Universo da obra
Universo da obra
Na Liga, diz um amigo, houve certa noite uma discussão viva e conversada sobre aquilo que aconteceria no dia seguinte à Revolução, e ela acabou se inclinando para uma exposição vigorosa, feita por vários companheiros, de suas opiniões sobre o futuro da nova sociedade quando já estivesse plenamente desenvolvida. Considerado o assunto, diz nosso amigo, a discussão manteve bastante bom humor, pois os presentes estavam acostumados a reuniões públicas e a debates depois de palestras. Ainda que não escutassem muito as opiniões uns dos outros, coisa que mal se podia esperar deles, ao menos nem sempre tentavam falar todos ao mesmo tempo, como costuma acontecer entre pessoas da sociedade polida comum quando conversam sobre um tema que as interessa.
Quanto ao resto, havia seis pessoas presentes, e por isso seis setores do partido estavam representados, quatro deles com opiniões anarquistas fortes e divergentes. Um desses setores, diz nosso amigo, era um homem que ele conhecia muito bem. No começo da discussão ficou quase em silêncio, depois foi sendo puxado para dentro dela, e acabou berrando com grande força, mandando todos os demais ao inferno por serem tolos. Seguiu-se um período de ruído, depois uma pausa. Então o referido setor, após dar boa noite com muita cordialidade, tomou sozinho o caminho de casa, rumo a um subúrbio ocidental, usando o meio de transporte que a civilização nos impôs como hábito. Sentado naquele banho de vapor de humanidade apressada e descontente, um vagão do trem subterrâneo, ele, como os outros, cozinhava em desagrado, enquanto num humor de censura contra si mesmo repassava os muitos argumentos excelentes e conclusivos que, embora estivessem ao alcance dos dedos, esquecera na discussão recém-encerrada.
Esse estado de espírito, contudo, era tão conhecido para ele que não durou muito. Depois de um breve mal-estar, causado pelo desgosto consigo mesmo por ter perdido a calma, coisa a que também estava bem habituado, ele se viu meditando sobre a matéria da discussão, ainda descontente e infeliz. “Se eu pudesse ver um dia disso”, disse para si mesmo, “se eu pudesse ver!” Quando formou essas palavras, o trem parou em sua estação, a cinco minutos de caminhada de sua própria casa, que ficava às margens do Tâmisa, pouco acima de uma feia ponte suspensa. Ele saiu da estação, ainda descontente e infeliz, murmurando “Se eu pudesse ver! se eu pudesse ver!”, e não havia dado muitos passos em direção ao rio quando, diz o amigo que conta a história, todo aquele desagrado e toda aquela aflição pareceram escorregar para longe dele.
Era uma bela noite de começo de inverno, com o ar apenas frio o bastante para refrescar depois da sala quente e do vagão fétido. O vento, que pouco antes virara um ou dois pontos ao norte do oeste, limpara o céu de todas as nuvens, salvo uma ou duas manchas leves que corriam depressa pelos altos. Havia uma lua nova a meio caminho no céu, e quando o homem a caminho de casa a avistou, enredada nos galhos de um velho olmo alto, quase não conseguiu trazer à mente o pobre subúrbio londrino onde estava. Sentiu como se estivesse num lugar agradável do campo, mais agradável, na verdade, que o interior afastado tal como o conhecera.
Desceu direto até a margem do rio e se demorou um pouco, olhando por cima do muro baixo para notar o rio ao luar, quase em maré cheia, girando e cintilando até Chiswick Eyot. Quanto à feia ponte abaixo, não a percebeu nem pensou nela, exceto quando por um momento, diz nosso amigo, lhe ocorreu que sentia falta da fileira de luzes rio abaixo. Depois virou-se para a porta de casa e entrou. Mesmo enquanto fechava a porta, desapareceu toda lembrança daquela lógica brilhante e daquela previsão que haviam iluminado a discussão recente. Da própria discussão não restou sinal algum, salvo uma esperança vaga, já convertida em prazer, por dias de paz e repouso, de limpeza e boa vontade sorridente.
Nesse humor, atirou-se na cama e adormeceu como de costume, em dois minutos. Algum tempo depois, ao contrário do costume, acordou naquela condição curiosamente desperta que às vezes surpreende até os bons dormidores, uma condição na qual sentimos todas as faculdades extraordinariamente aguçadas, enquanto todas as confusões miseráveis em que já nos metemos, todas as vergonhas e perdas de nossas vidas, insistem em se apresentar para o exame dessas faculdades aguçadas. Nesse estado ficou deitado, diz nosso amigo, até quase começar a gostar daquilo. A lista de suas tolices o divertia, e os embaraços diante dele, que via com tanta clareza, começaram a tomar a forma de uma história divertida.
Ouviu bater uma hora, depois duas, depois três, e em seguida adormeceu de novo. Nosso amigo diz que desse sono acordou mais uma vez e, depois disso, passou por aventuras tão surpreendentes que julga que elas devem ser contadas aos nossos camaradas e, de fato, ao público em geral. Por isso se propõe a contá-las agora. Contudo, diz ele, penso que seria melhor narrá-las na primeira pessoa, como se eu mesmo as tivesse vivido, o que será, de fato, mais fácil e mais natural para mim, já que compreendo os sentimentos e desejos do camarada de quem estou falando melhor que qualquer outra pessoa no mundo.
Tradução original Literunico a partir do texto inglês de News from Nowhere; Or, An Epoch of Rest, de William Morris, publicado em 1890 e disponível em domínio público no Project Gutenberg. William Morris faleceu em 1896, o que coloca a obra em domínio público no Brasil pelo prazo de vida do autor mais setenta anos. Capa baseada no frontispício da edição Kelmscott Press de 1893, arquivo de domínio público no Wikimedia Commons.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.