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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 75 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 1 — Capítulo LXXV

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Livro 1 — Capítulo LXXV

Soetkin estava na casa de Katheline, de pé contra a parede, com a cabeça baixa e as mãos unidas.

Mantinha Ulenspiegel abraçado, sem falar nem chorar.

Ulenspiegel também permanecia silencioso. Estava assustado ao sentir o fogo da febre que queimava o corpo da mãe.

Os vizinhos, regressando do lugar da execução, disseram que Claes deixara de sofrer.

— Está na glória — disse a viúva.

— Reza — disse Nele a Ulenspiegel, entregando-lhe o rosário.

Mas ele não quis usá-lo, porque, dizia, suas contas haviam sido benzidas pelo papa.

Quando caiu a noite, Ulenspiegel disse à viúva:

— Mãe, precisas deitar-te. Ficarei velando junto de ti.

Mas Soetkin respondeu:

— Não preciso que veles. O sono faz bem aos jovens.

Nele preparou para cada um uma cama na cozinha e partiu.

Ficaram os dois enquanto os restos de um fogo de raízes ardiam na lareira.

Soetkin deitou-se. Ulenspiegel fez o mesmo e ouviu-a chorar sob as cobertas.

Lá fora, no silêncio noturno, o vento fazia as árvores do canal rugirem como o mar e, precursor do outono, lançava turbilhões de poeira contra as janelas.

Ulenspiegel julgou ver um homem andando de um lado para outro e ouviu algo semelhante a passos na cozinha.

Olhando, já não viu o homem.

Escutando, nada ouviu além do vento uivando na chaminé e de Soetkin chorando sob as cobertas.

Depois tornou a ouvir passos e, atrás de si, junto à cabeça, um suspiro.

— Quem está aí? — perguntou.

Ninguém respondeu, mas três pancadas foram dadas sobre a mesa.

Ulenspiegel sentiu medo e, tremendo, tornou a perguntar:

— Quem está aí?

Não recebeu resposta, mas três pancadas foram novamente dadas sobre a mesa.

Sentiu então dois braços abraçarem-no e, sobre seu rosto, um corpo inclinar-se. A pele era áspera, havia um grande buraco no peito e exalava cheiro de queimado.

— Pai — disse Ulenspiegel —, é teu pobre corpo que pesa assim sobre mim?

Não recebeu resposta.

Embora a sombra estivesse perto dele, ouviu do lado de fora alguém gritar:

— Thyl! Thyl!

De repente, Soetkin levantou-se e aproximou-se da cama de Ulenspiegel.

— Não ouves nada? — perguntou.

— Sim — respondeu ele. — É meu pai chamando-me.

— Eu — disse Soetkin — senti um corpo frio ao meu lado, na cama. Os colchões mexeram, as cortinas foram agitadas e ouvi uma voz dizer: “Soetkin”. Uma voz muito baixa, semelhante a um sopro, e um passo leve como o ruído das asas de um mosquito.

Depois, falando ao espírito de Claes:

— É preciso, meu homem, se desejas alguma coisa no céu onde Deus te guarda em sua glória, dizer-nos o que é, para que cumpramos tua vontade.

De repente, uma rajada abriu violentamente a porta, enchendo o aposento de poeira.

Ulenspiegel e Soetkin ouviram ao longe o grasnar de corvos.

Saíram juntos e foram até a fogueira.

A noite era negra, salvo quando as nuvens, impelidas pelo vento áspero do norte e correndo como cervos pelo céu, deixavam brilhar a face do astro.

Um sargento da comuna caminhava de um lado para outro, guardando a fogueira.

Ulenspiegel e Soetkin ouviam sobre a terra endurecida o ruído de seus passos e a voz de um corvo chamando outros, sem dúvida, pois de longe lhe respondiam grasnidos.

Quando Ulenspiegel e Soetkin se aproximaram da fogueira, o corvo desceu sobre os ombros de Claes.

Ouviram as bicadas no corpo, e logo chegaram outros corvos.

Ulenspiegel quis lançar-se sobre a fogueira e afugentá-los, mas o sargento lhe disse:

— Feiticeiro, procuras mãos de glória? Fica sabendo que as mãos de um queimado não tornam ninguém invisível, mas somente as de um enforcado, como tu serás algum dia.

— Senhor sargento — respondeu Ulenspiegel —, não sou feiticeiro, mas o filho órfão daquele que está amarrado ali, e esta mulher é sua viúva. Queremos apenas beijá-lo mais uma vez e guardar um pouco de suas cinzas em sua memória. Permiti-nos, senhor, que não sois soldado estrangeiro, mas filho destas terras.

— Seja feito como desejas — respondeu o sargento.

O órfão e a viúva, caminhando sobre a madeira queimada, chegaram ao corpo.

Ambos beijaram em lágrimas o rosto de Claes.

Ulenspiegel tomou, do lugar do coração, onde a chama abrira um grande buraco, um pouco das cinzas do morto.

Depois, ajoelhando-se, ele e Soetkin rezaram.

Quando a aurora apareceu pálida no céu, ainda estavam ali.

Mas o sargento os expulsou, temendo ser castigado por sua boa vontade.

Ao regressarem, Soetkin tomou um pedaço de seda vermelha e outro de seda negra e fez com eles um saquinho.

Colocou dentro as cinzas e prendeu ao saquinho duas fitas, para que Ulenspiegel pudesse trazê-lo sempre ao pescoço.

Enquanto o colocava nele, disse:

— Que estas cinzas, que são o coração de meu homem, este vermelho, que é seu sangue, e este negro, que é nosso luto, permaneçam sempre sobre teu peito como fogo de vingança contra os carrascos.

— Assim será — disse Ulenspiegel.

E a viúva abraçou o órfão.

E o sol nasceu.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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