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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 137 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 3 — Capítulo XXXIII

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Livro 3 — Capítulo XXXIII

Certo dia, a moça veio, toda em lágrimas, dizer a Lamme e Ulenspiegel:

— Spelle deixa escapar em Meulestee, por dinheiro, assassinos e ladrões. E mata os inocentes. Meu irmão Michielkin foi uma de suas vítimas. Ai! Deixai-me contar. Vós o vingareis, pois sois homens. Um libertino sujo e infame, Pieter de Roose, sedutor habitual de crianças e meninas, causou todo o mal. Ai! Meu pobre irmão Michielkin e Pieter de Roose encontraram-se uma noite, embora não estivessem na mesma mesa, na taverna do Valck, onde Pieter de Roose era evitado por todos como a peste.

Meu irmão, não querendo vê-lo na mesma sala, chamou-o de sodomita dissoluto e ordenou que limpasse o lugar de sua imundície.

Pieter de Roose respondeu:

— O irmão de uma prostituta pública não deveria erguer tanto a cara.

Ele mentia. Não sou pública e só me dou a quem me agrada.

Michielkin então lançou-lhe no rosto sua caneca de cerveja e declarou que mentira como o libertino imundo que era, ameaçando, se não desaparecesse, fazê-lo engolir o punho até o cotovelo.

O outro ainda quis falar, mas Michielkin fez o que dissera. Deu-lhe dois grandes golpes na mandíbula e arrastou-o pelos dentes, com os quais mordia, até a rua, onde o deixou machucado, sem piedade.

Depois de curado, Pieter de Roose, não sabendo viver sozinho, foi ao In ’t Vagevuur, o verdadeiro Purgatório, hospedaria triste onde só havia pobres. Ali também todos os esfarrapados o deixaram sozinho. Ninguém lhe falava, exceto alguns camponeses que não o conheciam, certos vagabundos miseráveis ou desertores das companhias. Foi até espancado diversas vezes, pois era briguento.

Quando o preboste Spelle chegou a Meulestee com dois apanha-carne, Pieter de Roose os seguiu por toda parte como um cão, embriagando-os à própria custa com vinho, carne e muitos outros prazeres pagos com dinheiro. Assim se tornou companheiro e camarada deles e começou a empregar todo o seu engenho malvado para atormentar aquilo que odiava: todos os habitantes de Meulestee, mas sobretudo meu pobre irmão.

Atacou primeiro Michielkin. Testemunhas falsas, patifes ávidos de florins, declararam que Michielkin era herege; que dissera palavras imundas sobre Nossa Senhora e blasfemara muitas vezes o nome de Deus e dos santos na taverna do Valck; e que, além disso, tinha uns trezentos florins num cofre.

Embora as testemunhas não fossem de boa vida nem bons costumes, Michielkin foi preso. Spelle e seus apanha-carne declararam que as provas bastavam para submetê-lo à tortura.

Michielkin foi pendurado pelos braços numa roldana presa ao teto, e colocaram em cada pé um objeto de cinquenta libras.

Negou as acusações, dizendo que, se havia em Meulestee um miserável, sodomita, blasfemador e libertino, era Pieter de Roose, não ele.

Mas Spelle não quis ouvir nada. Mandou os apanha-carne erguerem Michielkin até o teto e deixá-lo cair violentamente com aqueles objetos presos aos pés.

Assim fizeram, com tanta crueldade que a pele e os músculos dos tornozelos do supliciado ficaram rasgados e o pé mal continuava ligado à perna.

Como Michielkin persistisse em declarar-se inocente, Spelle mandou torturá-lo novamente, fazendo-lhe saber que, se lhe desse cem florins, seria libertado e considerado quite.

Michielkin disse que preferia morrer.

Os moradores de Meulestee, tendo sabido da prisão e da tortura, quiseram testemunhar por turba, que é o testemunho conjunto de todos os bons habitantes de uma comunidade.

Declararam unanimemente que Michielkin não era herege de maneira alguma; que ia todos os domingos à missa e à santa mesa; que nunca dissera outra coisa sobre Nossa Senhora senão chamá-la em auxílio nas circunstâncias difíceis; e que, jamais tendo falado mal sequer de uma mulher terrena, muito menos ousaria fazê-lo a respeito da celestial Mãe de Deus.

Quanto às blasfêmias que as falsas testemunhas declaravam tê-lo ouvido proferir na taverna do Valck, eram inteiramente falsas e mentirosas.

Michielkin foi libertado, e as falsas testemunhas, punidas. Spelle levou Pieter de Roose a seu tribunal, mas soltou-o sem investigação nem tortura, depois de receber cem florins de uma só vez.

Temendo que o dinheiro restante atraísse outra vez a atenção de Spelle, Pieter de Roose fugiu de Meulestee, enquanto Michielkin, meu pobre irmão, morria da gangrena que tomara seus pés.

Ele, que já não queria ver-me, mandou chamar-me, contudo, para dizer que eu devia guardar-me do fogo do corpo, que me levaria ao fogo do inferno.

E eu só pude chorar, pois o fogo está em mim.

E ele entregou a alma em minhas mãos.

— Ah! — disse ela. — Aquele que vingasse em Spelle a morte de meu amado e doce Michielkin seria meu senhor para sempre, e eu lhe obedeceria como uma cadela.

Enquanto ela falava, as cinzas de Claes bateram sobre o coração de Ulenspiegel.

E ele resolveu mandar enforcar Spelle, o assassino.

Boelkin, pois esse era o nome da moça, voltou a Meulestee, segura em sua casa contra a vingança de Pieter de Roose, pois um boieiro que passara por Destelbergh a avisara de que o cura e os burgueses haviam declarado que, se Spelle tocasse na irmã de Michielkin, seria denunciado ao duque.

Ulenspiegel, tendo-a seguido até Meulestee, entrou numa sala baixa da casa de Michielkin e viu ali o retrato de um mestre confeiteiro, que supôs ser o do pobre morto.

Boelkin disse-lhe:

— É meu irmão.

Ulenspiegel pegou o retrato e, saindo, disse:

— Spelle será enforcado.

— Como farás? — perguntou ela.

— Se soubesses, não terias prazer em ver acontecer.

Boelkin balançou a cabeça e disse com voz dolorida:

— Não tens confiança alguma em mim.

— Não te demonstro extrema confiança ao dizer: “Spelle será enforcado”? — respondeu ele. — Apenas com essa palavra, podes mandar enforcar-me antes dele.

— É verdade — disse ela.

— Então — replicou Ulenspiegel —, vai buscar boa argila, duas canecas de bruinbier, água limpa e algumas fatias de carne bovina. Tudo separado. A carne será para mim, a bruinbier para a carne, a água para a argila e a argila para o retrato.

Enquanto comia e bebia, Ulenspiegel amassava a argila. Às vezes engolia um pedaço dela, mas pouco se importava, e examinava atentamente o retrato de Michielkin.

Depois de amassada a argila, fez uma máscara com nariz, boca, olhos e orelhas tão semelhantes ao retrato do morto que Boelkin ficou espantada.

Em seguida colocou a máscara no forno. Quando ficou seca, pintou-a com a cor dos cadáveres, marcando os olhos arregalados, o rosto grave e as diversas contrações de um agonizante.

A moça então deixou de se espantar, contemplou a máscara sem conseguir desviar os olhos, empalideceu, ficou lívida, cobriu o rosto e disse, tremendo:

— É ele, meu pobre Michielkin!

Ulenspiegel também fez dois pés ensanguentados.

Depois de vencer o primeiro medo, ela disse:

— Bendito será aquele que ferir o assassino.

Ulenspiegel pegou a máscara e os pés e disse:

— Preciso de um ajudante.

Boelkin respondeu:

— Vai ao In den Blauwe Gans, à Gansa Azul, procurar Joos Lansaem, de Ypres, que dirige a hospedaria. Foi o melhor camarada e amigo de meu irmão. Dize-lhe que Boelkin te envia.

Ulenspiegel fez o que ela recomendara.

Depois de trabalhar para a morte, o preboste Spelle ia beber no In ’t Valck, o Falcão, uma mistura quente de dobbele-clauwaert, canela e açúcar da Madeira. Ninguém ousava recusar-lhe coisa alguma naquela hospedaria, por medo da corda.

Pieter de Roose, tendo recuperado a coragem, voltara a Meulestee. Seguia Spelle e seus apanha-carne por toda parte para ser protegido por eles.

Spelle às vezes pagava a bebida.

E juntos aspiravam alegremente o dinheiro das vítimas.

A hospedaria do Falcão já não estava cheia como nos belos dias em que o povoado vivia alegre, servindo a Deus de modo católico e sem ser atormentado por causa da religião.

Agora parecia estar de luto, como se via pelas muitas casas vazias ou fechadas e pelas ruas desertas, onde vagavam alguns cães magros procurando alimento apodrecido nos monturos.

Em Meulestee só havia lugar para os dois malvados.

Os habitantes temerosos do povoado viam-nos durante o dia, insolentes, marcando as casas das futuras vítimas e preparando listas de morte; e, à noite, voltando do Falcão, cantando refrões imundos, enquanto dois apanha-carne, bêbados como eles e armados até os dentes, os seguiam para escoltá-los.

Ulenspiegel foi ao In den Blauwe Gans, à Gansa Azul, procurar Joos Lansaem, que estava atrás do balcão.

Tirou do bolso um pequeno frasco de aguardente e disse:

— Boelkin tem dois tonéis disto para vender.

— Vem à minha cozinha — disse o baes.

Ali, fechando a porta e fitando-o:

— Não és mercador de aguardente. Que significam essas piscadelas? Quem és?

Ulenspiegel respondeu:

— Sou o filho de Claes, queimado em Damme. As cinzas do morto batem sobre o meu coração. Quero matar Spelle, o assassino.

— Foi Boelkin quem te enviou? — perguntou o hospedeiro.

— Boelkin me enviou — respondeu Ulenspiegel. — Matarei Spelle. Tu me ajudarás.

— Quero ajudar — disse o baes. — Que devo fazer?

Ulenspiegel respondeu:

— Vai procurar o cura, bom pastor e inimigo de Spelle. Reúne teus amigos e encontra-te com eles amanhã, depois do recolher, na estrada de Everghem, além da casa de Spelle, entre o Falcão e essa casa. Ficai todos na sombra e não useis roupas brancas. Ao toque das dez horas, vereis Spelle saindo da hospedaria e um carro vindo do outro lado. Não avises teus amigos esta noite; dormem perto demais das orelhas de suas mulheres. Vai procurá-los amanhã. Vinde, escutai bem tudo e guardai bem na memória.

— Guardaremos — disse Joos.

E, erguendo o copo:

— Bebo à corda de Spelle.

— À corda — disse Ulenspiegel.

Depois voltou com o baes à sala da hospedaria, onde bebiam alguns vendedores de roupas usadas de Gante, vindos do mercado de sábado em Bruges. Ali haviam vendido caro gibões e pequenos mantos de tecido de ouro e prata, comprados por poucos soldos de nobres arruinados que desejavam imitar o luxo dos espanhóis.

E celebravam bodas e banquetes por causa do grande lucro.

Ulenspiegel e Joos Lansaem, sentados num canto, combinaram, bebendo e sem serem ouvidos, que Joos iria procurar o cura da igreja, bom pastor irritado contra Spelle, o assassino de inocentes. Depois, visitaria os amigos.

No dia seguinte, avisados Joos Lansaem e os amigos de Michielkin, eles deixaram a Blauwe Gans, onde bebiam como de costume para esconder seus planos. Depois do recolher, saíram por caminhos diferentes e chegaram à estrada de Everghem.

Eram dezessete.

Às dez horas, Spelle saiu do Falcão, seguido pelos dois apanha-carne e Pieter de Roose.

Lansaem e os seus estavam escondidos no celeiro de Samson Boene, amigo de Michielkin. A porta do celeiro estava aberta.

Spelle não os viu.

Eles o ouviram passar, cambaleando de bebida, assim como Pieter de Roose e os dois apanha-carne, e dizendo com voz pastosa, entre muitos soluços:

— Prebostes! Prebostes! A vida lhes é boa neste mundo. Sustentai-me, patifes que viveis de minhas sobras.

De repente ouviram na estrada, pelo lado do campo, o zurro de um asno e o estalar de um chicote.

— Eis — disse Spelle — um jumento muito teimoso, que não quer avançar apesar desse belo aviso.

Logo ouviram grande ruído de rodas e um carro aos saltos, vindo do alto da estrada.

— Parai-o! — gritou Spelle.

Quando o carro passou diante deles, Spelle e os dois apanha-carne lançaram-se sobre a cabeça do asno.

— Este carro está vazio — disse um dos apanha-carne.

— Estúpido — disse Spelle —, carros vazios correm sozinhos durante a noite? Há alguém escondido nele. Acendei as lanternas, levantai-as. Vou ver.

As lanternas foram acesas, e Spelle subiu ao carro segurando a sua.

Mas mal havia olhado, soltou um grande grito e, caindo para trás, disse:

— Michielkin! Michielkin! Jesus, tende piedade de mim!

Então se ergueu do fundo do carro um homem vestido de branco como os confeiteiros e segurando nas duas mãos pés ensanguentados.

Pieter de Roose, vendo o homem levantar-se iluminado pelas lanternas, gritou com os dois apanha-carne:

— Michielkin! Michielkin, o morto! Senhor, tende piedade de nós!

Os dezessete aproximaram-se ao ouvir o ruído para contemplar o espetáculo e ficaram assustados ao ver, sob a luz clara da lua, como a imagem se parecia com Michielkin, o pobre morto.

E o fantasma agitava os pés ensanguentados.

Era o mesmo rosto cheio e redondo, mas empalidecido pela morte, ameaçador, lívido e roído por vermes sob o queixo.

O fantasma, continuando a agitar os pés ensanguentados, disse a Spelle, que gemia deitado de costas:

— Spelle, preboste Spelle, desperta!

Mas Spelle não se movia.

— Spelle — tornou a dizer o fantasma —, preboste Spelle, desperta, ou te farei descer comigo à goela do inferno escancarado.

Spelle levantou-se e, com os cabelos eriçados de medo, gritou dolorosamente:

— Michielkin! Michielkin, tem piedade!

Entretanto, os burgueses haviam se aproximado. Mas Spelle nada via senão as lanternas, que tomava por olhos de demônios. Assim o confessou mais tarde.

— Spelle — disse o fantasma de Michielkin —, estás preparado para morrer?

— Não — respondeu o preboste. — Não, senhor Michielkin. Não estou preparado e não quero comparecer diante de Deus com a alma toda negra de pecados.

— Reconheces-me? — perguntou o fantasma.

— Que Deus me ajude — disse Spelle. — Sim, reconheço-vos. Sois o fantasma de Michielkin, o confeiteiro que morreu inocente em sua cama por causa da tortura. E os dois pés ensanguentados são aqueles em que mandei pendurar objetos de cinquenta libras. Ah, Michielkin, perdoai-me! Esse Pieter de Roose era tão tentador. Ofereceu-me cinquenta florins, que recebi, para colocar vosso nome no registro.

— Queres confessar-te? — perguntou o fantasma.

— Sim, senhor. Quero confessar-me, dizer tudo e fazer penitência. Mas dignai-vos afastar esses demônios que ali estão, prontos para me devorar. Direi tudo. Tirai esses olhos de fogo! Fiz o mesmo em Tournai com cinco burgueses; em Bruges, com quatro. Já não me lembro dos nomes, mas os direi, se exigirdes. Também pequei em outros lugares, senhor, e por minha causa sessenta e nove inocentes estão na sepultura. Michielkin, o rei precisava de dinheiro. Haviam-me feito saber disso, mas eu também precisava. Está em Gante, na adega, sob o piso, na casa da velha Grovels, minha verdadeira mãe. Disse tudo, tudo! Graça e misericórdia! Afastai os diabos! Senhor Deus, Virgem Maria, Jesus, intercedei por mim! Afastai os fogos do inferno. Venderei tudo, darei tudo aos pobres e farei penitência.

Ulenspiegel, vendo que a multidão de burgueses estava pronta para apoiá-lo, saltou do carro sobre o pescoço de Spelle e quis estrangulá-lo.

Mas o cura chegou.

— Deixa-o viver — disse. — É melhor que morra pela corda do carrasco que pelos dedos de um fantasma.

— Que fareis com ele? — perguntou Ulenspiegel.

— Acusá-lo diante do duque e mandá-lo enforcar — respondeu o cura. — Mas quem és?

— Sou a máscara de Michielkin e o papel de uma pobre raposa flamenga que vai voltar ao próprio covil por medo dos caçadores espanhóis.

Nesse meio-tempo, Pieter de Roose fugia com todas as forças.

E Spelle foi enforcado, e seus bens, confiscados.

E o rei herdou.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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