Universo da obra
Universo da obra
Naqueles dias claros e frescos de primavera, quando a terra está enamorada, Soetkin costurava junto à janela aberta, Claes cantarolava algum refrão, enquanto Ulenspiegel pusera na cabeça de Titus Bibulus Schnouffius um barrete de juiz.
O cão agitava as patas como se quisesse pronunciar uma sentença, mas apenas tentava livrar-se da cobertura.
De repente, Ulenspiegel fechou a janela, correu pelo aposento, saltou sobre cadeiras e mesas, estendendo as mãos para o teto. Soetkin e Claes viram que ele se agitava daquele modo para alcançar um passarinho encantador e pequenino que, com as asas trêmulas, gritava de medo, encolhido contra uma viga num canto do teto.
Ulenspiegel estava prestes a agarrá-lo quando Claes, falando com vivacidade, perguntou:
— Por que saltas desse modo?
— Para apanhá-lo — respondeu Ulenspiegel —, pô-lo numa gaiola, dar-lhe sementes e fazê-lo cantar para mim.
Entretanto, o pássaro, gritando de angústia, esvoaçava pelo aposento e batia com a cabeça nos vidros da janela.
Ulenspiegel não cessava de saltar. Claes pousou pesadamente a mão em seu ombro:
— Apanha-o — disse ele —, põe-no numa gaiola e faze-o cantar para ti. Mas eu também te colocarei numa gaiola fechada por boas grades de ferro e farei com que cantes. Gostas de correr e já não poderás fazê-lo. Ficarás à sombra quando tiveres frio e ao sol quando sentires calor. Depois, certo domingo, sairemos esquecendo-nos de te deixar comida e só voltaremos na quinta-feira. Ao regressarmos, encontraremos Thyl morto de fome e todo rígido.
Soetkin chorava. Ulenspiegel lançou-se adiante.
— Que fazes? — perguntou Claes.
— Abro a janela para o pássaro — respondeu ele.
De fato, o pássaro, que era um pintassilgo, saiu pela janela, soltou um grito alegre, subiu como flecha no ar e, pousando numa macieira próxima, alisou as asas com o bico, sacudiu a plumagem e, enfurecido, disse em sua língua de pássaro mil injúrias a Ulenspiegel.
Claes então lhe disse:
— Filho, jamais tires de homem ou animal a liberdade, que é o maior bem deste mundo. Deixa cada um ir ao sol quando sente frio e à sombra quando sente calor. E que Deus julgue Sua Santa Majestade, que, tendo acorrentado a livre crença na terra de Flandres, acaba de meter Gante, a nobre, numa gaiola de servidão.
A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.