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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 89 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 2 — Capítulo IV

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Livro 2 — Capítulo IV

Assim reunidos, seguiram viagem juntos. O asno, de orelhas abaixadas, puxava a carroça.

— Lamme — disse Ulenspiegel —, somos agora quatro bons companheiros: o asno, criatura do bom Deus, que pasta pelos prados os cardos que encontra; tu, boa pança, procurando aquela que fugiu de ti; ela, doce amada de coração terno, encontrando quem não é digno dela; e eu, o quarto.

Vamos, pois, avante, filhos, coragem! As folhas amarelecem e os céus se tornarão mais resplandecentes. Em breve, em meio às brumas do outono, o senhor Sol irá deitar-se; chegará o inverno, imagem da morte, cobrindo com mortalhas de neve aqueles que dormem sob nossos pés, e eu caminharei pela felicidade da terra dos pais. Pobres mortos: Soetkin, que morreste de dor; Claes, que morreste no fogo; carvalho de bondade e hera de amor, eu, vosso rebento, padeço grande sofrimento e vos vingarei, cinzas amadas que bateis sobre o meu peito.

Lamme disse:

— Não se deve chorar aqueles que morrem pela justiça.

Mas Ulenspiegel permaneceu pensativo. De repente, disse:

— Esta hora, Nele, é a das despedidas, talvez por muito tempo, e talvez eu nunca mais torne a ver teu doce rosto.

Nele, contemplando-o com os olhos brilhantes como estrelas, disse:

— Por que não deixas esta carroça e vens comigo para a floresta, onde encontrarias comida saborosa? Conheço as plantas e sei chamar os pássaros.

— Menina — disse Lamme —, fazes mal em querer deter pelo caminho Ulenspiegel, que deve procurar os Sete e ajudar-me a encontrar minha mulher.

— Ainda não — dizia Nele.

E chorava, sorrindo ternamente por entre as lágrimas para seu amigo Ulenspiegel.

Vendo isso, Ulenspiegel respondeu:

— Tua mulher, tu sempre a encontrarás cedo o bastante, quando quiseres procurar nova dor.

— Thyl — disse Lamme —, vais deixar-me sozinho em minha carroça por causa dessa menina? Não me respondes e pensas na floresta, onde não estão os Sete nem tampouco minha mulher. Procuremo-la antes nesta estrada calçada, onde as carroças rodam tão bem.

— Lamme — disse Ulenspiegel —, tens uma bolsa cheia na carroça, portanto não morrerás de fome se fores sem mim daqui até Koelkerke, onde tornarei a encontrar-te. Deves chegar lá sozinho, pois ali saberás para qual ponto cardeal precisas dirigir-te a fim de reencontrar tua mulher. Ouve e presta atenção. Irás agora mesmo, com tua carroça, até Koelkerke, a igreja fresca, a três léguas daqui, assim chamada porque é açoitada ao mesmo tempo pelos quatro ventos, como muitas outras. Sobre o campanário há um catavento com a figura de um galo, que gira a todos os ventos em seus eixos enferrujados. É o ranger desses eixos que indica aos pobres homens que perderam suas amadas o caminho que devem seguir para reencontrá-las. Mas antes é preciso bater sete vezes em cada parede com uma vara de aveleira. Se os eixos gritarem quando o vento soprar do norte, é para lá que deves ir, mas com prudência, pois vento do norte é vento de guerra. Se soprarem do sul, segue alegremente, pois é vento de amor. Se vierem do oriente, corre a grande trote, pois é alegria e luz. Se vierem do ocidente, vai devagar, pois é vento de chuva e lágrimas. Vai, Lamme, vai a Koelkerke e espera-me lá.

— Irei — disse Lamme.

E partiu na carroça.

Enquanto Lamme rodava para Koelkerke, o vento, forte e morno, impelia pelo céu, como um rebanho de ovelhas, as nuvens cinzentas que vagavam em grupos. As árvores rugiam como as ondas de um mar revolto. Ulenspiegel e Nele já estavam havia muito tempo sozinhos na floresta. Ulenspiegel sentiu fome, e Nele procurava raízes saborosas, mas só encontrava os beijos que lhe dava seu amigo e algumas bolotas.

Depois de armar laços, Ulenspiegel assobiava para chamar os pássaros, a fim de assar aqueles que viessem. Um rouxinol pousou sobre as folhas perto de Nele; ela não o apanhou, desejando deixá-lo cantar. Veio uma toutinegra, e ela teve pena, pois a ave era tão graciosamente altiva. Depois veio uma cotovia, mas Nele lhe disse que faria melhor em subir aos altos céus para cantar um hino à Natureza do que em vir, desajeitada, brincar sobre a ponta assassina de um espeto.

E dizia a verdade, pois, nesse meio-tempo, Ulenspiegel acendera um fogo claro e talhara um espeto que só esperava suas vítimas.

Mas os pássaros já não vinham, salvo alguns corvos malvados que grasnavam muito alto sobre suas cabeças.

E assim Ulenspiegel nada comeu.

Entretanto, Nele precisou partir e voltar para junto de Katheline. Caminhava chorando, e Ulenspiegel, de longe, via-a afastar-se.

Mas ela voltou e, saltando-lhe ao pescoço, disse:

— Vou embora.

Depois deu alguns passos e voltou outra vez, dizendo novamente:

— Vou embora.

E assim fez vinte vezes seguidas, e ainda mais.

Por fim partiu, e Ulenspiegel ficou sozinho. Pôs-se então a caminho para encontrar Lamme.

Quando chegou perto dele, encontrou-o sentado ao pé da torre, com um grande pote de bruinbier entre as pernas, roendo muito melancolicamente uma vara de aveleira.

— Ulenspiegel — disse ele —, creio que só me mandaste para cá a fim de ficares sozinho com a menina. Bati, como me recomendaste, sete vezes com a vara de aveleira em cada parede da torre e, embora o vento sopre como um diabo, os eixos não rangeram.

— Sem dúvida alguém os lubrificou — respondeu Ulenspiegel.

Depois partiram em direção ao ducado de Brabante.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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