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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 169 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 4 — Capítulo XX

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Livro 4 — Capítulo XX

Os Mendigos estavam então em Flessingue, onde Nele foi acometida de febres. Obrigada a deixar o navio, foi hospedada na casa de Peeters, reformado, no Turven-Key.

Ulenspiegel, muito pesaroso, sentia, contudo, alegria ao pensar que naquele leito, onde sem dúvida se curaria, as balas espanholas não poderiam atingi-la.

Ele e Lamme permaneciam sem cessar junto dela, cuidando-a bem e amando-a ainda mais.

E ali conversavam.

— Amado e fiel — disse um dia Ulenspiegel —, sabes da novidade?

— Não, meu filho — respondeu Lamme.

— Viste o flibote que recentemente veio juntar-se à nossa frota e sabes quem ali toca viola todos os dias?

— Por causa dos últimos frios — disse Lamme —, fiquei como surdo dos dois ouvidos. Por que ris, meu filho?

Mas Ulenspiegel prosseguiu:

— Certa vez ouvi alguém cantar uma canção flamenga e achei sua voz doce.

— Ai! — disse Lamme. — Ela também cantava e tocava viola.

— Sabes da outra novidade? — prosseguiu Ulenspiegel.

— Não sei, meu filho — respondeu Lamme.

Ulenspiegel disse:

— Recebemos ordem de descer o Escalda com nossos navios até Antuérpia, para encontrar ali embarcações inimigas que possamos tomar ou incendiar. Quanto aos homens, nenhum quartel. Que pensas disso, grande pança?

— Ai! — disse Lamme. — Nunca ouviremos falar nesta terra dolorosa senão de incêndios, enforcamentos, afogamentos e outras exterminações de pobres homens? Quando virá a santa paz, para que se possa, sem inquietação, assar perdizes, preparar fricassês de frango e fazer as morcelas cantarem na frigideira entre os ovos? Prefiro as pretas. As brancas são gordurosas demais.

— Esse doce tempo virá — respondeu Ulenspiegel — quando, nos pomares de Flandres, virmos, nas macieiras, ameixeiras e cerejeiras, em vez de maçãs, ameixas e cerejas, um Espanhol pendurado em cada galho.

— Ah! — dizia Lamme. — Se ao menos pudesse reencontrar minha mulher, minha tão querida e gentil amada, doce encantadora, mulher fiel! Pois, sabe bem, meu filho, não fui nem jamais serei corno. Ela era reservada demais e calma em seus modos para isso. Fugia da companhia dos outros homens. Se gostava de belos trajes, era apenas por necessidade feminina. Fui seu cozinheiro, seu ajudante de cozinha, seu lavador de panelas, digo-o de bom grado. Quem me dera voltar a sê-lo. Mas também fui seu senhor e marido.

— Cessemos este assunto — disse Ulenspiegel. — Ouves o almirante gritar: “Levantai as âncoras!”, e os capitães repetirem depois dele? Será preciso aparelhar.

— Por que partes tão depressa? — perguntou Nele a Ulenspiegel.

— Vamos aos navios — respondeu ele.

— Sem mim? — perguntou ela.

— Sim — disse Ulenspiegel.

— Não pensas — disse ela — que ficarei aqui muito inquieta por ti?

— Encantadora — respondeu Ulenspiegel —, minha pele é de ferro.

— Zombas — disse ela. — Vejo apenas teu gibão, que é de tecido, não de ferro. Debaixo dele está teu corpo, feito de ossos e carne como o meu. Se fores ferido, quem te fará curativos? Morrerás sozinho no meio dos combatentes? Irei contigo.

— Ai! — disse ele. — Se as lanças, os projéteis, as espadas, os machados e os martelos, poupando-me, caírem sobre teu corpo encantador, que faria eu, patife, sem ti neste mundo?

Mas Nele dizia:

— Quero seguir-te. Não haverá perigo algum. Esconderei-me nos fortins de madeira onde estão os arcabuzeiros.

— Se partires, eu fico, e teu amigo Ulenspiegel será tido por traidor e covarde. Mas escuta minha canção:

Meu cabelo é ferro, eis meu chapéu,
A Natureza é minha armeira;
De couro é minha pele primeira,
De aço minha segunda pele.

Em vão a feia careteira,
A Morte, quer prender-me em seu laço:
De couro é minha pele primeira,
De aço minha segunda pele.

Escrevi “Viver” em meu pendão,
Viver sempre sob a luz:
De couro é minha pele primeira,
De aço minha segunda pele.

E, cantando, partiu, não sem antes beijar a boca trêmula e os olhos encantadores de Nele, febril, que sorria e chorava ao mesmo tempo.

Os Mendigos estão em Antuérpia. Tomam navios albaneses até dentro do porto. Entrando na cidade em pleno dia, libertam prisioneiros e fazem outros para servirem de resgate. Recrutam burgueses à força e obrigam alguns a segui-los, sob pena de morte, sem dizer palavra.

Ulenspiegel disse a Lamme:

— O filho do almirante está preso na casa do escouteto. É preciso libertá-lo.

Entrando na casa do escouteto, encontram o filho que procuravam na companhia de um monge gordo e barrigudo, que o doutrinava colericamente, querendo fazê-lo regressar ao seio de nossa mãe, a santa Igreja. Mas o rapaz não queria.

Ele parte com Ulenspiegel.

Enquanto isso, Lamme, agarrando o monge pelo capuz, fazia-o andar diante de si pelas ruas de Antuérpia, dizendo:

— Vales cem florins de resgate. Arruma tua bagagem e caminha à frente. Por que demoras? Tens chumbo nas sandálias? Anda, saco de toucinho, armário de comida, ventre de sopa.

O monge dizia, muito furioso:

— Estou andando, senhor Mendigo, estou andando. Mas, com todo o respeito que devo ao vosso arcabuz, sois, assim como eu, barrigudo, pançudo e homem gordo.

Lamme o empurrava:

— Ousas, vil monge, comparar tua gordura de claustro, inútil e preguiçosa, à minha gordura de Flamengo alimentado honestamente por trabalhos, fadigas e batalhas? Corre, ou farei que avances como um cão, com a espora da ponta de minha sola.

Mas o monge não conseguia correr. Estava sem fôlego, e Lamme também.

E assim chegaram ao navio.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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