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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 86 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 2 — Capítulo I

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Livro 2 — Capítulo I

Naquela manhã de setembro, Ulenspiegel tomou seu bordão, três florins que Katheline lhe dera, um pedaço de fígado de porco, uma fatia de pão, e partiu de Damme rumo a Antuérpia, à procura dos Sete. Nele dormia.

Enquanto caminhava, começou a segui-lo um cão, que viera farejá-lo por causa do fígado e lhe saltava às pernas. Ulenspiegel quis enxotá-lo, mas, vendo que o cão insistia em acompanhá-lo, dirigiu-lhe este discurso:

— Cãozinho, meu lindo, fazes muito mal em deixar a casa onde te esperam boas papas, restos excelentes e ossos cheios de tutano, para seguir, pelo caminho da aventura, um vagabundo que talvez nem sempre tenha raízes para te dar de comer. Crê em mim, cãozinho imprudente, volta para junto de teu baes. Evita as chuvas, neves, granizos, garoas, neblinas, geadas e outras sopas magras que caem sobre as costas dos vagabundos. Fica junto à lareira, aquecendo-te, enroscado diante do fogo alegre; deixa-me caminhar pela lama, pela poeira, pelo frio e pelo calor, assado hoje, congelado amanhã, farto na sexta-feira, faminto no domingo. Farás coisa sensata se voltares para o lugar de onde vieste, cãozinho de pouca experiência.

O animal não parecia compreender coisa alguma do que dizia Ulenspiegel. Abanando a cauda e saltando o melhor que podia, latia de apetite. Ulenspiegel julgou que fosse de amizade, pois não se lembrava do fígado que levava na bolsa de caça.

Ele caminhou, e o cão o seguiu. Depois de percorrerem quase uma légua, avistaram na estrada uma carroça puxada por um asno que levava a cabeça baixa. Num barranco à beira do caminho, entre dois tufos de cardos, estava sentado um homem gordo, segurando numa das mãos um osso de pernil que roía e, na outra, um frasco cujo sumo sorvia. Quando não comia nem bebia, gemia e chorava.

Ulenspiegel parou, e o cão parou também. Farejando o pernil e o fígado, subiu o barranco. Ali, sentado sobre as patas traseiras junto do homem, arranhava-lhe o gibão, pedindo sua parte no festim. Mas o homem, afastando-o com o cotovelo e erguendo no ar o osso do pernil, gemia lastimosamente. O cão o imitou por cobiça. O asno, irritado por estar atrelado à carroça e não poder alcançar os cardos, começou a zurrar.

— Que te acontece, Jan? — perguntou o homem ao asno.

— Nada — respondeu Ulenspiegel —, salvo que ele gostaria de almoçar esses cardos que florescem ao vosso lado, como no coro alto de Tessenderloo, ao lado e acima de monsenhor Cristo. Este cão também não se aborreceria de celebrar bodas de mandíbula com o osso que tendes na mão. Enquanto isso, vou dar-lhe o fígado que trago aqui.

Depois que o cão comeu o fígado, o homem olhou para o osso, roeu-o mais um pouco para retirar a carne que ainda restava e, quando o deixou inteiramente descarnado, deu-o ao cão, que, apoiando sobre ele as patas, começou a mastigá-lo sobre a relva.

Então o homem olhou para Ulenspiegel.

Este reconheceu Lamme Goedzak, de Damme.

— Lamme — disse ele —, que fazes aqui, bebendo, comendo e choramingando? Algum soldado mercenário te teria esfregado as orelhas sem a devida veneração?

— Ai de mim! Minha mulher! — disse Lamme.

Ele ia esvaziar o frasco de vinho, mas Ulenspiegel pôs-lhe a mão sobre o braço.

— Não bebas assim — disse ele —, pois beber depressa só aproveita aos rins. Melhor seria que aproveitasse àquele que não tem garrafa alguma.

— Falas bem — respondeu Lamme —, mas beberás melhor?

E estendeu-lhe o frasco.

Ulenspiegel tomou-o, levantou o cotovelo e, devolvendo-lhe o recipiente, disse:

— Chama-me espanhol se ainda resta aí o bastante para embebedar um pardal.

Lamme olhou para o frasco e, sem parar de gemer, remexeu na bolsa, tirou outro frasco e mais um pedaço de salsichão, que começou a cortar em fatias e a mastigar melancolicamente.

— Comes sem parar, Lamme? — perguntou Ulenspiegel.

— Muitas vezes, meu filho — respondeu Lamme —, mas é para afugentar meus tristes pensamentos. Onde estás, mulher? — disse ele, enxugando uma lágrima.

E cortou dez fatias de salsichão.

— Lamme — disse Ulenspiegel —, não comas tão depressa e sem piedade pelo pobre peregrino.

Chorando, Lamme deu-lhe quatro fatias, e Ulenspiegel, ao comê-las, ficou enternecido com o bom sabor.

Mas Lamme, sempre chorando e comendo, disse:

— Minha mulher, minha boa mulher! Como era doce e bem-feita de corpo, leve como borboleta, viva como relâmpago, cantando como cotovia! Gostava demais, no entanto, de enfeitar-se com belos adornos. Ai de mim! Como lhe caíam bem! Mas as flores também possuem ricos trajes. Se tivesses visto, meu filho, suas mãozinhas tão ligeiras para a carícia, jamais lhes terias permitido tocar frigideira ou panela. O fogo da cozinha teria escurecido sua pele clara como o dia. E que olhos! Eu me derretia de ternura só de contemplá-los. Bebe um gole de vinho, eu beberei depois de ti. Ah! Por que não está morta? Thyl, eu guardava para mim todos os trabalhos de nossa casa, a fim de lhe poupar o menor esforço; varria a casa, fazia o leito nupcial onde ela se estendia à noite, cansada de prazer; lavava a louça e também a roupa, que eu mesmo passava. Come, Thyl, este salsichão é de Gante. Muitas vezes, depois de sair a passeio, ela vinha jantar tarde demais, mas era para mim tão grande alegria vê-la que eu não ousava repreendê-la, e me dava por muito feliz quando, amuada, não me virava as costas durante a noite. Perdi tudo. Bebe deste vinho, é de um vinhedo de Bruxelas, feito à maneira da Borgonha.

— Por que ela partiu? — perguntou Ulenspiegel.

— Como posso saber? — respondeu Lamme Goedzak. — Onde está o tempo em que, indo à casa dela com a intenção de desposá-la, ela fugia de mim por medo e por amor? Quando estava com os braços nus, belos braços redondos e brancos, e percebia que eu os contemplava, deixava imediatamente cair as mangas sobre eles. Outras vezes, entregava-se às minhas carícias, e eu podia beijar-lhe os belos olhos, que ela fechava, e a nuca larga e firme; então estremecia, soltava pequenos gritos e, inclinando a cabeça para trás, dava-me com ela uma pancada no nariz. E ria quando eu dizia: “Ai!”, e eu lhe batia amorosamente, e entre nós só havia jogos e risos. Thyl, ainda resta vinho no frasco?

— Sim — respondeu Ulenspiegel.

Lamme bebeu e continuou:

— Outras vezes, mais amorosa, lançava-me os dois braços ao pescoço e dizia: “Como és belo!” E beijava-me, brincalhona, cem vezes seguidas, na face ou na testa, mas nunca na boca. Quando eu lhe perguntava de onde vinha tamanha reserva em meio a tão grande liberdade, ela corria até um canjirão pousado sobre um arcaz, apanhava uma boneca vestida de seda e pérolas e dizia, sacudindo-a e embalando-a: “Não quero isto.” Sem dúvida, para conservar-lhe a virtude, sua mãe lhe dissera que as crianças eram feitas pela boca. Ah, doces momentos! Ternas carícias! Thyl, vê se não encontras um pernilzinho no bolso desse alforje.

— Meio pernil — respondeu Ulenspiegel, entregando-o a Lamme, que o comeu inteiro.

Ulenspiegel, vendo-o comer, disse:

— Esse pernilzinho está fazendo muito bem ao meu estômago.

— Ao meu também — disse Lamme, limpando os dentes com as unhas. — Mas nunca mais tornarei a vê-la, minha querida. Ela fugiu de Damme. Queres procurá-la comigo em minha carroça?

— Quero — respondeu Ulenspiegel.

— Mas — disse Lamme — não resta mais nada no frasco?

— Nada — respondeu Ulenspiegel.

E subiram à carroça, conduzidos pelo rocim, que fez soar melancolicamente o zurro da partida.

Quanto ao cão, partira de barriga cheia, sem dizer palavra.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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