Notícias de Lugar Nenhum: Capítulo XVII - Como Veio a Mudança Notícias de Lugar Nenhum: Tradução Literunico · Capítulo 17 de 32
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Notícias de Lugar Nenhum: Capítulo XVII - Como Veio a Mudança

Dick rompeu por fim o silêncio, dizendo: “Hóspede, perdoe-nos por um pouco de torpor depois do jantar. Que gostaria de fazer? Mandamos trazer Greylocks e trotamos de volta a Hammersmith? Ou virá conosco ouvir alguns galeses cantarem num salão aqui perto? Ou gostaria, daqui a pouco, de vir comigo à Cidade e ver alguma construção realmente bela? Ou que será?” “Bem”, disse eu, “como sou estrangeiro, devo deixar que escolha por mim.” Na verdade, de modo algum eu queria ser “divertido” naquele momento. Além disso, sentia que o velho, com seu conhecimento dos tempos passados, e até uma espécie de simpatia invertida por eles, causada por seu ódio ativo a eles, era para mim como uma manta contra o frio deste mundo tão novo, onde eu estava, por assim dizer, despido de todo pensamento e modo de agir habitual. Eu não queria deixá-lo tão cedo. Ele veio logo em meu socorro e disse: “Espere um pouco, Dick. Há outra pessoa a consultar além de você e do nosso hóspede, e essa pessoa sou eu. Não vou perder agora o prazer da companhia dele, especialmente porque sei que ele tem ainda algo a me perguntar. Então vá aos seus galeses, por todos os meios. Antes, porém, traga-nos outra garrafa de vinho para este recanto, e depois vá embora quando quiser. Volte mais tarde para buscar nosso amigo e levá-lo para oeste, mas não cedo demais.”

Dick assentiu sorrindo, e logo o velho e eu ficamos sozinhos no grande salão, com o sol da tarde brilhando no vinho tinto dentro de nossos copos altos e de forma singular. Então Hammond disse: “Há algo que o intrigue especialmente em nosso modo de viver, agora que você ouviu bastante e viu um pouco dele?” Disse eu: “Acho que o que mais me intriga é como tudo isso aconteceu.” “É natural”, disse ele, “tão grande é a mudança. Seria de fato difícil contar-lhe a história inteira, talvez impossível. Conhecimento, descontentamento, traição, decepção, ruína, miséria, desespero. Aqueles que trabalharam pela mudança porque podiam enxergar mais longe que outras pessoas passaram por todas essas fases de sofrimento. Sem dúvida, durante todo esse tempo, a maioria dos homens olhava sem saber o que estava acontecendo, pensando que tudo era coisa natural, como o nascer e o pôr do sol, e de fato era assim.” “Diga-me uma coisa, se puder”, falei. “A mudança, a ‘revolução’, como costumava ser chamada, veio pacificamente?” “Pacificamente?”, disse ele. “Que paz havia entre aqueles pobres infelizes confusos do século dezenove? Foi guerra do começo ao fim, guerra amarga, até que esperança e prazer lhe puseram termo.”

“Quer dizer combate real com armas?”, perguntei, “ou as greves, os fechamentos patronais e a fome de que ouvimos falar?” “Ambos, ambos”, disse ele. “Na verdade, a história do terrível período de transição da escravidão comercial para a liberdade pode ser resumida assim. Quando surgiu, já bem tarde no século dezenove, a esperança de realizar uma condição comunal de vida para todos os homens, o poder das classes médias, então tiranas da sociedade, era tão enorme e esmagador que para quase todos, até para os que haviam concebido tais esperanças apesar de si mesmos, apesar de sua razão e de seu juízo, aquilo parecia sonho. Isso era tão verdadeiro que alguns dos homens mais esclarecidos, então chamados socialistas, embora soubessem bem, e até declarassem em público, que a única condição razoável da sociedade era a do comunismo puro, como este que você vê agora ao seu redor, recuavam diante da tarefa que lhes parecia estéril de pregar a realização de um sonho feliz. Olhando para trás agora, podemos ver que a grande força motriz da mudança foi um anseio por liberdade e igualdade, aparentado, se quiser, à paixão irracional do amante: uma doença do coração que rejeitava com repugnância a vida solitária e sem alvo do homem educado e abastado daquele tempo. São frases, meu caro amigo, que perderam o sentido para nós hoje, tão distantes estamos dos fatos terríveis que elas representam.”

“Pois bem, esses homens, embora conscientes desse sentimento, não tinham fé nele como meio de produzir a mudança. Isso tampouco era surpreendente, pois, olhando ao redor, viam a enorme massa das classes oprimidas carregada demais pela miséria de suas vidas, e vencida demais pelo egoísmo da miséria, para conseguir formar qualquer concepção de fuga dela, salvo pelo caminho ordinário prescrito pelo sistema de escravidão sob o qual viviam: nada além de uma remota chance de subir da classe oprimida para a classe opressora. Portanto, embora soubessem que o único objetivo razoável para quem quisesse melhorar o mundo era uma condição de igualdade, em sua impaciência e desespero conseguiram convencer-se de que, se pudessem por bem ou por mal alterar a maquinaria da produção e a administração da propriedade de tal modo que as ‘classes inferiores’, assim corria a palavra horrível, tivessem sua escravidão um tanto aliviada, elas se ajustariam a essa maquinaria e a usariam para melhorar sua condição cada vez mais, até que por fim o resultado fosse uma igualdade prática, pois gostavam muito da palavra ‘prática’. Os ricos seriam forçados a pagar tanto para manter os pobres em condição tolerável que a condição de riqueza deixaria de valer a pena e morreria gradualmente. Está me acompanhando?” “Em parte”, disse eu. “Continue.”

Disse o velho Hammond: “Bem, já que me acompanha, verá que como teoria isso não era inteiramente irracional. Na prática, acabou sendo um fracasso.” “Como assim?”, perguntei. “Veja”, disse ele, “porque envolvia a fabricação de uma maquinaria por aqueles que não sabiam o que queriam que as máquinas fizessem. Na medida em que as massas da classe oprimida promoviam esse esquema de melhoria, faziam isso para obter rações de escravo melhoradas, tantos deles quantos pudessem. Se essas classes tivessem sido realmente incapazes de ser tocadas por aquele instinto que produziu a paixão pela liberdade e pela igualdade de que falei, o que teria acontecido, creio, seria isto: certa parte das classes trabalhadoras teria melhorado sua condição até aproximar-se da dos homens medianamente ricos, e abaixo dela haveria uma grande classe dos mais miseráveis escravos, cuja escravidão seria muito mais sem esperança do que fora a velha escravidão de classe.” “O que impediu isso?”, perguntei. “Ora, naturalmente”, disse ele, “justamente aquele instinto de liberdade. É verdade que a classe escrava não conseguia conceber a felicidade de uma vida livre. Contudo, começou a entender, e muito depressa, que era oprimida por seus senhores, e presumiu, veja com quanta justiça, que poderia passar sem eles, embora talvez mal soubesse como. Assim chegou-se a isto: embora não pudesse antever a felicidade ou a paz do homem livre, ao menos passou a antever a guerra que uma esperança vaga lhe dizia que traria essa paz.”

“Poderia me dizer com mais precisão o que de fato aconteceu?”, disse eu, pois achei que ele estava um tanto vago ali. “Sim”, disse ele, “posso. Aquela maquinaria de vida para uso de pessoas que não sabiam o que queriam dela, e que era conhecida naquele tempo como Socialismo de Estado, foi em parte posta em movimento, embora de modo muito fragmentário. Mas não funcionou suavemente. Naturalmente, foi resistida a cada passo pelos capitalistas, e não é de admirar, pois tendia cada vez mais a abalar o sistema comercial de que lhe falei sem pôr em seu lugar algo realmente eficaz. O resultado foi confusão crescente, grande sofrimento entre as classes trabalhadoras e, por consequência, grande descontentamento. Por muito tempo as coisas seguiram assim. O poder das classes superiores diminuíra à medida que diminuía seu domínio sobre a riqueza, e elas já não podiam conduzir tudo pela pura mão alta, como estavam acostumadas em dias anteriores. Até aí, os socialistas de Estado foram justificados pelo resultado. Por outro lado, as classes trabalhadoras estavam mal organizadas e ficavam mais pobres na realidade, apesar dos ganhos, também reais no longo prazo, que haviam arrancado dos senhores. Assim as coisas ficaram suspensas na balança. Os senhores não podiam reduzir seus escravos à sujeição completa, embora reprimissem com bastante facilidade alguns motins fracos e parciais. Os trabalhadores forçavam seus senhores a conceder-lhes melhoras, reais ou imaginárias, em sua condição, mas não podiam forçar deles a liberdade. Por fim veio um grande estrondo. Para explicar isso, você deve compreender que grande progresso fora feito entre os trabalhadores, embora, como já disse, pouco na direção de uma vida material melhor.”

Fingi inocência e disse: “Em que direção poderiam melhorar, se não na vida material?” Disse ele: “Na capacidade de produzir um estado de coisas em que a vida material fosse plena e fácil de obter. Tinham finalmente aprendido a combinar-se depois de um longo período de erros e desastres. Os operários possuíam agora uma organização regular na luta contra seus senhores, luta que por mais de meio século fora aceita como parte inevitável das condições do sistema moderno de trabalho e produção. Essa combinação tomara então a forma de uma federação de todos, ou quase todos, os empregos reconhecidos e pagos por salário, e foi por meio dela que aquelas melhoras nas condições dos operários foram arrancadas dos senhores. Embora não raramente se misturassem aos tumultos que aconteciam, especialmente nos primeiros dias de sua organização, isso de modo algum formava parte essencial de sua tática. De fato, no tempo de que agora falo, tinham se tornado tão fortes que, em geral, a simples ameaça de uma ‘greve’ bastava para conquistar qualquer ponto menor, porque haviam abandonado a tática tola dos antigos sindicatos de retirar do trabalho apenas uma parte dos trabalhadores de tal ou tal indústria, sustentando-os enquanto estavam parados com o trabalho dos que permaneciam dentro. A essa altura tinham um fundo de dinheiro razoavelmente grande para sustentar greves e podiam parar por completo certa indústria durante algum tempo, se assim determinassem.”

Disse eu: “Não havia sério perigo de esses dinheiros serem mal usados, de negociatas, na verdade?” O velho Hammond se mexeu inquieto no assento e disse: “Embora tudo isso tenha acontecido há tanto tempo, ainda sinto a dor da pura vergonha quando preciso lhe contar que era mais que um perigo. Tal velhacaria acontecia muitas vezes. Mais de uma vez, de fato, toda a combinação pareceu desmoronar por causa disso. Mas, no tempo de que lhe falo, as coisas pareciam tão ameaçadoras, e para os operários ao menos era tão clara a necessidade de lidar com a dificuldade que se acumulava rapidamente e que a luta do trabalho trouxera, que as condições do tempo geraram profunda seriedade entre todas as pessoas razoáveis, uma determinação que punha de lado tudo o que não era essencial e que, para homens pensantes, anunciava a mudança que se aproximava velozmente. Tal elemento era perigoso demais para simples traidores e aproveitadores, e um a um eles foram empurrados para fora, juntando-se em sua maioria aos reacionários declarados.” “E quanto àquelas melhoras?”, perguntei. “Quais eram, ou antes, de que natureza?”

Disse ele: “Algumas delas, e estas de maior importância prática para a subsistência dos homens, foram cedidas pelos senhores por coerção direta dos próprios homens. As novas condições de trabalho assim conquistadas eram, de fato, apenas costumeiras, não impostas por lei. Uma vez estabelecidas, os senhores não ousavam tentar retirá-las diante do poder crescente dos trabalhadores combinados. Outras eram passos no caminho do ‘Socialismo de Estado’, e as mais importantes podem ser resumidas rapidamente. No fim do século dezenove, levantou-se o clamor para obrigar os senhores a empregar seus homens por menor número de horas por dia. Esse clamor ganhou volume depressa, e os senhores tiveram de ceder. Era claro, contudo, que, a menos que isso significasse preço mais alto do trabalho por hora, seria pura nulidade, e os senhores, se não fossem forçados, o reduziriam a isso. Por isso, depois de longa luta, foi aprovada outra lei fixando um preço mínimo para o trabalho nas indústrias mais importantes, que por sua vez teve de ser suplementada por uma lei fixando o preço máximo das principais mercadorias então consideradas necessárias à vida de um trabalhador.” “Vocês estavam chegando perigosamente perto dos auxílios aos pobres da Roma tardia”, disse eu, sorrindo, “e da distribuição de pão ao proletariado.”

“Assim muitos diziam na época”, disse o velho secamente, “e há muito é lugar-comum que esse lamaçal espera o Socialismo de Estado no fim, se ele chega ao fim, coisa que, como você sabe, entre nós não aconteceu. Contudo, ele foi além desse negócio de mínimo e máximo, que, diga-se de passagem, hoje podemos ver que era necessário. O governo descobriu então que era imperativo enfrentar o clamor da classe dos senhores diante da destruição próxima do Comércio, destruição tão desejável, se eles soubessem disso, quanto a extinção do cólera, que felizmente se deu desde então. Foram forçados a enfrentá-lo por meio de uma medida hostil aos senhores: o estabelecimento de fábricas governamentais para a produção de mercadorias necessárias e de mercados para sua venda. Essas medidas, tomadas em conjunto, fizeram alguma coisa. Eram, de fato, da natureza de regulações feitas pelo comandante de uma cidade sitiada. Naturalmente, para as classes privilegiadas pareceu que o fim do mundo chegara quando tais leis foram promulgadas.”

“E isso não era inteiramente sem fundamento. A difusão das teorias comunistas e a prática parcial do Socialismo de Estado haviam primeiro perturbado e por fim quase paralisado o maravilhoso sistema de comércio sob o qual o velho mundo vivera tão febrilmente, produzindo para alguns poucos uma vida de prazer de jogador e, para muitos, ou para a maioria, uma vida de pura miséria. Repetidas vezes vieram os ‘tempos ruins’, como eram chamados, e eram de fato ruins o bastante para os escravos assalariados. O ano de 1952 foi um dos piores desses tempos. Os operários sofreram terrivelmente. As fábricas governamentais parciais e ineficientes, terrivelmente marcadas por negociatas, quase quebraram, e uma vasta parte da população teve por algum tempo de ser alimentada por ‘caridade’ sem disfarce, como era chamada. Os Trabalhadores Combinados observaram a situação com esperança e ansiedade misturadas. Já haviam formulado suas reivindicações gerais, mas agora, por um voto solene e universal de todas as suas sociedades federadas, insistiram que fosse dado o primeiro passo para executar essas reivindicações. Esse passo teria levado diretamente a entregar a administração de todos os recursos naturais do país, junto com a maquinaria para usá-los, ao poder dos Trabalhadores Combinados, e à redução das classes privilegiadas à posição de pensionistas obviamente dependentes do prazer dos trabalhadores.”

“A ‘Resolução’, como era chamada, amplamente publicada nos jornais do dia, era de fato uma declaração de guerra, e assim foi recebida pela classe dos senhores. Daí em diante eles começaram a preparar uma resistência firme ao ‘comunismo brutal e feroz do dia’, como o chamavam. Como ainda eram muito poderosos de muitas maneiras, ou pareciam ser, esperavam recuperar pela força bruta parte do que haviam perdido, e talvez no fim recuperar tudo. Dizia-se entre eles por todos os lados que fora grande erro dos vários governos não terem resistido mais cedo, e os liberais e radicais, nome talvez conhecido por você para a parte mais democraticamente inclinada das classes dominantes, eram muito culpados por terem conduzido o mundo a esse ponto com seu pedantismo fora de hora e sua sentimentalidade tola. Um tal Gladstone, ou Gledstein, provavelmente de descendência escandinava a julgar pelo nome, político notável do século dezenove, era especialmente separado para reprovação nesse aspecto. Mal preciso apontar para você o absurdo de tudo isso. Mas uma tragédia terrível estava escondida por trás desse caretear através de uma coleira de cavalo do partido reacionário. ‘A ganância insaciável das classes inferiores deve ser reprimida’, ‘o povo deve receber uma lição’: estas eram as frases sacramentais correntes entre os reacionários, e bastante sinistras elas eram.”

O velho parou para olhar com atenção meu rosto atento e espantado, e então disse: “Sei, caro hóspede, que venho usando palavras e frases que poucas pessoas entre nós poderiam compreender sem explicação longa e trabalhosa, e talvez nem mesmo então. Mas, já que você ainda não adormeceu, e já que falo com você como com um ser de outro planeta, posso aventurar-me a perguntar se me acompanhou até aqui?” “Oh, sim”, disse eu, “compreendo bastante. Peço que continue. Muito do que vem dizendo era lugar-comum entre nós quando, quando...” “Sim”, disse ele gravemente, “quando você habitava o outro planeta. Bem, agora vamos ao estrondo de que falei.”

“Em alguma ocasião relativamente trivial, os líderes operários convocaram uma grande reunião na Trafalgar Square, sobre o direito de reunir-se nesse lugar havia anos e anos de disputas. A guarda burguesa cívica, chamada polícia, atacou a reunião com cassetetes, segundo seu costume. Muitas pessoas foram feridas na confusão, das quais cinco ao todo morreram, pisoteadas no próprio local ou por efeito das pancadas. A reunião foi dispersada, e algumas centenas de prisioneiros foram lançadas na cadeia. Uma reunião semelhante havia sido tratada do mesmo modo poucos dias antes num lugar chamado Manchester, que agora desapareceu. Assim começou a ‘lição’. O país inteiro foi lançado em fermento por isso. Realizaram-se reuniões que tentaram alguma organização rude para realizar outra reunião em resposta às autoridades. Uma multidão enorme reuniu-se em Trafalgar Square e na vizinhança, então lugar de ruas apinhadas, e era grande demais para a polícia armada de cassetetes dar conta dela. Houve bastante luta a seco, três ou quatro pessoas do povo foram mortas, meia dúzia de policiais foi esmagada até a morte no ajuntamento, e o restante escapou como pôde. Isso foi uma vitória para o povo até onde ia.”

“No dia seguinte, toda Londres, lembre-se do que ela era naqueles dias, estava em estado de tumulto. Muitos ricos fugiram para o campo. O executivo reuniu soldados, porém não ousou usá-los, e a polícia não podia ser concentrada num único lugar, porque havia motins ou ameaças de motim por toda parte. Em Manchester, contudo, onde o povo era menos corajoso ou menos desesperado do que em Londres, vários dos líderes populares foram presos. Em Londres, uma convenção de líderes foi reunida a partir da Federação dos Trabalhadores Combinados, e sentou-se sob o velho nome revolucionário de Comitê de Salvação Pública. Como não tinham corpo de homens treinado e armado para dirigir, não tentaram medidas agressivas. Apenas cobriram as paredes com apelos um tanto vagos aos operários para que não se deixassem pisotear. Ainda assim, convocaram uma reunião em Trafalgar Square para a quinzena seguinte à escaramuça mencionada por último.”

“Enquanto isso, a cidade não ficava mais tranquila, e os negócios praticamente chegaram ao fim. Os jornais, então, como sempre até ali, quase inteiramente nas mãos dos senhores, clamavam ao Governo por medidas repressivas. Os cidadãos ricos foram alistados como corpo extra de polícia e armados com cassetetes como ela. Muitos deles eram jovens fortes, bem alimentados, sanguíneos, e tinham bastante disposição para lutar. O Governo, porém, não ousou usá-los, contentando-se em obter do Parlamento plenos poderes para suprimir qualquer revolta e trazer cada vez mais soldados a Londres. Assim passou a semana depois da grande reunião. No domingo realizou-se outra quase tão grande, que transcorreu pacificamente no conjunto, pois nenhuma oposição lhe foi oferecida, e novamente o povo gritou ‘vitória’. Mas na segunda-feira o povo despertou e descobriu que estava com fome. Nos últimos dias havia grupos de homens desfilando pelas ruas pedindo, ou, se preferir, exigindo, dinheiro para comprar comida, e por boa vontade ou por medo, os mais ricos lhes deram bastante. As autoridades das paróquias também, não tenho tempo para explicar essa frase agora, davam de boa ou má vontade os mantimentos que podiam às pessoas errantes, e o Governo, por meio de suas fracas oficinas nacionais, também alimentava bom número de gente meio faminta.”

“Além disso, várias padarias e outras lojas de provisões tinham sido esvaziadas sem grande perturbação. Até aí, tudo bem. Na segunda-feira em questão, porém, o Comitê de Salvação Pública, de um lado temendo a pilhagem geral desorganizada, e de outro encorajado pela conduta vacilante das autoridades, enviou uma deputação provida de carroças e de todo o equipamento necessário para esvaziar dois ou três grandes depósitos de provisões no centro da cidade, deixando papéis com os gerentes das lojas, prometendo pagar o preço delas. Também na parte da cidade onde eram mais fortes, tomaram posse de várias padarias e puseram homens a trabalhar nelas em benefício do povo. Tudo isso foi feito com pouca ou nenhuma perturbação, a polícia ajudando a manter a ordem no saque dos depósitos como teria feito num grande incêndio.”

“Com este último golpe, porém, os reacionários ficaram tão alarmados que estavam decididos a forçar o executivo à ação. No dia seguinte, os jornais todos arderam na fúria de pessoas assustadas e ameaçaram o povo, o Governo e todos em quem podiam pensar, caso ‘a ordem não fosse restaurada de uma vez’. Uma deputação de pessoas comerciais importantes foi ao Governo e disse que, se ele não prendesse imediatamente o Comitê de Salvação Pública, eles próprios reuniriam um corpo de homens, armá-lo-iam e cairiam sobre os ‘incendiários’, como os chamavam. Eles, junto com certo número de editores de jornais, tiveram uma longa entrevista com os chefes do Governo e dois ou três militares, os mais hábeis em sua arte que o país podia fornecer. A deputação saiu dessa entrevista, diz uma testemunha ocular contemporânea, sorrindo e satisfeita, e não falou mais em levantar um exército antipovo. Naquela tarde, deixaram Londres com suas famílias rumo a suas casas de campo ou a outros lugares.”

“Na manhã seguinte, o Governo proclamou estado de sítio em Londres, coisa bastante comum entre os governos absolutistas do Continente, porém inaudita na Inglaterra daqueles dias. Nomeou para comandar o distrito proclamado o mais jovem e esperto de seus generais, homem que conquistara certa espécie de reputação nas guerras vergonhosas em que o país estivera longamente engajado de tempos em tempos. Os jornais ficaram em êxtase, e todos os mais fervorosos reacionários vieram agora à frente: homens que em tempos ordinários eram forçados a guardar suas opiniões para si mesmos ou para seu círculo imediato, mas que começavam a esperar esmagar de uma vez por todas as tendências socialistas e até democráticas, que, diziam eles, haviam sido tratadas com indulgência tão tola durante os últimos sessenta anos.”

“Mas o esperto general não tomou nenhuma ação visível, e ainda assim apenas alguns dos jornais menores o insultaram. Homens refletidos concluíram daí que uma trama estava chocando. Quanto ao Comitê de Salvação Pública, o que quer que pensassem de sua posição, agora tinham ido longe demais para recuar, e muitos deles, ao que parece, pensavam que o governo não agiria. Seguiram tranquilamente organizando seu suprimento de comida, que, afinal de contas, era um fio miserável, e também, em resposta ao estado de sítio, armaram tantos homens quantos puderam no bairro onde eram mais fortes. Não tentaram treiná-los nem organizá-los, pensando talvez que, no melhor dos casos, não poderiam transformá-los em soldados treinados antes de obter algum respiro. O esperto general, seus soldados e a polícia não se meteram em nada disso, nem um pouco, e as coisas ficaram mais quietas em Londres naquele fim de semana, embora houvesse motins em muitos lugares das províncias, reprimidos pelas autoridades sem muita dificuldade. Os mais sérios foram em Glasgow e Bristol.”

“Bem, chegou o domingo da reunião, e grandes multidões vieram em procissão para Trafalgar Square, a maior parte do Comitê entre elas, cercada por seu grupo de homens armados de algum modo. As ruas estavam pacíficas e quietas, embora houvesse muitos espectadores para ver a procissão passar. Não havia corpo de polícia em Trafalgar Square. O povo tomou posse dela tranquilamente, e a reunião começou. Os homens armados ficaram ao redor da plataforma principal, e havia alguns outros armados no meio da multidão geral, mas a parte muito maior estava desarmada. A maioria das pessoas pensava que a reunião transcorreria pacificamente, mas os membros do Comitê tinham ouvido de vários lados que algo seria tentado contra eles. Os boatos, contudo, eram vagos, e eles não faziam ideia do que os ameaçava. Logo descobriram.”

“Pois antes que as ruas ao redor da praça se enchessem, um corpo de soldados derramou-se nela pelo canto noroeste e tomou posição junto às casas que ficavam no lado oeste. O povo rosnou ao ver os casacos vermelhos. Os homens armados do Comitê ficaram indecisos, sem saber o que fazer, e de fato esse novo afluxo apertou tanto a multidão que, desorganizados como estavam, tinham pouca chance de abrir caminho por ela. Mal haviam percebido o fato de que seus inimigos estavam ali quando outra coluna de soldados, saindo pelas ruas que levavam à grande estrada meridional rumo à Casa do Parlamento, ainda existente e chamada Mercado do Esterco, e também pelo aterro ao lado do Tâmisa, marchou para cima, empurrando a multidão numa massa cada vez mais densa, e formou-se ao longo do lado sul da praça. Então todos os que podiam ver o que acontecia souberam de imediato que estavam numa armadilha, e só podiam imaginar o que seria feito deles.”

“A multidão comprimida não queria ou não podia mover-se, exceto sob a influência do extremo terror, que logo lhe seria fornecido. Alguns dos homens armados lutaram para chegar à frente ou subiram à base do monumento que então ficava ali, para encarar a parede de fogo oculto diante deles. Para a maioria dos homens, e havia muitas mulheres entre eles, parecia que o fim do mundo chegara, e o hoje parecia estranhamente diferente do ontem. Assim que os soldados foram alinhados como disse, conta uma testemunha ocular, ‘um oficial reluzente a cavalo saiu empinado das fileiras ao sul e leu algo de um papel que segurava na mão. Muito poucos ouviram esse algo, mas depois me disseram que era uma ordem para que nos dispersássemos e uma advertência de que, caso contrário, ele tinha direito legal de atirar na multidão, e que o faria. A multidão tomou aquilo como algum tipo de desafio, e um rugido rouco e ameaçador subiu dela. Depois disso houve relativo silêncio por um pouco, até que o oficial retornou às fileiras. Eu estava perto da borda da multidão, voltado para os soldados’, diz essa testemunha, ‘e vi três pequenas máquinas sendo empurradas para a frente das fileiras, que reconheci como metralhadoras mecânicas. Gritei: Deitem-se! Eles vão atirar! Mas quase ninguém podia deitar-se, tão apertada estava a multidão. Ouvi uma ordem seca e me perguntei onde estaria no minuto seguinte. Então foi como se a terra se abrisse e o inferno subisse inteiro entre nós.’”

“‘Não adianta tentar descrever a cena que se seguiu. Corredores fundos foram ceifados dentro da multidão espessa. Os mortos e moribundos cobriram o chão, e os gritos, lamentos e clamores de horror encheram todo o ar, até parecer que nada mais havia no mundo além de assassinato e morte. Os nossos homens armados que ainda estavam ilesos saudaram furiosamente e abriram fogo disperso contra os soldados. Um ou dois soldados caíram, e vi os oficiais andando para cima e para baixo nas fileiras, instando os homens a atirar de novo. Mas eles receberam as ordens em silêncio sombrio e deixaram cair as coronhas de seus fuzis. Apenas um sargento correu para uma metralhadora e começou a pô-la em movimento, mas um jovem alto, também oficial, saiu correndo das fileiras e o arrastou de volta pelo colarinho. Os soldados ficaram ali imóveis enquanto a multidão tomada de horror, quase inteiramente desarmada, pois a maior parte dos homens armados caíra naquela primeira descarga, escoava para fora da praça. Depois me disseram que os soldados do lado oeste também tinham atirado e feito sua parte no massacre. Como saí da praça, mal sei. Fui embora sem sentir o chão sob mim, tomado de raiva, terror e desespero.’”

“Assim fala nossa testemunha ocular. O número de mortos do lado do povo naquele tiroteio de um minuto foi prodigioso, embora não fosse fácil chegar à verdade sobre ele. Provavelmente ficou entre mil e dois mil. Dos soldados, seis foram mortos na hora e uma dúzia ficou ferida.” Eu escutava tremendo de excitação. Os olhos do velho brilhavam e seu rosto se inflamava enquanto falava e contava a história do que eu muitas vezes imaginara que pudesse acontecer. Ainda assim, espantei-me que ele ficasse tão exaltado por causa de um mero massacre, e disse: “Que horror! Suponho que esse massacre pôs fim a toda a revolução naquele momento.” “Não, não”, gritou o velho Hammond. “Ele a começou!” Encheu seu copo e o meu, levantou-se e exclamou: “Beba este copo à memória dos que ali morreram, pois seria de fato longa a história de quanto lhes devemos.” Bebi, e ele se sentou de novo e continuou.

“Aquele massacre da Trafalgar Square deu início à guerra civil, embora, como todos esses acontecimentos, ganhasse corpo lentamente, e as pessoas mal soubessem em que crise estavam atuando. Terrível como foi o massacre, e medonho e dominador como fora o primeiro terror, quando o povo teve tempo de pensar nele, seu sentimento foi de cólera mais que de medo, embora a organização militar do estado de sítio fosse agora levada adiante sem recuo pelo esperto jovem general. Pois embora as classes dominantes, quando a notícia se espalhou na manhã seguinte, sentissem um suspiro de horror e até de pavor, o Governo e seus apoiadores imediatos sentiram que agora o vinho estava tirado da pipa e precisava ser bebido. Ainda assim, até os jornais capitalistas mais reacionários, com duas exceções, atordoados pela notícia tremenda, simplesmente deram conta do que acontecera, sem fazer comentário algum. Uma exceção foi um jornal dito ‘liberal’, pois o Governo do dia tinha essa cor, que, depois de um preâmbulo em que declarava sua simpatia invariável pela causa do trabalho, passou a apontar que, em tempos de perturbação revolucionária, cabia ao Governo ser justo e firme, e que o modo de longe mais misericordioso de lidar com os pobres loucos que atacavam os próprios fundamentos da sociedade, sociedade que os fizera loucos e pobres, era fuzilá-los de uma vez, a fim de impedir que outros escorregassem para uma posição em que corressem o risco de ser fuzilados. Em suma, elogiava a ação determinada do Governo como ápice da sabedoria e da misericórdia humanas, e exultava com a inauguração de uma época de democracia razoável, livre dos caprichos tirânicos do Socialismo.”

“A outra exceção foi um jornal tido como um dos mais violentos adversários da democracia, e assim era. Mas seu editor encontrou sua hombridade e falou por si mesmo, não por seu jornal. Em poucas palavras simples e indignadas, pediu que as pessoas considerassem o valor de uma sociedade que precisava ser defendida pelo massacre de cidadãos desarmados, e conclamou o Governo a retirar o estado de sítio e levar a julgamento por assassinato o general e seus oficiais que haviam atirado contra o povo. Foi mais longe e declarou que, fosse qual fosse sua opinião sobre as doutrinas dos socialistas, ele, por sua parte, lançaria sua sorte junto ao povo até que o Governo expiasse sua atrocidade, mostrando estar preparado para escutar as demandas de homens que sabiam o que queriam e que a decrepitude da sociedade forçava a empurrar suas demandas de algum modo. Naturalmente, esse editor foi imediatamente preso pelo poder militar. Mas suas palavras ousadas já estavam nas mãos do público e produziram grande efeito, tão grande que o Governo, depois de alguma vacilação, retirou o estado de sítio, embora ao mesmo tempo reforçasse a organização militar e a tornasse mais rigorosa.”

“Três membros do Comitê de Salvação Pública tinham sido mortos na Trafalgar Square. Dos restantes, a maior parte voltou ao antigo lugar de reunião e ali aguardou calmamente os acontecimentos. Foram presos ali na manhã de segunda-feira e teriam sido fuzilados de imediato pelo general, que era mera máquina militar, se o Governo não tivesse recuado diante da responsabilidade de matar homens sem julgamento algum. No início falou-se em julgá-los por uma comissão especial de juízes, como era chamada, isto é, diante de um conjunto de homens obrigados a declará-los culpados e cuja tarefa era fazer isso. Mas, no Governo, o acesso frio sucedera ao quente, e os prisioneiros foram levados diante de um júri nas sessões de julgamento. Ali um novo golpe esperava o Governo, pois, apesar da instrução do juiz, que ordenava claramente ao júri que declarasse os prisioneiros culpados, eles foram absolvidos, e o júri acrescentou ao veredicto uma apresentação em que condenava a ação da soldadesca, na estranha fraseologia do dia, como ‘temerária, infeliz e desnecessária’. O Comitê de Salvação Pública renovou suas sessões e, daí em diante, tornou-se ponto de reunião popular em oposição ao Parlamento. O Governo agora cedia por todos os lados e fazia demonstração de ceder às demandas do povo, embora houvesse uma conspiração difundida para executar um golpe de Estado, posta em marcha entre os líderes dos dois partidos chamados opostos na briga parlamentar. A parte bem-intencionada do público ficou radiante e pensou que todo perigo de guerra civil passara. A vitória do povo foi celebrada por reuniões enormes realizadas nos parques e em outros lugares, em memória das vítimas do grande massacre.”

“Mas as medidas aprovadas para o alívio dos trabalhadores, embora às classes superiores parecessem ruinosamente revolucionárias, não eram completas o bastante para dar ao povo alimento e uma vida decente, e tiveram de ser suplementadas por decretos não escritos, sem legalidade a sustentá-los. Embora o Governo e o Parlamento tivessem os tribunais, o exército e a ‘sociedade’ às costas, o Comitê de Salvação Pública começou a ser uma força no país e representava de fato as classes produtoras. Começou a melhorar imensamente nos dias que se seguiram à absolvição de seus membros. Seus membros antigos tinham pouca capacidade administrativa, embora, com exceção de alguns aproveitadores e traidores, fossem homens honestos, corajosos, e muitos deles dotados de considerável talento em outros gêneros. Agora, porém, quando os tempos pediam ação imediata, vieram à frente os homens capazes de pô-la em marcha, e uma nova rede de associações de operários cresceu muito depressa, tendo por único objetivo declarado conduzir o barco da comunidade, durante a maré difícil, para uma condição simples de comunismo. Como assumiram também, na prática, a administração da guerra ordinária do trabalho, logo se tornaram a voz e o intermediário de toda a classe trabalhadora. Os moedores de lucro da manufatura encontraram-se impotentes diante dessa combinação. A menos que o comitê deles, o Parlamento, ganhasse coragem para recomeçar a guerra civil e atirar à direita e à esquerda, estavam obrigados a ceder às demandas dos homens que empregavam e a pagar salários cada vez mais altos por jornadas cada vez mais curtas. Ainda assim, tinham um aliado, e era o colapso rapidamente próximo de todo o sistema fundado no Mercado Mundial e em seu suprimento, que agora se tornava tão claro para todos que as classes médias, momentaneamente abaladas a ponto de condenar o Governo pelo grande massacre, viraram-se quase em massa e chamaram o Governo a cuidar das coisas e pôr fim à tirania dos líderes socialistas.”

“Assim estimulado, o complô reacionário explodiu provavelmente antes de amadurecer. Desta vez, porém, o povo e seus líderes estavam prevenidos e, antes que os reacionários pudessem pôr-se em movimento, haviam tomado as providências que julgavam necessárias. O Governo Liberal, claramente por conluio, foi derrotado pelos Conservadores, embora estes estivessem nominalmente em grande minoria. Os representantes populares na Câmara compreenderam muito bem o que isso significava e, depois de uma tentativa de disputar o assunto por divisões na Câmara dos Comuns, fizeram um protesto, deixaram a Câmara e foram em corpo ao Comitê de Salvação Pública. A guerra civil começou outra vez com toda a seriedade. Contudo, seu primeiro ato não foi de mera luta. O novo Governo Tory decidiu agir. No entanto, não ousou reeditar o estado de sítio. Enviou um corpo de soldados e policiais para prender o Comitê de Salvação Pública inteiro. Eles não ofereceram resistência, embora pudessem tê-la oferecido, pois agora tinham considerável corpo de homens inteiramente preparados para extremos. Mas estavam decididos a tentar primeiro uma arma que consideravam mais forte que a luta de rua.”

“Os membros do Comitê foram tranquilamente para a prisão, mas haviam deixado sua alma e sua organização atrás de si. Sua força estava numa enorme massa de pessoas em profunda simpatia com o movimento, ligadas por grande número de vínculos entre pequenos centros com instruções muito simples, e não num centro cuidadosamente arranjado com todos os tipos de verificações e contraverificações em torno dele. Essas instruções foram agora executadas. Na manhã seguinte, quando os líderes da reação riam consigo mesmos do efeito que a notícia de seu golpe nos jornais teria sobre o público, nenhum jornal apareceu. Só perto do meio-dia algumas folhas desgarradas, do tamanho das gazetas do século dezessete, feitas por policiais, soldados, gerentes e redatores de imprensa, gotejaram pelas ruas. Foram agarradas e lidas com avidez, mas a essa altura a parte séria de suas notícias já estava velha, e as pessoas não precisavam ser informadas de que a GREVE GERAL havia começado. As ferrovias não corriam, os fios de telégrafo não eram atendidos. Carne, peixe e hortaliças trazidos ao mercado foram deixados ali ainda empacotados e perecendo. As milhares de famílias de classe média, absolutamente dependentes dos trabalhadores para a próxima refeição, fizeram esforços frenéticos, por meio de seus membros mais enérgicos, para providenciar as necessidades do dia. Entre aqueles que conseguiam livrar-se do medo do que viria depois, houve, dizem-me, certo prazer nesse piquenique inesperado, uma antecipação dos dias por vir, nos quais todo trabalho se tornaria agradável.”

“Assim passou o primeiro dia, e ao cair da tarde o Governo ficou completamente desnorteado. Tinha apenas um recurso para derrubar qualquer movimento popular, a pura força bruta, mas não havia nada contra o que usar seu exército e sua polícia. Nenhum corpo armado aparecia nas ruas. Os escritórios dos Operários Federados estavam agora, ao menos em aparência, transformados em lugares de socorro para pessoas sem trabalho, e, nessas circunstâncias, o Governo não ousava prender os homens envolvidos em tal serviço, tanto mais que naquela mesma noite muitas pessoas bastante respeitáveis procuraram esses escritórios em busca de auxílio e engoliram a caridade dos revolucionários junto com a ceia. Assim, o Governo reuniu soldados e policiais aqui e ali e ficou parado naquela noite, esperando plenamente que no dia seguinte algum manifesto dos ‘rebeldes’, como agora começavam a ser chamados, lhe desse oportunidade de agir de algum modo. Ficaram desapontados. Os jornais comuns desistiram da luta naquela manhã, e apenas um jornal reacionário muito violento, chamado Daily Telegraph, tentou aparecer, censurando os ‘rebeldes’ com frases bem compostas por sua loucura e ingratidão ao arrancarem as entranhas de sua ‘mãe comum’, a Nação Inglesa, em benefício de alguns agitadores pagos e gananciosos, e dos tolos que eles estavam iludindo.”

“Por outro lado, os jornais socialistas, dos quais apenas três, representando escolas um tanto diferentes, eram publicados em Londres, saíram cheios até a garganta de matéria bem impressa. Foram comprados avidamente por todo o público, que, naturalmente, como o Governo, esperava encontrar neles um manifesto. Não encontraram nenhuma palavra de referência ao grande assunto. Parecia que seus editores haviam revirado as gavetas em busca de artigos que teriam estado no lugar quarenta anos antes, sob o nome técnico de artigos educativos. A maioria deles era admirável e direta exposição das doutrinas e da prática do Socialismo, livre de pressa, rancor e palavras duras, e veio sobre o público com uma espécie de frescor de Primeiro de Maio, em meio à ansiedade e ao terror do momento. Embora os sabidos compreendessem bem que o significado desse lance no jogo era puro desafio e sinal de hostilidade irreconciliável aos então governantes da sociedade, e embora também os ‘rebeldes’ não pretendessem outra coisa, eles realmente tiveram efeito como ‘artigos educativos’. Contudo, a ‘educação’ de outro tipo agia sobre o público com poder irresistível, e provavelmente lhe clareava um pouco a cabeça.”

“Quanto ao Governo, ficou absolutamente aterrorizado por esse ato de ‘boicote’, a gíria então corrente para tais atos de abstenção. Seus conselhos tornaram-se selvagens e vacilantes ao último grau. Numa hora pensavam em ceder por enquanto até que pudessem chocar outro complô. Na seguinte, quase enviavam uma ordem para prender em massa todos os comitês operários. Na outra, estavam a ponto de ordenar a seu ágil jovem general que tomasse qualquer pretexto disponível para outro massacre. Mas, quando recordavam que a soldadesca naquela ‘Batalha’ da Trafalgar Square ficara tão intimidada pela matança que fizera que não se conseguiu fazê-la disparar uma segunda descarga, recuavam outra vez diante da coragem terrível necessária para executar outro massacre. Enquanto isso, os prisioneiros, levados pela segunda vez aos magistrados sob forte escolta de soldados, foram pela segunda vez reconduzidos.”

“A greve continuou também nesse dia. Os comitês operários se estenderam e deram auxílio a grande número de pessoas, pois haviam organizado considerável produção de comida por homens de quem podiam depender. Um bom número de pessoas bem situadas foi agora compelido a buscar auxílio junto a eles. Outra coisa curiosa aconteceu: um bando de jovens das classes superiores armou-se e saiu friamente a pilhar pelas ruas, tomando aquilo que lhes convinha entre os comestíveis e objetos portáteis que encontravam nas lojas que se haviam aventurado a abrir. Fizeram essa operação na Oxford Street, então uma grande rua de lojas de todos os tipos. O Governo, que naquela hora estava em um de seus humores de concessão, julgou aquilo bela oportunidade para mostrar sua imparcialidade na manutenção da ‘ordem’ e enviou gente para prender esses jovens ricos famintos. Eles, contudo, surpreenderam a polícia com resistência valente, de modo que todos escaparam, salvo três. O Governo não ganhou a reputação de imparcialidade que esperava com esse lance, pois esqueceu que não havia jornais vespertinos. O relato da escaramuça espalhou-se bastante, de forma distorcida, pois em geral foi contado simplesmente como façanha do povo faminto do East End, e todos acharam natural que o Governo o reprimisse onde e quando pudesse.”

“Naquela noite, os prisioneiros rebeldes receberam em suas celas visitas de pessoas muito polidas e simpáticas, que lhes apontaram o curso suicida que seguiam e o quanto esses caminhos extremos eram perigosos para a causa popular. Diz um dos prisioneiros: ‘Foi grande divertimento comparar notas quando saímos, acerca da tentativa do Governo de nos abordar separadamente na prisão, e de como respondemos às lisonjas das pessoas altamente inteligentes e refinadas postas para nos sondar. Um riu. Outro contou histórias extravagantes e compridas ao enviado. Um terceiro manteve silêncio sombrio. Um quarto mandou o espião polido ao diabo e ordenou que fechasse a boca. Foi tudo o que arrancaram de nós.’ Assim passou o segundo dia da grande greve. Estava claro para todas as pessoas pensantes que o terceiro dia traria a crise, pois a presente suspensão e o terror mal oculto eram insuportáveis. As classes dominantes e os não políticos da classe média, que haviam sido sua verdadeira força e sustentação, estavam como ovelhas sem pastor. Literalmente não sabiam o que fazer.”

“Uma coisa descobriram que precisavam fazer: tentar levar os ‘rebeldes’ a fazer alguma coisa. Assim, na manhã seguinte, a manhã do terceiro dia da greve, quando os membros do Comitê de Salvação Pública apareceram novamente diante do magistrado, encontraram-se tratados com a maior cortesia possível, na verdade, mais como enviados e embaixadores do que como prisioneiros. Em suma, o magistrado recebera suas ordens e, sem mais a fazer além do que pudesse vir de um longo discurso estúpido, que poderia ter sido escrito por Dickens em zombaria, dispensou os prisioneiros, que voltaram ao seu lugar de reunião e imediatamente iniciaram uma sessão regular. Já era tempo. Pois nesse terceiro dia a massa estava de fato fermentando. Havia, naturalmente, enorme número de trabalhadores que não estavam organizados em grau algum, homens acostumados a agir como seus senhores os impeliam, ou antes, como os impelia o sistema do qual seus senhores eram parte. Esse sistema agora se despedaçava, e, retirada desses pobres homens a velha pressão do senhor, parecia provável que nada além das necessidades animais e paixões dos homens tivesse qualquer domínio sobre eles, e que o resultado fosse apenas um desabamento geral. Sem dúvida isso teria acontecido se a enorme massa não tivesse sido fermentada, primeiro, pela opinião socialista, e segundo, pelo contato real com socialistas declarados, muitos, ou de fato a maioria, membros daqueles corpos de operários de que falei.”

“Se algo desse gênero tivesse acontecido alguns anos antes, quando os senhores do trabalho ainda eram vistos como os governantes naturais do povo, e até o homem mais pobre e ignorante apoiava-se neles em busca de sustentação enquanto se submetia a ser tosquiado, teria seguido a ruptura inteira de toda a sociedade. Mas a longa série de anos durante a qual os operários haviam aprendido a desprezar seus governantes acabara com sua dependência deles. Começavam agora a confiar, de modo um tanto perigoso, como os acontecimentos provaram, nos líderes não legais que os acontecimentos haviam empurrado para a frente. Embora a maioria destes tivesse agora se tornado mera figura decorativa, seus nomes e reputações eram úteis nesta crise como tapa-buraco.” “O efeito da notícia da libertação do Comitê deu, portanto, algum respiro ao Governo, pois foi recebida com a maior alegria pelos trabalhadores, e até os bem situados viram nela uma pausa diante da pura destruição que começavam a temer, medo que a maioria deles atribuía à fraqueza do Governo. No que dizia respeito à hora que passava, talvez estivessem certos nisso.”

“Como assim?”, disse eu. “O que o Governo poderia ter feito? Muitas vezes eu costumava pensar que eles ficariam impotentes numa crise dessas.” Disse o velho Hammond: “Naturalmente não duvido que, no longo prazo, as coisas teriam chegado ao que chegaram. Ainda assim,, se o Governo pudesse ter tratado seu exército como exército real e usado os soldados estrategicamente, como um general teria feito, considerando o povo simples inimigo aberto a ser baleado e dispersado onde quer que aparecesse, provavelmente teria conquistado a vitória naquele momento.” “Mas os soldados teriam agido contra o povo desse modo?”, perguntei. Disse ele: “Pelo que ouvi, creio que teriam feito isso se tivessem encontrado corpos de homens armados, por pior que fosse seu armamento e sua organização. Parece também que, antes do massacre da Trafalgar Square, poderiam no conjunto ter sido considerados confiáveis para atirar contra uma multidão desarmada, embora estivessem muito corroídos pelo Socialismo. A razão disso era que temiam o uso, por homens aparentemente desarmados, de um explosivo chamado dinamite, do qual muitas bravatas ruidosas foram feitas pelos trabalhadores na véspera desses acontecimentos, embora se revelasse de pouca utilidade como material de guerra do modo esperado. Naturalmente, os oficiais da soldadesca atiçaram esse medo ao máximo, de modo que os soldados rasos provavelmente pensaram naquela ocasião que estavam sendo conduzidos a uma batalha desesperada contra homens realmente armados, cuja arma era ainda mais terrível por estar escondida. Depois daquele massacre, contudo, foi sempre duvidoso que os soldados regulares atirassem contra uma multidão desarmada ou meio armada.” Disse eu: “Os soldados regulares? Então havia outros combatentes contra o povo?” “Sim”, disse ele, “chegaremos a isso em breve.”

“Certamente”, eu disse, “é melhor continuar diretamente sua história. Vejo que o tempo vai passando.” Disse Hammond: “O Governo não perdeu tempo em chegar a termos com o Comitê de Salvação Pública, pois de fato não conseguia pensar em outra coisa além do perigo do momento. Enviou um emissário devidamente acreditado para tratar com esses homens, que de algum modo haviam obtido domínio sobre as mentes das pessoas, enquanto os governantes formais não tinham domínio senão sobre seus corpos. Não há necessidade agora de entrar nos detalhes da trégua, pois tal foi ela, entre essas altas partes contratantes, o Governo do império da Grã-Bretanha e um punhado de operários, como eram chamados em escárnio naqueles dias, entre os quais havia, de fato, algumas pessoas muito capazes e de cabeça quadrada, embora, como já disse, os homens mais hábeis ainda não fossem então os líderes reconhecidos. O resultado foi que todas as reivindicações definidas do povo tiveram de ser concedidas. Podemos agora ver que a maioria dessas reivindicações, em si mesmas, não valia a pena nem ser exigida nem resistida. Contudo, eram vistas naquele tempo como importantíssimas e eram ao menos sinais de revolta contra o miserável sistema de vida que então começava a ruir.”

“Uma reivindicação, porém, era da maior importância imediata, e o Governo esforçou-se muito para evitá-la. Mas, como não lidava com tolos, teve de ceder por fim. Era a reivindicação de reconhecimento e estatuto formal para o Comitê de Salvação Pública e todas as associações que ele abrigava sob sua asa. Isso claramente significava duas coisas: primeiro, anistia para os ‘rebeldes’, grandes e pequenos, que, sem ato distinto de guerra civil, já não podiam ser atacados. Depois, continuidade da revolução organizada. Só um ponto o Governo pôde ganhar, e esse foi um nome. O temível título revolucionário foi abandonado, e o corpo, com seus ramos, passou a agir sob o nome respeitável de ‘Conselho de Conciliação e seus escritórios locais’. Carregando esse nome, tornou-se o líder do povo na guerra civil que logo se seguiu.” “Oh”, disse eu, um tanto sobressaltado, “então a guerra civil continuou, apesar de tudo o que acontecera?” “Assim foi”, disse ele. “Na verdade, foi esse próprio reconhecimento legal que tornou a guerra civil possível no sentido ordinário de guerra. Ele tirou a luta do elemento dos meros massacres de um lado, e da resistência somada a greves do outro.”

“E pode me dizer de que modo a guerra foi conduzida?”, perguntei. “Sim”, disse ele, “temos registros de sobra de tudo isso, e posso lhe dar a essência deles em poucas palavras. Como lhe disse, a tropa comum do exército inspirava pouca confiança aos reacionários, enquanto os oficiais em geral estavam preparados para qualquer coisa, pois eram em sua maioria os homens mais estúpidos do país. Fizesse o Governo o que fizesse, grande parte das classes alta e média estava decidida a pôr em marcha uma contrarrevolução, pois o comunismo que agora surgia adiante lhes parecia inteiramente insuportável. Bandos de jovens, como os saqueadores da grande greve de que lhe falei há pouco, armaram-se e treinaram, e começaram, a qualquer oportunidade ou pretexto, a escaramuçar com o povo nas ruas. O Governo nem os ajudava nem os reprimia, ficava olhando, esperando que alguma coisa viesse disso. Esses ‘Amigos da Ordem’, como eram chamados, tiveram alguns sucessos de início e ficaram mais ousados. Conseguiram que muitos oficiais do exército regular os ajudassem, e por meio deles puseram as mãos em munições de guerra de todos os tipos. Uma parte de suas táticas consistia em guardar e até guarnecer as grandes fábricas do período. Em certo momento, por exemplo, mantiveram toda aquela cidade chamada Manchester de que falei há pouco.”

“Uma espécie de guerra irregular foi conduzida com sucesso variado por todo o país. Por fim, o Governo, que no começo fingia ignorar a luta ou tratá-la como mero tumulto, declarou-se definitivamente pelos ‘Amigos da Ordem’, juntou aos bandos tudo o que pôde reunir do exército regular e fez um esforço desesperado para esmagar os ‘rebeldes’, como eram agora outra vez chamados, e como de fato chamavam a si mesmos. Era tarde demais. Todas as ideias de paz sobre base de compromisso haviam desaparecido de ambos os lados. Via-se claramente que o fim teria de ser ou escravidão absoluta para todos, salvo os privilegiados, ou um sistema de vida fundado na igualdade e no comunismo. A preguiça, a desesperança e, se me permite dizer, a covardia do século anterior haviam cedido lugar ao heroísmo ansioso e inquieto de um período revolucionário declarado. O povo daquele tempo talvez não previsse a vida que agora levamos. Havia entre eles, contudo, um instinto geral voltado para a parte essencial dessa vida, e muitos homens viam claramente, para além da luta desesperada do dia, a paz que ela devia produzir. Os homens daquele tempo que estavam do lado da liberdade não eram infelizes, creio, embora fossem perseguidos por esperanças e medos, e às vezes rasgados por dúvidas e pelo conflito de deveres difíceis de conciliar.”

“Mas como o povo, os revolucionários, conduziu a guerra? Quais eram os elementos de sucesso do lado deles?” Fiz essa pergunta porque queria trazer o velho de volta à história definida e tirá-lo do humor meditativo tão natural a um velho. Ele respondeu: “Bem, não lhes faltavam organizadores, pois o próprio conflito, em dias em que, como lhe disse, homens de alguma força de espírito punham de lado toda consideração pelo negócio ordinário da vida, desenvolveu entre eles o talento necessário. De fato, por tudo o que li e ouvi, duvido muito que, sem essa guerra civil aparentemente terrível, o talento devido para administração tivesse se desenvolvido entre os trabalhadores. De todo modo, ele estava ali, e logo obtiveram líderes muito mais que iguais aos melhores homens entre os reacionários. Quanto ao resto, não tiveram dificuldade com o material de seu exército, pois aquele instinto revolucionário agiu de tal modo sobre o soldado ordinário nas fileiras que a maior parte, certamente a melhor parte, dos soldados juntou-se ao lado do povo. Mas o principal elemento de seu sucesso foi este: onde quer que o povo trabalhador estivesse livre de coação, trabalhava para os ‘rebeldes’, fora do serviço dos reacionários. Os reacionários não conseguiam fazer trabalho algum para eles fora dos distritos em que eram todo-poderosos, e mesmo nesses distritos eram assediados por levantes contínuos. Em todos os casos e por toda parte nada obtinham sem obstrução, olhares sombrios e má vontade, de modo que seus exércitos não apenas ficaram inteiramente gastos pelas dificuldades que tinham de enfrentar, como também os não combatentes de seu lado ficaram tão atormentados e cercados por ódio e por mil pequenos problemas e incômodos que a vida se tornou quase insuportável para eles nesses termos. Não poucos morreram de preocupação. Muitos se suicidaram. Naturalmente, enorme número deles se uniu ativamente à causa da reação e encontrou algum consolo para sua miséria na avidez do conflito. Por fim, muitos milhares cederam e se submeteram aos ‘rebeldes’. À medida que o número destes últimos aumentava, tornou-se enfim claro para todos os homens que a causa antes sem esperança agora era triunfante, e que a causa sem esperança era a da escravidão e do privilégio.”

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