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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 71 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 1 — Capítulo LXXI

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Livro 1 — Capítulo LXXI

Na choupana de Katheline, Soetkin chorava, enlouquecida de dor.

E repetia sem cessar:

— Meu homem! Meu pobre homem!

Ulenspiegel e Nele abraçavam-na com grande efusão de ternura.

Ela os apertava então nos braços e chorava em silêncio.

Depois fez sinal para que a deixassem sozinha.

Nele disse a Ulenspiegel:

— Deixemo-la, pois assim deseja. Salvemos os carolus.

Partiram juntos.

Katheline girava ao redor de Soetkin, dizendo:

— Abri um buraco! A alma quer partir!

E Soetkin, com os olhos fixos, olhava-a sem vê-la.

As choupanas de Claes e Katheline tocavam-se.

A de Claes ficava num recuo, com pequeno jardim diante da casa. A de Katheline tinha um terreno plantado de favas, voltado para a rua.

O terreno era cercado por sebe viva na qual, durante a juventude, Ulenspiegel abrira um grande buraco para ir até Nele, e Nele para ir até Ulenspiegel.

Ulenspiegel e Nele entraram no terreno e dali viram o soldado de guarda que, com a cabeça oscilando, cuspia para o alto, mas a saliva tornava a cair sobre seu gibão.

Um frasco revestido de vime jazia ao lado dele.

— Nele — disse Ulenspiegel em voz baixa —, esse soldado bêbado não bebeu até matar a sede. Precisa beber mais. Assim seremos os senhores. Tomemos o frasco.

Ao som das vozes, o lansquenete voltou para eles a cabeça pesada, procurou o frasco e, não o encontrando, continuou a cuspir para o alto e tentou ver, ao luar, a saliva cair.

— Está cheio de aguardente até os dentes — disse Ulenspiegel. — Ouves como cospe com dificuldade?

Entretanto, o soldado, depois de cuspir muito e olhar para o alto, estendeu novamente o braço para apanhar o frasco.

Encontrou-o, levou o gargalo à boca, inclinou a cabeça para trás, virou o frasco e bateu-lhe com pequenos golpes para fazê-lo entregar todo o suco. Sugou-o como criança ao peito da mãe.

Nada encontrando, resignou-se, colocou o frasco ao lado, praguejou um pouco em alto-alemão, tornou a cuspir, balançou a cabeça para a direita e a esquerda e adormeceu, murmurando orações ininteligíveis.

Ulenspiegel, sabendo que aquele sono não duraria e que era preciso torná-lo mais pesado, deslizou pelo buraco da sebe, tomou o frasco do soldado e entregou-o a Nele, que o encheu de aguardente.

O soldado não cessava de roncar.

Ulenspiegel tornou a passar pelo buraco da sebe, colocou o frasco cheio entre as pernas dele, voltou para o terreno de Katheline e esperou com Nele atrás da sebe.

Por causa do frescor da bebida recém-tirada, o soldado despertou um pouco e, em seu primeiro gesto, procurou o que lhe causava frio sob o gibão.

Julgando, por intuição de bêbado, que poderia ser um frasco cheio, apanhou-o.

À luz da lua, Ulenspiegel e Nele viram-no sacudir o frasco para ouvir o som do líquido, prová-lo, rir, espantar-se por estar tão cheio, beber um trago e depois um gole, colocá-lo no chão, retomá-lo e beber novamente.

Depois cantou:

Quando o senhor Maan vier
Dizer boa-noite à dama Zee...

Para os alto-alemães, dama Zee, que é o mar, é esposa do senhor Maan, que é a lua e senhor das mulheres.

Assim cantou:

Quando o senhor Maan vier
Dizer boa-noite à dama Zee,
Dama Zee lhe servirá
Grande caneca de vinho cozido.

Quando o senhor Maan vier,
Com ele ela ceará
E muitas vezes o beijará;
E, depois de bem alimentado,
Em sua cama o deitará,
Quando o senhor Maan vier.

Assim faça comigo minha amada:
Gorda ceia e bom vinho cozido;
Assim faça comigo minha amada,
Quando o senhor Maan vier.

Depois, alternando um gole e uma quadra, adormeceu.

E não pôde ouvir Nele dizer:

— Estão num pote atrás da placa da lareira.

Nem viu Ulenspiegel entrar pela estrebaria na cozinha de Claes, erguer a placa, encontrar o pote e os carolus, voltar ao terreno de Katheline e escondê-los junto à parede do poço, sabendo que, se fossem procurados, seria dentro e não fora dele.

Depois regressaram para junto de Soetkin e encontraram a esposa aflita chorando e dizendo:

— Meu homem! Meu pobre homem!

Nele e Ulenspiegel velaram junto dela até a manhã.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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