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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 66 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 1 — Capítulo LXVI

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Livro 1 — Capítulo LXVI

Ao aproximar-se de Renaix, em Flandres, Ulenspiegel sentiu fome e sede. Mas não queria gemer e procurava fazer as pessoas rirem, para que lhe dessem pão.

Contudo, ria mal, e todos passavam sem lhe dar coisa alguma.

Fazia frio. Ora nevava, ora chovia, ora caía granizo sobre as costas do vagabundo.

Ao atravessar as aldeias, bastava-lhe ver um cão roendo um osso junto a uma parede para que a água lhe viesse à boca.

Teria gostado de ganhar um florim, mas não sabia como o florim poderia cair dentro de sua bolsa.

Procurando no alto, via os pombos que, do telhado de um pombal, deixavam cair peças brancas sobre o caminho, mas não eram florins.

Procurava no chão, entre as pedras das estradas, mas os florins não floresciam entre os paralelepípedos.

Olhando para a direita, via uma nuvem vil que avançava pelo céu como grande regador, mas sabia que, se alguma coisa caísse daquela nuvem, não seria uma chuva de florins.

Olhando para a esquerda, via um grande e preguiçoso castanheiro-da-índia, vivendo sem nada fazer.

— Ah! — dizia consigo. — Por que não existem árvores de florins? Seriam árvores muito belas!

De repente, a grande nuvem rompeu-se e os granizos caíram, numerosos como pedras, sobre as costas de Ulenspiegel.

— Ai! — disse ele. — Sinto-o muito bem: só se atiram pedras em cães vadios.

E começou a correr.

“Não é culpa minha”, dizia consigo, “se não possuo palácio, nem sequer uma tenda para abrigar meu corpo magro.

“Ah, granizos perversos! São duros como balas de canhão.

“Não, não é culpa minha se arrasto pelo mundo estes farrapos. É apenas porque assim me agradou.

“Por que não sou imperador?

“Estes granizos querem entrar à força em minhas orelhas como palavras más.”

E corria.

“Pobre nariz”, acrescentava, “logo estarás todo furado e poderás servir de pimenteiro nos banquetes dos grandes deste mundo, sobre os quais não cai granizo.”

Depois, enxugando as faces:

“Estas”, disse, “servirão bem de escumadeiras aos cozinheiros que sentem calor perto dos fogões.

“Ah, distante lembrança dos molhos de outrora! Tenho fome.

“Ventre vazio, não te queixes. Tristes entranhas, não ronqueis mais.

“Onde te escondes, fortuna propícia? Conduze-me ao lugar onde se encontra alimento.”

Enquanto falava assim consigo mesmo, o céu clareou, o sol brilhou e o granizo cessou.

Ulenspiegel disse:

— Bom dia, sol, meu único amigo, que vens secar-me!

Mas continuava correndo, pois tinha frio.

De repente, viu ao longe, no caminho, um cão branco e negro que corria diretamente para ele, com a língua pendente e os olhos saltando da cabeça.

“Este animal”, disse Ulenspiegel, “tem raiva no ventre.”

Apanhou às pressas uma grande pedra e subiu numa árvore. Quando alcançava o primeiro galho, o cão passou, e Ulenspiegel lançou-lhe a pedra sobre o crânio.

O cão parou e, triste e rígido, tentou subir na árvore para morder Ulenspiegel, mas não conseguiu e caiu para morrer.

Ulenspiegel não ficou alegre. E ficou ainda menos quando, descendo da árvore, percebeu que o cão não tinha a boca seca, como costumam ter os animais atingidos pela raiva.

Depois, examinando-lhe a pele, viu que era bela e boa para vender. Tirou-a, lavou-a, pendurou-a na lança, deixou-a secar um pouco ao sol e depois a guardou na bolsa.

A fome e a sede atormentavam-no cada vez mais.

Entrou em várias fazendas, mas não ousou vender a pele, receando que fosse a de algum cão pertencente ao camponês.

Pediu pão, mas recusaram-lhe.

A noite aproximava-se. As pernas estavam cansadas.

Entrou numa pequena hospedaria, onde viu uma velha estalajadeira acariciando um cão velho e tossidor, cuja pele era semelhante à do animal morto.

— De onde vens, viajante? — perguntou a velha estalajadeira.

Ulenspiegel respondeu:

— Venho de Roma, onde curei o cão do papa de um catarro que o incomodava extraordinariamente.

— Viste então o papa? — perguntou ela, servindo-lhe um copo de cerveja.

— Ai! — disse Ulenspiegel, esvaziando o copo. — Só me foi permitido beijar seu pé sagrado e sua santa pantufa.

Entretanto, o velho cão da estalajadeira tossia sem conseguir escarrar.

— Quando fizeste isso? — perguntou a velha.

— No mês retrasado — respondeu Ulenspiegel. — Cheguei, pois me esperavam, e bati à porta.

“‘Quem está aí?’, perguntou o camareiro arquicardeal, arquissecreto e arquiextraordinário de Sua Santíssima Santidade.

“‘Sou eu’, respondi, ‘monsenhor cardeal, que venho expressamente de Flandres para beijar o pé do papa e curar seu cão do catarro.’

“‘Ah, és tu, Ulenspiegel?’, disse o papa, falando do outro lado de uma pequena porta. ‘Ficaria muito satisfeito em ver-te, mas isso é impossível neste momento. As santas Decretais proíbem-me de mostrar o rosto a estrangeiros quando nele passa a santa navalha.’

“‘Ai!’, disse eu. ‘Sou muito infeliz, pois venho de terras tão distantes para beijar o pé de Vossa Santidade e curar seu cão do catarro. Terei de voltar sem ficar satisfeito?’

“‘Não’, disse o Santo Padre.

“Depois ouvi-o gritar:

“‘Arquicamareiro, empurra minha cadeira até a porta e abre a pequena portinhola que existe embaixo.’

“Assim foi feito.

“Vi então passar pela portinhola um pé calçado com pantufa de ouro e ouvi uma voz, falando como trovão:

“‘Este é o pé temível do Príncipe dos Príncipes, do Rei dos Reis, do Imperador dos Imperadores. Beija, cristão, beija a santa pantufa.’

“E beijei a santa pantufa. Meu nariz ficou todo perfumado pelo aroma celestial que saía daquele pé.

“Depois a portinhola fechou-se, e a mesma voz temível ordenou que eu esperasse.

“A portinhola tornou a abrir-se, e dela saiu, com todo o respeito, um animal de pelos falhos, remelento, tossidor, inchado como odre e obrigado a caminhar de pernas abertas por causa da largura da pança.

“O Santo Padre dignou-se a falar-me novamente:

“‘Ulenspiegel’, disse, ‘vês meu cão. Foi acometido de catarro e de outras doenças por roer ossos de hereges depois de estes terem sido quebrados. Cura-o, meu filho, e serás bem recompensado.’”

— Bebe — disse a velha.

— Serve — respondeu Ulenspiegel.

E, prosseguindo:

— Purifiquei o cão com uma bebida maravilhosa, composta por mim mesmo. Ele urinou durante três dias e três noites sem parar, e ficou curado.

— Jesus Deus e Maria! — disse a velha. — Deixa-me beijar-te, glorioso peregrino que viste o papa e poderás também curar meu cão.

Mas Ulenspiegel, que não desejava os beijos da velha, disse:

— Aqueles que tocaram com os lábios a santa pantufa não podem, durante dois anos, receber beijo algum de mulher. Dá-me primeiro para cear boas carbonadas, uma ou duas morcelas e cerveja em abundância. Depois darei a teu cão voz tão clara que poderá cantar as Aves em mi e lá no coro da igreja principal.

— Que possas dizer a verdade — gemeu a velha. — E dar-te-ei um florim.

— Farei isso — respondeu Ulenspiegel —, mas somente depois da ceia.

Ela lhe serviu o que pedira.

Ele comeu e bebeu até se fartar e, por gratidão da boca, teria abraçado a velha, não fosse o que lhe dissera.

Enquanto comia, o cão velho punha as patas sobre seus joelhos para receber um osso.

Ulenspiegel deu-lhe vários e depois perguntou à estalajadeira:

— Se alguém comesse em tua casa e não te pagasse, que farias?

— Tiraria desse ladrão sua melhor roupa — respondeu a velha.

— Muito bem — tornou Ulenspiegel.

Depois colocou o cão debaixo do braço e entrou no estábulo. Ali o fechou com um osso, tirou da bolsa a pele do cão morto e, voltando para junto da velha, perguntou se ela dissera que tiraria a melhor roupa daquele que não pagasse a refeição.

— Sim — respondeu ela.

— Pois bem, teu cão jantou comigo e não me pagou. Portanto, seguindo teu preceito, tirei-lhe sua melhor e única roupa.

E mostrou-lhe a pele do cão morto.

— Ah! — disse a velha, chorando. — Isso foi cruel, senhor médico! Pobre cãozinho! Para mim, que sou viúva, ele era meu filho. Por que me tiraste o único amigo que eu tinha neste mundo? Agora posso morrer.

— Eu o ressuscitarei — disse Ulenspiegel.

— Ressuscitá-lo? — perguntou ela. — E ele tornará a acariciar-me, olhar-me, lamber-me e agitar, enquanto me contempla, a pobre pontinha velha da cauda? Fazei isso, senhor médico, e tereis jantado aqui de graça, embora tenha sido um jantar muito caro, e ainda vos darei mais de um florim.

— Eu o ressuscitarei — disse Ulenspiegel. — Mas preciso de água quente, xarope para colar as juntas, agulha, linha e molho de carbonadas. E quero ficar sozinho durante a operação.

A velha deu-lhe o que pedia.

Ele tomou a pele do cão morto e foi para o estábulo.

Ali lambuzou de molho o focinho do cão velho, que se deixou fazer com alegria. Traçou-lhe uma grande linha de xarope sob o ventre, pôs xarope nas pontas das patas e molho na cauda.

Soltando três grandes gritos, disse:

— Staet op! Staet op! Ik ’t bevel, vuilen hond!

Depois, guardando rapidamente na bolsa a pele do cão morto, deu um forte pontapé no cão vivo e empurrou-o para dentro da sala da hospedaria.

A velha, vendo o cão vivo e lambendo-se, quis abraçá-lo com alegria, mas Ulenspiegel não permitiu.

— Não poderás acariciar este cão — disse — antes que tenha lavado com a língua todo o xarope que o cobre. Só então as costuras da pele estarão fechadas. Conta-me agora meus dez florins.

— Eu disse um — respondeu a velha.

— Um pela operação e nove pela ressurreição — respondeu Ulenspiegel.

Ela contou-lhe os florins.

Ulenspiegel partiu, lançando dentro da sala a pele do cão morto e dizendo:

— Toma, mulher, guarda a velha pele. Servirá para remendar a nova quando tiver buracos.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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