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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 103 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 2 — Capítulo XVIII

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Livro 2 — Capítulo XVIII

Ulenspiegel, vestido de peregrino, partiu imediatamente, sem provisões nem dinheiro, rumo a Bois-le-Duc, para prevenir os burgueses. Contava tomar pelo caminho um cavalo na casa de Jeroen Praet, irmão de Simon, para quem trazia cartas do príncipe, e de lá correr a grande trote pelas estradas secundárias até Bois-le-Duc.

Ao atravessar a estrada, viu aproximar-se uma tropa de soldados mercenários. Sentiu grande medo por causa das cartas.

Mas, decidido a mostrar bom semblante diante do infortúnio, esperou os soldados de pé firme e parou murmurando suas orações. Quando eles passaram, começou a marchar com a tropa e soube que iam a Bois-le-Duc.

Uma companhia valona abria a marcha. À frente vinha o capitão Lamotte, com sua guarda de seis alabardeiros; depois, conforme a hierarquia, o porta-estandarte com uma guarda menor, o preboste, seus alabardeiros e seus dois agarradores de carne, o chefe da guarda, o guarda-bagagens, o carrasco e seu ajudante, e pífaros e tambores produzindo grande estrondo.

Em seguida vinha uma companhia flamenga de duzentos homens, com seu capitão e seu porta-estandarte, dividida em duas centúrias comandadas pelos sargentos da tropa, os principais soldados, e em decúrias comandadas pelos rot-meesters. O preboste e os stocks-knechten, ajudantes do bastão, eram também precedidos de pífaros e tambores, que batiam e guinchavam.

Atrás deles vinham suas companheiras, rindo às gargalhadas, chilreando como toutinegras, cantando como rouxinóis, comendo, bebendo, dançando, de pé, deitadas ou montadas, belas e loucas moças em duas carroças descobertas.

Algumas estavam vestidas como lansquenetes, mas com fino tecido branco, decotado e golpeado nos braços, nas pernas e no gibão, deixando aparecer suas carnes formosas. Usavam gorros de linho fino, debruados de ouro e coroados por belas plumas de avestruz que voavam ao vento. De seus cintos de tecido de ouro, franzidos com cetim vermelho, pendiam bainhas de pano dourado para os punhais. Seus sapatos, meias, calções, gibões, cordões e ferragens eram de ouro e seda branca.

Outras também estavam vestidas à maneira dos lansquenetes, mas em azul, verde, escarlate, anil ou carmesim, golpeados, bordados e brasonados conforme sua fantasia. Todas traziam no braço a rodela colorida que indicava seu ofício.

Um hoer-wyfel, seu sargento, queria fazê-las calar, mas, com suas lindas caretas e palavras, elas o obrigavam a rir e não lhe obedeciam.

Ulenspiegel, vestido de peregrino, marchava junto das duas companhias como pequeno barco ao lado de grande navio. E murmurava suas orações.

De repente, Lamotte perguntou-lhe:

— Para onde vais assim, peregrino?

— Senhor capitão — respondeu Ulenspiegel, que estava com fome —, cometi outrora um grande pecado e fui condenado pelo capítulo de Nossa Senhora a ir a Roma a pé, pedir perdão ao Santo Padre, que mo concedeu. Voltei lavado para estes países, sob a condição de pregar pelo caminho os Santos Mistérios a todos e quaisquer soldados mercenários que encontrasse, os quais me devem dar pão e carne por meus sermões. E assim, patrocinando, sustento minha pobre vida. Conceder-me-eis licença para cumprir meu voto na próxima parada?

— Sim — respondeu o senhor de Lamotte.

Ulenspiegel, misturando-se fraternalmente aos Valões e Flamengos, apalpava as cartas sob o gibão.

As moças gritavam-lhe:

— Peregrino, belo peregrino, vem aqui mostrar-nos o poder de tuas escamas.

Ulenspiegel aproximava-se delas e dizia modestamente:

— Minhas irmãs em Deus, não zombeis do pobre peregrino que atravessa montes e vales pregando a santa fé aos soldados.

E devorava com os olhos suas lindas graças.

Mas as moças perdidas, enfiando entre as lonas das carroças seus rostos despertos, diziam:

— És muito jovem para patrocinar soldados. Sobe em nossas carroças. Nós te ensinaremos discursos mais doces.

Ulenspiegel teria obedecido de boa vontade, mas não podia por causa das cartas. Duas delas já passavam para fora da carroça os braços redondos e brancos, tentando içá-lo para junto de si, quando o hoer-wyfel, enciumado, disse a Ulenspiegel:

— Se não fores embora, corto-te em pedaços.

Ulenspiegel afastou-se, olhando de soslaio as jovens viçosas, douradas pelo sol que brilhava claramente sobre o caminho.

Chegaram a Berchem. Philippe de Lannoy, senhor de Beauvoir, que comandava os Flamengos, ordenou uma parada.

Naquele lugar havia um carvalho de altura mediana, despojado dos ramos, salvo um grosso galho quebrado ao meio, no qual, no mês anterior, fora enforcado pelo pescoço um anabatista.

Os soldados pararam, e os vivandeiros aproximaram-se para vender-lhes pão, vinho, cerveja e carnes de todas as espécies. Às moças perdidas vendiam açúcar, castrelins, amêndoas e tortinhas. Vendo aquilo, Ulenspiegel sentiu ainda mais fome.

De repente, subindo na árvore como um macaco, sentou-se escarranchado sobre o galho grosso, a sete pés do chão. Ali começou a flagelar-se com uma disciplina, enquanto os soldados e as moças perdidas formavam um círculo ao redor dele.

— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo — disse ele. — Amém. Está escrito: aquele que dá aos pobres empresta a Deus. Soldados, e vós também, belas damas, graciosas companheiras de amor destes valentes guerreiros, emprestai a Deus, isto é, dai-me pão, carne, vinho e cerveja e, se quiserdes, tortinhas, caso não vos desagrade. Deus, que é rico, vos devolverá tudo em pedaços de hortulanos, riachos de malvasia, montanhas de açúcar-cande e rystpap, que comereis no paraíso com colheres de prata.

Depois, lamentando-se:

— Não vedes por meio de que suplícios cruéis tento merecer o perdão de meu pecado? Não vos comoveis diante da dor ardente desta disciplina, que me fere as costas e as faz sangrar?

— Quem é esse louco? — perguntaram os soldados.

— Meus amigos — respondeu Ulenspiegel —, não sou louco, mas arrependido e faminto. Enquanto meu espírito chora os pecados, meu ventre chora a falta de carne. Benditos soldados, e vós, belas meninas, vejo entre vós presunto gordo, gansa, salsichões, vinho, cerveja e tortinhas. Nada dareis ao peregrino?

— Sim, sim — disseram os soldados flamengos. — O pregador tem boa cara.

E todos começaram a atirar-lhe pedaços de comida como se fossem bolas. Ulenspiegel não parava de falar e comia escarranchado sobre o galho.

— A fome — dizia — torna o homem duro e incapaz de rezar, mas o presunto expulsa imediatamente esse mau humor.

— Cuidado com a cabeça rachada! — disse um sargento da tropa, atirando-lhe uma garrafa pela metade.

Ulenspiegel apanhou a garrafa no ar e, bebendo em pequenos goles, dizia:

— Se a fome aguda e furiosa é coisa danosa ao pobre corpo do homem, há outra igualmente perniciosa: a angústia de um pobre peregrino a quem generosos soldados deram, um deles, uma fatia de presunto e, outro, uma garrafa de cerveja. Pois o peregrino costuma ser sóbrio, e, se bebesse tendo no estômago alimento tão escasso, ficaria imediatamente bêbado.

Enquanto falava, apanhou novamente no ar uma coxa de gansa.

— Isto — disse — é coisa milagrosa: pescar no ar um peixe dos prados. Mas desapareceu com o osso. Que há de mais ávido que a areia seca? Uma mulher estéril e um estômago faminto.

De repente, sentiu a ponta de ferro de uma alabarda espetar-lhe o traseiro. E ouviu um porta-estandarte dizer:

— Agora os peregrinos desprezam pernil?

Ulenspiegel viu, atravessado na ponta da alabarda, um grande osso de pernil. Tomando-o, disse:

— Entre um cabo e outro, prefiro este entre os dentes ao outro contra meu gibão. Farei dele uma flauta de tutano para cantar teus louvores, alabardeiro misericordioso. Contudo, que é uma refeição sem sobremesa? Que é um osso, por mais suculento que seja, se depois o peregrino não vê aparecer o rosto bendito de alguma tortinha?

Ao dizer isso, levou a mão ao rosto, pois duas tortinhas vindas do grupo das moças perdidas haviam se esmagado, uma sobre seu olho e outra sobre sua face.

As moças riram, e Ulenspiegel respondeu:

— Muito obrigado, gentis meninas, que me dais abraços de geleia.

Mas as tortinhas caíram no chão.

De repente, os tambores bateram, os pífaros guincharam, e os soldados retomaram a marcha.

O senhor de Beauvoir mandou Ulenspiegel descer da árvore e caminhar junto da tropa, da qual ele desejaria estar a cem léguas, pois farejava, nas palavras de alguns soldados de rosto azedo, que despertava suspeitas. Em breve o tomariam por espião, o revistariam e o enforcariam, caso encontrassem suas cartas.

Então, deixando-se cair numa vala, gritou:

— Piedade, senhores soldados! Minha perna está quebrada. Não conseguirei mais caminhar. Deixai-me subir na carroça das moças.

Mas sabia que o hoer-wyfel enciumado não permitiria.

Das carroças, elas lhe gritavam:

— Vamos, vem, gentil peregrino, vem! Nós te amaremos, acariciaremos, festejaremos e curaremos num só dia.

— Eu sei — dizia Ulenspiegel. — Mãos de mulher são bálsamo celestial para todas as feridas.

Mas o hoer-wyfel enciumado disse ao senhor de Lamotte:

— Senhor, creio que esse peregrino zomba de nós com sua perna quebrada, para poder subir na carroça das moças. Ordenai que o deixem no caminho.

— Assim quero — respondeu o senhor de Lamotte.

E Ulenspiegel foi abandonado na vala.

Alguns soldados, acreditando que realmente quebrara a perna, ficaram sentidos por causa de sua alegria. Deixaram-lhe carne e vinho para dois dias. As moças gostariam de ir socorrê-lo, mas, não podendo, lançaram-lhe todos os castrelins que ainda lhes restavam.

Quando a tropa já estava longe, Ulenspiegel tomou o caminho dos campos em sua roupa de peregrino, comprou um cavalo e, por estradas e atalhos, entrou em Bois-le-Duc como o vento.

Ao receberem a notícia da chegada dos senhores de Beauvoir e de Lamotte, os habitantes da cidade tomaram as armas em número de oitocentos, escolheram capitães e enviaram Ulenspiegel a Antuérpia, disfarçado de carvoeiro, para pedir auxílio ao Hércules Bebedor, Brederode.

E os soldados dos senhores de Lamotte e de Beauvoir não puderam entrar em Bois-le-Duc, cidade vigilante e pronta para valente defesa.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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