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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 158 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 4 — Capítulo IX

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Livro 4 — Capítulo IX

Ulenspiegel, Lamme e Nele haviam, assim como seus amigos e companheiros, retomado dos conventos os bens que estes haviam ganho do povo por meio de procissões, falsos milagres e outras pantomimas romanas. Isso contrariava a ordem do Taciturno, príncipe da liberdade, mas o dinheiro servia para as despesas da guerra.

Lamme Goedzak, não contente em prover-se de moedas, saqueava nos conventos presuntos, salsichões, garrafas de cerveja e vinho, e voltava de bom grado trazendo sobre o peito uma bandoleira de aves, gansos, perus, capões, galinhas e frangos, e arrastando por uma corda alguns bezerros e porcos monásticos.

E isso por direito de guerra, dizia ele.

Muito satisfeito a cada tomada, levava tudo para o navio, a fim de que ali se fizessem festas e banquetes. Queixava-se, contudo, de que o mestre-cozinheiro fosse tão ignorante nas ciências dos molhos e fricassês.

Ora, naquele dia, tendo os Mendigos sorvido vitoriosamente o vinho, disseram a Ulenspiegel:

— Tens sempre o nariz ao vento para farejar as notícias de terra firme e conheces todas as aventuras da guerra. Canta-as para nós. Enquanto isso, Lamme baterá o tambor e o encantador pífaro guinchará ao compasso de tua canção.

Ulenspiegel disse:

— Certo dia claro e fresco de maio, Ludwig de Nassau, julgando entrar em Mons, não encontra seus soldados a pé nem seus cavaleiros. Alguns aliados mantinham aberta uma porta e baixada uma ponte, para que ele tomasse a cidade. Mas os burgueses apoderam-se da porta e da ponte. Onde estão os soldados do conde Louis? Os burgueses vão erguer a ponte. O conde Louis toca a trompa.

E Ulenspiegel cantou:

Onde estão teus soldados a pé e teus cavaleiros?
Estão nos bosques, perdidos, pisando tudo:
Galhos secos e lírios-do-vale em flor.

Senhor Sol faz reluzirem
Seus rostos vermelhos e guerreiros,
As garupas brilhantes de seus corcéis.

O conde Ludwig toca a trompa:
Eles o ouvem. Batei suavemente o tambor.

A galope largo, rédeas soltas!
Corrida de relâmpago, corrida de nuvem,
Tromba de ferro tilintante,
Voam os pesados cavaleiros!

Depressa! Depressa! Ao socorro!
A ponte se ergue... Esporas
Nos flancos sangrentos dos cavalos.

A ponte se ergue: cidade perdida!
Estão diante dela. Será tarde demais?

Barriga no chão! Rédeas soltas!
Guitoy de Chaumont, sobre seu ginete,
Salta sobre a ponte que torna a cair.

Cidade conquistada! Ouvis
Sobre o calçamento de Mons
A corrida de relâmpago, a corrida de nuvem,
A tromba de ferro tilintante?

Viva Chaumont e o ginete!
Soai o clarim de alegria, batei o tambor.

É o mês do feno, os prados exalam perfume;
A cotovia sobe cantando no céu:

Viva a ave livre!
Batei o tambor de glória.

Viva Chaumont e o ginete. Vamos, a beber!
Cidade conquistada! Viva o Mendigo!

E os Mendigos cantavam nos navios:

— Cristo, olha teus soldados. Dá brilho às nossas armas, Senhor. Viva o Mendigo!

Nele, sorridente, fazia o pífaro guinchar, e Lamme batia o tambor. Para o alto, rumo ao céu, templo de Deus, erguiam-se as taças de ouro e os hinos da liberdade. E as ondas, como sereias claras e frescas ao redor do navio, murmuravam harmoniosamente.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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