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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 145 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 3 — Capítulo XLI

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Livro 3 — Capítulo XLI

Enquanto seguiam para Bruges, Ulenspiegel disse a Lamme:

— Gastamos grande soma em alistamento de soldados, pagamento aos apanha-carne, presente à egípcia e nesses incontáveis olie-koekjes que te agradava comer sem descanso, em vez de vender um único. Ora, apesar de tua vontade ventral, chegou a hora de viver mais honestamente. Dá-me teu dinheiro. Guardarei a bolsa comum.

— Quero fazê-lo — disse Lamme.

E, entregando-lhe o dinheiro:

— Contudo, não me deixes morrer de fome. Pensa bem: gordo e poderoso como sou, preciso de alimentação substancial e abundante. Tu, magro e miserável, podes viver de um dia para o outro, comendo ou não aquilo que encontras, como as tábuas que vivem de ar e chuva nos cais. Mas eu, a quem o ar escava e a chuva dá fome, preciso de outros banquetes.

— Terás — disse Ulenspiegel — banquetes de jejuns virtuosos. Nem as barrigas mais cheias resistem a eles. Esvaziando-se pouco a pouco, tornam leve o homem mais pesado. E logo veremos Lamme, meu querido, suficientemente emagrecido, correr como um cervo.

— Ai! — dizia Lamme. — Qual será daqui em diante meu magro destino? Tenho fome, meu filho, e gostaria de cear.

A noite caía.

Chegaram a Bruges pela porta de Gante.

Mostraram os salvo-condutos.

Depois de pagarem meio soldo por si mesmos e dois pelos asnos, entraram na cidade.

Lamme, pensando nas palavras de Ulenspiegel, parecia abatido.

— Cearemos logo? — perguntava.

— Sim — respondia Ulenspiegel.

Hospedaram-se no In de Meermin, a Sereia, cujo cata-vento inteiramente dourado fica acima do frontão da hospedaria.

Colocaram os asnos no estábulo, e Ulenspiegel pediu para a própria ceia e a de Lamme pão, cerveja e queijo.

O hospedeiro ria com desprezo ao servir aquela refeição magra.

Lamme mastigava sem vontade, olhando desesperadamente para Ulenspiegel, que trabalhava com as mandíbulas sobre o pão velho demais e o queijo novo demais como se fossem hortulanas.

E Lamme bebia sua cerveja pequena sem prazer.

Ulenspiegel ria ao vê-lo tão triste.

Havia também alguém rindo no pátio da hospedaria e que às vezes mostrava o focinho nas vidraças.

Ulenspiegel viu que era uma mulher escondendo o rosto.

Pensando tratar-se de alguma criada maliciosa, não lhe deu mais atenção.

Vendo Lamme pálido, triste e lívido por ter seus amores da barriga contrariados, sentiu piedade e pensou em pedir para o companheiro uma omelete com chouriços, um prato de carne bovina com favas ou algum outro alimento quente.

Nesse momento, o baes entrou e disse, tirando a cobertura da cabeça:

— Se os senhores viajantes desejarem ceia melhor, falem e digam o que lhes apraz.

Lamme abriu muito os olhos e ainda mais a boca e olhou Ulenspiegel com angustiosa inquietação.

Este respondeu:

— Trabalhadores que viajam não são ricos.

— Acontece, contudo — disse o baes —, que não conhecem tudo quanto possuem.

E, apontando Lamme:

— Esta boa cara vale por duas outras. Que agradaria a Vossas Senhorias comer e beber? Uma omelete com presunto gordo? Choesels, preparados hoje? Castrelins? Um capão que se desfaz entre os dentes? Uma bela carbonada grelhada com molho de quatro especiarias? Dobbel-knol de Antuérpia? Dobbel-kuyt de Bruges? Vinho de Louvain preparado à maneira da Borgonha? E tudo sem pagar.

— Trazei tudo — disse Lamme.

A mesa logo ficou guarnecida.

Ulenspiegel divertiu-se vendo o pobre Lamme, mais faminto que nunca, lançar-se sobre a omelete, os choesels, o capão, o presunto e as carbonadas e verter aos litros pela garganta a dobbel-knol, a dobbel-kuyt e o vinho de Louvain preparado à maneira da Borgonha.

Quando já não conseguiu comer, soprou de alegria como uma baleia e olhou ao redor da mesa para ver se nada mais havia para meter debaixo dos dentes.

E mastigou as migalhas dos castrelins.

Nem Ulenspiegel nem ele haviam visto o bonito focinho olhando sorridente pelas vidraças e passando e tornando a passar pelo pátio.

O baes trouxe vinho cozido com canela e açúcar da Madeira.

Eles continuaram a beber.

E cantaram.

À hora do recolher, perguntou se desejavam subir, cada um, para seu grande e belo quarto.

Ulenspiegel respondeu que um pequeno bastava para os dois.

O baes disse:

— Não tenho nenhum. Cada um terá um quarto de senhor, sem pagar.

E de fato os conduziu a quartos ricamente mobiliados e tapeçados.

No de Lamme havia uma grande cama.

Ulenspiegel, que bebera muito e caía de sono, deixou-o ir deitar-se e fez o mesmo imediatamente.

No dia seguinte, ao meio-dia, entrou no quarto de Lamme e viu-o dormindo e roncando.

Ao lado dele havia uma graciosa bolsa cheia de moedas.

Abriu-a e viu que continha carolus de ouro e patards de prata.

Sacudiu Lamme para despertá-lo.

Este saiu do sono, esfregou os olhos e, olhando ao redor com inquietação, disse:

— Minha mulher! Onde está minha mulher?

E, apontando um lugar vazio ao lado dele na cama:

— Estava ali há pouco — disse.

Depois, saltando para fora da cama, tornou a olhar em toda parte, vasculhou todos os cantos do quarto, a alcova e os armários, e dizia, batendo o pé:

— Minha mulher! Onde está minha mulher?

O baes subiu ao ouvir o ruído.

— Malandro — disse Lamme, agarrando-o pelo pescoço —, onde está minha mulher? Que fizeste de minha mulher?

— Viajante impaciente — disse o baes —, tua mulher? Que mulher? Chegaste sozinho. Nada sei.

— Ah! Nada sabe — disse Lamme. — Nada sabe!

E tornou a vasculhar todos os cantos e recantos do quarto.

— Ai! Estava aqui, esta noite, em minha cama, como no tempo de nossos belos amores. Sim. Onde estás, minha querida?

E, lançando a bolsa ao chão:

— Não é teu dinheiro que quero. Quero a ti, teu doce corpo, teu bom coração, ó minha amada! Ó alegrias do céu, não voltareis mais. Eu me acostumara a não te ver, a viver sem amor, meu doce tesouro. E eis que, depois de me retomares, tornas a abandonar-me. Mas quero morrer. Ah, minha mulher! Onde está minha mulher?

E chorava lágrimas ardentes, deitado no chão onde se lançara.

Depois, abrindo de repente a porta, começou a correr por toda a hospedaria e pela rua, em camisa, gritando:

— Minha mulher! Onde está minha mulher?

Mas logo voltou, pois os rapazes malvados o vaiavam e lhe atiravam pedras.

Ulenspiegel disse-lhe, obrigando-o a vestir-se:

— Não te desesperes. Tornarás a vê-la, já que a viste. Ainda te ama, pois voltou para ti. Sem dúvida foi ela quem pagou a ceia e os quartos de senhor e colocou na cama esta bolsa cheia. As cinzas me dizem que isso não é obra de mulher infiel. Não chores mais e marchemos pela defesa da terra dos pais.

— Fiquemos ainda em Bruges — disse Lamme. — Quero percorrer toda a cidade, e a encontrarei.

— Não a encontrarás, pois ela se esconde de ti — disse Ulenspiegel.

Lamme pediu explicações ao baes, mas ele nada quis dizer.

E partiram em direção a Damme.

Enquanto caminhavam, Ulenspiegel perguntou a Lamme:

— Por que não me contas como a encontraste junto de ti esta noite e como ela partiu?

— Meu filho — respondeu Lamme —, sabes que havíamos festejado a carne, a cerveja e o vinho e que eu mal conseguia respirar quando fomos deitar-nos. Levava, para iluminar-me, uma vela de cera como um senhor e coloquei o castiçal sobre um aparador para dormir. A porta ficara entreaberta, e o aparador estava bem perto. Enquanto me despia, contemplava a cama com grande amor e desejo de sono. A vela de cera apagou-se de repente. Ouvi como um sopro e o ruído de passos leves no quarto. Mas, tendo mais sono que medo, deitei-me pesadamente. Quando ia adormecer, uma voz, a voz dela, ó minha mulher, minha pobre mulher, disse-me: “Ceaste bem, Lamme?” E sua voz estava perto de mim, assim como seu rosto e seu doce corpo.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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