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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 80 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 1 — Capítulo LXXX

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Livro 1 — Capítulo LXXX

Durante os vinte e três dias seguintes, Katheline tornou-se branca, magra e ressequida, como se fosse devorada por fogo interior mais corrosivo que o da loucura.

Já não dizia: “Fogo! Abri um buraco! A alma quer sair!”, mas permanecia sempre arrebatada em êxtase e falava a Nele:

— Esposa sou. Esposa deves ser. Belo, cabelos compridos, amor quente, joelhos frios e braços frios!

Soetkin olhava-a tristemente, acreditando tratar-se de nova loucura.

Katheline continuava:

— Três vezes três fazem nove, número sagrado. Aquele que durante a noite tem olhos brilhantes como os dos gatos é o único que vê o mistério.

Certa noite, Soetkin, ouvindo-a, fez um gesto de dúvida.

Mas Katheline disse:

— Quatro e três: desgraça sob Saturno. Sob Vênus, número de casamento. Braços frios! Joelhos frios! Coração de fogo!

Soetkin respondeu:

— Não deves falar dos perversos ídolos pagãos.

Ao ouvir isso, Katheline fez o sinal da cruz e disse:

— Bendito seja o cavaleiro cinzento. Nele precisa de marido, belo marido que carregue espada, marido negro de rosto brilhante.

— Sim — dizia Ulenspiegel —, fricassê de maridos cujo molho farei com minha faca.

Nele olhou para o amigo com olhos úmidos de prazer ao vê-lo tão ciumento.

— Não quero nenhum — disse ela.

Katheline respondeu:

— Quando vier aquele que veste cinzento, sempre de botas e esporas de outra espécie...

Soetkin dizia:

— Rogai a Deus pela louca.

— Ulenspiegel — disse Katheline —, vai buscar quatro libras de dobbel-kuyt, enquanto preparo os heete-koeken, que na França chamam de crepes.

Soetkin perguntou por que ela celebrava o sábado como os judeus.

Katheline respondeu:

— Porque a massa está pronta.

Ulenspiegel estava de pé, segurando a grande caneca de estanho inglês que continha exatamente a medida.

— Mãe, que devo fazer? — perguntou.

— Vai — disse Katheline.

Soetkin já não queria responder, pois não era senhora da casa. Disse a Ulenspiegel:

— Vai, meu filho.

Ulenspiegel correu até o Scaeck e trouxe dali os quatro litros de dobbel-kuyt.

Logo o aroma dos heete-koeken espalhou-se pela cozinha, e todos sentiram fome, até a triste aflita.

Ulenspiegel comeu bem.

Katheline lhe dera uma grande caneca, dizendo que, sendo o único homem e chefe da casa, devia beber mais que as outras e depois cantar.

E, ao dizer isso, tinha ar malicioso.

Mas Ulenspiegel bebeu e não cantou.

Nele chorava ao contemplar Soetkin, pálida e toda dobrada sobre si mesma.

Somente Katheline estava alegre.

Depois da refeição, Soetkin e Ulenspiegel subiram ao sótão para deitar-se. Katheline e Nele permaneceram na cozinha, onde suas camas estavam preparadas.

Por volta das duas horas da manhã, Ulenspiegel dormia havia muito tempo por causa do peso da bebida.

Soetkin, de olhos abertos, como em todas as noites, rogava a madame a Virgem que lhe desse sono, mas madame não a escutava.

De repente, ouviu o grito de uma coruja-das-torres e, vindo da cozinha, um grito semelhante em resposta.

Depois, ao longe, nos campos, outros gritos ressoaram, e sempre lhe parecia que alguém lhes respondia da cozinha.

Pensando que fossem aves noturnas, não lhes deu atenção.

Ouviu relinchos de cavalos e o ruído de cascos ferrados batendo na estrada.

Abriu a janela do sótão e viu de fato dois cavalos selados, inquietos e pastando a relva da margem.

Ouviu então uma voz de mulher gritando, uma voz de homem ameaçando, golpes desferidos, novos gritos, uma porta fechando-se com estrondo e passos angustiados subindo as escadas.

Ulenspiegel roncava e nada ouvia.

A porta do sótão abriu-se.

Nele entrou quase nua, sem fôlego e chorando aos soluços. Colocou às pressas contra a porta uma mesa, cadeiras, um velho braseiro e todos os móveis que conseguiu encontrar.

As últimas estrelas estavam prestes a apagar-se, e os galos cantavam.

Ulenspiegel, ao barulho feito por Nele, voltou-se na cama, mas continuou dormindo.

Nele então lançou-se ao pescoço de Soetkin:

— Soetkin — disse —, tenho medo. Acende a vela.

Soetkin obedeceu.

E Nele continuava gemendo.

Acendida a vela, Soetkin olhou para Nele e viu a camisa da menina rasgada no ombro e, sobre a testa, a face e o pescoço, marcas ensanguentadas como as deixadas por unhas.

— Nele — disse Soetkin, abraçando-a —, de onde vens assim ferida?

A menina, tremendo e sempre gemendo, respondeu:

— Não faças com que nos queimem, Soetkin.

Entretanto, Ulenspiegel despertava e piscava os olhos diante da luz da vela.

Soetkin perguntou:

— Quem está lá embaixo?

Nele respondeu:

— Cala-te. É o marido que ela quer dar-me.

Soetkin e Nele ouviram de repente Katheline gritar, e as pernas de ambas fraquejaram.

— Ele bate nela! Bate nela por minha causa! — dizia Nele.

— Quem está na casa? — gritou Ulenspiegel, saltando da cama.

Depois, esfregando os olhos, vagou pelo aposento até pôr a mão num pesado atiçador que jazia num canto.

— Ninguém — dizia Nele. — Ninguém. Não vás, Ulenspiegel!

Mas ele, sem ouvir, correu para a porta, lançando de lado cadeiras, mesa e braseiro.

Katheline continuava gritando lá embaixo.

Nele e Soetkin seguraram Ulenspiegel no patamar, uma pelo corpo, outra pelas pernas, dizendo:

— Não vás, Ulenspiegel! São diabos!

— Sim — respondia ele —, diabo marido de Nele. Vou casá-lo maritalmente com meu atiçador. Noivado de ferro e carne! Deixai-me descer.

Elas não o soltavam, pois tiravam força de estar agarradas ao corrimão.

Ele as arrastava pelos degraus, e elas tinham medo de se aproximar assim dos diabos.

Mas nada puderam contra ele.

Descendo aos saltos, como bola de neve do alto de uma montanha, entrou na cozinha.

Viu Katheline despenteada e pálida à luz da aurora e ouviu-a dizer:

— Hanske, por que me deixas sozinha? Não é culpa minha se Nele é má.

Ulenspiegel, sem escutá-la, abriu a porta do estábulo.

Nada encontrando, lançou-se ao terreno e dali à estrada.

Viu ao longe dois cavalos correndo e desaparecendo na névoa.

Correu para alcançá-los, mas não conseguiu, pois iam como vento sul varrendo folhas secas.

Regressou, abatido de cólera e desespero, dizendo entre os dentes:

— Abusaram dela! Abusaram dela!

E olhava, com os olhos ardendo numa chama perversa, para Nele, que, toda trêmula, diante da viúva e de Katheline, dizia:

— Não, Thyl, meu amado, não.

Dizendo isso, olhava-o nos olhos com tamanha tristeza e franqueza que Ulenspiegel percebeu que dizia a verdade.

Depois perguntou:

— De onde vinham os gritos? Aonde iam aqueles homens? Por que tua camisa está rasgada no ombro e nas costas? Por que trazes na testa e na face marcas de unhas?

— Escuta — disse ela —, mas não faças com que nos queimem, Ulenspiegel.

“Katheline, que Deus a salve do inferno, tem há vinte e três dias como amante um diabo vestido de negro, de botas e esporas.

“Seu rosto brilha como o fogo que se vê durante o verão sobre as ondas do mar quando faz calor.”

— Por que partiste, Hanske, meu belo? — dizia Katheline. — Nele é má.

Mas Nele continuava:

— Ele grita como coruja-das-torres para anunciar sua chegada. Minha mãe o vê na cozinha todos os sábados. Diz que seus beijos são frios e que seu corpo é como neve. Ele bate nela quando não faz tudo quanto deseja. Certa vez trouxe-lhe alguns florins, mas em todas as outras ocasiões levou-lhe tudo.

Durante o relato, Soetkin unia as mãos e rezava por Katheline.

Katheline dizia alegre:

— Meu corpo já não me pertence, meu espírito já não me pertence, mas a ele. Hanske, meu belo, leva-me novamente ao sabá. Só Nele nunca quer ir. Nele é má.

— Ao amanhecer ele partia — continuou a menina. — No dia seguinte, minha mãe contava-me cem coisas muito estranhas.

“Mas não me olhes com olhos tão perversos, Ulenspiegel.

“Ontem ela me disse que um belo senhor, vestido de cinzento e chamado Hilbert, queria tomar-me por esposa e viria à casa mostrar-se a mim.

“Respondi que não queria marido, feio nem belo.

“Com sua autoridade de mãe, obrigou-me a ficar acordada esperando-os, pois não perde de todo a razão quando se trata de seus amores.

“Estávamos meio despidas e prontas para deitar. Eu adormecera naquela cadeira.

“Quando entraram, não despertei.

“De repente, senti alguém abraçar-me e beijar-me no pescoço.

“À luz da lua clara, vi um rosto brilhante como as cristas das ondas do mar em julho, quando vai trovejar, e ouvi alguém dizer-me em voz baixa:

“‘Sou Hilbert, teu marido. Sê minha e farei de ti uma mulher rica.’

“O rosto de quem falava cheirava a peixe.

“Empurrei-o.

“Ele quis tomar-me à força, mas eu tinha a força de dez homens como ele.

“Contudo, rasgou minha camisa, feriu-me no rosto e repetia sempre:

“‘Sê minha e farei de ti uma mulher rica.’

“‘Sim’, respondia eu, ‘como minha mãe, a quem tirarás o último liard.’

“Então redobrou a violência, mas nada conseguiu contra mim.

“Como era mais feio que um morto, enfiei-lhe as unhas nos olhos com tanta força que ele gritou de dor, e pude escapar e vir para junto de Soetkin.”

Katheline repetia:

— Nele é má. Por que partiste tão depressa, Hanske, meu belo?

— Onde estavas, mãe perversa? — perguntou Soetkin. — Enquanto tentavam tirar a honra de tua filha?

— Nele é má — respondeu Katheline. — Eu estava junto de meu senhor negro quando o diabo cinzento veio até nós, com o rosto ensanguentado, e disse: “Vamos embora, rapaz. A casa é má. Os homens querem bater-nos até a morte, e as mulheres têm facas nas pontas dos dedos.”

“Depois correram até os cavalos e desapareceram na névoa.

“Nele é má!”

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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