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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 92 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 2 — Capítulo VII

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Livro 2 — Capítulo VII

Certa manhã, Ulenspiegel lhe disse:

— Segue-me. Vamos saudar uma personagem elevada, nobre, poderosa e temida.

— Ele me dirá onde está minha mulher? — perguntou Lamme.

— Se souber, dirá — respondeu Ulenspiegel.

E foram à casa de Brederode, o Hércules Bebedor.

Ele estava no pátio de sua residência.

— Que queres de mim? — perguntou a Ulenspiegel.

— Falar-vos, monsenhor — respondeu Ulenspiegel.

— Fala — disse Brederode.

— Sois — disse Ulenspiegel — um senhor belo, valente e forte. Antigamente, sufocastes um francês dentro da própria armadura, como um mexilhão em sua concha. Mas, se sois forte e valente, sois também bem avisado. Por que, então, trazeis esta medalha onde leio: “Fiel ao rei até a bolsa”?

— Sim — perguntou Lamme —, por quê, monsenhor?

Mas Brederode não lhe respondeu e fitou Ulenspiegel. Este prosseguiu:

— Por que vós, nobres senhores, desejais ser fiéis ao rei até a bolsa? É pelo grande bem que ele vos quer, pela bela amizade que vos dedica? Por que, em vez de lhe serdes fiéis até a bolsa, não fazeis com que o carrasco, despojado de seus países, seja sempre fiel à bolsa?

Lamme sacudia a cabeça em sinal de assentimento.

Brederode fitou Ulenspiegel com olhos vivos e sorriu ao ver-lhe a boa cara.

— Se não és — disse ele — um espião do rei Filipe, és um bom Flamengo, e vou recompensar-te nos dois casos.

Levou-o ao gabinete, seguido por Lamme. Ali, puxou-lhe a orelha até fazê-la sangrar.

— Isto — disse — é para o espião.

Ulenspiegel não gritou.

— Traze — disse Brederode ao seu copeiro — aquele jarro de vinho com canela.

O copeiro trouxe o jarro e uma grande taça de vinho cozido que perfumava o ar.

— Bebe — disse Brederode a Ulenspiegel. — Isto é para o bom Flamengo.

— Ah! — disse Ulenspiegel. — Bom Flamengo, bela língua de canela. Nem os santos falam língua semelhante.

Depois de beber metade do vinho, passou o restante a Lamme.

— Quem é — perguntou Brederode — este papzak carregador de pança que recebe recompensa sem ter feito coisa alguma?

— É — respondeu Ulenspiegel — meu amigo Lamme, que, sempre que bebe vinho cozido, imagina estar prestes a encontrar a mulher.

— Sim! — disse Lamme, aspirando com grande devoção o vinho da taça.

— Para onde ides agora? — perguntou Brederode.

— Vamos — respondeu Ulenspiegel — à procura dos Sete que salvarão a terra de Flandres.

— Que Sete? — perguntou Brederode.

— Quando os encontrar, direi quem são — respondeu Ulenspiegel.

Mas Lamme, inteiramente alegre depois de beber, disse:

— Thyl, e se fôssemos procurar minha mulher na lua?

— Manda buscar a escada — respondeu Ulenspiegel.

Em maio, o mês verde, Ulenspiegel disse a Lamme:

— Eis o belo mês de maio! Ah, o claro céu azul, as alegres andorinhas! Eis os ramos das árvores vermelhos de seiva, e a terra está apaixonada. É o momento de enforcar e queimar em nome da fé. Ali estão os bons inquisidores. Que nobres rostos! Têm pleno poder para corrigir, punir, degradar, entregar às mãos dos juízes seculares e possuir suas próprias prisões. Ah, o belo mês de maio! Podem prender, conduzir os processos sem seguir a forma ordinária da justiça, queimar, enforcar, decapitar e cavar para as pobres mulheres e meninas a fossa da morte prematura. Os tentilhões cantam nas árvores. Os bons inquisidores mantêm os olhos sobre os ricos. E o rei herdará. Ide, meninas, dançar no prado ao som das gaitas de fole e das charamelas. Oh, o belo mês de maio!

As cinzas de Claes bateram sobre o peito de Ulenspiegel.

— Marchemos — disse ele a Lamme. — Felizes aqueles que mantiverem o coração reto e a espada erguida nos dias negros que virão!

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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