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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 139 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 3 — Capítulo XXXV

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Livro 3 — Capítulo XXXV

Ao passarem diante do bosque de Peteghem, Lamme disse a Ulenspiegel:

— Estou assando. Procuremos sombra.

— Procuremos — respondeu Ulenspiegel.

Sentaram-se na relva, dentro do bosque, e viram passar diante deles um bando de cervos.

— Olha bem, Lamme — disse Ulenspiegel, armando o arcabuz alemão. — Eis os grandes cervos velhos, que ainda trazem seus escudeiros e ostentam orgulhosamente galhadas de nove pontas. Graciosos veados jovens, seus pajens, trotam ao lado deles, prontos a servi-los com os chifres afiados. Vão para o lugar de repouso. Gira a roda do arcabuz, como faço eu. Atira. O velho cervo está ferido. Um veado jovem foi atingido na coxa e foge. Sigamo-lo até que caia. Faze como eu: corre, salta e voa.

— Bem próprio de meu amigo louco — dizia Lamme —, perseguir cervos correndo. Não voes sem asas, pois é trabalho perdido. Não os alcançarás. Ah, companheiro cruel! Julgas que sou tão ágil quanto tu? Estou suando, meu filho; estou suando e vou cair. Se o guarda-florestal te apanhar, serás enforcado. O cervo é caça do rei. Deixa-os correr, meu filho, não os apanharás.

— Vem — disse Ulenspiegel. — Ouves o ruído da galhada entre as folhas? É uma tromba passando. Vês os ramos novos quebrados e as folhas espalhadas pelo chão? Ele tem outra bala na coxa, desta vez. Nós o comeremos.

— Ainda não está cozido — disse Lamme. — Deixa correr os pobres animais. Ah, como faz calor! Sem dúvida cairei aqui e não tornarei a levantar-me.

De repente, homens esfarrapados e armados encheram a floresta por todos os lados.

Cães latiram e lançaram-se na perseguição dos cervos.

Quatro homens ferozes cercaram Lamme e Ulenspiegel e os conduziram a uma clareira, no meio de um matagal. Ali viram, entre mulheres e crianças acampadas, grande número de homens armados de maneiras diversas, com espadas, bestas, arcabuzes, lanças, chuços e pistolas de reiters.

Ao vê-los, Ulenspiegel perguntou:

— Sois os homens das folhagens ou os Irmãos do Bosque, que pareceis viver aqui em comunidade para fugir à perseguição?

— Somos Irmãos do Bosque — respondeu um velho sentado junto ao fogo, fritando alguns pássaros numa frigideira. — Mas quem és tu?

— Sou da bela terra de Flandres — respondeu Ulenspiegel —, pintor, camponês, fidalgo e escultor, tudo ao mesmo tempo. E assim passeio pelo mundo, louvando as coisas belas e boas e zombando da estupidez a plenos pulmões.

— Se percorreste tantas terras — disse o velho —, sabes pronunciar Schild ende Vriendt, escudo e amigo, à maneira dos habitantes de Gante. Do contrário, és falso Flamengo e morrerás.

Ulenspiegel pronunciou:

— Schild ende Vriendt.

— E tu, grande pança — perguntou o velho, falando a Lamme —, qual é teu ofício?

Lamme respondeu:

— Comer e beber minhas terras, fazendas, arrendamentos e propriedades, procurar minha mulher e seguir por toda parte meu amigo Ulenspiegel.

— Se viajaste tanto — disse o velho —, não ignoras como se chamam os habitantes de Weert, em Limburgo.

— Não sei — respondeu Lamme. — Mas não me direis o nome do malandro escandaloso que expulsou minha mulher de casa? Entregai-o a mim, e irei matá-lo imediatamente.

O velho respondeu:

— Há neste mundo duas coisas que jamais voltam depois de fugir: dinheiro gasto e mulher cansada que levanta voo.

Depois, falando a Ulenspiegel:

— Sabes como se chamam os habitantes de Weert, em Limburgo?

— De raekstekers, os exorcizadores de arraias — respondeu Ulenspiegel. — Certo dia, uma arraia viva caiu da carroça de um peixeiro. Algumas velhas, vendo-a saltar, tomaram-na pelo diabo. “Vamos buscar o cura para exorcizar a arraia”, disseram. O cura a exorcizou e, levando-a consigo, preparou uma bela fricassê em homenagem aos habitantes de Weert. Que Deus faça o mesmo com o rei de sangue.

Nesse meio-tempo, os latidos dos cães ressoavam na floresta. Os homens armados, correndo pelo bosque, gritavam para assustar o animal.

— É o cervo e o veado jovem que pus em fuga — disse Ulenspiegel.

— Nós os comeremos — disse o velho. — Mas como se chamam os habitantes de Eindhoven, em Limburgo?

— De pinnemakers, os fabricantes de ferrolhos — respondeu Ulenspiegel. — Certo dia, estando o inimigo à porta da cidade, eles a trancaram com uma cenoura. Vieram os gansos, que a devoraram a grandes bicadas, e os inimigos entraram em Eindhoven. Mas serão bicos de ferro que comerão os ferrolhos das prisões onde querem encerrar a consciência livre.

— Se Deus está conosco, quem será contra nós? — respondeu o velho.

Ulenspiegel disse:

— Latidos de cães, uivos de homens e ramos quebrados. É uma tempestade na floresta.

— A carne de cervo é boa? — perguntou Lamme, olhando as fricassês.

— Os gritos dos batedores se aproximam — disse Ulenspiegel a Lamme. — Os cães estão bem perto. Que trovão! O cervo! O cervo! Sai da frente, meu filho. Fiau! Que animal horrível! Lançou meu gordo amigo ao chão, no meio das frigideiras, caçarolas, panelas, marmitas e fricassês. Eis as mulheres e moças fugindo enlouquecidas de terror. Estás sangrando, meu filho?

— Tu ris, malandro — disse Lamme. — Sim, estou sangrando. Ele me espetou a galhada nas nádegas. Vê minhas calças rasgadas e também minha carne. E todas essas belas fricassês estão no chão. Eis que perco todo o sangue pela parte de baixo.

— Esse cervo é cirurgião previdente. Salva-te de uma apoplexia — respondeu Ulenspiegel.

— Fiau! Malandro sem coração — disse Lamme. — Não te seguirei mais. Ficarei aqui entre estes bons homens e boas mulheres. Podes ser tão duro com minhas dores, sem vergonha, quando sigo teus calcanhares como um cão, pela neve, pelo gelo, pela chuva, pelo granizo e pelo vento, e quando faz calor, suando a alma para fora da pele?

— Tua ferida não é nada. Coloca nela uma olie-koekje, que servirá de emplastro frito — respondeu Ulenspiegel. — Mas sabes como se chamam os habitantes de Louvain? Não sabes, pobre amigo. Pois vou dizer-te, para impedir que gemas. Chamam-nos de koeye-schieters, os atiradores de vacas, pois um dia foram tolos o bastante para atirar contra vacas, tomando-as por soldados inimigos. Quanto a nós, atiramos contra os bodes espanhóis. A carne deles fede, mas a pele é boa para fazer tambores. E os habitantes de Tirlemont? Sabes? Tampouco. Trazem o glorioso apelido de kirekers. Pois entre eles, na igreja principal, no dia de Pentecostes, um pato voa do coro até o altar, e essa é a imagem de seu Espírito Santo. Coloca uma koeke-backe sobre a ferida. Estás recolhendo em silêncio as caçarolas e fricassês derrubadas pelo cervo. Isso é coragem de cozinha. Tornas a acender o fogo e colocas novamente o caldeirão de sopa sobre os três esteios. Cuidas da cocção com muita atenção. Sabes por que existem quatro maravilhas em Louvain? Não. Vou dizer-te. Primeiro, porque os vivos passam debaixo dos mortos, pois a igreja de Saint-Michel foi construída junto à porta da cidade, e o cemitério fica acima dela. Segundo, porque os sinos ficam fora das torres, como se vê na igreja de Saint-Jacques, onde há um sino grande e um pequeno. Como o pequeno não podia ser colocado no campanário, puseram-no do lado de fora. Terceiro, por causa do altar fora da igreja, pois a fachada de Saint-Jacques se parece com um altar. Quarto, por causa da Torre sem Pregos, pois a flecha da igreja de Sainte-Gertrude foi construída de pedra, em vez de madeira, e pedras não são pregadas, exceto o coração do rei de sangue, que eu gostaria de pregar sobre a porta principal de Bruxelas. Mas não me escutas. Não há sal nos molhos? Sabes por que os habitantes de Termonde são chamados de braseiros, de vierpannen? Porque um jovem príncipe devia passar uma noite de inverno na hospedaria das Armas de Flandres, e o hospedeiro não soube como aquecer os lençóis, pois lhe faltava um braseiro. Mandou a filha jovem aquecer a cama. Ouvindo o príncipe chegar, ela saiu correndo, e o príncipe perguntou por que não haviam deixado o braseiro. Que Deus faça Filipe, encerrado numa caixa de ferro em brasa, servir de braseiro ao leito de madame Astarté.

— Deixa-me em paz — disse Lamme. — Pouco me importam tu, os vierpannen, a Torre sem Pregos e todas essas tolices. Deixa-me com meus molhos.

— Cuidado — disse Ulenspiegel. — Os latidos não param de ressoar. Estão mais fortes. Os cães uivam, o clarim toca. Cuidado com o cervo. Estás fugindo. O clarim toca.

— É a distribuição da caça — disse o velho. — Volta, Lamme, para junto de tuas fricassês. O cervo está morto.

— Teremos uma boa refeição — disse Lamme. — Vós me convidareis ao banquete, por causa do trabalho que tenho por vós. O molho dos pássaros estará bom. Range um pouco, contudo. É a areia sobre a qual caíram quando aquele grande diabo de cervo me rasgou ao mesmo tempo o gibão e a carne. Mas não temeis os guardas-florestais?

— Somos numerosos demais — disse o velho. — Eles têm medo e não nos perturbam. O mesmo acontece com os apanha-carne e os juízes. Os habitantes das cidades gostam de nós, pois não fazemos mal. Ainda viveremos algum tempo em paz, a menos que o exército espanhol nos cerque. Se isso acontecer, homens velhos e jovens, mulheres, moças, meninos e meninas, venderemos cara nossa vida e nos mataremos uns aos outros antes de suportar mil martírios sob a mão do duque de Sangue.

Ulenspiegel disse:

— Já não é tempo de combater em terra o carrasco. É no mar que se deve destruir seu poder. Segui em direção às ilhas da Zelândia, por Bruges, Heyst e Knokke.

— Não temos dinheiro — disseram eles.

Ulenspiegel respondeu:

— Aqui estão mil carolus da parte do príncipe. Segui os cursos d’água, canais, rios e ribeiros. Quando virdes navios trazendo o sinal JHS, que um de vós cante como a cotovia. O clarim do galo responderá. E estareis em terra amiga.

— Assim faremos — disseram eles.

Logo apareceram os caçadores, seguidos pelos cães, arrastando o cervo morto por meio de cordas.

Todos se sentaram em círculo ao redor do fogo.

Eram uns sessenta, homens, mulheres e crianças.

O pão foi retirado das bolsas de caça, as facas, das bainhas. O cervo foi cortado, esfolado, estripado e posto no espeto com a caça menor.

Ao fim da refeição, Lamme foi visto roncando, com a cabeça caída sobre o peito, dormindo encostado numa árvore.

Quando a noite caiu, os Irmãos do Bosque entraram em cabanas subterrâneas para dormir. Lamme e Ulenspiegel fizeram o mesmo.

Homens armados permaneceram acordados, guardando o acampamento.

E Ulenspiegel ouvia sob seus pés o gemido das folhas secas.

No dia seguinte, partiu com Lamme, enquanto os habitantes do acampamento lhe diziam:

— Bendito sejas. Iremos para o mar.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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