Universo da obra
Universo da obra
Ulenspiegel peregrinante teria de bom grado se tornado ladrão dos grandes caminhos, mas achou as pedras pesadas demais para transportar.
Caminhava ao acaso pela estrada de Audenaerde, onde havia então uma guarnição de reiters flamengos encarregados de defender a cidade contra os bandos franceses que devastavam a região como gafanhotos.
Os reiters tinham por chefe certo capitão, frísio de nascimento, chamado Kornjuin. Eles também percorriam os campos e saqueavam o povo, que assim, como de costume, era devorado pelos dois lados.
Tudo lhes servia: galinhas, frangos, patos, pombos, bezerros e porcos.
Certo dia, quando voltavam carregados de despojos, Kornjuin e seus tenentes viram Ulenspiegel dormindo ao pé de uma árvore e sonhando com fricassês.
— Que fazes para viver? — perguntou Kornjuin.
— Morro de fome — respondeu Ulenspiegel.
— Qual é teu ofício?
— Peregrinar por meus pecados, observar os outros trabalhando, dançar na corda, retratar rostos formosos, esculpir cabos de faca, tocar Rommel-pot e soprar trombeta.
Se Ulenspiegel falava tão atrevidamente da trombeta, era porque soubera que o posto de vigia do castelo de Audenaerde ficara vago depois da morte do velho que exercia a função.
Kornjuin lhe disse:
— Serás o trombeteiro da cidade.
Ulenspiegel o seguiu e foi colocado na torre mais alta das muralhas, numa pequena guarita bem arejada pelos quatro ventos, salvo pelo vento sul, que ali só soprava com uma asa.
Recomendaram-lhe que tocasse a trombeta assim que visse os inimigos aproximarem-se e, para isso, que mantivesse a cabeça livre e os olhos sempre claros. Com tal finalidade, não lhe dariam comida nem bebida em excesso.
O capitão e seus soldados moravam na torre e banqueteavam-se o dia inteiro às custas do povo dos campos. Mais de um capão foi ali morto e comido sem outro crime além de sua gordura.
Ulenspiegel, sempre esquecido e obrigado a contentar-se com uma sopa magra, não se alegrava com o aroma dos molhos.
Os franceses vieram e levaram muito gado. Ulenspiegel não tocou a trombeta.
Kornjuin subiu até ele e perguntou:
— Por que não tocaste?
Ulenspiegel respondeu:
— Não vos agradeço por vossa comida.
No dia seguinte, o capitão mandou preparar grande banquete para si e seus soldados, mas Ulenspiegel foi novamente esquecido.
Quando estavam prestes a começar a devorar, Ulenspiegel tocou a trombeta.
Kornjuin e seus soldados, julgando que fossem os franceses, abandonaram vinhos e carnes, montaram nos cavalos e saíram às pressas da cidade, mas nada encontraram nos campos além de um boi ruminando ao sol, que trouxeram consigo.
Enquanto isso, Ulenspiegel encheu-se de vinhos e carnes.
Ao regressar, o capitão o viu de pé à porta da sala do banquete, sorrindo e com as pernas vacilantes.
Disse-lhe:
— É agir como traidor tocar o alarme quando não vês inimigo e não o tocar quando o vês.
— Senhor capitão — respondeu Ulenspiegel —, em minha torre estou tão cheio dos quatro ventos que poderia flutuar como uma bexiga, se não tivesse tocado a trombeta para me aliviar. Mandai enforcar-me agora ou em outra ocasião, quando precisardes de couro de burro para vossos tambores.
Kornjuin partiu sem dizer palavra.
Entretanto chegou a Audenaerde a notícia de que o gracioso imperador Carlos visitaria a cidade, muito nobremente acompanhado.
Por essa razão, os escabinos deram a Ulenspiegel um par de óculos, para que pudesse ver bem a chegada de Sua Santa Majestade. Ulenspiegel deveria tocar três vezes a trombeta assim que avistasse o imperador passando por Luppeghem, situada a um quarto de légua da Borg-poort.
Os habitantes da cidade teriam assim tempo de tocar os sinos, preparar as peças de fogos de artifício, pôr as carnes no forno e as torneiras nos barris.
Certo dia, perto do meio-dia, o vento vinha do Brabante e o céu estava claro. Ulenspiegel viu na estrada que levava a Luppeghem grande tropa de cavaleiros montados em cavalos que corcoveavam, com as plumas dos gorros voando ao vento. Alguns levavam bandeiras.
O homem que cavalgava orgulhosamente à frente trazia um gorro de tecido de ouro, com grandes plumas. Vestia veludo castanho bordado de brocatel.
Ulenspiegel colocou os óculos e viu que era o imperador Carlos V, vindo permitir aos habitantes de Audenaerde que lhe servissem seus melhores vinhos e suas melhores carnes.
Toda a comitiva avançava a passo lento, aspirando o ar fresco que desperta o apetite. Mas Ulenspiegel pensou que, como costumavam comer fartamente, poderiam jejuar um dia sem morrer. Assim, ficou vendo-os aproximarem-se e não tocou a trombeta.
Eles avançavam rindo e conversando, enquanto Sua Santa Majestade examinava o próprio estômago para saber se haveria espaço suficiente para o jantar dos habitantes de Audenaerde.
Mostrou-se surpresa e descontente por não ouvir sino algum anunciando sua chegada.
Nesse momento, um camponês entrou correndo na cidade e anunciou que vira nos arredores um bando francês avançando para comer e saquear tudo.
O porteiro fechou o portão e enviou um criado da comuna para avisar os outros porteiros. Mas os reiters continuavam banqueteando-se, sem saber de nada.
Sua Majestade avançava sempre, irritada por não ouvir os sinos, os canhões e os arcabuzes soarem, trovejarem e estalarem. Escutando em vão, ouviu apenas o carrilhão marcar a meia hora.
Chegou diante do portão, encontrou-o fechado e bateu com o punho para que abrissem.
Os senhores de sua comitiva, tão irritados quanto ela, murmuravam palavras azedas.
O porteiro, do alto da muralha, gritou que, se não cessassem aquele alvoroço, despejaria metralha sobre eles para refrescar-lhes a impaciência.
Mas Sua Majestade, furiosa:
— Porco cego — disse —, não reconheces teu imperador?
O porteiro respondeu que os menos porcos nem sempre eram os mais dourados e que sabia, além disso, serem os franceses grandes zombadores por natureza, visto que o imperador Carlos, naquele momento guerreando na Itália, não poderia estar diante dos portões de Audenaerde.
Então Carlos e os senhores gritaram ainda mais:
— Se não abrires, assaremos teu corpo na ponta de uma lança. E antes comerás tuas chaves.
Ao ruído que faziam, um velho soldado saiu do depósito das máquinas de artilharia e, mostrando o nariz acima da muralha, disse:
— Porteiro, estás enganado. É nosso imperador. Reconheço-o bem, embora tenha envelhecido desde que levou daqui para o castelo de Lalaing Maria Van der Gheynst.
O porteiro caiu como morto de medo. O soldado tomou-lhe as chaves e foi abrir o portão.
O imperador perguntou por que o tinham feito esperar tanto. Depois que o soldado lhe explicou, Sua Majestade ordenou que fechasse novamente o portão e lhe trouxesse os reiters de Kornjuin, aos quais mandou marchar à frente, batendo tambores e tocando pífaros.
Logo, um após outro, os sinos despertaram e começaram a repicar com toda a força.
Assim precedida, Sua Majestade chegou à Praça Grande com estrondo imperial.
Ali estavam reunidos os burgomestres e escabinos. O escabino Jan Guigelaer acorreu ao barulho e entrou na sala das deliberações, dizendo:
— Keyser Karel is alhier! O imperador Carlos está aqui!
Muito assustados ao ouvir a notícia, burgomestres, escabinos e conselheiros saíram da casa comunal para ir, em corpo, saudar o imperador, enquanto seus criados corriam por toda a cidade para preparar as peças de fogo, colocar as aves sobre as chamas e fincar os espetos nos fornos.
Homens, mulheres e crianças corriam por toda parte, gritando:
— Keyser Karel is op ’t groot marckt! O imperador Carlos está na Praça Grande!
Logo a multidão tornou-se enorme.
O imperador, muito enfurecido, perguntou aos dois burgomestres se não mereciam ser enforcados por haverem faltado daquele modo ao respeito devido ao soberano.
Os burgomestres responderam que de fato o mereciam, mas que Ulenspiegel, trombeteiro da torre, merecia ainda mais, pois, sabendo-se da chegada de Sua Majestade, fora colocado ali com bons óculos e ordens expressas de tocar a trombeta três vezes assim que visse chegar o cortejo imperial.
Mas ele nada fizera.
O imperador, ainda furioso, mandou buscar Ulenspiegel.
— Por que — perguntou-lhe —, tendo óculos tão claros, não tocaste a trombeta quando cheguei?
Ao dizer isso, passou a mão sobre os olhos por causa do sol e olhou para Ulenspiegel.
Este passou também a mão sobre os olhos e respondeu que, desde que vira Sua Santa Majestade olhar por entre os dedos, já não quisera usar óculos.
O imperador disse-lhe que seria enforcado. O porteiro da cidade declarou que era justo, e os burgomestres ficaram tão aterrorizados com a sentença que não responderam coisa alguma, nem para aprová-la nem para contradizê-la.
Mandaram chamar o carrasco e seus agarradores de carne. Vieram trazendo uma escada e uma corda nova, agarraram Ulenspiegel pelo colarinho, e ele caminhou diante dos cem reiters de Kornjuin, quieto e recitando suas orações. Mas eles zombavam dele cruelmente.
O povo que os seguia dizia:
— É grande crueldade matar assim um pobre rapaz por falta tão pequena.
E havia ali muitos tecelões armados, que diziam:
— Não permitiremos que enforquem Ulenspiegel. Isso contraria a lei de Audenaerde.
Chegaram, contudo, ao campo das forcas. Ulenspiegel foi içado pela escada e o carrasco colocou-lhe a corda no pescoço.
Os tecelões juntavam-se ao redor da forca.
O preboste estava ali a cavalo, apoiando no ombro da montaria a vara da justiça, com a qual deveria, por ordem do imperador, dar o sinal da execução.
Todo o povo reunido gritava:
— Graça! Graça para Ulenspiegel!
Ulenspiegel, sobre a escada, dizia:
— Piedade, gracioso imperador!
O imperador ergueu a mão e disse:
— Se este patife me pedir algo que eu não possa fazer, terá a vida salva!
— Fala, Ulenspiegel! — gritou o povo.
As mulheres choravam e diziam:
— O pequeno homem não conseguirá pedir nada, pois o imperador pode tudo.
E todos repetiam:
— Fala, Ulenspiegel!
— Santa Majestade — disse Ulenspiegel —, não vos pedirei dinheiro, terras nem a vida. Peço apenas uma coisa pela qual, se ousar dizê-la, não me mandareis açoitar nem quebrar na roda antes que eu parta para a terra das almas.
— Eu o prometo — disse o imperador.
— Majestade — disse Ulenspiegel —, peço que, antes de ser enforcado, venhais beijar a boca com a qual não falo flamengo.
O imperador riu, assim como todo o povo, e respondeu:
— Não posso fazer o que pedes, e não serás enforcado, Ulenspiegel.
Mas condenou os burgomestres e os escabinos a usar durante seis meses óculos atrás da cabeça, para que, disse ele, se os habitantes de Audenaerde não enxergassem pela frente, pudessem ao menos enxergar por trás.
E, por decreto imperial, esses óculos ainda aparecem nas armas da cidade.
Ulenspiegel partiu modestamente, levando uma pequena bolsa de dinheiro que as mulheres lhe haviam dado.
A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.
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