Universo da obra
Universo da obra
Tendo sido bom o ano, Claes comprou por sete florins um burro e nove rasas de ervilhas, e certa manhã montou no animal. Ulenspiegel ia na garupa, atrás dele.
Assim equipados, iam saudar o tio e irmão mais velho de Claes, Josse Claes, que morava não longe de Meyberg, em terras da Alemanha.
Josse, que fora simples e doce de coração em sua bela juventude, depois de sofrer diversas injustiças tornou-se rabugento; seu sangue converteu-se em bile negra, ele passou a odiar os homens e viveu solitário.
Seu prazer era então fazer com que dois supostos amigos fiéis se espancassem, e dava três patards àquele que batesse com mais crueldade no outro.
Gostava também de reunir numa sala bem aquecida muitas comadres, escolhendo as mais velhas e implicantes, e dava-lhes pão torrado para comer e hipocraz para beber.
Às que tinham mais de sessenta anos dava lã para tricotar num canto, recomendando-lhes, além disso, que deixassem sempre crescer as unhas.
E era maravilha ouvir os gargarejos, os estalos de língua, as maledicências, as tosses e os escarros azedos daquelas velhas corujas que, com seus adereços debaixo do braço, roíam em comum a honra do próximo.
Quando as via bem inflamadas, Josse lançava uma escova ao fogo, e o ar logo se enchia do mau cheiro daquilo que queimava.
Então as comadres, falando todas ao mesmo tempo, acusavam-se umas às outras de serem a causa do odor. Como todas negavam, logo se agarravam pelos cabelos, e Josse lançava mais escovas ao fogo e espalhava pelo chão crina cortada. Quando já não conseguia enxergar nada, de tão furiosa a refrega, tão espessa a fumaça e tão alto o pó levantado, ia buscar dois criados seus, disfarçados de sargentos da comuna, que expulsavam as velhas da sala a grandes golpes de vara, como um rebanho de gansas enfurecidas.
E Josse, contemplando o campo de batalha, encontrava ali retalhos de vestidos, calças, camisas e dentes velhos.
Então, muito melancólico, dizia consigo:
— Meu dia foi perdido. Nenhuma delas deixou a língua na briga.
A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.
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