haviam descoberto algo correto.

Que o sonho prossegue as incitações e os interesses da vida de vigília foi confirmado de modo inteiramente geral pelo desvelamento dos pensamentos ocultos do sonho. Estes só se ocupam com aquilo que nos parece importante e que nos interessa poderosamente. O sonho jamais se ocupa de ninharias. Mas também aceitamos o contrário: que o sonho recolhe os restos indiferentes do dia e que não pode apoderar-se de um grande interesse diurno antes que este se tenha, em certa medida, subtraído ao trabalho de vigília. Descobrimos que isso vale para o conteúdo do sonho, que dá aos pensamentos do sonho uma expressão modificada pela deformação.

O processo onírico, dissemos, por razões da mecânica associativa, apodera-se com mais facilidade do material representacional fresco ou indiferente, que ainda não foi ocupado pela atividade pensante de vigília; e, por razões da censura, transfere a intensidade psíquica do significativo, mas também ofensivo, para o indiferente. A hipermnésia do sonho e a disponibilidade do material infantil tornaram-se pilares fundamentais de nossa doutrina; em nossa teoria do sonho, atribuímos ao desejo oriundo do infantil o papel de motor indispensável para a formação do sonho.

Naturalmente, não nos poderia ocorrer duvidar da importância, demonstrada experimentalmente, dos estímulos sensoriais externos durante o sono; mas colocamos esse material na mesma relação com o desejo do sonho em que se encontram os restos de pensamento deixados pelo trabalho diurno. Não precisávamos negar que o sonho interpreta o estímulo sensorial objetivo à maneira de uma ilusão; mas acrescentamos o motivo dessa interpretação, que os autores deixaram indeterminado. A interpretação se efetua de tal modo que o objeto percebido se torna inofensivo para a perturbação do sono e utilizável para a realização de desejo. O estado subjetivo de excitação dos órgãos sensoriais durante o sono, que Trumbull Ladd parece ter demonstrado, não é por nós admitido como fonte especial do sonho; mas sabemos explicá-lo pela animação regrediente das lembranças que atuam por trás do sonho.

Também às sensações orgânicas internas, que de bom grado foram tomadas como eixo da explicação dos sonhos, restou, em nossa concepção, um papel, ainda que mais modesto. Elas nos fornecem, como as sensações de cair, de flutuar, de estar impedido, um material sempre disponível, do qual o trabalho do sonho se serve para a expressão dos pensamentos do sonho sempre que necessário. Que o processo onírico seja rápido e momentâneo parece-nos correto no que se refere à percepção, pela consciência, do conteúdo onírico já formado; quanto aos trechos anteriores do processo onírico, consideramos provável um curso lento, ondulante. Para o enigma do conteúdo onírico excessivamente rico e comprimido no instante mais breve, pudemos oferecer a contribuição de que se trata aí da apreensão de formações já prontas da vida psíquica.

Que o sonho seja deformado e mutilado pela lembrança, consideramos correto, mas não impeditivo, pois isso é apenas o último trecho manifesto de um trabalho de deformação que atua desde o início da formação do sonho. Na disputa acirrada, aparentemente incapaz de conciliação, sobre se a vida anímica dorme à noite ou se dispõe de toda a sua capacidade de realização como durante o dia, pudemos dar razão a ambas as partes, mas a nenhuma delas por completo. Nos pensamentos do sonho encontramos as provas de uma realização intelectual extremamente complexa, que trabalha com quase todos os meios do aparelho psíquico; ainda assim, não se pode rejeitar que esses pensamentos do sonho tenham surgido durante o dia, e é indispensável admitir que existe um estado de sono da vida anímica.

Desse modo, até mesmo a doutrina do sono parcial entrou em vigor; mas não encontramos a característica do estado de sono na desagregação das conexões psíquicas, e sim no ajuste do sistema psíquico que domina o dia ao desejo de dormir. O desvio em relação ao mundo exterior conservou sua importância também para nossa concepção; ele ajuda, embora não como único fator, a tornar possível a regressão da representação onírica. A renúncia à direção voluntária do curso das representações é incontestável; mas por isso a vida psíquica não se torna desprovida de meta, pois ouvimos que, depois do abandono das representações-meta voluntárias, outras representações-meta involuntárias assumem o domínio.

Não apenas reconhecemos a frouxa ligação associativa no sonho, como também atribuímos à sua origem um alcance muito maior do que se podia suspeitar; descobrimos, porém, que ela é apenas o substituto forçado de outra ligação, correta e rica de sentido. Certamente também chamamos o sonho de absurdo; mas exemplos puderam nos ensinar quão inteligente o sonho é quando se apresenta como absurdo. Não há contradição entre nós e as funções que foram atribuídas ao sonho. Que o sonho alivie a alma como uma válvula, e que, segundo a expressão de Robert, toda sorte de coisas nocivas se tornem inofensivas pela representação no sonho, não apenas coincide exatamente com nossa doutrina da dupla realização de desejo pelo sonho, como também se torna, para nós, mais inteligível em sua formulação do que em Robert. O livre e seguro movimento da alma no jogo de suas faculdades reaparece, em nossa concepção, no deixar agir do sonho pela atividade pré-consciente.

O «retorno ao ponto de vista embrionário da vida anímica no sonho» e a observação de Havelock Ellis, «an archaic world of vast emotions and imperfect thoughts», parecem-nos felizes antecipações de nossas exposições, que admitem a participação, na formação do sonho, de modos primitivos de trabalho, suprimidos durante o dia. A afirmação de Sully, segundo a qual «o sonho traz de volta nossas personalidades anteriores, sucessivamente desenvolvidas, nossa antiga maneira de ver as coisas, impulsos e modos de reação que nos dominaram há muito tempo», pudemos tornar inteiramente nossa; como em Delage, também em nós o «suprimido» torna-se a mola propulsora do sonho.

Reconhecemos em pleno alcance o papel que Scherner atribui à fantasia onírica, bem como as próprias interpretações de Scherner, mas tivemos de lhes atribuir, por assim dizer, outra localidade no problema. Não é o sonho que forma a fantasia; antes, a atividade fantasiante inconsciente participa de modo máximo na formação dos pensamentos do sonho. Continuamos obrigados a Scherner pela indicação da fonte dos pensamentos do sonho; mas quase tudo o que ele atribui ao trabalho do sonho deve ser imputado à atividade do inconsciente, ativa durante o dia, que fornece incitações para os sonhos não menos que para os sintomas neuróticos. Tivemos de separar o trabalho do sonho dessa atividade como algo inteiramente diverso e muito mais ligado.

Por fim, de modo algum abandonamos a relação do sonho com as perturbações mentais, mas a fundamos de maneira mais firme em novo terreno. Assim, graças ao que há de novo em nossa doutrina do sonho e a uma unidade superior que a mantém coesa, encontramos inseridos em nossa construção os mais diversos e contraditórios resultados dos autores, alguns deles voltados noutra direção, poucos inteiramente rejeitados. Mas nossa própria construção ainda está inacabada.

Além das muitas obscuridades que atraímos sobre nós ao avançar na escuridão da psicologia, uma nova contradição parece agora nos oprimir. De um lado, fizemos surgir os pensamentos do sonho por meio de um trabalho intelectual inteiramente normal; de outro, encontramos entre os pensamentos do sonho, e destes até o conteúdo do sonho, uma série de processos de pensamento inteiramente anormais, que então repetimos na interpretação do sonho. Tudo aquilo que chamamos «trabalho do sonho» parece afastar-se tanto dos processos psíquicos que conhecemos como corretos, que os julgamentos mais duros dos autores sobre a baixa realização psíquica do sonhar nos pareceriam inteiramente cabíveis.

A contradição entre os dois componentes do «trabalho do sonho».

Talvez só possamos obter esclarecimento e remédio aqui por um avanço ainda maior. Quero destacar uma das constelações que conduzem à formação do sonho. Aprendemos que o sonho substitui uma série de pensamentos que provêm de nossa vida diurna e que são perfeitamente articulados logicamente. Por isso, não podemos duvidar de que esses pensamentos provenham de nossa vida mental normal. Todas as propriedades que estimamos em nossos encadeamentos de pensamento, e pelas quais eles se caracterizam como realizações complexas de ordem elevada, reencontramos nos pensamentos do sonho.

Não há, porém, necessidade de admitir que esse trabalho de pensamento se realizou durante o sono, o que perturbaria gravemente nossa concepção até aqui mantida do estado psíquico de sono. Esses pensamentos podem, antes, provir muito bem do dia, ter prosseguido, a partir de sua incitação, sem que nossa consciência os percebesse, e então se apresentar prontos no momento de adormecer. Se devemos extrair algo dessa situação, será no máximo a prova de que as mais complexas realizações do pensamento são possíveis sem a participação da consciência, algo que, de resto, já deveríamos saber por toda psicanálise de um histérico ou de uma pessoa com representações obsessivas.

Esses pensamentos do sonho, em si, certamente não são incapazes de consciência; se durante o dia não se tornaram conscientes para nós, isso pode ter várias razões. O tornar-se consciente está ligado à direção de uma função psíquica determinada, a atenção, que, ao que parece, só pode ser empregada em certa quantidade, e que talvez tenha sido desviada, por outros objetivos, da sequência de pensamentos em questão. Outra maneira pela qual tais sequências de pensamentos podem ser retidas longe da consciência é a seguinte: por nosso pensar consciente, sabemos que, ao empregar a atenção, seguimos um caminho determinado. Se nesse caminho chegamos a uma representação que não resiste à crítica, interrompemo-nos; deixamos cair o investimento de atenção. Parece então que a sequência de pensamentos iniciada e abandonada pode continuar a se tecer sem que a atenção volte a dirigir-se a ela, desde que não alcance, em algum ponto, uma intensidade particularmente alta, que force a atenção.

Uma rejeição inicial pelo juízo, talvez ocorrida com consciência, como incorreta ou inutilizável para a finalidade atual do ato de pensamento, pode, portanto, ser a causa de que um processo de pensamento prossiga despercebido pela consciência até o adormecimento. Resumamos: chamamos tal sequência de pensamentos de pré-consciente, consideramo-la inteiramente correta, e admitimos que ela tanto possa ser simplesmente negligenciada como interrompida e suprimida.

Digamos também abertamente de que modo visualizamos o curso das representações. Acreditamos que, a partir de uma representação-meta, certa grandeza de excitação, que chamamos «energia de investimento», seja deslocada ao longo das vias associativas escolhidas por essa representação-meta. Uma sequência de pensamentos «negligenciada» não recebeu tal investimento; de uma sequência «suprimida» ou «rejeitada», esse investimento foi retirado novamente; ambas ficam entregues às suas próprias excitações.

A sequência de pensamentos investida por uma meta torna-se, em certas condições, capaz de atrair para si a atenção da consciência e recebe então, por intermédio desta, um «sobreinvestimento». Teremos de esclarecer um pouco mais tarde nossas hipóteses sobre a natureza e a função da consciência. Uma sequência de pensamentos assim excitada no pré-consciente pode extinguir-se espontaneamente ou conservar-se. Imaginamos o primeiro desfecho da seguinte maneira: sua energia difunde-se em todas as direções associativas que dela partem, coloca toda a cadeia de pensamentos num estado de excitação que se mantém por algum tempo, mas depois decai, à medida que a excitação necessitada de descarga se transforma em investimento em repouso(244). Se esse primeiro desfecho ocorre, o processo já não tem importância para a formação do sonho.

Mas espreitam em nosso pré-consciente outras representações-meta, que provêm das fontes de nossos desejos inconscientes e sempre ativos. Estas podem apoderar-se da excitação no círculo de pensamentos entregue a si mesmo, estabelecer a conexão entre ele e o desejo inconsciente, transferir para ele a energia própria do desejo inconsciente, e, a partir de então, a sequência de pensamentos negligenciada ou suprimida é capaz de conservar-se, embora por esse reforço não receba direito algum ao acesso à consciência. Podemos dizer que a sequência de pensamentos até então pré-consciente foi arrastada para o inconsciente.

(244) Cf. a esse respeito as importantes exposições de J. Breuer em nossos Estudos sobre a histeria, 1895, e 2ª ed., 1909.

Outras constelações para a formação do sonho seriam as seguintes: que a sequência de pensamentos pré-consciente estivesse desde o início em ligação com o desejo inconsciente e, por isso, encontrasse rejeição por parte do investimento-meta dominante; ou que um desejo inconsciente se tornasse ativo por outras razões, por exemplo somáticas, e, sem encontrar acolhida, buscasse uma transferência para os restos psíquicos não investidos pelo Vbw. Por fim, todos os três casos convergem para o mesmo resultado: no pré-consciente se forma uma sequência de pensamentos que foi abandonada pelo investimento pré-consciente e recebeu investimento a partir do desejo inconsciente.

Os processos anormais no trabalho do sonho.

A partir daí, a sequência de pensamentos sofre uma série de transformações que já não reconhecemos como processos psíquicos normais e que produzem um resultado estranho para nós, uma formação psicopatológica. Queremos destacá-las e reuni-las.

1. As intensidades das representações isoladas tornam-se, em toda a sua soma, passíveis de escoamento e passam de uma representação a outra, de modo que se formam representações isoladas dotadas de grande intensidade. Quando esse processo se repete várias vezes, a intensidade de toda uma sequência de pensamentos pode finalmente reunir-se em um único elemento representacional. Esse é o fato da compressão ou condensação que conhecemos durante o trabalho do sonho. Ela tem a principal responsabilidade pela impressão estranha do sonho, pois nada análogo a ela nos é conhecido na vida anímica normal e acessível à consciência.

Também aqui temos representações que, como pontos nodais ou como resultados finais de cadeias inteiras de pensamento, possuem grande significação psíquica; mas essa valência não se manifesta por nenhum caráter perceptível à percepção interna; por isso, aquilo que nelas é representado de modo algum se torna mais intenso. No processo de condensação, toda a conexão psíquica se converte na intensidade do conteúdo representacional. É o mesmo caso de quando, num livro, faço imprimir em espaçado ou em negrito uma palavra à qual atribuo valor especial para a compreensão do texto. Na fala, eu pronunciaria essa mesma palavra em voz alta e lenta, e a acentuaria com ênfase. A primeira comparação conduz imediatamente a um exemplo tomado do trabalho do sonho: trimetilamina, no sonho da injeção de Irma.

Os historiadores da arte nos chamam a atenção para o fato de que as mais antigas esculturas históricas obedecem a um princípio semelhante, exprimindo a grandeza hierárquica das pessoas representadas pela grandeza da imagem. O rei é representado duas ou três vezes maior que seu séquito ou que o inimigo vencido. Uma obra de arte do período romano se servirá, para o mesmo fim, de meios mais refinados. Colocará a figura do imperador no centro, mostrará sua figura erguida, dispensará cuidado especial à elaboração de sua forma, colocará os inimigos a seus pés, mas já não o fará aparecer como gigante entre anões. Ainda assim, a reverência do subordinado diante de seu superior em nosso meio é, ainda hoje, um eco daquele antigo princípio de representação.

A direção pela qual avançam as condensações do sonho é prescrita, de um lado, pelas relações pré-conscientes corretas dos pensamentos do sonho e, de outro, pela atração das lembranças visuais no inconsciente. O êxito do trabalho de condensação alcança aquelas intensidades que são necessárias à irrupção contra os sistemas perceptivos.

2. Pela livre transferibilidade das intensidades e a serviço da condensação, formam-se novamente representações intermediárias, por assim dizer compromissos, cf. os numerosos exemplos. Também isso é algo inaudito no curso normal das representações, no qual importa sobretudo a escolha e a fixação do elemento representacional «correto». Em contrapartida, formações mistas e de compromisso ocorrem com extraordinária frequência quando buscamos a expressão linguística para os pensamentos pré-conscientes, e são citadas como espécies de «lapsos de fala».

3. As representações que transferem entre si suas intensidades mantêm entre si as relações mais frouxas e estão ligadas por espécies de associações que nosso pensamento despreza e deixa apenas para a exploração do efeito do chiste. Em particular, associações por homofonia e por sonoridade verbal valem tanto quanto as outras.

4. Pensamentos contraditórios entre si não se esforçam por eliminar-se mutuamente, mas subsistem lado a lado; muitas vezes, como se não houvesse contradição alguma, compõem-se em produtos de condensação ou formam compromissos que jamais perdoaríamos em nosso pensamento, mas que muitas vezes aprovamos em nossa ação.

Esses seriam alguns dos processos anormais mais notáveis aos quais são submetidos, no curso do trabalho do sonho, os pensamentos do sonho antes formados racionalmente. Reconhece-se como sua característica principal o fato de que todo o valor é colocado em tornar móvel e passível de descarga a energia investidora; o conteúdo e a significação própria dos elementos psíquicos aos quais esses investimentos aderem tornam-se questão secundária.

Ainda se poderia pensar que a condensação e a formação de compromisso ocorrem apenas a serviço da regressão, quando se trata de transformar pensamentos em imagens. Mas a análise e, de modo ainda mais claro, a síntese de sonhos que carecem de regressão para imagens, por exemplo o sonho «Autodidasker, conversa com o conselheiro áulico N.», revelam os mesmos processos de deslocamento e condensação que os demais. Assim, não podemos fechar os olhos à ideia de que duas espécies essencialmente diversas de processos psíquicos participam da formação do sonho: uma cria pensamentos do sonho inteiramente corretos, equivalentes ao pensamento normal; a outra procede com eles de maneira extremamente estranha e incorreta. Esta última já isolamos, na seção VI, como o verdadeiro trabalho do sonho.

Que temos agora a dizer para derivar esse último processo psíquico? Os mesmos processos anormais nas neuroses.

Aqui não poderíamos dar resposta alguma se não tivéssemos penetrado um pouco na psicologia das neuroses, especialmente da histeria. Dessa psicologia aprendemos, porém, que os mesmos processos psíquicos incorretos, e ainda outros não enumerados, dominam a produção dos sintomas histéricos. Também na histeria encontramos, de início, uma série de pensamentos inteiramente corretos, de todo equivalentes aos nossos pensamentos conscientes, mas de cuja existência nessa forma nada podemos saber, e que só reconstruímos posteriormente. Se em algum lugar eles chegaram à nossa percepção, depreendemos pela análise do sintoma formado que esses pensamentos normais sofreram um tratamento anormal e foram conduzidos ao sintoma por meio da condensação, da formação de compromisso, por associações superficiais, sob cobertura das contradições e, eventualmente, pelo caminho da regressão.

Diante da plena identidade entre as propriedades do trabalho do sonho e da atividade psíquica que desemboca nos sintomas psiconeuróticos, consideramo-nos autorizados a transferir para o sonho as conclusões a que a histeria nos obriga. Da doutrina da histeria extraímos a proposição de que tal elaboração psíquica anormal de uma sequência normal de pensamentos só ocorre quando esta se tornou transferência de um desejo inconsciente, oriundo do infantil e situado no recalque.

Em favor dessa proposição, construímos a teoria do sonho sobre a hipótese de que o desejo impulsionador do sonho provém sempre do inconsciente, o que, como nós mesmos admitimos, não pode ser demonstrado universalmente, embora tampouco possa ser refutado. Mas, para podermos dizer o que é o «recalque», com cujo nome já tantas vezes jogamos, precisamos avançar mais um trecho em nossa armação psicológica.

Havíamos nos aprofundado na ficção de um aparelho psíquico primitivo, cujo trabalho é regulado pelo esforço de evitar o acúmulo de excitação e de conservar-se, tanto quanto possível, livre de excitação. Por isso ele foi construído segundo o esquema de um aparelho reflexo; a motilidade, inicialmente via para a alteração interna do corpo, era a via de descarga de que ele dispunha. Em seguida discutimos as consequências psíquicas de uma experiência de satisfação e já poderíamos ter então acrescentado uma segunda hipótese: que o acúmulo de excitação, segundo modalidades que não nos ocupam aqui, é sentido como desprazer e coloca o aparelho em atividade para novamente produzir a experiência de satisfação, na qual a redução da excitação é sentida como prazer.

Chamamos de desejo uma corrente desse tipo no aparelho, que parte do desprazer e visa ao prazer; dissemos que nada senão um desejo é capaz de pôr o aparelho em movimento, e que o curso da excitação nele é regulado automaticamente pelas percepções de prazer e desprazer. O primeiro desejar deve ter sido um investimento alucinatório da lembrança da satisfação. Essa alucinação, porém, se não deveria ser mantida até o esgotamento, revelou-se incapaz de produzir a cessação da necessidade e, portanto, o prazer ligado à satisfação.

Assim, tornou-se necessária uma segunda atividade, em nossa linguagem, a atividade de um segundo sistema, que não permitisse ao investimento mnêmico avançar até a percepção e, a partir daí, ligar as forças psíquicas, mas que conduzisse a excitação proveniente do estímulo de necessidade por um desvio que, finalmente, pela motilidade voluntária, modificasse o mundo exterior de tal modo que pudesse surgir a percepção real do objeto de satisfação. Até aqui já seguimos o esquema do aparelho psíquico; os dois sistemas são o germe daquilo que, no aparelho plenamente desenvolvido, inserimos como Ubw e Vbw.

Para poder modificar o mundo exterior de modo adequado por meio da motilidade, é necessário o acúmulo de uma grande soma de experiências nos sistemas mnêmicos e uma fixação múltipla das relações que são provocadas por diferentes representações-meta nesse material mnêmico. Avançamos agora em nossas hipóteses. A atividade do segundo sistema, que tateia de várias maneiras, enviando investimentos e retirando-os outra vez, necessita, de um lado, da livre disposição de todo o material mnêmico; de outro, seria um gasto inútil se ela enviasse grandes quantidades de investimento pelos caminhos isolados de pensamento, pois estas então escoariam de maneira inadequada e diminuiriam a quantidade necessária para a modificação do mundo exterior.

Em favor da adequação a fins, postulo, portanto, que o segundo sistema consegue manter a maior parte do investimento energético em repouso e utilizar apenas uma parte menor para deslocamento. A mecânica desses processos é-me inteiramente desconhecida; quem quisesse tomar essas representações ao pé da letra teria de buscar as analogias físicas e abrir caminho para uma visualização do processo de movimento na excitação neuronal. Retenho apenas a ideia de que a atividade do primeiro sistema Ψ se orienta para o livre escoamento das quantidades de excitação, e de que o segundo sistema, pelos investimentos que dele partem, produz uma inibição desse escoamento, uma transformação em investimento em repouso, provavelmente com elevação de nível. Admito, portanto, que o curso da excitação sob o domínio do segundo sistema se liga a condições mecânicas inteiramente diferentes daquelas vigentes sob o domínio do primeiro.

Quando o segundo sistema terminou seu trabalho de pensamento por ensaio, ele também suspende a inibição e a retenção das excitações, deixando-as escoar para a motilidade. Surge então uma sequência interessante de ideias quando se considera a relação dessa inibição de escoamento pelo segundo sistema com a regulação pelo princípio do desprazer. Procuremos o equivalente oposto à experiência primária de satisfação: a experiência externa de terror.

Suponhamos que atue sobre o aparelho primitivo um estímulo perceptivo que seja fonte de uma excitação dolorosa. Então se produzirão manifestações motoras desordenadas até que uma delas afaste o aparelho da percepção e, ao mesmo tempo, da dor; e essa manifestação será imediatamente repetida quando a percepção reaparecer, por exemplo como movimento de fuga, até que a percepção torne a desaparecer. Mas aqui não restará nenhuma tendência a investir novamente, de modo alucinatório ou de outro modo, a percepção da fonte de dor. Ao contrário, no aparelho primário haverá a tendência a abandonar de imediato essa imagem mnêmica penosa assim que ela for, de qualquer modo, despertada, pois o transbordamento de sua excitação para a percepção provocaria desprazer, mais exatamente, começaria a provocá-lo.

O afastamento da lembrança, que é apenas uma repetição da antiga fuga diante da percepção, é facilitado também pelo fato de que a lembrança, diferentemente da percepção, não possui qualidade suficiente para excitar a consciência e atrair, assim, novo investimento sobre si. Esse afastamento fácil e regular do processo psíquico diante da lembrança do que outrora foi penoso nos dá o modelo e o primeiro exemplo do recalque psíquico. É de conhecimento geral o quanto desse afastamento do penoso, dessa tática do avestruz, permaneceu detectável na vida anímica normal do adulto.

Processo primário e processo secundário.

Em consequência do princípio do desprazer, o primeiro sistema Ψ é, portanto, inteiramente incapaz de atrair algo desagradável para a conexão de pensamento. O sistema nada pode fazer senão desejar. Se isso permanecesse assim, o trabalho de pensamento do segundo sistema seria impedido, pois este precisa dispor de todas as lembranças depositadas na experiência. Abrem-se então dois caminhos: ou o trabalho do segundo sistema se liberta por completo do princípio do desprazer e prossegue seu caminho sem se importar com o desprazer das lembranças; ou ele compreende como investir a lembrança de desprazer de tal modo que a liberação do desprazer seja evitada.

Podemos rejeitar a primeira possibilidade, pois o princípio do desprazer mostra-se também como regulador do curso da excitação do segundo sistema; somos, portanto, conduzidos à segunda, isto é, a de que esse sistema investe uma lembrança de tal modo que o escoamento a partir dela é inibido, e com ele também o escoamento, comparável a uma inervação motora, que levaria ao desenvolvimento do desprazer. Assim, somos levados, por dois pontos de partida, à hipótese de que o investimento pelo segundo sistema representa, ao mesmo tempo, uma inibição para o escoamento da excitação: pela consideração do princípio do desprazer e pelo princípio do menor dispêndio de inervação.

Retenhamos, porém, este ponto, que é a chave para a doutrina do recalque: o segundo sistema só pode investir uma representação quando está em condições de inibir o desenvolvimento de desprazer que dela parte. Aquilo que porventura escapasse a essa inibição permaneceria inacessível também para o segundo sistema e seria logo abandonado em consequência do princípio do desprazer. A inibição do desprazer, contudo, não precisa ser completa; um início dele deve ser admitido, pois indica ao segundo sistema a natureza da lembrança e talvez sua falta de aptidão para o fim buscado pelo pensamento.

Chamarei agora de processo primário o processo psíquico que apenas o primeiro sistema admite; e de processo secundário aquele que resulta sob a inibição do segundo. Posso ainda mostrar, por outro ponto, com que finalidade o segundo sistema precisa corrigir o processo primário. O processo primário tende à descarga da excitação para estabelecer, com a grandeza de excitação assim reunida, uma identidade perceptiva; o processo secundário abandonou essa intenção e adotou, em seu lugar, outra: alcançar uma identidade de pensamento. Todo o pensar é apenas um desvio que vai da lembrança de satisfação tomada como representação-meta até o investimento idêntico dessa mesma lembrança, a ser novamente alcançado pelo caminho das experiências motoras.

O pensar precisa interessar-se pelas vias de ligação entre as representações sem se deixar desorientar por suas intensidades. Mas é claro que condensações de representações, formações intermediárias e de compromisso são obstáculos para o alcance dessa meta de identidade; ao colocarem uma representação no lugar de outra, desviam do caminho que teria prosseguido a partir da primeira. Tais processos são, portanto, cuidadosamente evitados no pensamento secundário. Também não é difícil perceber que o princípio do desprazer, que em outros aspectos oferece ao processo de pensamento os mais importantes pontos de apoio, também lhe põe dificuldades no caminho da busca da identidade de pensamento.

Assim, a tendência do pensar deve ir no sentido de libertar-se cada vez mais da regulação exclusiva pelo princípio do desprazer e de restringir o desenvolvimento de afeto pelo trabalho de pensamento a um mínimo que ainda possa ser utilizado como sinal. Por um novo sobreinvestimento, mediado pela consciência, deve ser alcançado esse refinamento da realização. Sabemos, porém, que mesmo na vida anímica mais normal isso raramente se realiza por completo, e que nosso pensamento permanece sempre acessível à falsificação pela intromissão do princípio do desprazer.

Mas não é essa a lacuna na capacidade funcional de nosso aparelho anímico pela qual se torna possível que pensamentos que se apresentam como resultados do trabalho de pensamento secundário caiam no processo psíquico primário, fórmula com que agora podemos descrever o trabalho que conduz ao sonho e aos sintomas histéricos. O caso de insuficiência resulta da coincidência de dois fatores de nossa história do desenvolvimento: um deles pertence inteiramente ao aparelho anímico e exerceu influência decisiva sobre a relação dos dois sistemas; o outro, porém, atua em medida variável e introduz na vida anímica forças pulsionais de origem orgânica. Ambos provêm da vida infantil e são precipitados da transformação que nosso organismo anímico e somático sofreu desde os tempos infantis.

Quando chamei de primário um dos processos psíquicos no aparelho anímico, não o fiz apenas em consideração à hierarquia e à capacidade de realização, mas também pude deixar que as relações temporais participassem da escolha do nome. Um aparelho psíquico que possuísse apenas o processo primário, até onde sabemos, não existe, e nesse sentido é uma ficção teórica; mas é fato que os processos primários estão dados nele desde o início, enquanto os secundários só se formam gradualmente no curso da vida, inibem e sobrepõem-se aos primários, e talvez só alcancem seu pleno domínio sobre eles no auge da vida.

Em consequência dessa chegada tardia dos processos secundários, o núcleo de nosso ser, composto de moções inconscientes de desejo, permanece inapreensível e não inibível para o pré-consciente, cujo papel fica de uma vez por todas limitado a indicar às moções de desejo provenientes do inconsciente os caminhos mais adequados. Esses desejos inconscientes representam, para todos os esforços anímicos posteriores, uma coerção à qual eles têm de submeter-se, esforçando-se talvez por desviá-la e dirigi-la a metas superiores. Em consequência desse atraso, uma grande região do material mnêmico permanece também inacessível ao investimento pré-consciente.

O recalque.

Entre essas moções de desejo oriundas do infantil, indestrutíveis e não inibíveis, há também aquelas cuja realização entrou numa relação de contradição com as representações-meta do pensamento secundário. A realização desses desejos já não provocaria um afeto de prazer, mas um afeto de desprazer; e justamente essa transformação de afeto constitui a essência daquilo que designamos como «recalque», no qual reconhecemos a etapa infantil preliminar da condenação, isto é, da rejeição pelo julgar. Por qual caminho e por quais forças pulsionais tal transformação pode ocorrer, nisso consiste o problema do recalque, que aqui só precisamos tocar de passagem.

Basta-nos reter que tal transformação de afeto ocorre no curso do desenvolvimento, pensemos apenas no aparecimento do nojo, ausente inicialmente na vida infantil, e que ela está ligada à atividade do sistema secundário. As lembranças a partir das quais o desejo inconsciente provoca a liberação de afeto nunca foram acessíveis ao Vbw; por isso, tampouco se pode inibir sua liberação de afeto. Justamente por causa desse desenvolvimento de afeto, essas representações agora também não são acessíveis a partir dos pensamentos pré-conscientes aos quais transferiram sua força de desejo. Em vez disso, o princípio do desprazer entra em vigor e faz com que o Vbw se afaste desses pensamentos de transferência. Eles são entregues a si mesmos, «recalcados», e assim a existência de um tesouro mnêmico infantil, subtraído desde o início ao Vbw, torna-se condição prévia do recalque.

No caso mais favorável, o desenvolvimento de desprazer cessa assim que o investimento é retirado dos pensamentos de transferência no Vbw; e esse êxito caracteriza como adequada a intervenção do princípio do desprazer. Diferente, porém, é o caso em que o desejo inconsciente recalcado recebe um reforço orgânico que pode emprestar aos seus pensamentos de transferência, colocando-os em condições de tentar abrir passagem com sua excitação, mesmo depois de terem sido abandonados pelo investimento do Vbw. Chega-se então à luta defensiva, na medida em que o Vbw reforça a oposição aos pensamentos recalcados; e, em seguida, à irrupção dos pensamentos de transferência, que são portadores do desejo inconsciente, sob alguma forma de compromisso, por meio da formação de sintoma.

Mas, a partir do momento em que os pensamentos recalcados são fortemente investidos pela excitação inconsciente de desejo e, em contrapartida, abandonados pelo investimento pré-consciente, eles ficam submetidos ao processo psíquico primário. Visam apenas à descarga motora ou, se o caminho estiver livre, à animação alucinatória da identidade perceptiva desejada. Antes havíamos encontrado empiricamente que os processos incorretos descritos só ocorrem com pensamentos que estão no recalque. Agora apreendemos um trecho adicional da conexão. Esses processos incorretos são os primários no aparelho psíquico; eles ocorrem em toda parte onde representações, abandonadas pelo investimento pré-consciente, são entregues a si mesmas e podem preencher-se com a energia não inibida, proveniente do inconsciente e tendente ao escoamento.

Algumas outras observações vêm sustentar a concepção de que esses processos chamados incorretos não são realmente falsificações dos erros normais de pensamento, mas os modos de trabalho do aparelho psíquico libertados de uma inibição. Assim, vemos que a passagem da excitação pré-consciente para a motilidade ocorre segundo os mesmos processos, e que a ligação das representações inconscientes com palavras mostra facilmente os mesmos deslocamentos e misturas que são atribuídos à desatenção. Por fim, uma prova do acréscimo de trabalho necessário à inibição desses modos primários de curso talvez se encontre no fato de que obtemos um efeito cômico, um excedente a ser descarregado pelo riso, quando permitimos que esses modos de curso do pensamento avancem até a consciência.

Os processos anormais são os primitivos.

A teoria das psiconeuroses afirma, com segurança exclusiva, que só podem ser moções sexuais de desejo oriundas do infantil aquelas que, nos períodos de desenvolvimento da infância, sofreram o recalque, a transformação de afeto, e que, em períodos posteriores do desenvolvimento, tornam-se então capazes de uma renovação, seja em consequência da constituição sexual, que se forma a partir da bissexualidade originária, seja em consequência de influências desfavoráveis da vida sexual, fornecendo assim as forças pulsionais para toda formação psiconeurótica de sintomas.

Somente pela introdução dessas forças sexuais é possível preencher as lacunas ainda demonstráveis na teoria do recalque. Quero deixar em suspenso se a exigência do sexual e do infantil também pode ser levantada para a teoria do sonho; deixo-a aqui incompleta, pois já dei um passo além do demonstrável ao admitir que o desejo do sonho provém sempre do inconsciente(245). Tampouco quero investigar mais a fundo em que consiste a diferença no jogo das forças psíquicas entre a formação do sonho e a formação dos sintomas histéricos; falta-nos, para isso, o conhecimento mais preciso de um dos membros que devem ser comparados. Mas atribuo importância a outro ponto, e declaro de antemão que só por causa desse ponto incluí aqui todas essas discussões sobre os dois sistemas psíquicos, seus modos de trabalho e o recalque.

O que importa agora não é se apreendi de modo aproximadamente correto as relações psicológicas em questão ou se, como é facilmente possível em coisas tão difíceis, as apreendi de modo torto e lacunar. Seja qual for a alteração que venha a sofrer a interpretação da censura psíquica, da elaboração correta e da anormal do conteúdo do sonho, permanece válido que tais processos atuam na formação do sonho e que, em essência, mostram a maior analogia com os processos reconhecidos na formação dos sintomas histéricos. Ora, o sonho não é um fenômeno patológico; não pressupõe uma perturbação do equilíbrio psíquico; não deixa atrás de si enfraquecimento da capacidade de desempenho.

A objeção de que meus sonhos e os de meus pacientes neuróticos não permitiriam conclusões sobre os sonhos de pessoas sadias deve provavelmente ser rejeitada sem consideração. Assim, se inferimos dos fenômenos suas forças pulsionais, reconhecemos que o mecanismo psíquico de que a neurose se serve não é criado somente por uma perturbação patológica que toma a vida anímica, mas está pronto na constituição normal do aparelho anímico. Os dois sistemas psíquicos, a censura de transição entre eles, a inibição e a sobreposição de uma atividade pela outra, as relações de ambas com a consciência, ou o que quer que uma interpretação mais correta das relações factuais venha a colocar em seu lugar, tudo isso pertence à constituição normal de nosso instrumento anímico; e o sonho nos mostra um dos caminhos que conduzem ao conhecimento de sua estrutura.

Se quisermos contentar-nos com um mínimo de ganho de conhecimento completamente seguro, diremos: o sonho nos prova que o suprimido subsiste também no homem normal e permanece capaz de realizações psíquicas. O próprio sonho é uma das manifestações desse suprimido; segundo a teoria, é assim em todos os casos; segundo a experiência apreensível, ao menos em grande número deles, justamente aqueles que exibem de modo mais claro os caracteres notáveis da vida onírica. O suprimido anímico, que na vida de vigília foi impedido de expressão pela resolução antagônica das contradições e cortado da percepção interna, encontra na vida noturna, sob o domínio das formações de compromisso, meios e caminhos para impor-se à consciência.

(245) Há aqui, como em outros pontos, lacunas no tratamento do tema, que deixei intencionalmente, porque preenchê-las exigiria, de um lado, esforço excessivo e, de outro, apoio em material estranho ao sonho. Assim, por exemplo, evitei indicar se atribuo à palavra «suprimido» um sentido diferente daquele que atribuo à palavra «recalcado». Deve ter ficado claro apenas que esta última enfatiza mais fortemente que a primeira a pertença ao inconsciente. Não entrei no problema próximo de saber por que os pensamentos do sonho também sofrem a deformação pela censura quando renunciam à continuação progrediente rumo à consciência e escolhem o caminho da regressão, entre outras omissões semelhantes. Importou-me sobretudo despertar uma impressão dos problemas aos quais leva a decomposição ulterior do trabalho do sonho, e indicar os outros temas com os quais este se encontra pelo caminho.

A decisão sobre o ponto em que se deve interromper o seguimento nem sempre me foi fácil. Se não tratei de modo exaustivo o papel da vida representacional sexual para o sonho e evitei a interpretação de sonhos com conteúdo manifestamente sexual, isso se deve a uma motivação particular, que talvez não coincida com a expectativa dos leitores. Nada está mais distante de minhas concepções e das doutrinas que sustento em neuropatologia do que considerar a vida sexual como um pudendum que não deve ocupar nem o médico nem o pesquisador científico. Também achei ridícula a indignação moral pela qual o tradutor da Simbólica dos sonhos, de Artemidoro, pareceu ter sido movido a subtrair ao conhecimento dos leitores o capítulo ali contido sobre os sonhos sexuais, até saber que ele tivera de seguir uma instrução do editor. Desde então, aliás, esse capítulo foi publicado em alemão no volume IX da Anthropophyteia. Para mim, a única consideração decisiva foi que, na explicação dos sonhos sexuais, eu teria de me enredar profundamente nos problemas ainda não esclarecidos da perversão e da bissexualidade; por isso reservei esse material para outro contexto.

Flectere si nequeo Superos, Acheronta movebo.

A Interpretação dos Sonhos, porém, é a via régia para o conhecimento do inconsciente na vida anímica. Ao seguir a análise do sonho, obtemos certa medida de compreensão sobre a composição desse instrumento, o mais maravilhoso e o mais misterioso de todos. É verdade que apenas uma pequena medida, mas com isso se deu o início para, a partir de outras formações, que devem ser chamadas patológicas, avançar mais profundamente em sua decomposição. Pois a doença, ao menos aquela que com razão se chama funcional, não pressupõe a destruição desse aparelho, nem a produção de novas cisões em seu interior; ela deve ser esclarecida dinamicamente pelo fortalecimento e enfraquecimento dos componentes do jogo de forças, cujos tantos efeitos permanecem encobertos durante a função normal. Em outro lugar ainda se poderia mostrar de que modo a composição do aparelho a partir das duas instâncias permite também um refinamento da realização normal, impossível a uma instância única(246).

(246) O sonho não é o único fenômeno que permite fundamentar a psicopatologia sobre a psicologia. Em uma pequena série de ensaios, então não concluída, na Monatsschrift für Psychiatrie und Neurologie, sobre o mecanismo psíquico do esquecimento, 1898, e sobre as lembranças encobridoras, 1899, procuro interpretar uma série de fenômenos psíquicos cotidianos como apoios da mesma compreensão. Esses e outros ensaios sobre o esquecimento, o lapso verbal, o engano de ação etc. foram reunidos desde então como Psicopatologia da vida cotidiana, 1904, 4ª ed. 1912.

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