Leia agora
A Lenda de Ulenspiegel

Universo da obra

A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 17 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 1 — Capítulo XVII

18 de 182 ≈ 6 min de leitura

Livro 1 — Capítulo XVII

Certo dia, Soetkin disse a Claes:

— Meu homem, tenho a alma aflita. Há três dias que Thyl deixou a casa. Não sabes onde está?

Claes respondeu tristemente:

— Está onde ficam os cães vadios, em alguma estrada grande, com outros patifes de sua espécie. Deus foi cruel ao dar-nos semelhante filho. Quando nasceu, vi nele a alegria de nossa velhice, uma ferramenta a mais dentro de casa. Pensava fazer dele um trabalhador, e o destino maligno transforma-o num ladrão e num preguiçoso.

— Não sejas tão duro, meu homem — disse Soetkin. — Nosso filho, tendo apenas nove anos, está em plena loucura da infância. Não precisam as árvores deixar cair pelo caminho suas cascas antes de se cobrirem de folhas, que são para as árvores populares a honestidade e a virtude? Ele é malicioso, não o ignoro; mas sua malícia algum dia lhe será proveitosa, caso, em vez de empregá-la em brincadeiras perversas, a use em algum ofício útil. Gosta de zombar do próximo, mas também saberá mais tarde ocupar seu lugar em alguma alegre confraria. Ri sem cessar; mas rostos azedos antes de amadurecer são mau presságio para as feições futuras. Se corre, é porque precisa crescer; se não trabalha, é porque ainda não chegou à idade em que se sente que o labor é dever. E, se algumas vezes passa fora de casa, dia e noite, metade de uma semana, é porque não sabe a dor que nos causa, pois tem bom coração e nos ama.

Claes balançava a cabeça e não respondia. Soetkin, quando ele dormia, chorava sozinha. E, pela manhã, pensando que o filho poderia estar enfermo à beira de alguma estrada, ia até a porta para ver se ele voltava. Mas nada via e sentava-se junto à janela, olhando dali para a rua. Muitas vezes seu coração dançava no peito ao ouvir os passos ligeiros de algum menino; mas, quando este passava, via que não era Ulenspiegel, e então chorava, a pobre mãe aflita.

Enquanto isso, Ulenspiegel estava em Bruges, no mercado de sábado, com seus companheiros patifes.

Ali se viam os sapateiros e remendões em tendas separadas, os alfaiates vendedores de roupas, os miesevangers de Antuérpia, que à noite apanham chapins com auxílio de uma coruja; mercadores de aves, ladrões coletores de cães, vendedores de peles de gato para luvas, peitilhos e gibões; e compradores de todas as espécies, burgueses, burguesas, criados e criadas, padeiros, despenseiros, cozinheiros e cozinheiras. Todos juntos, mercadores e fregueses, conforme sua qualidade, gritavam, depreciavam, elogiavam e rebaixavam as mercadorias.

Num canto do mercado havia uma bela tenda de lona, montada sobre quatro estacas. À entrada da tenda, um camponês dos arredores de Aalst, acompanhado por dois frades ali presentes para dividir os lucros, mostrava, por um patard, aos devotos curiosos, um pedaço do osso do ombro de santa Maria Egípcia. Com voz rouca, apregoava os méritos da santa e não omitia de sua balada como ela, por falta de dinheiro, pagara em bela moeda natural a um jovem barqueiro, para não pecar contra o Espírito Santo recusando o salário daquele trabalhador.

E os dois frades faziam sinais com a cabeça, confirmando que o camponês dizia a verdade.

Ao lado deles havia uma mulher grande, avermelhada e lasciva como Astarte, soprando com violência numa gaita de fole miserável, enquanto uma menina encantadora cantava perto dela como uma toutinegra, sem que ninguém a ouvisse.

Acima da entrada da tenda balançava, entre duas varas e preso pelas orelhas com cordas, um tonelzinho cheio de água benta em Roma, como cantava a mulher grande, enquanto os dois frades balançavam a cabeça em aprovação.

Ulenspiegel, olhando o tonelzinho, ficou pensativo.

A uma das estacas da tenda estava amarrado um burrico alimentado mais com feno do que com aveia. De cabeça baixa, olhava para o chão sem esperança alguma de ali ver nascerem cardos.

— Companheiros — disse Ulenspiegel, mostrando-lhes com o dedo a mulher grande, os dois frades e o burro mergulhado em melancolia —, já que os mestres cantam tão bem, é preciso fazer o burro dançar também.

Tendo dito isso, foi até a banca mais próxima, comprou pimenta por seis liards, levantou a cauda do burro e pôs a pimenta por baixo.

O burro, sentindo a pimenta, olhou sob a cauda para descobrir de onde vinha aquele calor incomum. Imaginando que ali estivesse o diabo ardente, quis correr para escapar, começou a zurrar, a escoicear e a sacudir a estaca com todas as forças.

Ao primeiro solavanco, o tonelzinho suspenso entre as duas varas despejou toda a água benta sobre a tenda e sobre aqueles que estavam dentro dela. Logo a lona, desabando, cobriu com um manto úmido os que ouviam a história de Maria Egípcia.

Ulenspiegel e seus companheiros ouviram então sair debaixo da lona grande ruído de gemidos e lamentações, pois os devotos que ali estavam, acusando-se uns aos outros de terem derrubado o tonel, enfureceram-se por completo e distribuíam entre si golpes furiosos. A lona se erguia sob o esforço dos combatentes. Cada vez que Ulenspiegel via desenhar-se nela alguma forma arredondada, espetava-a com uma agulha. Então vinham gritos ainda maiores debaixo da lona e uma distribuição ainda mais abundante de golpes.

E ele estava muito alegre. Mas ficou ainda mais quando viu o burro fugir, arrastando atrás de si a lona, o tonel e as estacas, enquanto o dono da tenda, sua mulher e a filha agarravam-se à bagagem. O burro já não conseguia correr, erguia o focinho no ar e só interrompia o canto para olhar sob a cauda e verificar se o fogo que ali ardia não se apagaria em breve.

Enquanto isso, os devotos continuavam a batalha. Os frades, sem se importar com eles, recolhiam o dinheiro caído das bandejas, e Ulenspiegel os ajudava piedosamente, não sem proveito próprio.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

A Lenda de Ulenspiegel

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

A Lenda de Ulenspiegel

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de A Lenda de Ulenspiegel

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Lenda de Ulenspiegel Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 17 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Lenda de Ulenspiegel

Capa de A Lenda de Ulenspiegel
Continue a leitura Livro 1 — Capítulo XVII Capítulo 17 · 18 de 182 · ≈ 6 min
Todos os capítulos 182 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir