Universo da obra
Universo da obra
Era o tempo das uvas maduras, no mês do vinho, no quarto dia, quando, na cidade de Bruxelas, depois da missa principal, lançam-se do alto da torre de Saint-Nicolas sacos de nozes ao povo.
Durante a noite, Nele foi despertada por gritos vindos da rua.
Procurou Katheline no quarto e não a encontrou.
Correu para baixo, abriu a porta, e Katheline entrou dizendo:
— Salva-me! Salva-me! O lobo! O lobo!
E Nele ouviu na planície uivos distantes.
Tremendo, acendeu todas as lâmpadas, círios e velas.
— Que aconteceu, Katheline? — perguntava, apertando-a nos braços.
Katheline sentou-se, de olhos arregalados, e disse, contemplando as velas:
— É o sol. Ele afasta os maus espíritos. O lobo, o lobo uiva nos campos.
— Mas — disse Nele —, por que saíste da cama, onde estavas aquecida, para apanhar febre nas noites úmidas de setembro?
Katheline disse:
— Hanske gritou esta noite como a coruja, e eu abri a porta. Ele me disse: “Toma a bebida da visão”, e eu bebi. Hanske é belo. Tirai o fogo. Depois me conduziu para perto do canal e disse: “Katheline, devolverei os setecentos carolus. Tu os entregarás a Ulenspiegel, filho de Claes. Aqui tens dois para comprar um vestido. Logo terás mil.”
“Mil?”, disse eu. “Meu amado, então serei rica.”
“Tu os terás”, disse ele. “Mas não há em Damme mulheres ou moças que sejam agora tão ricas quanto tu serás?”
“Não sei”, respondi.
Mas não quis dizer os nomes, por medo de que ele as amasse.
Então disse: “Informa-te e dize-me os nomes quando eu voltar.”
O ar estava frio. A neblina deslizava sobre os prados. Ramos secos caíam das árvores sobre o caminho. E a lua brilhava, e havia fogos sobre a água do canal.
Hanske disse-me: “Esta é a noite dos lobisomens. Todas as almas culpadas saem do inferno. É preciso fazer três sinais da cruz com a mão esquerda e gritar: ‘Sal! Sal! Sal!’, que é o emblema da imortalidade. Então não te farão mal.”
E eu disse: “Farei o que desejas, Hanske, meu querido.”
Ele me beijou, dizendo: “És minha mulher.”
“Sim”, respondi.
E, ao ouvir sua palavra doce, uma felicidade celeste deslizou sobre meu corpo como bálsamo.
Coroou-me de rosas e disse:
“És bela.”
E eu lhe disse:
“Tu também és belo, Hanske, meu querido, em teus finos trajes de veludo verde com galões dourados, com a longa pluma de avestruz flutuando sobre o gorro e com o rosto pálido como o fogo das ondas do mar. E, se as moças de Damme te vissem, todas correriam atrás de ti, pedindo teu coração. Mas só deves entregá-lo a mim, Hanske.”
Ele disse:
“Procura saber quais são as mais ricas. A fortuna delas será tua.”
Depois partiu, deixando-me ali, depois de proibir que eu o seguisse.
Fiquei fazendo tilintar na mão os três carolus, toda trêmula e enregelada por causa da neblina, quando vi sair de uma margem, subindo o barranco, um lobo de rosto verde e longos juncos presos ao pelo branco.
Gritei:
“Sal! Sal! Sal!”
E fiz o sinal da cruz.
Mas ele não pareceu ter medo.
Corri com todas as forças, eu gritando e ele uivando. Ouvi o estalo seco de seus dentes perto de mim, e uma vez tão perto do ombro que pensei que iria agarrar-me.
Mas corri mais depressa que ele.
Por grande felicidade, encontrei na esquina da rua da Garça o guarda noturno com a lanterna.
“O lobo! O lobo!”, gritei.
“Não tenhas medo”, disse ele. “Vou levar-te para casa, Katheline, a enlouquecida.”
E senti que a mão que me segurava tremia.
Ele também tinha medo.
— Mas recuperou a coragem — disse Nele. — Ouves agora como canta, arrastando a voz: De clock is tien, tien aen de clock. São dez horas no sino, no sino dez horas! E faz ranger a matraca.
— Tirai o fogo — dizia Katheline. — A cabeça queima. Volta, Hanske, meu querido.
E Nele contemplava Katheline e pedia a Nossa Senhora, a Virgem, que lhe retirasse da cabeça o fogo da loucura.
E chorou sobre ela.
A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.