Notícias de Lugar Nenhum: Capítulo V - Crianças na Estrada Notícias de Lugar Nenhum: Tradução Literunico · Capítulo 5 de 32
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Notícias de Lugar Nenhum: Capítulo V - Crianças na Estrada

Depois da Broadway, havia menos casas de ambos os lados. Logo cruzamos um bonito riacho que corria por um pedaço de terra pontilhado de árvores, e pouco depois chegamos a outro mercado e casa municipal, como a chamaríamos. Embora nada nos arredores me fosse familiar, eu sabia bem onde estávamos, e não me surpreendi quando meu guia disse brevemente: “Mercado de Kensington.” Logo depois entramos numa rua curta de casas, ou melhor, uma casa comprida de cada lado do caminho, construída de madeira e reboco, com uma bela arcada sobre o passeio diante dela. Disse Dick: “Isto é Kensington propriamente dita. As pessoas costumam se reunir aqui em número bastante grande, porque gostam do romance da mata. Os naturalistas também a frequentam, pois é um lugar selvagem mesmo aqui, o pouco que há dela, já que não vai longe para o sul. Daqui segue para o norte e para o oeste por cima de Paddington e um pouco abaixo de Notting Hill. Dali corre para nordeste até Primrose Hill, e assim por diante. Uma faixa um tanto estreita passa por Kingsland até Stoke Newington e Clapton, onde se espalha pelas alturas acima dos pântanos do Lea, do outro lado dos quais, como sabe, fica a Floresta de Epping, estendendo-lhe a mão. Esta parte a que estamos chegando se chama Jardins de Kensington, embora eu não saiba por que ‘jardins’.”

Eu tive grande vontade de dizer: “Bem, eu sei.” Havia, contudo, tantas coisas ao meu redor que eu não sabia, apesar das suposições dele, que achei melhor ficar calado. A estrada mergulhou de uma vez numa bela mata que se estendia de ambos os lados, embora claramente muito mais ao norte, onde até os carvalhos e castanheiros doces tinham bom porte, enquanto as árvores de crescimento mais rápido, entre as quais achei que havia plátanos e bordos em excesso, eram muito grandes e bem formadas. Era extremamente agradável naquela sombra salpicada, pois o dia ia ficando quente quanto bastava, e o frescor com a sombra acalmaram minha mente excitada até uma condição de prazer sonhador, de modo que senti como se pudesse seguir para sempre por aquela frescura balsâmica. Meu companheiro pareceu partilhar de meus sentimentos e deixou o cavalo andar cada vez mais devagar, sentado a respirar os perfumes verdes da floresta, entre os quais predominava o cheiro da samambaia pisada junto ao caminho.

Por mais romântica que fosse aquela mata de Kensington, ela estava longe de ser solitária. Encontramos muitos grupos indo e vindo, ou vagando pelas bordas do bosque. Entre eles havia muitas crianças, de seis ou oito anos até dezesseis ou dezessete. Pareciam-me espécimes especialmente belos de sua raça, entregues ao prazer tanto quanto possível. Algumas ficavam perto de pequenas tendas armadas sobre a relva, e junto a algumas dessas tendas ardiam fogueiras, com panelas penduradas sobre elas à maneira dos ciganos. Dick explicou-me que havia casas dispersas na floresta, e de fato avistamos uma ou duas. Disse que eram em sua maioria bem pequenas, do tipo que costumava ser chamado de cabanas quando havia escravos na terra, porém eram bastante agradáveis e adequadas à mata. “Devem estar muito bem providas de crianças”, observei, apontando para a quantidade de jovens pelo caminho.

“Oh”, disse ele, “essas crianças vêm dos arredores em geral, não apenas das casas próximas, as casas da mata. Costumam formar grupos e vir brincar nos bosques por semanas inteiras no verão, vivendo em tendas, como você vê. Nós as encorajamos bastante a isso. Aprendem a fazer coisas por conta própria e passam a observar as criaturas selvagens. Como vê, quanto menos cozinhem dentro das casas, melhor para elas. Na verdade, devo lhe contar que muitas pessoas adultas vão viver nas florestas durante o verão, embora em geral procurem as maiores, como Windsor, a Floresta de Dean ou as terras incultas do norte. Além dos outros prazeres disso, encontram ali um pouco de trabalho rude, que lamento dizer estar ficando um tanto escasso nestes últimos cinquenta anos.” Ele interrompeu-se e depois disse: “Conto tudo isso porque percebo que, se falo, devo estar respondendo a perguntas que você pensa, mesmo quando não as pronuncia. Meu parente lhe contará mais sobre isso.”

Vi que era provável que eu tornasse a sair da minha profundidade, e apenas para vencer um embaraço, ou melhor, para dizer alguma coisa, falei: “Bem, os jovens daqui estarão ainda mais revigorados para a escola quando o verão acabar e tiverem de voltar.” “Escola?”, disse ele. “Sim, que quer dizer com essa palavra? Não vejo como ela poderia ter relação alguma com crianças. Falamos, de fato, de um cardume de arenques e de uma escola de pintura, e no primeiro sentido poderíamos falar de um cardume de crianças. Fora disso”, disse ele, rindo, “devo confessar-me vencido.” Maldição, pensei eu, não consigo abrir a boca sem desenterrar alguma nova complicação. Resolvi não tentar corrigir meu amigo em sua etimologia, e achei melhor não dizer nada sobre as fazendas de meninos que eu me acostumara a chamar de escolas, pois via com bastante clareza que haviam desaparecido. Assim, depois de um pouco de hesitação, disse: “Eu estava usando a palavra no sentido de um sistema de educação.”

“Educação?”, disse ele, pensativo. “Sei latim o bastante para saber que a palavra deve vir de educere, conduzir para fora, e já a ouvi ser usada. Contudo, nunca encontrei alguém que pudesse me dar uma explicação clara do que significa.” Pode-se imaginar como meus novos amigos caíram em minha estima ao ouvir essa confissão franca, e eu disse, um tanto desdenhoso: “Bem, educação significa um sistema de ensino para jovens.” “Por que apenas para jovens?”, respondeu ele, com um brilho nos olhos. “De todo modo”, continuou, “posso lhe garantir que nossas crianças aprendem, passem ou não por um ‘sistema de ensino’. Ora, você não encontrará uma dessas crianças por aqui, menino ou menina, que não saiba nadar. Todas estão acostumadas a brincar e cair em torno dos pequenos pôneis da floresta. Ali está um deles agora. Todas sabem cozinhar. Os rapazes maiores sabem ceifar. Muitos sabem cobrir telhados de palha e fazer pequenos serviços de carpintaria, ou sabem manter uma loja. Posso lhe dizer que conhecem muitas coisas.”

“Sim, mas a educação mental delas, o ensino de suas mentes”, disse eu, traduzindo gentilmente minha frase. “Hóspede”, disse ele, “talvez você não tenha aprendido a fazer essas coisas de que falei. Se esse for o caso, não saia daí com a ideia de que não é preciso alguma habilidade para fazê-las, nem que elas deixam de dar bastante trabalho à mente. Você mudaria de opinião se visse um rapaz de Dorset cobrindo um telhado de palha, por exemplo. De qualquer forma, compreendo que esteja falando de aprendizagem por livros, e quanto a isso o assunto é simples. A maioria das crianças, vendo livros por perto, arranja um modo de ler por volta dos quatro anos, embora me digam que nem sempre foi assim. Quanto à escrita, não as encorajamos a rabiscar cedo demais, ainda que rabisquem um pouco, porque isso as põe no hábito de escrever de modo feio. E qual é a utilidade de se fazer um monte de escrita feia, quando a impressão grosseira pode ser feita tão facilmente?”

Ele prosseguiu: “Você entende que gostamos de escrita bela, e muitas pessoas escrevem seus livros à mão quando os compõem, ou mandam escrevê-los. Quero dizer livros de que só são necessários poucos exemplares, poemas e coisas parecidas, sabe. Estou, porém, me afastando de meus cordeiros. Deve me desculpar, pois me interesso por esse assunto da escrita, já que sou eu mesmo um calígrafo razoável.” “Bem”, disse eu, “quanto às crianças, quando sabem ler e escrever, aprendem alguma outra coisa, línguas, por exemplo?” “Naturalmente”, respondeu. “Às vezes, mesmo antes de saber ler, já falam francês, que é a língua mais próxima falada do outro lado da água. Logo passam também a conhecer alemão, falado por um número imenso de comunas e colégios no continente. Essas são as principais línguas que falamos nestas ilhas, junto com o inglês, ou o galês, ou o irlandês, que é outra forma de galês. As crianças as apanham muito depressa, porque os mais velhos as conhecem todas. Além disso, nossos hóspedes de além-mar muitas vezes trazem os filhos, e os pequenos se juntam e esfregam a fala uns nos outros.”

“E as línguas antigas?”, perguntei. “Oh, sim”, disse ele, “em geral aprendem latim e grego junto com as modernas, quando fazem algo além de simplesmente apanhar estas últimas.” “E história?”, perguntei. “Como ensinam história?” “Bem”, disse ele, “quando uma pessoa sabe ler, é claro que lê o que lhe agrada. Pode facilmente conseguir alguém que lhe diga quais são os melhores livros para ler sobre tal ou tal assunto, ou que explique o que não entende nos livros enquanto os lê.” “Bem”, disse eu, “que mais aprendem? Suponho que nem todos aprendam história.” “Não, não”, disse ele. “Alguns não se importam com isso. Na verdade, acho que muitos não se importam. Ouvi meu bisavô dizer que é sobretudo em períodos de tumulto, conflito e confusão que as pessoas se interessam muito por história. E você sabe”, disse meu amigo com um sorriso amável, “agora não somos assim.”

“Não”, continuou ele, “muitas pessoas estudam fatos sobre a feitura das coisas e as questões de causa e efeito, de modo que o conhecimento cresce sobre nós, se isso for bom. Algumas, como você ouviu a respeito do amigo Bob lá atrás, passam tempo com matemática. Não há utilidade em forçar os gostos das pessoas.” Eu disse: “Você quer dizer que as crianças aprendem todas essas coisas?” Ele respondeu: “Isso depende do que entende por crianças, e também deve lembrar como elas diferem umas das outras. Como regra, elas não leem muito, exceto alguns livros de histórias, até terem por volta de quinze anos. Não encorajamos a precocidade livresca, embora você encontre algumas crianças que se apegam aos livros muito cedo, o que talvez não lhes faça bem. Ainda assim, é inútil contrariá-las. Muito frequentemente isso dura pouco, e encontram seu nível antes dos vinte anos. Veja, as crianças se inclinam principalmente a imitar os mais velhos. Quando veem a maior parte das pessoas ao redor ocupada em trabalho genuinamente divertido, como construir casas, calçar ruas, cuidar de jardins e coisas semelhantes, é isso que querem fazer. Portanto, acho que não precisamos temer uma multidão excessiva de homens aprendidos em livros.”

Que poderia eu dizer? Sentei-me e guardei silêncio, por receio de novos embaraços. Além disso, eu usava os olhos com toda a força, perguntando-me, enquanto o velho cavalo trotava, quando eu chegaria à Londres propriamente dita e como ela seria agora. Meu companheiro, contudo, não conseguiu abandonar de todo o assunto e prosseguiu meditativamente: “Afinal, não sei se isso lhes faz muito mal, mesmo quando crescem estudantes de livros. Pessoas assim dão grande prazer quando as vemos felizes num trabalho pouco procurado. Além disso, esses estudiosos são em geral gente tão agradável, tão bondosa e de temperamento doce, tão humilde e ao mesmo tempo tão ansiosa por ensinar a todos aquilo que sabem. Na verdade, gosto enormemente dos que encontrei.” Essa fala me pareceu tão estranha que eu estava a ponto de lhe fazer outra pergunta quando, no momento em que chegávamos ao topo de uma elevação, avistei, por uma longa clareira da mata à minha direita, um edifício majestoso cujo contorno me era familiar, e exclamei: “Abadia de Westminster!”

“Sim”, disse Dick, “a Abadia de Westminster, o que resta dela.” “Ora, que fizeram com ela?”, perguntei aterrorizado. “Que fizemos com ela?”, disse ele. “Nada de especial, salvo limpá-la. Você sabe, porém, que todo o exterior foi estragado séculos atrás. Quanto ao interior, permanece em sua beleza depois da grande limpeza, que aconteceu há mais de cem anos, dos monumentos horrendos a tolos e canalhas que antes a entulhavam, como diz meu bisavô.” Seguimos um pouco mais, e olhei outra vez para a direita, dizendo com tom um tanto duvidoso: “Ora, ali estão as Casas do Parlamento. Vocês ainda as usam?” Ele caiu na gargalhada e levou algum tempo para se controlar. Depois bateu-me nas costas e disse: “Entendi, vizinho. Você bem pode se espantar por nós as mantermos de pé. Sei alguma coisa a respeito, e meu velho parente me deu livros para ler sobre o estranho jogo que se praticava ali.”

“Usá-las? Bem, sim. São usadas como uma espécie de mercado auxiliar e depósito de esterco, e servem bem para isso, por ficarem junto à água. Creio que se pretendia derrubá-las por completo no começo de nossos dias, mas, segundo me disseram, havia uma estranha sociedade antiquária, que havia prestado algum serviço em tempos passados, e que imediatamente levantou sua flauta contra a destruição delas, como fez com muitos outros edifícios que a maioria das pessoas considerava sem valor e incômodos públicos. Foi tão enérgica e apresentou razões tão boas que em geral conseguiu o que queria. Devo dizer que, depois de tudo, fico contente com isso, porque, sabe, no pior dos casos esses velhos edifícios tolos servem como uma espécie de contraste para os belos que construímos agora. Você verá vários outros por estas partes, o lugar onde meu bisavô mora, por exemplo, e um grande edifício chamado São Paulo.”

Ele continuou, satisfeito com o tema: “Veja, nesse assunto não precisamos lamentar que alguns edifícios pobres permaneçam em pé, porque sempre podemos construir em outro lugar. Também não precisamos ficar ansiosos quanto à produção de trabalho agradável em tais matérias, pois há sempre espaço para mais e mais trabalho numa construção nova, mesmo sem torná-la pretensiosa. Por exemplo, para mim, espaço amplo dentro de casa é tão delicioso que, se eu fosse levado a isso, sacrificaria boa parte do espaço externo por ele. Depois, naturalmente, há o ornamento, que, como todos devemos admitir, pode facilmente ser exagerado em meras casas de moradia, mas dificilmente o será em casas de assembleia, mercados e coisas semelhantes. Devo lhe dizer, porém, que meu bisavô às vezes me diz que sou um pouco maluco nesse assunto da bela construção. De fato, penso que as energias da humanidade são úteis sobretudo para esse trabalho, pois nessa direção não vejo fim para a obra, enquanto em muitas outras parece possível haver limite.”

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