Notícias de Lugar Nenhum: Capítulo XIV - Como os Assuntos São Administrados
Eu disse: “E quanto às relações de vocês com nações estrangeiras?” “Dispenso a afetação de fingir que não sei o que você quer dizer”, disse ele. “Direi de uma vez que todo o sistema de nações rivais e concorrentes, que teve papel tão grande no ‘governo’ do mundo da civilização, desapareceu junto com a desigualdade entre homem e homem na sociedade.” “Isso não torna o mundo mais insosso?”, perguntei. “Por quê?”, disse o velho. “O apagamento da variedade nacional”, respondi. “Tolice”, disse ele, um tanto rispidamente. “Atravesse a água e veja. Encontrará variedade de sobra: a paisagem, as construções, a alimentação, os divertimentos, tudo variado. Os homens e mulheres variam na aparência e também nos hábitos de pensamento. O traje é muito mais variado do que no período comercial. Como acrescentaria variedade, ou dissiparia o tédio, forçar certas famílias ou tribos, muitas vezes heterogêneas e em choque umas com as outras, a entrar em certos grupos artificiais e mecânicos, chamá-los de nações e estimular seu patriotismo, isto é, seus preconceitos tolos e invejosos?” “Bem, eu não sei como”, disse eu.
“Está certo”, disse Hammond, com animação. “Você pode compreender facilmente que, agora que estamos livres dessa loucura, fica evidente para nós que, por meio dessa própria diversidade, as diferentes linhagens de sangue no mundo podem ser úteis e agradáveis umas às outras, sem o menor desejo de roubar umas às outras. Estamos todos voltados para o mesmo empreendimento: tirar o maior proveito de nossas vidas. E devo lhe dizer que, quaisquer disputas ou mal-entendidos que surjam, muito raramente acontecem entre pessoas de raças diferentes. Por isso, havendo menos desrazão neles, são apaziguados com maior facilidade.”
“Bom”, disse eu, “e quanto àquelas questões de política, quanto às diferenças gerais de opinião dentro de uma mesma comunidade? O senhor afirma que elas não existem?” “De modo nenhum”, disse ele, um tanto rispidamente. “Afirmo que diferenças de opinião sobre coisas reais e sólidas não precisam cristalizar as pessoas, e entre nós não as cristalizam, em partidos permanentemente hostis uns aos outros, com teorias diferentes sobre a estrutura do universo e o progresso do tempo. Era isso que política costumava significar, não era?” “Hum, bem”, disse eu, “não estou tão certo disso.” Disse ele: “Entendo você, vizinho. Eles apenas fingiam essa diferença séria de opinião, pois, se ela tivesse existido, não teriam podido tratar uns com os outros nos negócios comuns da vida. Não teriam podido comer juntos, comprar e vender juntos, jogar juntos, enganar outras pessoas juntos. Teriam precisado lutar sempre que se encontrassem, o que de modo algum lhes convinha. O jogo dos mestres da política era bajular ou forçar o público a pagar a despesa de uma vida luxuosa e de diversões excitantes para alguns grupos de ambiciosos. E a pretensão de séria diferença de opinião, desmentida por cada ação de suas vidas, bastava muito bem para isso. Que tem tudo isso a ver conosco?”
Disse eu: “Nada, espero. Só temo, em suma, porque me disseram que a disputa política era resultado necessário da natureza humana.” “Natureza humana!”, gritou o velho, impetuosamente. “Que natureza humana? A natureza humana dos indigentes, dos escravos, dos senhores de escravos ou a natureza humana dos homens livres e prósperos? Qual delas? Vamos, diga-me isso!” “Bem”, disse eu, “suponho que haveria diferença, conforme as circunstâncias, na ação das pessoas acerca desses assuntos.” “Eu também imaginaria isso”, disse ele. “De todo modo, a experiência mostra que é assim. Entre nós, nossas diferenças dizem respeito a questões práticas, e aos acontecimentos passageiros ligados a elas, e seriam incapazes de dividir homens de modo permanente. Em geral, o resultado imediato mostra qual opinião, num assunto dado, é a correta. Trata-se de fato verificável, fora do terreno da especulação. Por exemplo, claramente não é fácil montar um partido político em torno da questão de saber se a ceifa do feno em tal ou tal região deve começar esta semana ou na próxima, quando todos concordam que ela deve começar, no máximo, na semana seguinte, e quando qualquer homem pode descer aos campos por conta própria e ver se as sementes estão maduras o bastante para o corte.”
Disse eu: “E vocês resolvem essas diferenças, grandes e pequenas, pela vontade da maioria, suponho?” “Certamente”, disse ele. “De que outro modo poderíamos resolvê-las? Veja: em assuntos meramente pessoais, que não afetam o bem-estar da comunidade, como um homem deve se vestir, o que deve comer e beber, o que deve escrever e ler, e assim por diante, não cabe divergência de opinião, e cada um faz o que lhe agrada. Já quando o assunto é de interesse comum para toda a comunidade, e fazer ou deixar de fazer alguma coisa afeta todos, a maioria precisa seguir seu caminho, a menos que a minoria pegue em armas e mostre pela força que é a maioria efetiva ou real. Isso, contudo, numa sociedade de homens livres e iguais, é pouco provável que aconteça, porque numa comunidade assim a maioria aparente é a maioria real, e os demais, como já sugeri, sabem disso bem demais para obstruir por mera teimosia, especialmente depois de terem tido plena oportunidade de apresentar seu lado da questão.”
“Como isso é administrado?”, perguntei. “Bem”, disse ele, “tomemos uma de nossas unidades de administração, uma comuna, um distrito ou uma paróquia, pois temos os três nomes, que hoje indicam pouca distinção real entre si, embora tenha havido bastante em outros tempos. Num distrito desses, como você o chamaria, alguns vizinhos pensam que algo deve ser feito ou desfeito: uma nova casa comum construída, a remoção de casas inconvenientes, ou digamos a substituição de alguma velha ponte feia de ferro por uma ponte de pedra, e aí você tem desfazer e fazer numa só coisa. Pois bem, na reunião ordinária seguinte dos vizinhos, ou Mote, como a chamamos, segundo a antiga língua dos tempos anteriores à burocracia, um vizinho propõe a mudança e, naturalmente, se todos concordam, a discussão termina, salvo quanto aos detalhes. Do mesmo modo, se ninguém apoia o proponente, o que costumava ser chamado de secundá-lo, o assunto cai por enquanto. Isso é improvável entre homens razoáveis, já que o proponente certamente terá conversado a respeito com outros antes do Mote.”
“Suponhamos, porém, que o assunto seja proposto e apoiado. Se alguns dos vizinhos discordam, se acham que a maldita ponte de ferro ainda servirá por algum tempo e que naquele momento não querem ser incomodados com a construção de uma nova, não se contam cabeças dessa vez. A discussão formal é adiada para o Mote seguinte e, nesse meio-tempo, argumentos a favor e contra circulam por toda parte, alguns chegam a ser impressos, de modo que todos sabem o que está acontecendo. Quando o Mote se reúne de novo, há uma discussão regular e por fim uma votação por mãos levantadas. Se a divisão é apertada, a questão é novamente adiada para mais discussão. Se a divisão é ampla, pergunta-se à minoria se ela cederá à opinião mais geral, o que muitas vezes, na verdade quase sempre, ela faz. Se recusam, a questão é debatida uma terceira vez. Então, se a minoria não cresceu de modo perceptível, ela sempre cede, embora eu creia que haja alguma regra meio esquecida pela qual ainda poderia levar a questão mais longe. O que digo é que sempre acontece isto: ficam convencidos, talvez sem abandonar sua própria avaliação, de que não podem persuadir ou forçar a comunidade a adotá-la.”
“Muito bom”, disse eu. “E o que acontece se as divisões continuam apertadas?” Disse ele: “Como princípio e segundo a regra desses casos, a questão deve então caducar, e a maioria, se for estreita assim, tem de se submeter a ficar sob o estado existente. Contudo, devo lhe dizer que, na prática, a minoria muito raramente faz valer essa regra, e em geral cede de maneira amistosa.” “Sabe”, disse eu, “há em tudo isso algo muito parecido com democracia, e eu pensava que a democracia fosse considerada em estado moribundo muitos e muitos anos atrás.” Os olhos do velho brilharam. “Concedo que nossos métodos têm esse defeito. Que fazer? Não conseguimos encontrar entre nós alguém disposto a reclamar por nem sempre fazer sua própria vontade contra a comunidade, quando é claro que todos não podem receber essa indulgência. Que fazer?”
“Bem”, disse eu, “não sei.” Disse ele: “As únicas alternativas ao nosso método que consigo conceber são estas. A primeira seria escolher, ou produzir, uma classe de pessoas superiores, capazes de julgar todos os assuntos sem consultar os vizinhos, ou seja, em suma, obter para nós o que costumava ser chamado de aristocracia do intelecto. A segunda seria, com o propósito de proteger a liberdade da vontade individual, voltar de novo a um sistema de propriedade privada e ter escravos e senhores de escravos outra vez. Que acha desses dois expedientes?” “Bem”, disse eu, “há uma terceira possibilidade, a saber, que cada homem seja inteiramente independente de todos os outros, e que assim a tirania da sociedade seja abolida.” Ele me olhou fixamente por um ou dois segundos e então rompeu numa risada muito franca, e confesso que me juntei a ele. Quando se recompôs, assentiu para mim e disse: “Sim, sim, concordo plenamente com você, e todos nós concordamos também.”
“Sim”, eu disse, “e além disso isso não pesa duramente sobre a minoria, pois, no caso da ponte, nenhum homem é obrigado a trabalhar nela se discorda de sua construção. Ao menos, suponho que não.” Ele sorriu e disse: “Posto com astúcia, embora do ponto de vista de um natural de outro planeta. Se o homem da minoria sente seus sentimentos feridos, sem dúvida pode aliviá-los recusando-se a ajudar na construção da ponte. Mas, caro vizinho, isso não é um bálsamo muito eficaz para a ferida causada pela ‘tirania da maioria’ em nossa sociedade, porque todo trabalho feito é benéfico ou prejudicial a cada membro da sociedade. O homem é beneficiado pela construção da ponte se ela se revela uma coisa boa, e prejudicado por ela se se revela uma coisa ruim, quer ponha a mão nela, quer não. Enquanto isso, ele beneficia os construtores da ponte com seu trabalho, qualquer que seja. Na verdade, não vejo socorro para ele, salvo o prazer de dizer ‘eu bem avisei’ se a construção da ponte se mostrar um erro e o prejudicar. Se ela o beneficia, ele deve sofrer em silêncio. Uma terrível tirania, nosso comunismo, não é? As pessoas costumavam ser advertidas contra essa exata infelicidade em tempos passados, quando, para cada pessoa bem alimentada e contente que se via, havia mil miseráveis famintos. Quanto a nós, engordamos e ficamos satisfeitos nessa tirania, uma tirania, para dizer a verdade, que nenhum microscópio que conheço conseguiria tornar visível. Não tema, meu amigo. Não vamos procurar problemas chamando nossa paz, nossa fartura e nossa felicidade por nomes feios cujo próprio sentido esquecemos!” Ele ficou meditando por um pouco, depois se sobressaltou e disse: “Há mais perguntas, querido hóspede? A manhã vai se acabando entre a minha tagarelice.”