Universo da obra
Universo da obra
No dia seguinte, o sino chamado borgstorm tocou para convocar o bailio, os escabinos e os escrivães à vierschare, nos quatro bancos de relva sob a árvore da justiça, que era uma bela tília.
Ao redor permanecia o povo.
Interrogado, o peixeiro nada quis confessar, nem mesmo quando lhe mostraram os três dedos cortados pelo soldado e que faltavam à sua mão direita.
Dizia sempre:
— Sou pobre e velho. Tende misericórdia.
Mas o povo o vaiava, dizendo:
— És um velho lobo, assassino de crianças. Não tenhais piedade alguma, senhores juízes.
As mulheres diziam:
— Não nos olhes com teus olhos frios. És homem, não diabo. Não temos medo de ti. Animal cruel, mais covarde que um gato devorando filhotes no ninho, matavas as pobres meninas que pediam apenas viver sua graciosa vida com toda a bravura.
— Que pague em fogo lento, com tenazes em brasa! — gritava Toria.
E, apesar dos sargentos da comunidade, as mães incitavam os meninos a lançar pedras contra o peixeiro.
Eles o faziam de bom grado, vaiando-o cada vez que os fitava e gritando sem parar:
— Bloed-zuyger! Sugador de sangue! Sla dood! Matai! Matai!
E Toria gritava continuamente:
— Que pague em fogo lento, com tenazes em brasa! Que pague!
E o povo rugia.
— Vede — diziam as mulheres umas às outras — como sente frio sob o sol claro que brilha no céu, aquecendo-lhe os cabelos brancos e o rosto rasgado por Toria.
— E treme de dor.
— É a justiça de Deus.
— Permanece de pé com aspecto lastimável.
— Vede as mãos assassinas, amarradas diante dele e sangrando por causa das feridas da armadilha.
— Que pague! Que pague! — gritava Toria.
Ele dizia, lamentando-se:
— Sou pobre. Deixai-me.
E todos, até mesmo os juízes, zombavam ao ouvi-lo.
Chorou por fingimento, tentando comovê-los.
E as mulheres riam.
Como havia indícios suficientes para a tortura, foi condenado a ser colocado no banco até confessar como matava, de onde vinha, onde estavam os despojos das vítimas e o lugar onde escondia o ouro.
Na câmara de suplícios, calçaram-lhe botas de couro novo, apertadas demais.
O bailio perguntou-lhe como Satanás lhe soprara planos tão negros e crimes tão abomináveis.
Ele respondeu:
— Satanás sou eu, meu ser natural. Desde criança, sendo de aparência feia e inábil em todos os exercícios do corpo, fui considerado tolo por todos e espancado muitas vezes. Nem menino nem menina tinha piedade de mim. Na juventude, nenhuma mulher me quis, nem mesmo pagando. Então tomei ódio frio de todo ser nascido de mulher. Foi por isso que denunciei Claes, amado por todos. E só amei o Dinheiro, que foi minha amada branca ou dourada. Ao mandar matar Claes, encontrei lucro e prazer. Depois, precisei mais que antes viver como lobo e sonhei em morder. Passando por Brabante, vi os ferros de waffles daquela terra e pensei que um deles seria uma boa boca de ferro. Quem me dera vos ter pelo pescoço, tigres malvados que vos divertis com o suplício de um velho! Eu vos morderia com alegria maior do que mordi o soldado e a menina. Pois esta, quando a vi tão graciosa, dormindo sobre a areia ao sol, segurando nas mãos o pequeno saco de dinheiro, despertou em mim amor e piedade. Mas, sentindo-me velho demais e não podendo possuí-la, mordi-a...
O bailio perguntou onde morava.
O peixeiro respondeu:
— Em Ramskappelle, de onde vou a Blanckenberghe, Heyst e até Knokke. Aos domingos e dias de quermesse, faço waffles à maneira de Brabante em todos os povoados, usando este instrumento. Está sempre bem limpo e engordurado. E essa novidade de terras estranhas foi bem recebida. Se quereis saber ainda como ninguém conseguia reconhecer-me, direi que durante o dia pintava o rosto e tingia os cabelos de ruivo. Quanto à pele de lobo que apontais com o dedo cruel enquanto me interrogais, direi, desafiando-vos, que veio de dois lobos que matei nos bosques de Raveschoot e Maldeghen. Bastou costurar as peles uma à outra para cobrir-me. Eu a escondia numa caixa nas dunas de Heyst. Ali também estão as roupas que roubei e que pretendia vender mais tarde, numa boa ocasião.
— Afastai-o do fogo — disse o bailio.
O carrasco obedeceu.
— Onde está teu ouro? — tornou a perguntar o bailio.
— O rei não saberá — respondeu o peixeiro.
— Queimai-o mais de perto com as velas acesas — disse o bailio. — Aproximai-o do fogo.
O carrasco obedeceu.
E o peixeiro gritou:
— Não quero dizer nada. Já falei demais. Vós me queimareis. Não sou feiticeiro. Por que me colocais novamente perto do fogo? Meus pés sangram de tantas queimaduras. Não direi nada. Por que ainda mais perto? Eles sangram, estou dizendo, sangram! Estas botas são botinas de ferro em brasa. Meu ouro? Pois bem, meu único amigo neste mundo está... Afastai-me do fogo... Está em minha adega, em Ramskappelle, dentro de uma caixa... Deixai-o comigo! Graça e misericórdia, senhores juízes! Carrasco maldito, afasta as velas... Ele me queima ainda mais... Está dentro de uma caixa de fundo duplo, envolvido em lã, para não fazer ruído se alguém sacudir a caixa. Agora disse tudo. Afastai-me.
Quando foi afastado do fogo, sorriu maldosamente.
O bailio perguntou-lhe por quê.
— Pela alegria de estar livre — respondeu.
O bailio disse:
— Ninguém te pediu que mostrasses teu ferro de waffles dentado.
O peixeiro respondeu:
— Parecia-se com todos os outros, exceto por estar perfurado de buracos nos quais eu aparafusava os dentes de ferro. Ao amanhecer, retirava-os. Os camponeses preferiam meus waffles aos dos outros vendedores e chamavam-nos Waefels met brabandsche knoopen, waffles com botões de Brabante, porque, depois de retirados os dentes, os buracos vazios formavam pequenas semiesferas semelhantes a botões.
Mas o bailio perguntou:
— Quando mordias as pobres vítimas?
— De dia e de noite. Durante o dia, vagava pelas dunas e estradas principais, levando o ferro de waffles e ficando à espreita, sobretudo aos sábados, dia do grande mercado de Bruges. Se via passar algum camponês caminhando melancolicamente, deixava-o ir, julgando que sua doença era fluxo de bolsa. Mas seguia ao lado daquele que via caminhar alegremente. Quando não esperava, mordia-lhe o pescoço e tomava-lhe a bolsa. E isso não apenas nas dunas, mas em todas as trilhas e caminhos das planícies.
O bailio disse então:
— Arrepende-te e pede perdão a Deus.
Mas o peixeiro blasfemou:
— Foi o Senhor Deus quem quis que eu fosse como sou. Fiz tudo contra a vontade, incitado pela vontade da Natureza. Tigres malvados, vós me punireis injustamente. Mas não me queimeis... Fiz tudo contra a vontade. Tende piedade. Sou pobre e velho. Morrerei de minhas feridas. Não me queimeis.
Foi então levado à vierschare, sob a tília, para ouvir a sentença diante de todo o povo reunido.
E foi condenado, como assassino horrível, ladrão e blasfemador, a ter a língua perfurada por ferro em brasa, o punho direito cortado e a ser queimado vivo em fogo lento até que sobreviesse a morte, diante das balaustradas da Casa Comunal.
E Toria gritava:
— É justiça! Está pagando!
E o povo gritava:
— Lang leven de Heeren van de wet! Longa vida aos Senhores da Lei!
Foi levado de volta à prisão, onde lhe deram carne e vinho.
E alegrou-se, dizendo que nunca antes bebera ou comera daquele modo, mas que o rei, herdando-lhe os bens, bem podia pagar a última refeição.
E ria amargamente.
No dia seguinte, à alvorada branca, enquanto o conduziam ao suplício, viu Ulenspiegel de pé junto à fogueira e gritou, apontando-o:
— Aquele que está ali, assassino de velho, também deve morrer. Há dez anos lançou-me no canal de Damme porque eu havia denunciado seu pai. Nisso servi como súdito fiel Sua Majestade Católica.
Os sinos de Notre-Dame tocavam pelos mortos.
— Também por ti tocam esses sinos — dizia ele a Ulenspiegel. — Serás enforcado, pois mataste.
— O peixeiro mente! — gritaram todos no meio do povo. — Mente, o carrasco assassino!
E Toria, como enlouquecida, gritou, lançando-lhe uma pedra que o feriu na testa:
— Se ele te houvesse afogado, não terias vivido para morder, como vampiro sugador de sangue, minha pobre menina.
Ulenspiegel não disse palavra.
Lamme perguntou:
— Alguém o viu lançar o peixeiro na água?
Ulenspiegel não respondeu.
— Não! Ninguém viu! — gritou o povo. — O carrasco mentiu!
— Não menti! — gritou o peixeiro. — Ele me lançou enquanto eu lhe suplicava perdão. Tanto é verdade que consegui sair agarrando-me a uma embarcação presa à margem. Molhado e tremendo, tive dificuldade para encontrar minha triste casa. Ali apanhei febre. Ninguém cuidou de mim, e pensei que morreria.
— Mentes — disse Lamme. — Ninguém viu.
— Não! Ninguém viu! — gritou Toria. — Ao fogo com o carrasco! Antes de morrer, ainda quer uma vítima inocente. Ao fogo! Que pague em fogo lento, com tenazes em brasa. Mentiu! Se fizeste isso, não confesses, Ulenspiegel. Não há testemunhas. Que pague em fogo lento, com tenazes em brasa!
— Cometeste o assassinato? — perguntou o bailio a Ulenspiegel.
Ulenspiegel respondeu:
— Lancei na água o denunciante assassino de Claes. As cinzas do pai batiam sobre o meu coração.
— Ele confessa! — disse o peixeiro. — Também morrerá. Onde está a forca, para que eu a veja? Onde está o carrasco com a espada da justiça? Os sinos dos mortos tocam por ti, malandro, assassino de velho.
Ulenspiegel disse:
— Lancei-te na água para te matar. As cinzas batiam sobre o meu coração.
E, entre o povo, as mulheres diziam:
— Por que confessar, Ulenspiegel? Ninguém viu. Agora morrerás.
E o prisioneiro ria, saltando de alegria amarga, agitando os braços amarrados e cobertos de panos ensanguentados.
— Ele morrerá — dizia. — Passará da terra aos infernos, com a corda ao pescoço, como miserável, ladrão e malandro. Morrerá. Deus é justo.
— Ele não morrerá — disse o bailio. — Depois de dez anos, o homicídio já não pode ser punido na terra de Flandres. Ulenspiegel praticou má ação, mas por amor filial. Ulenspiegel não será perseguido por esse fato.
— Viva a Lei! — gritou o povo. — Lang leven de Wet!
Os sinos de Notre-Dame tocavam pelos mortos.
O prisioneiro rangeu os dentes, baixou a cabeça e chorou sua primeira lágrima.
E teve o punho cortado e a língua perfurada por ferro em brasa.
E foi queimado vivo em fogo lento diante das balaustradas da Casa Comunal.
Perto de morrer, gritou:
— O rei não terá meu ouro! Eu menti... Tigres malvados, voltarei para vos morder!
E Toria gritava:
— Está pagando! Está pagando! Contorcem-se os braços e as pernas que correram para o assassinato. Fumega o corpo do carrasco. Seus cabelos brancos, pelos de hiena, queimam sobre o focinho pálido. Está pagando! Está pagando!
E o peixeiro morreu uivando como lobo.
E os sinos de Notre-Dame tocavam pelos mortos.
E Lamme e Ulenspiegel tornaram a montar nos asnos.
E Nele, triste, permaneceu junto de Katheline, que dizia sem parar:
— Tirai o fogo! A cabeça queima. Volta, Hanske, meu querido.
A Lenda de Ulenspiegel — Glossá…
A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.