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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 93 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 2 — Capítulo VIII

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Livro 2 — Capítulo VIII

Certo dia do mês de agosto, Ulenspiegel passava pela rua de Flandres, em Bruxelas, diante da casa de Jean Sapermillemente, chamado assim porque, quando se enfurecia, seu avô paterno costumava jurar dessa maneira para não blasfemar o santíssimo nome de Deus.

O referido Sapermillemente era mestre bordador de profissão. Mas, tendo ficado surdo e cego de tanto beber, sua mulher, velha comadre de rosto azedo, bordava em seu lugar as roupas, gibões, mantos e sapatos dos senhores. Sua linda filhinha ajudava-a nesse trabalho bem pago.

Passando diante da referida casa nas últimas horas claras do dia, Ulenspiegel viu a menina à janela e ouviu-a gritar:

Agosto, agosto,
Dize-me, doce mês,
Quem há de me tomar por esposa?
Dize-me, doce mês.

— Eu — disse Ulenspiegel —, se quiseres.

— Tu? — disse ela. — Aproxima-te, para que eu te veja.

Mas ele perguntou:

— Por que gritas em agosto, quando as meninas de Brabante gritam na véspera de março?

— Essas — respondeu ela — só têm um mês que lhes dá marido. Eu tenho doze e, na véspera de cada um deles, não à meia-noite, mas durante seis horas até a meia-noite, salto da cama, dou três passos para trás até a janela e grito o que já sabes. Depois, voltando-me, dou três passos para trás até a cama e, à meia-noite, deito-me e adormeço, sonhando com o marido que terei. Mas os meses, doces meses, sendo por natureza maus zombadores, já não sonho com um marido, mas com doze ao mesmo tempo. Serás o décimo terceiro, se quiseres.

— Os outros ficariam com ciúmes — respondeu Ulenspiegel. — Tu também gritas: “Libertação!”

A menina corou e respondeu:

— Grito libertação e sei o que estou pedindo.

— Também sei e a trago comigo — respondeu Ulenspiegel.

— É preciso esperar — disse ela, sorrindo e mostrando os dentes brancos.

— Esperar? — disse Ulenspiegel. — Não. Uma casa pode cair sobre minha cabeça, uma rajada lançar-me numa vala, um cachorrinho raivoso morder-me a perna. Não, não esperarei.

— Sou jovem demais — disse ela — e só grito por costume.

Ulenspiegel ficou desconfiado, pensando que era na véspera de março, e não no mês do trigo, que as meninas de Brabante gritavam para conseguir marido.

Ela disse, sorrindo:

— Sou jovem demais e só grito por costume.

— Esperarás até ficares velha demais? — respondeu Ulenspiegel. — É má aritmética. Nunca vi pescoço tão redondo, nem seios mais brancos, seios de Flamenga cheios daquele bom leite que faz os homens.

— Cheios? — disse ela. — Ainda não, viajante apressado.

— Esperar — repetiu Ulenspiegel. — Será preciso que eu já não tenha dentes para comer-te crua, minha linda? Não respondes. Sorris com teus olhos castanho-claros e teus lábios vermelhos como cerejas.

A menina, olhando-o com malícia, respondeu:

— Por que me amas tão depressa? Que ofício exerces? És mendigo? És rico?

— Mendigo — disse ele —, sou, e rico ao mesmo tempo, se me deres teu lindo corpo.

Ela respondeu:

— Não era isso que eu queria saber. Vais à missa? És bom cristão? Onde moras? Ousarias dizer que és mendigo, verdadeiro Mendigo que resiste aos editos e à Inquisição?

As cinzas de Claes bateram sobre o peito de Ulenspiegel.

— Sou Mendigo — disse ele. — Quero ver mortos e comidos pelos vermes os opressores dos Países Baixos. Olhas para mim, querida. Este fogo de amor que arde por ti, minha linda, é fogo da juventude. Deus o acendeu e ele flameja como brilha o sol, até se apagar. Mas o fogo da vingança que arde oculto em meu coração também foi aceso por Deus. Será a espada, o fogo, a corda, o incêndio, a devastação, a guerra e a ruína dos carrascos.

— És belo — disse ela tristemente, beijando-lhe as duas faces. — Mas cala-te.

— Por que choras? — perguntou ele.

— É preciso — disse ela — olhar sempre aqui e acolá, onde quer que estejas.

— Estas paredes têm ouvidos? — perguntou Ulenspiegel.

— Só têm os meus — disse ela.

— Esculpidos pelo amor. Vou fechá-los com um beijo.

— Louco amado, escuta-me quando falo.

— Por quê? Que tens a dizer-me?

— Escuta-me — disse ela, impaciente. — Aí vem minha mãe. Cala-te, sobretudo diante dela.

A velha Sapermillemente entrou. Ulenspiegel, contemplando-a, disse consigo:

“Focinho furado como escumadeira, olhos de olhar duro e falso, boca que quer rir e só faz caretas, despertais minha curiosidade.”

— Deus esteja convosco, senhor — disse a velha —, convosco sem cessar. Recebi dinheiro, menina, belo dinheiro do senhor de Egmont quando lhe levei o manto em que bordei o bastão de bobo. Sim, senhor, bastão de bobo contra o Cão Vermelho.

— O cardeal de Granvelle? — perguntou Ulenspiegel.

— Sim — disse ela —, contra o Cão Vermelho. Dizem que ele denuncia ao rei as maquinações dos senhores. Querem fazê-lo morrer. Têm razão, não é?

Ulenspiegel não respondeu.

— Não os vistes pelas ruas, vestidos com gibão e opperst-kleed cinzentos, como usa o povo, com longas mangas pendentes, capuzes de monges e, sobre cada opperst-kleed, o bastão de bobo bordado? Fiz pelo menos vinte e sete, e minha filha, quinze. O Cão Vermelho ficou furioso ao ver aqueles bastões de bobo.

Depois, falando ao ouvido de Ulenspiegel:

— Sei que os senhores decidiram substituir o bastão de bobo por um feixe de trigo, em sinal de união. Sim, sim, vão lutar contra o rei e a Inquisição. Fazem bem, não é verdade, senhor?

Ulenspiegel não respondeu.

— O senhor estrangeiro está fabricando melancolia — disse a velha. — De repente fechou o bico.

Ulenspiegel não disse palavra e saiu.

Pouco depois, entrou num musico para não se esquecer de beber. O musico estava cheio de bebedores que falavam imprudentemente do rei, dos editos detestados, da Inquisição e do Cão Vermelho, que era preciso expulsar dos países. Viu uma velha toda esfarrapada, que parecia dormir junto de uma caneca de aguardente. Ela permaneceu assim por muito tempo. Depois, tirando do bolso um pequeno prato, Ulenspiegel a viu mendigar entre os grupos, dirigindo-se sobretudo àqueles que falavam com maior imprudência.

E os bons homens lhe davam florins, dinheiros e patards sem mesquinharia.

Ulenspiegel, esperando saber pela menina o que a velha Sapermillemente não lhe dizia, passou novamente diante da casa. Viu a filha, que já não gritava, mas lhe sorria, piscando o olho, doce promessa.

A velha entrou de repente atrás dele.

Ulenspiegel, irritado ao vê-la, correu como um cervo pela rua, gritando:

— ’T brandt! ’T brandt! Fogo! Fogo!

Correu assim até chegar diante da casa do padeiro Jacob Pietersen. As vidraças, feitas à moda alemã, flamejavam vermelhas ao sol poente. Uma fumaça espessa, fumaça dos feixes de lenha transformando-se em brasas no forno, saía da chaminé da padaria. Ulenspiegel continuava correndo e gritando:

— ’T brandt! ’T brandt!

E apontava para a casa de Jacob Pietersen.

A multidão reuniu-se diante dela, viu as vidraças vermelhas, a fumaça espessa e começou a gritar como Ulenspiegel:

— ’T brandt! ’T brandt! Está queimando! Está queimando!

O vigia de Nossa Senhora da Capela tocou a trombeta, enquanto o sacristão fazia soar com toda a força o sino chamado Wacharm. Meninos e meninas acorreram em bandos, cantando e assobiando.

Enquanto o sino e a trombeta continuavam a soar, a velha Sapermillemente recolheu suas coisas e partiu.

Ulenspiegel estava à espreita. Quando ela já estava longe, entrou na casa.

— Tu aqui! — disse a menina. — Então não está queimando lá embaixo?

— Lá embaixo? Não — respondeu Ulenspiegel.

— E esse sino que toca tão lastimosamente?

— Não sabe o que faz — respondeu Ulenspiegel.

— E essa trombeta dolorosa e todo esse povo correndo?

— O número dos loucos é infinito.

— Então o que está queimando? — perguntou ela.

— Teus olhos e meu coração em chamas — respondeu Ulenspiegel.

E lançou-se sobre a boca dela.

— Estás me comendo — disse ela.

— Gosto de cerejas — respondeu ele.

Ela o fitava, sorridente e aflita. De repente, começou a chorar.

— Não voltes mais aqui — disse ela. — És Mendigo e inimigo do papa. Não voltes.

— Tua mãe! — disse ele.

— Sim — respondeu ela, corando. — Sabes onde está agora? Escuta onde há incêndio. Sabes aonde irá daqui a pouco? Ao Cão Vermelho, para relatar tudo o que sabe e preparar o trabalho do duque que virá. Foge, Ulenspiegel. Estou salvando-te. Foge.

Mais um beijo, mas não voltes. Outro ainda. És belo. Estou chorando, mas vai embora.

— Brava menina — disse Ulenspiegel, mantendo-a abraçada.

— Nem sempre fui — disse ela. — Eu também, como ela...

— Esses cantos — disse ele —, esses chamados mudos de beleza dirigidos aos homens apaixonados?

— Sim — respondeu ela. — Minha mãe queria assim. A ti, salvo-te porque te amo. Os outros, eu os salvarei em tua memória, meu amado. Quando estiveres longe, teu coração ainda se inclinará para a menina arrependida? Beija-me, meu lindo. Ela não entregará mais vítimas à fogueira em troca de dinheiro. Vai embora. Não, fica ainda. Como tua mão é suave! Olha, beijo tua mão, é sinal de escravidão. És meu senhor. Escuta, mais perto. Cala-te.

Homens patifes e ladrões, e entre eles um italiano, vieram aqui esta noite, um depois do outro. Minha mãe os fez entrar nesta sala onde estás, mandou-me sair e fechou a porta. Ouvi estas palavras: “Crucifixo de pedra, porta de Borgerhout, procissão, Antuérpia, Nossa Senhora”, risos abafados e florins sendo contados sobre a mesa. Foge, eles estão chegando. Foge, meu amado. Guarda de mim uma doce lembrança. Foge...

Ulenspiegel correu como ela mandara até o Velho Galo, In den ouden Haen, e ali encontrou Lamme fabricando melancolia, mastigando meio salsichão e sorvendo sua sétima pinta de peterman de Louvain.

E obrigou-o a correr consigo, apesar da pança.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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